Indústria química: Expectativas otimistas de crescimento

Perspectivas 2023: Expectativas otimistas de crescimento consideram oferta ampla de gás e reforma tributária

O calendário da parede foi trocado e 2023 começou a todo vapor, com governos estaduais e federal novos e muita agitação política.

O setor industrial exibe um otimismo renovado, ainda que as causas sempre apontadas para o declínio da atividade química permaneçam intocadas.

Tributação elevada e confusa; preços elevados das principais matérias-primas, as quais nem sempre se encontram disponíveis; custos logísticos assustadores; e deficiências de infraestrutura pesam contra a competitividade dos produtos brasileiros.

A origem desse otimismo é complexa, mas compreensível.

Começa pelo fato de as interrupções de suprimentos decorrentes do combate à Covid-19 terem deixado evidente que contar com fabricação local de insumos é uma necessidade estratégica.

Além disso, o Brasil oferece condições interessantes para investidores, estrangeiros ou não, que já compraram grande número de empresas por aqui, a exemplo da Elekeiroz e Oxiteno.

A posição de destaque do país como fornecedor de produtos primários – minerais e agropecuários, em especial – estimula iniciativas para suprimento de insumos.

O país tem uma população de tamanho razoável (220 milhões de habitantes), com valores democráticos e estabilidade política (até agora, pelo menos), e segue padrões sociais e jurídicos próximos aos dos países ocidentais, sem alimentar nenhum tipo de incompatibilidade com outros sistemas culturais, do Oriente Médio ou Extremo, por exemplo.

E há oferta de capitais para investimento no mercado global.

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    Indústria química: Expectativas otimistas de crescimento ©QD Foto: iStockPhoto
    Reis: governo tem o papel de estruturar cadeias produtivas

    “A visão ainda está um pouco turva, é início de um novo governo, mas percebemos que há oportunidades para a indústria química do Brasil”, afirmou Nelson Pereira dos Reis, presidente do Sindicato da Indústria de Produtos Químicos para Fins Industriais e da Petroquímica no Estado de São Paulo (Sinproquim).

    “Questões geoestratégicas, como a guerra na Ucrânia, favorecem investimentos na produção nacional de fertilizantes, não só de nitrogenados; além disso, há outros caminhos, aproveitando biodiversidade e matérias-primas locais, como o gás natural e o etanol.”

    Reis salienta que o país não está parado, mas se encontra num ponto de inflexão da curva de investimentos.

    “A desindustrialização já foi longe demais, está na hora de uma retomada com base em aspectos estratégicos, sem perder de vista a competitividade”, explicou.

    Ele defende a elaboração de uma política industrial, porém muito diferente da adotada há alguns anos, quando se preferiu apostar em “campeões nacionais” em vez de estruturar cadeias produtivas a partir de setores-chave, como o químico.

    Reis também vê como positiva a nomeação do vice-presidente Geraldo Alckmin para comandar o Ministério do Desenvolvimento da Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), bem como a reativação da pasta, que foi integrada ao hipertrofiado Ministério da Economia no governo anterior.

    “Alckmin tem boa interlocução com os setores produtivos e montou uma equipe de primeira linha no ministério”, afirmou.

    Da mesma forma, ele também prevê que o diálogo com o novo governo do Estado de São Paulo seja produtivo.

    No entanto, a indústria tem preocupação com o Ministério do Meio Ambiente, que pode dificultar atividades de licenciamento das operações industriais e regularização fundiária, que estavam sendo simplificadas.

    “Pela experiência que tivemos com a ministra Marina Silva quando ela comandou o ministério em governos anteriores, podemos esperar algumas dificuldades”, comentou.

    “Não se pode de antemão ver a indústria e o agronegócio como inimigos do meio ambiente, são agentes econômicos que contribuem para o desenvolvimento do país.”

    Reis, porém, comentou que há pessoas qualificadas na equipe da ministra com as quais sempre a indústria sempre dialogou.

    De qualquer forma, ele entende que a indústria deve se adiantar e apostar nas oportunidades emergentes.

    “Do lado do governo, o primeiro passo é promover uma reforma tributária adequada, que simplifique o sistema e alivie a carga do setor produtivo”, afirmou.

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    FATURAMENTO DE PRODUTOS QUÍMICOS DE USO INDUSTRIAL

    Alívio quase perdido – “A indústria, especialmente a química, não era levada a sério pelo governo federal anterior”, criticou o André Passos Cordeiro, presidente-executivo da Associação Brasileira da Indústria Química (Abiquim).

    Isso se refletiu no pouco interesse dedicado a qualquer iniciativa que pudesse ser entendida como política industrial.

    “Para o governo, podia ter política fiscal, tributária, agrícola, mas a industrial, não”, comentou, salientando que o Brasil não tem uma política industrial séria há muitos anos.

    O fato de o governo anterior ter concentrado vários ministérios e órgãos de governo na pasta da Economia também é apontado como fonte de dificuldades, especialmente de comunicação com o setor produtivo.

    “A extinção do MDIC, em boa hora recriado pelo novo governo, piorou muito a articulação com todo o setor industrial, frequentemente foram criadas confusões”, disse Cordeiro.

    “A concentração de tarefas numa só pasta é ruim, é impossível dar atenção a todos.”

    Sem interlocução eficaz, havia muita conversa com representantes do ministério, mas poucos resultados.

    A questão do Regime Especial da Indústria Química (Reiq) é exemplar. Criado em 2013, para durar até 2025, o regime estabeleceu desoneração de PIS/Pasep e Cofins sobre as aquisições da nafta e outras matérias-primas para o setor petroquímico.

    Em 2021, por meio de medidas provisórias, o governo tentou extinguir o Reiq em duas ocasiões, sendo em ambas derrotado no Legislativo.

    A primeira MP foi convertida em lei, mantendo o Reiq, mas foi alvo da segunda MP (1.095), editada no apagar das luzes de dezembro daquele ano.

    Em junho de 2022, as casas legislativas editaram nova lei (14.374) que reestabeleceu o Reiq e determinou um sistema de créditos para os impostos pagos entre dezembro e junho anteriores.

    A lei foi sancionada com vetos, em especial o 32, que derrubava novamente o Reiq.

    “O governo queria revogar o Reiq para bancar o alívio tributário que concedeu ao diesel e à gasolina”, explicou Cordeiro.

    Finalmente, no dia 15 de dezembro, o veto 32 foi derrubado pelo Congresso Nacional, mantendo o Reiq até 2027, com alíquotas escalonadas.

    “A aplicação do Reiq ainda depende de regulamentação que deve ser feita pelo novo governo para reduzir a incidência de PIS e Cofins sobre a nafta e outras matérias-primas a partir deste ano”, afirmou.

    Com isso, a arrecadação do PIS será feita à alíquota de 1,26% e a Cofins em 5,8%, de 2023 a 2024. De 2025 a 207, as alíquotas respectivas serão de 1,52% e 7%.

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    Cordeiro: é hora de implantar novos crakers de etano no país ©QD Foto: Divulgação/Abiquim/Alexandre Machado

    “Ao todo, o benefício tributário é de 3,5% sobre as alíquotas normais de PIS e Cofins, não é muito, mas melhora a competitividade da cadeia química brasileira, que arca com uma carga tributária de 40% a 45%, enquanto nossos concorrentes europeus e norte-americanos ficam entre 20% e 25%”, explicou Cordeiro.

    O preço do gás natural e da nafta por aqui também é consideravelmente superior ao pago pelos concorrentes internacionais. “São fatores que não dependem do setor químico.”

    Cordeiro comentou que há uma flagrante injustiça quando se fala em competitividade do setor químico brasileiro em relação aos concorrentes globais.

    “Quando comparamos todos os indicadores de eficiência operacional, acidentes de trabalho e emissão de poluentes, verificamos que a indústria instalada no país fica com resultados sempre iguais ou superiores aos dos concorrentes”, afirmou, com base nos dados levantados todos os anos pelo programa Atuação Responsável.

    “Precisamos ser muito eficientes, pois já temos desvantagens tributárias e no famigerado Custo Brasil; não fosse assim, o setor já teria quebrado.”

    Além disso, a lei que derrubou os vetos também reinstituiu um crédito adicional de 1,5% (0,5% do PIS e 1% da Cofins) a partir de 2024 para as empresas que investirem no aumento de capacidades produtivas.

    Esse item depende de regulamentação, mas é semelhante a iniciativas já adotadas nos estados do Rio Grande do Sul e da Bahia.

    “O crédito é condicionado ao investimento, se ele não for realizado, será preciso devolver o valor”, disse.

    “Estamos conversando com os novos ministros para acelerar essa regulamentação, feita por meio de decreto da presidência, mas precisa da anuência de vários ministérios”, explicou Cordeiro, afirmado ter encontrado disposição política para tanto.

    É sabido que o governo federal precisa garantir arrecadação suficiente para desenvolver seus projetos e promessas de campanha.

    Cordeiro explica que há dois caminhos básicos para isso: aumentar a carga tributária, que já é alta no país; ou aumentar o Produto Interno Bruto, incentivando o aumento da produção.

    “O setor químico hoje tem 30% de capacidade ociosa e acumulou um déficit comercial estimado em US$ 65 bilhões em 2022, isso é perda de arrecadação”, criticou.

    “Ocupar esses 30% é rápido”.

    Além do Reiq, mudanças na área de comércio exterior também deixaram a indústria química preocupada.

    “De uma hora para outra, o governo anterior passou a reduzir alíquotas do imposto de importação de ofício, sem consulta aos produtores, nem aviso prévio, mediante instrumentos infralegais”, comentou.

    Cordeiro verificou que essas medidas elevaram a insegurança jurídica, causando turbulência em uma atividade que se caracteriza por investimentos elevados e de longo prazo, que exige estabilidade nas regras.

    “Mudar as alíquotas é necessário quando há mudanças nas premissas, como preço do gás, tributação e outros; fazer isso apenas pela vontade de um burocrata é perigoso”, alertou.

    Ele citou como exemplo a redução das alíquotas do imposto de importação das resinas termoplásticas de 11% para 4%.

    “Quase 80% dos custos da petroquímica são devidos à aquisição de matérias-primas e energia, isso está fora do controle da indústria química”, apontou.

    Superada a questão, Cordeiro espera melhor relacionamento com o governo atual, mas se lembra dos resultados de períodos anteriores de Lula na presidência.

    “Nos primeiros governos do PT, o setor investia em média US$ 2 bilhões por ano; no último governo, a média ficou em US$ 500 milhões ou até menos”, apontou.

    “Porém, enquanto esteve no governo, Lula não resolveu problemas estruturais caros ao setor, como o preço da nafta e do gás natural.”

    A agenda da Abiquim, reforçada na apresentação do Encontro Nacional da Indústria Química (Enaiq), em dezembro, aponta para a necessidade de adotar logo o gás natural como energético de transição para uma economia de baixo carbono, impulsionando também alternativas como o hidrogênio.

    “Na visão da associação, é hora de implantar mais um ou dois crackers de etano no Brasil, a demanda justifica o investimento”, apontou.

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    BALANÇA COMERCIAL DE PRODUTOS QUÍMICOS DE USO INDUSTRIAL (em US$ bilhões)

    Contando com suprimento adequado de gás, é possível retomar a produção de metanol, hoje importado.

    No setor de insumos para fertilizantes, a necessidade de ampliar a produção nacional é evidente.

    Nas contas da entidade, com um suprimento firme de 22 milhões a 25 milhões de m³/dia de gás natural do pré-sal é possível alimentar um cracker de escala global, assim como três plantas de amônia/ureia, plantas para gerar hidrogênio, entre outras.

    O consultor Adriano Pires estima que a Petrobras reinjete diariamente 70 millhões de m³ de gás nos poços do pré-sal, dos quais quase a metade poderia ser direcionada para uso industrial e geração termelétrica, desde que fosse construída a estrutura para transportar o gás para a costa brasileira.

    “Os investimentos do setor químico apresentam elevado multiplicador econômico e social, deveriam ser considerados”, disse Cordeiro.

    “A Abiquim também defende a criação de um ambiente propício para investimentos no Brasil, com mais segurança jurídica e de defesa comercial, sem que se abra aos concorrentes nenhum segmento de mercado sem receber contrapartidas e sem observar a situação dos produtos locais”, destacou Cordeiro.

    Isso também implica evitar modificações no Marco Legal do Saneamento Básico.

    Para a entidade, o panorama global favorece investimentos no Brasil no sentido de ampliar a cadeia produtiva para proporcionar mais segurança de suprimentos químicos para os vários setores industriais a jusante.

    “O governo Lula e os ministros Rui Costa e Alckmin já se declararam alinhados nesse sentido, o que nos anima”, afirmou.

    Mantido o panorama atual, é pouco provável que o setor químico consiga reverter a tendência de elevação de importações, que gerou um saldo comercial negativo de US$ 63 bilhões em 2022, conforme informou a Abiquim, com base nos dados do ComexStat, da Secretaria de Comércio Exterior, do Ministério da Economia. Falando apenas de produtos químicos para uso industrial, o déficit ficou em US$ 50,2 bilhões.

    Nesse caso, verifica-se que o valor das importações cresceu 39,5% em relação a 2021, enquanto as exportações registram alta de 26,5%.

    Com isso, a produção nacional de produtos químicos de uso industrial recuou 0,4%, conforme cálculo da Abiquim, mas as vendas internas subiram 2,5%.

    Momento favorável – Apesar desses números, o momento atual é favorável para investir no Brasil, mesmo sem uma definição de política estatal, mas é fundamental que o governo não atrapalhe.

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    Matias: Brasil deve seguir EUA e industrializar o gás natural

    “Há grandes oportunidades de negócios em reciclagem, biotecnologia, fertilizantes e nas concessões de infraestrutura; a reindustrialização do país é possível”, avaliou José Borges Matias consultor e sócio da Mastersenso, consultoria especializada em planejamento estratégico e otimização de processos.

    “É preciso olhar para as tendências mundiais em vários segmentos e o Brasil tem alto engajamento nisso, não precisa depender do governo porque a demanda global é favorável”, concordou Auri Marçon, também consultor e sócio da Mastersenso.

    “O caminho para realizar esse potencial depende da visão de cada empresa.”

    Ambos entendem que, com o novo governo, alguns segmentos industriais tendem a avançar mais rapidamente do que outros, beneficiados pelas prioridades que venham a ser determinadas oficialmente.

    “Há muito investimento estrangeiro por aqui e está em crescimento, especialmente nas commodities; a burocracia atrapalha muito, inclusive para o desenvolvimento da pesquisa e desenvolvimento de produtos e processos, que acaba sendo realizada de modo mais econômico em outros países, a exemplo da Índia”, comentou Matias.

    A Mastersenso realizou há alguns anos um estudo profundo sobre a produção local de fertilizantes, a pedido do Sindicato Nacional da Indústria de Matérias-Primas para Fertilizantes (Sinprifert).

    “Verificamos que uma alteração tributária promovida em 1997 praticamente matou a produção nacional de fertilizantes ao zerar o imposto de importação e reduzir desigualmente a incidência do ICMS sobre os insumos importados”, comentou Matias.

    “Antes de 1997, 87% da demanda local era abastecida com matérias-primas produzidas no Brasil e 13% com importados, hoje essa relação se inverteu totalmente, situação que se revelou insustentável com a guerra entre Rússia e Ucrânia que colocou sob risco essas importações.”

    Depois de uma longa negociação para recuperar a competitividade setorial, em 2021, foi celebrado o Convênio 26 do Confaz (conselho que reúne as autoridades fazendárias estaduais que determinam a regulamentação do ICMS) para reequilibrar a carga tributária dos insumos nacionais com os importados.

    Com isso, o ICMS deverá sofrer modificação na base de cálculo de tal modo que a carga incidente do imposto seja acrescida de 1% por ano, até chegar a 4% em 2025.

    Ao mesmo tempo, as operações interestaduais que eram taxadas a 12% terão redução para 4%. Sergipe e Bahia saíram na frente na aplicação do convênio e adotaram a carga de 4% de ICMS já em 2022.

    Observe-se, porém, que os importadores podiam desembaraçar os insumos importados em Eadi (Estações Aduaneiras do Interior, também chamadas de portos secos) em vários estados consumidores, evitando o trânsito interestadual e a incidência do ICMS.

    “Em 2022, saiu o Plano Nacional de Fertilizantes para estimular a oferta local desses insumos fundamentais para a agricultura até 2050”, disse Matias.

    O estudo da Mastersenso mapeou os problemas setoriais mediante contato direto e extenso com os executivos locais e órgãos dos vários níveis de governo, e foi a base para as negociações.

    “Podemos fazer isso para outros setores também.”

    Segundo os consultores, os problemas brasileiros não se resumem aos nitrogenados, estes ainda muito ligados ao suprimento de gás natural a preço competitivo.

    “O potássio e o fósforo, os outros dois macronutrientes das plantas, são obtidos mediante mineração, cuja legislação não considera suas especificidades, pois minerar potássio e fósforo não é a mesma coisa que obter minério de ferro”, salientou Matias.

    Ele apontou como solução temporária a possibilidade de se importar minerais brutos para beneficiamento pela indústria local.

    Está em curso uma onda mundial de investimentos na geração de hidrogênio verde, obtido pela hidrólise da água mediante aplicação de eletricidade gerada por fontes renováveis.

    Esse hidrogênio pode ser usado para a síntese da amônia, início da cadeia dos nitrogenados para a formulação de fertilizantes.

    “A amônia também é um veículo oportuno para o hidrogênio, que pode ser usado como combustível limpo para navios, além de ser aplicado na síntese do metanol, insumo industrial de uso amplo e hoje totalmente importado”, disse Marçon.

    O custo da substituição do gás natural pela alternativa verde é elevado.

    “O hidrogênio verde é três vezes mais caro que o obtido pela reforma de gás natural, considerando preços normais no mercado global, ou seja, US$ 10 por milhão de BTU; no Brasil esse preço chega a US$ 15”, avaliou Matias, salientando que, com o tempo, a eficiência do processo verde tende a aumentar e reduzir essa diferença.

    O exemplo dos Estados Unidos na produção e aproveitamento do shale gas deveria ser observado por aqui.

    “Eles industrializaram o gás, desenvolveram muito a sua petroquímica, o Brasil deveria fazer isso também, com o gás do pré-sal, por exemplo”, comentou Matias.

    Para isso, pode ser preciso estabelecer uma política de preços diferenciados para a geração de energia e para a industrialização do gás.

    A questão da intermitência das fontes solar e eólica não é considerada limitante pelos consultores que entendem ser possível usá-las para economizar o uso de eletricidade de fonte hídrica, mantendo os reservatórios com água para gerar eletricidade nos momentos necessários, estabilizando o fornecimento de energia.

    Também entre os estudos da Mastersenso está a produção nacional de defensivos agrícolas, igualmente dependente da importação de produtos técnicos (ou ingredientes ativos).

    “São moléculas muito mais complexas que a dos fertilizantes, com volume baixo e alto valor unitário; quem já está instalado por aqui tem vantagem”, comentou Matias. Como comentaram os consultores, a inovação no campo dos defensivos é muito rápida e intensa, e o Brasil se destaca na produção de formulações.

    “A biotecnologia está crescendo e tomando parte significativa desse mercado, até mesmo no Brasil”, disse Marçon.

    “Mas as empresas de biotecnologia atuam com um escopo muito amplo, elas precisam focar em alguns segmentos para não dispersar recursos”, apontou Matias, reconhecendo o grande potencial de negócios desse setor.

    Em ritmo acelerado – Levantamento realizado pela Abiquim com as empresas a ela associadas indica um baixo volume de investimentos programados na produção de químicos industriais.

    Entre 2022 e 2027, a expectativa é de um total de US$ 2,2 bilhões, abaixo dos US$ 3,1 bilhões investidos entre 2016 e 2021.

    Os investimentos na primeira geração petroquímica seguem estagnados, ante a falta de oferta de gás natural e/ou correntes de matérias-primas adequadas ao processamento.

    Mas há companhias de olho em oportunidades fora da cadeia tradicional do setor.

    O grupo Unigel, por exemplo, está desenvolvendo projetos na Bahia e em Sergipe para produzir hidrogênio e amônia verdes, além de uma unidade de ácido sulfúrico que reduzirá a pegada de carbono da companhia.

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    Santos: produção de sulfúrico e amônia verde começa em 2023

    “O grupo gosta de investir, gerar empregos e contribuir para o desenvolvimento do país”, afirmou o CEO Roberto Noronha Santos, que enfatizou os projetos sociais desenvolvidos com educação infantil em Camaçari-BA – uma escola modelo construída e mantida pela Unigel, com mais de 800 alunos, além de oferecer apoio a escolas da rede pública local – que está sendo ampliado para o entorno da unidade da companhia em Sergipe.

    “Nosso fundador, Henri Slezynger, entende que a educação é fundamental para a transformação social e dedica profunda atenção a isso, muito antes de se falar em práticas de ESG”, apontou.

    O projeto mais avançado é da unidade para produzir 450 mil t/ano de ácido sulfúrico e 50 mil t/ano de oleum (ácido concentrado), além de 640 mil t/ano de vapor, que tem partida prevista para maio deste ano, em Camaçari-BA.

    É um investimento da ordem de R$ 500 milhões que suprirá toda a demanda do grupo pelo ácido, hoje atendida mediante importação.

    “Adotamos a tecnologia MECS da Elessent Clean Technologies, a mais moderna e eficiente na atualidade, que oferece elevada taxa de conversão e baixíssima emissão de carbono”, comentou Santos.

    O sulfúrico é consumido no processo produtivo do acrílico, formando ao final o sulfato de amônio, comercializado como fertilizante agrícola.

    “Além disso, temos opções para aproveitar o excedente do ácido, podemos vendê-lo para terceiros ou até utilizá-lo para produzir sulfato de amônio na unidade da Unigel Agro em Sergipe, atualmente em hibernação”, explicou o CEO.

    A reativação da unidade sergipana, de 320 mil t/ano, que faz parte antiga Fábrica de Fertilizantes Nitrogenados da Petrobras, arrendada pela Unigel, requer investimento estimado entre R$ 50 milhões a R$ 100 milhões.

    “É um negócio cíclico, é bom ter opções que serão escolhidas pela sua economicidade.”

    O processo de obtenção do ácido sulfúrico é o tradicional de queima de enxofre e contato com água, na presença de catalisador, com etapas sucessivas de concentração.

    É um processo exotérmico, que gera uma grande quantidade de vapor que será direcionado para os processos térmicos das unidades adjacentes da Unigel, substituindo o vapor atualmente gerado mediante a queima de combustíveis de origem fóssil.

    “Reduziremos nossa pegada ambiental com essa integração das unidades”, salientou Santos. “Não usaremos essa vapor para gerar eletricidade.”

    O maior projeto de investimento do grupo está na produção de hidrogênio e amônia verdes que está sendo construído por etapas, em Camaçari.

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    Esferas de armazenamento de amônia na Unigel Agro Bahia, em Camaçari

    A primeira fase será entregue até o fim deste ano para gerar 10 mil t/ano de hidrogênio e 60 mil t/ano de amônia, mediante investimento de US$ 120 milhões.

    A unidade começou a ser construída em 2022 e conta com tecnologia da ThyssenKrupp Nucera de eletrólise de alta eficiência.

    “Só conseguimos manter esse cronograma porque nos antecipamos e encomendamos já em maio de 2022 os três eletrolisadores dessa fase, o mundo todo está investindo em hidrogênio verde, a fila para comprar equipamentos está longa”, comentou Santos.

    O investimento na primeira fase incluiu a construção da infraestrutura para todas as fases, previstas para dar partida em 2025 e 2027.

    A produção do hidrogênio verde da fase inicial será enviada para a unidade existente de produção de amônia no mesmo site, que tem capacidade ociosa e que pode ser segregada, de modo a produzir amônia verde com certificação.

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      O nitrogênio conta com uma fornecedora parceira.

      “Nós consumimos muita amônia em nossos processos, mas também vendemos para clientes instalados na região e já fizemos exportações, aproveitando o terminal de amônia que operamos no Porto de Aratu-BA”, disse.

      “A situação é a mesma do sulfúrico: temos várias opções para aproveitar e comercializar o produto.”

      A fase 2 contará com outros nove eletrolisadores, gerando 30 mil t/ano de hidrogênio que podem dar origem a 180 mil t/ano de amônia, mediante investimento de US$ 420 milhões.

      “Para essa fase e a seguinte, precisaremos construir capacidade adicional de amônia, aliás, já compramos um loop de produção adicional e estamos estudando se contrataremos suprimento de nitrogênio ou montaremos uma separadora do ar própria”, informou.

      A fase 3 deve entrar em operação em 2027, com outros 18 eletrolisadores que produzirão 60 mil t/ano de hidrogênio para alimentar a produção de 240 mil t/ano de amônia, com investimento de US$ 960 milhões.

      Ao todo, as três fases do projeto exigirão aplicar US$ 1,5 bilhão.

      Santos explicou que a ideia é manter a produção de amônia e ureia existentes nas Unidades Agro Bahia e Sergipe (470 mil t/ano e 650 mil t/ano de ureia respectivamente), alimentadas por gás natural.

      O mercado de fertilizantes está em fase de expansão e absorve facilmente essa produção.

      A demanda de eletricidade dos hidrolisadores será suprida mediante contrato de fornecimento de energia limpa.

      A Unigel firmou um contrato com a Casa dos Ventos para receber até 360 MW de energia eólica a partir do complexo Babilônia Sul, na Bahia, de acordo com a evolução das fases de investimento.

      “Atualmente, estamos focados em concluir os projetos que iniciamos”, comentou o CEO. No ano passado, foi inaugurada uma unidade na linha do acrílico, e neste ano está em duplicação a planta de látex de estireno no Guarujá-SP.

      “Temos um pipeline grande de novos projetos, mas precisamos manter o foco nas prioridades”, salientou. Ele considera a capacidade instalada de produção de poliestireno e polimetil metacrilato (PMMA) suficiente para suprir a demanda nacional, no momento.

      Na sua visão, o aproveitamento químico do gás e do petróleo é a alternativa mais adequada para substituir a demanda como combustível.

      “O petróleo seguirá sendo muito importante, há novas tecnologias para processos diretos de óleo para químicos, sem passar pelo refino, com muito mais eficiência e sustentabilidade”, comentou.

      Porém, como observou, os produtos mais sustentáveis e mais limpos geralmente são mais caros que os convencionais, até porque o capital investido é mais alto.

      “O consumidor final precisa aceitar pagar a diferença de preço, pelo menos até que a evolução tecnológica reduza os custos, o que sempre acontece com o tempo”, afirmou.

      Cloro/soda – O grupo Unipar vai investir R$ 1,4 bilhão até 2030 em 30 projetos em suas unidades produtivas no Brasil e na Argentina, visando em especial o segmento de saneamento básico.

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      Russomano: R$ 1,4 bilhão para realizar 30 projetos até 2030

      Segundo o CEO Maurício Russomano, “A companhia investe com o objetivo de consumir 65% de energia oriunda de fontes renováveis, reduzir suas emissões de CO2 em 30% e contar com 80% do ácido clorídrico gerado a partir de hidrogênio verde até 2030.”

      A estratégia de longo prazo prevê duplicar seus negócios e ampliar sua atuação por mais países, além de Brasil e Argentina, onde hoje produz soda, cloro, ácido clorídrico, hipoclorito de sódio, DCE, MVC e PVC.

      A Unipar anunciou a construção de uma unidade para produzir 20 mil t/ano de cloro e 22 mil t/ano de soda cáustica na Bahia, com partida prevista para 2025 e orçamento de R$ 234 milhões.

      Em Santo André-SP, a companhia está investindo R$ 100 milhões para instalar até o final de 2023 mais um eletrolisador e um novo forno para gerar 91 mil t/ano de ácido clorídrico, usando eletricidade de fonte sustentável, ampliando em 15% sua capacidade produtiva de cloro/soda no site.

      Com isso, a capacidade instalada da Unipar no Brasil chegará a 545 mil t/ano de cloro, 615 mil t/ano de soda e 755 mil t/ano de ácido clorídrico.

      A companhia divulga os benefícios do uso do ácido no tratamento de água e em diversos processos industriais, como siderurgia, mineração, alimentos, química e até para a produção de açúcar e álcool, apontando grande mercado potencial.

      Para suprir sua demanda de eletricidade, a Unipar buscou parcerias na geração solar e eólica.

      Com a AES Brasil, está construindo o Complexo Eólico de Tucano, na Bahia, com 25 aerogeradores, com capacidade total de 155 MW, que devem estar disponíveis ainda neste ano, enviando 60 MW para a companhia.

      Também com AES Brasil, a Unipar constrói o Complexo Eólico Cajuína, no Rio Grande do Norte, capaz de gerar 91 MW, dos quais 40 MW serão direcionados para a companhia química.

      Em Minas Gerais, mantém parceria com a Atlas Renewable Energy no projeto Lar do Sol Casablanca 2, com capacidade para 239 MW, dos quais 49 MW serão da Unipar. Russomano comentou que 50% dos custos de produção de cloro/soda advêm de aquisições de energia e essas parcerias tendem a reduzir o peso do insumo, além de reduzir em pelo menos 15% a emissão de gases geradores do efeito estufa até 2024.

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