Indústria Química: A evolução dos sustentáveis

A evolução dos processos e produtos sustentáveis

Acompanhando a conscientização social e ambiental do setor produtivo em todo o mundo, a indústria química brasileira tem efetivado compromissos com a sustentabilidade e apresentado resultados nas questões de saúde, segurança e meio ambiente. entretanto, o mundo contemporâneo traz à tona os novos desafios da gestão sustentável em um contexto de perda da competitividade nacional.

Desde a década de 1970, já se discutia as questões ambientais e as formas de desenvolvimento sustentável. Esse conceito, relativamente novo à época, foi debatido na Conferência de Estocolmo, Suécia, realizada pela Organização das Nações Unidas (ONU), em 1972. O evento construiu as bases para que, em 1992, fosse realizada, também pela ONU, a Eco-92, que levantou, já nessa época, preocupações com o aquecimento global, o que posteriormente levou à redação do Protocolo de Kyoto, em 1997, oficializando o compromisso das nações signatárias de reduzir suas emissões de gases de efeito estufa (GEE). Atualmente, 191 países e a União Europeia assinaram e ratificaram o documento, entre eles, o Brasil.

Nesse contexto de conscientização sobre a necessidade de mudanças em prol do planeta, o programa canadense de gestão de saúde, segurança e meio ambiente (SSMA) em indústrias químicas, Responsible Care®, criado em 1964, foi adaptado às normas brasileiras em 1992, ganhando o nome de Programa Atuação Responsável® (AR), sob a gestão da Associação Brasileira da Indústria Química (Abiquim). O objetivo era firmar um pacto do setor químico nacional pelos cuidados com os trabalhadores, com a comunidade do entorno das fábricas e com o meio ambiente.

Desde 2001, a Abiquim compila e divulga anualmente os indicadores de desempenho do Atuação Responsável®. De acordo com a associação, observou-se que, com a implementação do AR, diversas empresas químicas vêm apresentando desempenho superior ao estabelecido pelas legislações ambientais. O relatório mais recente mostra que entre 2006 e 2012, a reciclagem de resíduos sólidos aumentou de 11,7% para 39%. O consumo de água em processos e produtos passou de 4,42 m3 por tonelada de produto para 3,08 m3 por tonelada de produto no mesmo período. Já as emissões de dióxido de carbono pelas indústrias químicas brasileiras caíram, em 2012, para menos da metade dos níveis registrados em 2006, indo de 542 quilos de CO2 equivalente por tonelada de produto para 270 quilos de CO2 equivalente por tonelada de produto. Na opinião do assessor-técnico de Assuntos Regulatórios e Meio Ambiente da Abiquim, Obdulio Diego Fanti, “os indicadores de sustentabilidade são importantes para a implantação de estratégias de melhoria contínua do desempenho ambiental das indústrias químicas”.

A contribuição do AR para o bom desempenho em relação à redução dos acidentes também indica redução na taxa de frequência de acidentes com afastamento, de 2,98 em 2006 para 1,85 em 2012.  Além disso, ainda segundo o relatório, o desempenho das indústrias brasileiras se destaca sobre a média mundial, que aponta um decréscimo menos significativo. Dados de 2010 apontam o valor de 3,56 contra 1,83 para a indústria nacional.

Química e Derivados, Abiquim 50 anos: Indústria química nacional - a evolução dos processos e produtos sustentáveis

De acordo com o gerente de Segurança e Meio Ambiente da Rhodia, Vlamir Kanashiro, a empresa verificou que, ao implementar as práticas do Programa Atuação Responsável®, conseguiu melhorar significativamente sua performance em SSMA, reduzindo a ocorrência dos acidentes do trabalho, de processo, ambientais e de transporte. Além disso, Kanashiro declarou que, com o AR, a Rhodia também melhorou a manutenção da saúde ocupacional, reduziu as emissões atmosféricas, a geração de resíduos e os consumos de matéria-prima, água e energia.


Química e Derivados, Abiquim 50 anos: Indústria química nacional - a evolução dos processos e produtos sustentáveis

Segurança na indústria química: décadas de avanço

Atualmente, o Programa Atuação Responsável® é uma das iniciativas que demonstram como a indústria química cuida das questões de segurança e saúde do trabalhador, sustentabilidade e responsabilidade junto às partes interessadas. Entretanto a estrutura que conhecida hoje é fruto de uma evolução.

Principalmente após a Segunda Guerra Mundial, a indústria começou um processo de desenvolvimento em diversos países do mundo, também com a consolidação dos principais grupos empresariais do setor químico. Nesse contexto, a partir da década de 1960, evoluíram os debates sobre a segurança das instalações e do transporte de produtos perigosos, além da poluição industrial. Com o passar do tempo, as discussões se ampliaram e passaram a incluir temas ligados às propriedades e características dos produtos químicos, com foco na segurança e saúde dos usuários e nos impactos ao meio ambiente. No entanto, a indústria química, assim como a grande maioria das instituições, procurava manter os assuntos relativos ao meio ambiente e à segurança restritos às empresas.

A mudança desse perfil veio com a ocorrência de grandes acidentes nas décadas de 1970 e 1980, quando os dirigentes perceberam a necessidade de compartilhar suas preocupações com as comunidades do entorno das fábricas, fazendo com que a indústria química mundial repensasse suas estratégias de segurança e de relacionamento com o público que poderia ser afetado por seus processos e produtos.

Sob essa perspectiva, em 1984, a Associação Canadense de Produtores Químicos (CCPA) criou o Responsible Care® com o objetivo de estabelecer diretrizes para as questões de segurança dos processos, produtos, segurança dos trabalhadores e para a proteção ambiental, relacionados à indústria química. Sob coordenação do Conselho Internacional das Associações da Indústria Química (ICCA), o Responsible Care® é atualmente adotado por 60 países.


O Programa Atuação Responsável® no Brasil

No início da década de 1990, a Abiquim criou uma comissão especial para avaliar a oportunidade de desenvolver no Brasil um programa nos moldes do Responsible Care®. A conclusão foi de que a associação deveria desenvolver sua própria iniciativa, com base no modelo norte americano, por ser mais amplamente conhecido nas empresas nacionais.

O lançamento do Programa Atuação Responsável®, em 1992, pela Abiquim, ofereceu às empresas químicas uma proposta de responsabilidade, independentemente da existência de legislação, e o esforço voluntário das empresas tem comprovado sua conscientização sobre a importância do desenvolvimento sustentável.

Quase 20 anos após seu lançamento, em 2011, constatou-se a necessidade de readaptação do programa à realidade moderna das indústrias. Por isso, a Abiquim iniciou um processo de reestruturação do programa, elaborando o Sistema de Gestão do Programa Atuação Responsável®. De acordo com José Roberto Marquis, gerente Corporativo de Segurança, Saúde, Meio Ambiente (SSMA) e Qualidade da Unigel, que participou da elaboração do novo sistema de gestão, as empresas tinham dificuldade de implantar o programa na íntegra, pois ele era muito complexo. Segundo o gerente de SSMA e Qualidade, após a revisão, o AR ficou mais objetivo e prático.

No caso particular da Unigel, Marquis explica que, como o negócio teve uma sequência de aquisições de diferentes empresas, era difícil construir uma cultura de SSMA característica da companhia. Nesse processo, o Programa Atuação Responsável® foi a ferramenta escolhida para padronizar procedimentos e práticas de SSMA e dar identidade à Unigel. “Escolhemos o AR a fim de formar um sistema de SSMA vinculado a uma referência reconhecida internacionalmente, com a credibilidade do Responsible Care®”. Segundo Marquis, o novo sistema de gestão ainda está em fase de implantação. Entretanto, mesmo com apenas cerca de 60% dos quesitos em vigor, as unidades da Bahia já foram agraciadas em 2014, pela segunda vez, com o Prêmio Polo de SSMA, cujos requisitos são compatíveis com o AR. O Prêmio é promovido pelo Cofic entre as empresas instaladas no Polo Petroquímico de Camaçari (BA). De acordo com o gerente da Unigel, a previsão é de que, até o final de 2015, 100% dos quesitos estejam implantados em todas as unidades industriais da empresa.

Na opinião do presidente e CEO da ICL Performance Producs Brasil e coordenador da Comissão de Gestão do Atuação Responsável da Abiquim, Ricardo Neves, os resultados do Atuação Responsável® trazem contribuições tanto para as empresas quanto para a sociedade. Segundo Neves, funcionários engajados no programa são mais cuidadosos e suas relações no ambiente de trabalho são melhores. Dessa forma, as empresas que utilizam o Sistema de Gestão do AR podem verificar melhorias tanto nos indicadores diretos – como rentabilidade e produção –, quanto nos indiretos –, como o turnover (rotatividade de pessoal). “Cuidar dos fatores de SSMA é uma forma de a empresa dar seu retorno à comunidade onde ela está inserida e a sociedade sente o reflexo das mudanças”, ressaltou Neves.

Essa visão é refletida nas empresas signatárias do Programa Atuação Responsável®. Visando justamente estreitar o diálogo com a comunidade do entorno da área industrial, a Unipar Carbocloro, instalada em Cubatão, no interior de São Paulo, criou seu Conselho Comunitário Consultivo (CCC) em 2004. “O Conselho nasceu após uma auditoria do AR, na qual um dos auditores que representava a comunidade não concordou com a ferramenta de diálogo apresentada. Vimos então que era preciso ir ao encontro da comunidade. Essa parceria há 10 anos tem gerado resultados interessantes e colocado em prática projetos voltados para o bem comum”, conta Teodoro Chiarantano Pavão, gerente de SSMA e Qualidade da Unipar Carbocloro.

Sob a mesma diretriz, a unidade de Tremembé (SP) da Oxiteno também mantém, desde 2010, um CCC com o objetivo de criar uma relação de confiança e transparência. De acordo com o gerente de Meio Ambiente e Qualidade da Oxiteno, Claudemir Peres, a empresa leva à comunidade trabalhos e projetos voltados às questões de SSMA, transferindo conhecimentos e padrões à população do entorno. Um desses trabalhos é realizado com as escolas da região, onde os aspectos de segurança são trabalhados com os professores em reuniões mensais. “Dessa forma, as instituições passam a incorporar a segurança como valor no dia a dia e transmitem esse conhecimento para as crianças”, ressalta Peres.

A indústria química e os desafios atuais

A evolução do Programa Atuação Responsável® e seus reflexos, comprovados pelo relatório de indicadores da indústria química, divulgado pela Abiquim, beneficiam não apenas os stakeholders diretos, mas também toda a cadeia produtiva. A divulgação anual dos indicadores das empresas gera interesse em outros setores que buscam um benchmarking para diferentes segmentos. A fim de compartilhar as experiências do programa, a Abiquim promove bianualmente o Congresso de Atuação Responsável. Apesar da evolução da indústria química brasileira, o setor ainda tem desafios a enfrentar, que, entretanto, também podem ser vistos como oportunidades de melhorar ainda mais. Com esse foco, neste ano o tema do Congresso será “A Pegada da Indústria Química: o AR e os novos desafios”.

Convidados do Brasil e do exterior debaterão os desafios da sustentabilidade, gestão de produtos químicos, segurança de processo, atendimento a emergências, saúde, segurança e higiene industrial, logística, capacitação, diálogo com a comunidade e implementação do Programa Atuação Responsável® no Brasil, na América Latina e no mundo.

Para o coordenador da Comissão de Gestão do AR, Ricardo Neves, o maior desafio da indústria química nos próximos anos será o ganho de competitividade. De acordo com dados divulgados pela Abiquim, a indústria química nacional vem perdendo espaço para os produtos químicos importados. De janeiro a maio de 2014, o aumento da participação de produtos químicos importados que têm similares fabricados no Brasil foi de 11,5% no mercado nacional, conforme relatório da associação. Na opinião de Neves, o setor terá de se reinventar para superar os gargalos brasileiros que fazem com que o País venha perdendo competitividade na indústria e na educação. “Precisamos trabalhar com todas as ferramentas para que o negócio tenha rentabilidade. Aqueles que mesmo neste contexto ruim estão conseguindo sobreviver, em uma conjuntura melhor terão grande sucesso”, analisa o CEO.

O coordenador da comissão também ressalta a importância de se considerar os indicadores sociais no desenvolvimento das empresas. “É possível ter uma atividade lucrativa cuidando do meio ambiente e tendo respeito com os funcionários e com a comunidade vizinha às instalações”, complementou.


Núcleos de Multiplicação

Expandir a abrangência do Programa Atuação Responsável® a todas as regiões do Brasil é um dos desafios da gestão do programa, que vem sendo superado graças aos Núcleos de Multiplicação. Essas unidades incentivam a troca de experiências e o auxílio mútuo na implementação regional do AR.

De acordo com Ricardo Neves, os Núcleos funcionam como agentes de operações que podem ser descentralizadas da sede da Abiquim, localizada em São Paulo, como a realização de treinamentos relacionados ao programa. Segundo Neves, custo de deslocamento até São Paulo era um impeditivo antes da implantação dos núcleos. “Com os pontos de difusão em outras regiões do País, o número de capacitações pôde crescer e, até o momento, já foram mais de 200 treinamentos realizados fora do estado de São Paulo”, relata.

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