Meio Ambiente (água, ar e solo)

Indústria quer reúso na matriz hídrica nacional – Meio Ambiente

Marcelo Furtado
16 de maio de 2019
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    Química e Derivados, Complexo petroquímico do ABC é modelo para projetos de reúso de água

    Complexo petroquímico do ABC é modelo para projetos de reúso de água

    A segurança hídrica é hoje uma questão mais do que estratégica para a indústria brasileira, que fica concentrada justamente nas áreas de maior escassez, com predominância na região Sudeste ou em outras localidades de vulnerabilidade no Sul ou no Nordeste. Ter garantia de abastecimento, principalmente nas frequentes estiagens, deixou de ser tarefa simples para boa parte das empresas, tanto as já estabelecidas como as que pretendem um dia voltar a investir. Isso faz o reúso de efluentes entrar de vez nas discussões e no planejamento setorial.

    O cenário é claro ao se observar o empenho nos últimos anos da Confederação Nacional da Indústria (CNI) em estudar e propor ações para que o reúso entre na agenda do país e passe a ser parte da matriz hídrica como solução específica para suprir a indústria. Além de também incluir apoio a projetos de lei e regulamentações favoráveis à prática, a estratégia da CNI envolve principalmente uma série de estudos para identificar o potencial de ofertas de reúso de esgotos domésticos, em regiões industrializadas e críticas no aspecto hídrico, como alternativa para suprir o setor.

    O modelo para os estudos é o Aquapolo Ambiental, em São Paulo, que desde 2012 transforma esgoto doméstico da ETE ABC, da Sabesp, em água de alta qualidade transportada via adutora de 17 km para o polo petroquímico de Capuava (Santo André-SP). A ideia da CNI tem sido encontrar, por meio de trabalho que conta com o apoio de centros de pesquisa, como o Cirra-USP, e de empresas, como a InfinityTech, outras situações no Brasil em que se possa replicar o projeto do polo paulista.

    O primeiro cenário estudado foi São Paulo, a fim de encontrar outras alternativas – avaliando estações de tratamento de esgoto, criticidade de abastecimento e demandas hídricas industriais – para expandir a experiência de Capuava. O estudo, iniciado em 2017, centralizou a avaliação na cinco principais ETEs: Barueri, ABC, Parque Novo Mundo, Suzano e São Miguel Paulista, todas na região metropolitana de São Paulo.

    O levantamento feito pelos pesquisadores quantificou as demandas industriais por água no entorno das ETEs e a oferta de efluente secundário tratado das estações, para descobrir onde os investimentos em um tratamento terciário, com membranas de ultrafiltração, poderiam ser mais viáveis. A metodologia tomou como base para se chegar aos valores de oferta x demanda de cada caso as características das ETEs, a distribuição da demanda e a determinação do raio de distância, com base em 10 km, entre suprimento e consumo da água de reúso.

    A soma das estimativas de demandas industriais por água foi gerada, em cada entorno estudado, com base nos dados de outorgas de captação de água pelas indústrias junto à ANA, no caso de corpos d´água de domínio da União, e a órgãos estaduais, para rios do estado e águas subterrâneas (o DAAE, em São Paulo). No total, as demandas na proximidade das cinco estações somaram 4,5 m³/s, o correspondente a 25% da capacidade instalada das ETES (18 m³/s).

    Mesmo que praticamente todas as áreas avaliadas estivessem em bacias com baixa segurança hídrica, a demanda industrial se mostrou diferente entre elas, o que pesou na análise de viabilidade. Nesse sentido, a ETE Suzano foi a que se mostrou mais indicada para ser palco de um investimento similar ao Aquapolo. Isso porque a região é muito industrializada e com alta demanda hídrica, baixa segurança hídrica e, segundo o estudo, com nível baixo de tratabilidade de esgotos, “indicando o potencial de expansão casada e estratégica dos serviços de coleta e tratamento de esgotos, o aumento na segurança do fornecimento e abastecimento de demandas industriais por água de reúso não-potável”.

    Um investimento na ETE Suzano, segundo a conclusão do estudo, geraria um metro cúbico de água de reúso altamente atrativo do ponto de vista econômico. Em um cenário de estação de 500 l/s de água de reúso, mais próximo do Aquapolo, que hoje fornece 650 l/s para o polo, o investimento teria capex estimado em R$ 53 milhões e opex de R$ 11 milhões por ano, com custo da água de R$ 1,496 por m³. “Esses investimentos podem ser feitos em vários modelos, PPPs, em parcerias entre companhias estaduais e grupos privados, como no Aquapolo, ou mesmo apenas pelas concessionárias”, afirmou o gerente de meio ambiente e sustentabilidade da CNI, Davi Bomtempo.

    No Ceará – Com a metodologia desenvolvida no primeiro estudo, a CNI começou a expandir a análise para outras regiões críticas, a fim de encontrar estações com demanda industrial por água de reúso a até 13 km de distância. Três foram recentemente realizadas – Ceará, Rio Grande do Norte e Pernambuco. Na sequência, a metodologia será aplicada no Espírito Santo, Rio de Janeiro e Paraíba.

    Como exemplo, chamam a atenção os resultados obtidos no Ceará, estado que sofre com estiagem frequente, reservatórios quase sempre em situação de míngua e que está inclusive preparando licitação para construção de estação de dessalinização de água do mar para potabilidade em Fortaleza.



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    Um Comentário


    1. Francisco Souza

      Entre as aplicações dessa água de reúso está a geração de vapor a alta pressão (pressão maior q 50 kgf/cm2)?



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