Meio Ambiente (água, ar e solo)

Atuação Responsável – Indústria adota a política da boa vizinhança

Marcelo Furtado
15 de maio de 2000
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    Marcelo Kós não vê com bons olhos a verificação adotada pelos ingleses. “Esse procedimento, aparentemente mais rigoroso, na verdade pode ser muito limitado”, diz. A razão disso, para ele, é porque nas auditorias profissionalizadas a certificadora apenas verifica se a empresa tomou as atitudes necessárias para atingir certas metas. Nos sistemas americano e canadense, ao contrário, o comitê “pluripartidário” de verificação pode sugerir também novos objetivos. “Além de mais democrático, se expor às avaliações e críticas de membros da sociedade vem de encontro ao objetivo do Atuação Responsável de melhoria contínua”, afirma Kós.

    Química e Derivados, Indicadores de desempenho em proteção ambiental

    Indicadores de desempenho em proteção ambiental

    Conselho e indicadores – Mas as medidas de socorro à credibilidade do programa não param na verificação externa. Também seguindo a tendência mundial, será constituído um conselho consultivo nacional, para o qual serão convidadas personalidades notáveis da sociedade. No Canadá, há um composto por 16 pessoas de provado destaque nas discussões relacionadas à indústria química.

    Assim como no Canadá, a idéia é convidar professores universitários, empresários, ecologistas, médicos, economistas, líderes sindicais, enfim, especialistas capazes de promover um diálogo aberto entre a indústria e os interesses da população. Provêm deles recomendações e diretrizes futuras para aperfeiçoar o Atuação Responsável.

    Uma outra iniciativa, porém, tem importância mais rápida e objetiva à melhora da imagem do programa. Trata-se da divulgação dos indicadores de desempenho em segurança e meio ambiente pós-implantação dos códigos. É por meio deles que a sociedade passa a saber se valeu a pena todo o trabalho. A esse quesito a Abiquim dá especial atenção e já coletou os dados de 1998, com respostas de 65 empresas e, recentemente, finalizou os de 1999, com a reunião de dados de 75 signatários do programa (ver tabelas comparativas em primeira mão nesta reportagem).

    Por ser uma etapa incipiente no Brasil, os indicadores, de acordo com Marcelo Kós, ainda carecem de algumas padronizações. “Estamos discutindo as melhores metodologias para gerar dados mais confiáveis e para serem verificados de maneira simples pelos interessados”, diz. Um bom exemplo está nos indicadores de acidentes de trabalho. Em 1998, só foram computados óbitos e acidentes ocorridos com produtos químicos, mas em 1999 passou-se a incluir todos, até os de trânsito envolvendo veículos da empresa.

    Mesmo com as mudanças, aliás, segundo os dados, houve redução de acidentes com óbito ou afastamento, mas aumento de vazamentos (ver tabela). Outra necessidade para melhorar a confiança nos indicadores é contar com um número cada vez maior de respostas dos signatários, caso contrário as comparações perdem um pouco de força.

    Participação dos sindicatos – Para reforçar mais a confiança no programa também é consenso mundial permitir aos trabalhadores organizados (sindicatos) participar das decisões. Em nível mundial, encontros entre o conselho internacional da indústria química (ICCA) e a federação internacional de sindicatos de trabalhadores (ICEM) discutem como se fará a interação. No Brasil, a Abiquim também se comprometeu no ano passado a se reunir com a Confederação Nacional dos Químicos (CNQ), ligada à Central Única dos Trabalhadores (CUT), para estudar o assunto.

    Química e Derivados, Freitas: sindicato quer cooperar

    Freitas: sindicato quer cooperar

    Para o assessor técnico da CNQ, Nilton Freitas, essa tendência pró-ativa é a única forma de as práticas gerenciais dos códigos surtirem efeito no chão-de-fábrica, fazendo jus a um dos “valores” do programa de contagiar toda a hierarquia da empresa nas questões de saúde, segurança e meio ambiente. Segundo ele, isso apenas será possível quando os trabalhadores estiverem representados pelos sindicatos. “O médio escalão gerencial normalmente engana a diretoria da empresa, dizendo que os operários estão adaptados às condutas do Atuação Responsável”, afirma Freitas. “A única maneira de alertar a diretoria desses problemas é por meio da ação sindical.”

    Mais do que melhorar a credibilidade externa do Atuação, Freitas acredita na participação dos sindicatos como uma forma de aperfeiçoar as práticas dentro da empresa. E ele dá um exemplo: ao se alertar à alta direção da falta de treinamento de emergência e segurança industrial, muitos acidentes e até fatalidades podem ser evitados. “Caso contrário, a diretoria só saberá desses gargalos depois de investigações pós-acidentes”, diz.



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