Atuação Responsável – Indústria adota a política da boa vizinhança

O programa da Atuação Responsável quer sair das fábricas e mostrar ao público leigo que a indústria química não é nenhum “bicho papão”.

Indústria Química – A recente decisão foi motivada depois de várias pesquisas na Europa e América do Norte mostrarem a ineficiência na adoção desse abrangente sistema de gestão de saúde, segurança e meio ambiente como forma de melhorar a credibilidade do setor.

Mesmo depois de 15 anos de esforços na aplicação de suas práticas gerenciais em 45 países, e apesar dos bons indicadores conquistados, o programa não conseguiu melhorar a reputação das empresas químicas. Segundo as enquetes, sua imagem só não é pior se comparada à da indústria do cigarro.

Embora no Brasil uma pesquisa similar sobre a imagem da indústria química só será divulgada no próximo congresso do Atuação Responsável (de 29 a 31 de agosto, em São Paulo), a percepção da coordenadora local do programa, a Associação Brasileira da Indústria Química (Abiquim), é a mesma dos demais países.

Isso significa que as 134 indústrias locais signatárias, ou seja, as associadas da Abiquim que juntas representam 75% da produção do País, e também as 9 empresas parceiras (distribuidoras e transportadoras), deverão intensificar a interação com a comunidade.

Não por menos, o tema do próximo congresso será “Descobrindo o Atuação Responsável”, com o propósito principal de discutir alternativas para aumentar a sua transparência externa.

Química e Derivados, Indicadores de desempenho em saúde e segurança do trabalhador
Indicadores de desempenho em saúde e segurança do trabalhador

Entenda-se aumento de divulgação externa não apenas marketing (que por sinal os envolvidos sempre se esforçaram em não associar à imagem do programa), mas uma série de atitudes práticas para fortalecer a credibilidade em torno dessa iniciativa voluntária da indústria química. Apesar de o Brasil ser hoje o oitavo país mais adiantado na implantação dos códigos, no mesmo nível da Bélgica, a idéia é “imitar” ações dos centros mais desenvolvidos, sobretudo o Canadá, criador do programa no início da década de 80, os Estados Unidos e a Inglaterra.

Química e Derivados, Indicador de desempenho de segurança de processos
Indicador de desempenho de segurança de processos

Verificação externa – Em primeiro lugar, a partir do próximo ano deverão começar no País as chamadas avaliações externas, nos moldes do ocorrido nos Estados Unidos e Canadá desde meados de 1996. Trata-se aí de ponto crucial para melhorar a confiança da comunidade nos dados e metas divulgados pelos signatários.

Até o momento, há no Brasil e na maioria dos países apenas o sistema de auto-avaliação, ou seja, as próprias empresas julgam o grau de implantação dos códigos e levantam os principais indicadores de desempenho em segurança e meio ambiente, repassando-os à associação de classe para a geração de uma média nacional.

Com o sistema de verificação externa, terceiros checam todos os dados na empresa, para dar ou não autenticidade às informações divulgadas. Nos Estados Unidos, já foram feitas por comitês formados por vizinhos, sindicalistas, ambientalistas, advogados e acadêmicos mais de 80 verificações em 70 empresas. Do mesmo modo, no Canadá, determina-se a verificação nas indústrias logo após a implantação completa dos códigos e, depois disso, de três em três anos para verificar se o sistema continua a corresponder à expectativa da sociedade.

De acordo com Marcelo Kós, gerente técnico da Abiquim, coordenador geral do programa desde a sua instalação no Brasil em 1992, até o congresso de agosto estará pronto o protocolo de verificação das empresas, um questionário para embasar a avaliação externa. Um grupo de trabalho formado pela Abiquim nacionaliza o procedimento e em 2001 haverá verificações piloto. A forma deverá ser similar às americanas e canadenses. E não como a adotada a partir de 2001 pelos ingleses.

A associação da indústria química da Inglaterra (CIA) definiu recentemente que fará o Responsible Care (nome original do programa) ser auditável pelas empresas especializadas British Standards Institute (BSI), Det Norsk Veritas (DNV) e Lloyds Register. Para tanto, serão criadas normas para averiguar se a empresa pode ser considerada fiel aos códigos. E o título será questionado também a cada três anos. A decisão da CIA surgiu após uma pesquisa em que 81% dos entrevistados se mostraram favoráveis a essa atitude.

Química e Derivados, Kós: público avaliará resultados
Kós: público avaliará resultados

Marcelo Kós não vê com bons olhos a verificação adotada pelos ingleses. “Esse procedimento, aparentemente mais rigoroso, na verdade pode ser muito limitado”, diz.

A razão disso, para ele, é porque nas auditorias profissionalizadas a certificadora apenas verifica se a empresa tomou as atitudes necessárias para atingir certas metas. Nos sistemas americano e canadense, ao contrário, o comitê “pluripartidário” de verificação pode sugerir também novos objetivos. “Além de mais democrático, se expor às avaliações e críticas de membros da sociedade vem de encontro ao objetivo do Atuação Responsável de melhoria contínua”, afirma Kós.

Química e Derivados, Indicadores de desempenho em proteção ambiental
Indicadores de desempenho em proteção ambiental

Conselho e indicadores – Mas as medidas de socorro à credibilidade do programa não param na verificação externa. Também seguindo a tendência mundial, será constituído um conselho consultivo nacional, para o qual serão convidadas personalidades notáveis da sociedade. No Canadá, há um composto por 16 pessoas de provado destaque nas discussões relacionadas à indústria química.

Assim como no Canadá, a idéia é convidar professores universitários, empresários, ecologistas, médicos, economistas, líderes sindicais, enfim, especialistas capazes de promover um diálogo aberto entre a indústria e os interesses da população. Provêm deles recomendações e diretrizes futuras para aperfeiçoar o Atuação Responsável.

Uma outra iniciativa, porém, tem importância mais rápida e objetiva à melhora da imagem do programa. Trata-se da divulgação dos indicadores de desempenho em segurança e meio ambiente pós-implantação dos códigos. É por meio deles que a sociedade passa a saber se valeu a pena todo o trabalho. A esse quesito a Abiquim dá especial atenção e já coletou os dados de 1998, com respostas de 65 empresas e, recentemente, finalizou os de 1999, com a reunião de dados de 75 signatários do programa (ver tabelas comparativas em primeira mão nesta reportagem).

Por ser uma etapa incipiente no Brasil, os indicadores, de acordo com Marcelo Kós, ainda carecem de algumas padronizações. “Estamos discutindo as melhores metodologias para gerar dados mais confiáveis e para serem verificados de maneira simples pelos interessados”, diz. Um bom exemplo está nos indicadores de acidentes de trabalho. Em 1998, só foram computados óbitos e acidentes ocorridos com produtos químicos, mas em 1999 passou-se a incluir todos, até os de trânsito envolvendo veículos da empresa.

Mesmo com as mudanças, aliás, segundo os dados, houve redução de acidentes com óbito ou afastamento, mas aumento de vazamentos (ver tabela). Outra necessidade para melhorar a confiança nos indicadores é contar com um número cada vez maior de respostas dos signatários, caso contrário as comparações perdem um pouco de força.

Química e Derivados, Hortas ao lado do pólo de Mauá: convívio possível
Hortas ao lado do pólo de Mauá: convívio possível

Participação dos sindicatos – Para reforçar mais a confiança no programa também é consenso mundial permitir aos trabalhadores organizados (sindicatos) participar das decisões. Em nível mundial, encontros entre o conselho internacional da indústria química (ICCA) e a federação internacional de sindicatos de trabalhadores (ICEM) discutem como se fará a interação. No Brasil, a Abiquim também se comprometeu no ano passado a se reunir com a Confederação Nacional dos Químicos (CNQ), ligada à Central Única dos Trabalhadores (CUT), para estudar o assunto.

Para o assessor técnico da CNQ, Nilton Freitas, essa tendência pró-ativa é a única forma de as práticas gerenciais dos códigos surtirem efeito no chão-de-fábrica, fazendo jus a um dos “valores” do programa de contagiar toda a hierarquia da empresa nas questões de saúde, segurança e meio ambiente. Segundo ele, isso apenas será possível quando os trabalhadores estiverem representados pelos sindicatos.

Química e Derivados, Freitas: sindicato quer cooperar
Freitas: sindicato quer cooperar

“O médio escalão gerencial normalmente engana a diretoria da empresa, dizendo que os operários estão adaptados às condutas do Atuação Responsável”, afirma Freitas. “A única maneira de alertar a diretoria desses problemas é por meio da ação sindical.”

Mais do que melhorar a credibilidade externa do Atuação, Freitas acredita na participação dos sindicatos como uma forma de aperfeiçoar as práticas dentro da empresa. E ele dá um exemplo: ao se alertar à alta direção da falta de treinamento de emergência e segurança industrial, muitos acidentes e até fatalidades podem ser evitados. “Caso contrário, a diretoria só saberá desses gargalos depois de investigações pós-acidentes”, diz.

Falta treinamento – Aliás, pode servir como prova da importância das sugestões vindas dos sindicatos o fato de a Abiquim também se preocupar com a questão do treinamento de pessoal. Marcelo Kós aponta como uma das próximas metas para o Brasil reforços nesse sentido. A idéia é orientar as empresas com mais dificuldade técnica para implantar os códigos, normalmente as menores, com a ajuda de membros das grandes indústrias. Aumentar treinamentos no chão-de-fábrica das mais adiantadas também é considerado prioritário.

Química e Derivados, Ern: Basf investe em treinamento de pessoal
Ern: Basf investe em treinamento de pessoal

Esse sentimento, aliás, é compartilhado por alguns signatários. A Basf realizou em maio de 2000 um seminário técnico em Campos do Jordão-SP para formar profissionais,  dentro de seus 21 sites na América do Sul, especializados em análise de risco, uma das exigências do código de segurança de processos da Atuação Responsável. A meta, de acordo com o coordenador geral do programa para a América do Sul na Basf, Odilon Ern, é até 2001 todas unidades estarem analisadas segundo esses conceitos. No primeiro encontro, foram formadas 46 pessoas. No final do seminário foi firmado o compromisso de capacitar e treinar o maior número possível de funcionários a curto, médio e longo prazos.

Além do encontro, a Basf promoveu em 1999 amplo programa de divulgação interna do Atuação Responsável. De acordo com Ern, o objetivo é não precisar chegar até 2002 para implantar o último dos códigos, o de gerenciamento de produtos. O de segurança de processos está 95% implementado e até o fim do ano será concluído. O de diálogo com a comunidade e atendimento a emergências chegou nos 80%, o de proteção ambiental, nos 70%, e o de transporte e distribuição, em 90%.

Química e Derivados, Indicadores de desempenho em transporte e distribuição
Indicadores de desempenho em transporte e distribuição

Em bom ritmo – Apesar da necessidade de alguns ajustes, o Atuação Responsável, compulsório aos associados da Abiquim desde 1998, se desenvolve de forma bastante positiva no Brasil. Estima-se que das 134 empresas signatárias, 20 estão no grau 6, o mais elevado e correspondente à etapa de melhoria contínua, ou seja, na qual todos os códigos já foram implantados e as metas passam a ser mais auto-exigentes. A grande maioria está nos graus 4 e 5, equivalentes às fases de aplicação do plano de ação e de implantação das práticas, respectivamente.

As etapas iniciais já foram concluídas em todos os signatários. São, em resumo, as responsáveis pela comparação entre as práticas antes existentes na empresa com as presentes nos códigos. Normalmente, na maioria das empresas, sobretudo as médias e pequenas (cerca de 66% das associadas), as práticas anteriores limitavam-se ao respeito à legislação. Já as grandes são mais adiantadas, quando transnacionais as matrizes já utilizavam o programa até antes de 1992, e quando nacionais de grande porte estão engajadas desde a estréia do AR no Brasil há 8 anos.

Química e Derivados, Indicadores de preparação para atendimento à e mergências - 1999
Indicadores de preparação para atendimento à e mergências – 1999

A contar do momento de adesão, cada código precisa ser implantado pelas empresas em cinco anos. Quem era associado na época da publicação paulatina de cada código deve atender ao seguinte limite estipulado pela Abiquim: até 2000 precisa implantar o código de segurança de processos (Sepro); até 2001, o de saúde e segurança do trabalhador (SST), o de proteção ambiental (PA) e o de transporte e distribuição (tradi); até 2002, o de diálogo com a comunidade e preparação e atendimento a emergências (DCPAE) e o de gerenciamento de produto (Gepro).

Muitas das 116 práticas são interrelacionadas entre os códigos. Como exemplo, isso significa que há práticas iguais a serem tomadas depois de um vazamento, nos códigos SST, PA e Sepro. Na ocorrência do sinistro, os três códigos determinam que se tenham pessoas treinadas, equipamentos de segurança, veículos adequados e até planos de comunicação externa e interna previamente elaborados. Além da interrelação, nem todas as práticas são aplicáveis, já que os processos são diferentes em cada empresa. Também nem todas obrigatórias, muitos de seus itens são sugestões.

Repensar – “O importante é que o sistema nos obriga a repensar cada etapa do processo e todas as demais na qual o produto estará envolvido com o meio ambiente e o homem”, afirma o coordenador nacional da comissão técnica do Atuação Responsável, Nelson Christianini.

Também coordenador da aplicação dos códigos na produtora de polipropileno Polibrasil, como ilustração Cristianini cita iniciativa adotada nas unidades da petroquímica após a observação de práticas de proteção ambiental.

Química e Derivados, Christianini: programa obriga a repensar processos
Christianini: programa obriga a repensar processos

“Antes não tínhamos preocupação com microvazamentos, as chamadas emissões fugitivas que acumuladas tornam-se perigosas e caras, mas uma atividade sugerida do programa recomendou atenção com esse aspecto e hoje acabamos com elas”, diz.

Essas dicas presentes nos códigos Christianini considera fundamentais. Em comparação com as normas ISO, que apenas criam um sistema de gerenciamento, a Atuação Responsável,  justamente por ter sido elaborada pela própria indústria química, se dá ao luxo de recomendar soluções. A prova da maior abrangência é que apenas com 80% do código implantado de proteção ambiental, a Polibrasil certificou em janeiro de 2000 suas unidades com a ISO 14001. “Foi só preparar a apresentação para a certificadora e em quatro meses e meio conseguimos ser aprovados pelas normas”, afirma o coordenador.

Química e Derivados, Indicadores de diálogo com a comunidade - 1999
Indicadores de diálogo com a comunidade – 1999

Além disso, já bem adiantada em todas as práticas a Polibrasil consegue hoje mostrar indicadores próprios bastante positivos. Seu custo ambiental médio das três unidades (Mauá-SP, Duque de Caxias-RJ e Camaçari-BA) passou de US$ 2,4/ t de produto para US$ 1,07 em 1999. Sua nova unidade a ser construída no lugar da atual de Mauá, a ser descontinuada até 2001, terá custo de apenas US$ 0,27/t.

Outro exemplo de melhoria ambiental na Polibrasil é o destino de 70% de seus efluentes líquidos em Mauá, os quais hoje passam por tratamento de recuperação para em seguida serem dados para uso em uma empresa vizinha, a Cabot Brasil. Também no aspecto segurança, a Polibrasil comemora não ter tido este ano nenhum acidente reportável.

Indicadores positivos  – Embora sua fábrica de tintas para impressão gráfica em São Caetano do Sul-SP tenha sofrido grave explosão no início do ano, com a morte de um trabalhador e ainda sob investigação, a Basf também possui alguns indicadores positivos relacionados com o programa. Em seu site de Guaratinguetá-SP, onde há 14 fábricas, o índice de acidentes com afastamento caiu de 14, em 1998, para 6, em 1999. Em um esforço dos últimos quatro anos para reduzir fontes poluidoras, diminuíram em 30% os efluentes líquidos.

A Petroquímica União, de Mauá-SP, é outra a ostentar ganhos adotando as práticas. Em 1995, gerou 2.500 t/ano de resíduos sólidos classe 1, reduzidos em 1999 para 1.200 t. Com a substituição da queima de óleo pesado em suas seis caldeiras por gás natural conseguiu baixar a emissão de particulados de 400 mg/Nm3 em 1993 para 10 mg/Nm3. Esse último índice é oito vezes menor do que o exigido pela legislação.

Química e Derivados, Nogueira: códigos ensinam a fazer mais do que a lei pede
Nogueira: códigos ensinam a fazer mais do que a lei pede

“O Atuação Responsável nos ensinou a fazer mais do que a lei pede”, afirma o assessor de segurança e meio ambiente da PQU, Dilermando Nogueira.

Também coordenador da regional Capuava do programa (são 8 regionais pelo País), Nogueira ainda considera positivo e um bom indicador o programa de visitas que as empresas da região promovem em conjunto. São convidados vizinhos para conhecer as fábricas e ouvir explicações sobre os sistemas de segurança e meio ambiente. E a intenção é fortalecer esses relacionamentos. “Temos como prioridade daqui para a frente mostrar mais para o público externo a melhoria que signfica a adoção do Atuação Responsável”, diz.

Desenvolvimento sustentável – Outros indicadores menos mensuráveis, aliás, chamam mais a atenção no Brasil. Para se aproximar da comunidade, e executar as práticas do programa voltadas para aumentar a confiança da população pela indústria (código do diálogo com a comunidade), muitas companhias perceberam que uma boa alternativa seria tentar ajudá-las com ações sociais.

Química e Derivados, Indicadores de gerenciamento de produto - 1999
Indicadores de gerenciamento de produto – 1999

Nada poderia ser mais inteligente, visto que as prioridades no País são bem diferentes das do Primeiro Mundo. Com muitas carências básicas, e sem o mesmo nível de consciência ambiental que europeus e americanos, a vizinhança local tende a melhorar sua imagem da indústria química caso esta se mostre solidária. Deixar apenas de poluir pode não ter o mesmo efeito.

Os exemplos são vários e já fizeram inclusive a Abiquim elevar a discussão ao nível internacional, junto à ICCA. “O bem-estar social, um dos princípios do chamado desenvolvimento sustentável, é prioritário em países subdesenvolvidos e as companhias devem ter consciência disso”, diz Marcelo Kós. No seu entendimento, isso pode levar a no futuro haver práticas sociais específicas dentro do Atuação Responsável, sobretudo para países em desenvolvimento, mas também para os desenvolvidos, dependendo da localização das unidades.

A Basf, para começar, acostumou-se a agir dessa forma. Em Guaratinguetá, foi criado um conselho comunitário consultivo com moradores e autoridades locais para a empresa poder ouvir as principais preocupações da população. De acordo com Odilon Ern, também diretor geral da unidade, através desse diálogo, a Basf resolveu financiar a construção da sede própria do corpo de bombeiros da cidade.

Outra iniciativa foi a criação de um programa de coleta seletiva nos bairros próximos da unidade. Além de oferecer treinamento, financiar a compra de equipamentos necessários e agregar o lixo reciclável coletado ao das fábricas, a Basf também premia as comunidades quando estas atingem metas de coleta.

A forma de premiação normalmente é atender a pedidos dos bairros, reformando parques, escolas, creches, entre outras medidas.

A Dow Química, empresa que já adotou por completo cinco códigos e 90% do de gerenciamento de produto, também está bem adiantada nessa tendência de ajudar a comunidade em questões sociais. Em sua unidade do Guarujá-SP possui um painel comunitário, em que vizinhos e representantes de ONGs reúnem-se todo o mês para discutir questões de interesse da comunidade.

A partir dessa interação com a vizinhança a Dow resolveu construir e manter no Guarujá desde 1998 a escola Herbert Dow (em homenagem ao fundador da empresa), de ensino de primeiro grau e com 1.300 alunos matriculados.

Na unidade de Aratu-BA, também há exemplos. Em Caboto, uma comunidade pequena próxima à fábrica, a empresa instalou fossas assépticas nas casas para suprir a falta de saneamento básico e também construiu uma creche. Em outro vilarejo, denominado Madeira, promoveu sessões gratuitas de oftamologia nas crianças da escola local, financiando também os óculos.

Química e Derivados, Fioranti: aproximação pela via social
Fioranti: aproximação pela via social

“Mesmo priorizando o lado social no contato com a vizinhança carente, também não esquecemos da educação ambiental”, diz Claudio Fioranti, gerente de segurança, saúde e meio ambiente da Dow.

Nessa comunidade de Caboto, diz, foi possível convencer os pescadores a parar de usar bombas para pescar, deixando assim de poluir o rio local.

Há vários outros exemplos. Para citar mais um, a DuPont, também muito avançada no Atuação Responsável, já que o implanta desde 1990 por determinação da matriz, promove programas de saúde e higiene em escolas rurais no interior paranaense.

Além disso, em cooperação com a Fundação Santa Genoveva, participa de programa de recuperação da mata ciliar de Paulínia-SP, no qual criou um viveiro de mudas para serem utilizadas no reflorestamento. Também em Uberaba-MG a empresa de origem americana cede madeiras de pallets para uma marcenaria existente em instituição de caridade.

A se guiar por essas ações das mais adiantadas no programa e pela intenção da Abiquim de tornar esse processo de aproximação pela via social como medida oficializada nos códigos, o caminho deve ser trilhado pelos demais signatários. Aliás, talvez esteja aí uma forma mais eficaz do que as práticas técnicas do Atuação Reponsável para fazer a opinião pública brasileira diminuir seu preconceito contra a indústria química.

Os doze mandamentos do atuação responsável*

• Assumir o gerenciamento ambiental como expressão de alta prioridade empresarial, através de um processo de melhoria contínua em busca da excelência

• Promover, em todos os níveis hierárquicos, o senso de prevenção de todas as fontes potenciais de risco associadas às suas operações, produtos e locais de trabalho.

• Ouvir e responder às preocupações da comunidade sobre os seus produtos e as suas operações.

• Colaborar com órgãos governamentais e não-governamentais na elaboração e aperfeiçoamento de legislação adequada à salvaguarda da comunidade, locais de trabalho e meio ambiente.

• Promover a pesquisa e desenvolvimento de novos processos e produtos ambientalmente compatíveis.

• Avaliar previamente o impacto ambiental de novas atividades, processos e produtos e monitorar os efeitos ambientais das suas operações.

• Buscar continuamente a redução dos resíduos, efluentes e emissões para o ambiente oriundos das suas operações.

• Cooperar para a solução dos impactos negativos ao meio ambiente decorrentes da disposição de produtos ocorrida no passado.

• Transmitir às autoridades, funcionários, clientes e comunidade, informações adequadas quanto aos riscos à saúde, à segurança e ao meio ambiente de seus produtos e operações e recomendar medidas de proteção e de emergência.

• Orientar fornecedores, transportadores, distribuidores, consumidores e o público para que transportem, armazenem, usem, reciclem e descartem os seus produtos com segurança.

• Exigir que os contratados, trabalhando nas instalações da empresa, obedeçam aos padrões adotados pela contratante em segurança, saúde ocupacional e meio ambiente.

• Promover os princípios e práticas do Atuação Responsável, compartilhando experiências e oferecendo assistência a outras empresas para produção, manuseio, transporte, uso e disposição de produtos.

* Princípios diretivos do programa

Programa começou no Canadá

Um sistema completo de gestão de saúde, segurança e meio ambiente como o Atuação Responsável é inédito dentro do panorama da indústria mundial. Embora sofra de preconceito, não obstante sua importância no dia-a-dia das pessoas, a indústria química foi a única a tomar uma iniciativa tão abrangente para minimizar os efeitos de seus processos no homem e na natureza. E mais do que isso: fez questão de internacionalizar o programa, estando presente em 45 países, da Argentina ao Zimbábue.

Quem teve a brilhante idéia foi a Associação dos Produtores Químicos do Canadá (CCPA), que no início da década de 80 resolveu criar uma ferramenta ética para responder às crescentes indagações da sociedade sobre suas atividades, sobretudo depois dos famosos acidentes de Bophal, Seveso e da Basiléia. Depois da decisão, em 1985 a CCPA oficializou a inciativa criando o Responsible Care.

O grande impulso internacional, porém, foi quando as associações americanas (CMA) e européia (CEFIC) resolveram embarcar na onda canadense em 1988. “Sem conhecer o programa canadense, eles tiveram a mesma idéia”, diz Marcelo Kós, da Abiquim. “Quando saíram para pesquisar, descobriram o Responsible Care e não pensaram duas vezes antes de adotar o mesmo procedimento.”

Muito responsável pela atitude internacionalizante nessa época foi o então presidente da CMA, Robert Kennedy, também presidente da Union Carbide. Comenta-se que seu trauma com o acidente de Bophal, na Índia, foi o grande motivador na sua forte militância para divulgar internacionalmente o Responsible Care.

Distribuição também quer ser responsável

O comércio de produtos químicos no Brasil está elaborando seu próprio programa de compromisso com a proteção ambiental e com a saúde dos funcionários e populações circunvizinhas.

Sob a denominação de “Distribuição Responsável”, o programa está sendo desenvolvido pela Associação Brasileira do Comércio de Produtos Químicos (Associquim) e pelo Sindicato do Comércio Atacadista de Produtos Químicos para Indústria e Lavoura do Estado de São Paulo (Sincoquim) de modo a observar as peculiaridades da atividade.

“Estamos estudando o assunto para ver os tópicos que são mais relevantes e como eles devem ser abordados”, disse Rubens Medrano, diretor-presidente das entidades setoriais. “O Responsible Care e o congênere da NACD (associação norte-americana de distribuição química) são o ponto de partida para o programa, mas é preciso adaptá-los à realidade nacional”.

Uma vez definidas as prioridades e os princípios do programa, a idéia é discutir a iniciativa com entidades que mantenham programas semelhantes, a começar pela própria Abiquim, organizadora do Atuação Responsável, a fim de assimilar experiências e alcançar sinergias.

Depois de eventuais adaptações o programa estará com o desenho definitivo, para atingir a meta de aprimorar a qualidade e a segurança das operações envolvidas na distribuição de produtos químicos. “Tanto as distribuídas como os clientes terão a ganhar com isso, principalmente pela maior transferência de tecnologia”, disse Medrano.

Definidas as prioridades e as normas a observar, os distribuidores nacionais serão avaliados por empresas especializadas em auditoria ambiental. As entidades de classe apenas homologarão os laudos apresentados.

Nos EUA, a National Association of Chemical Distributors (NACD) mantém desde 1991 o Responsible Distribution Process, ao qual aderiram todos os membros da associação. O processo é composto por vários princípios de orientação e nove códigos de práticas gerenciais, de modo a promover o melhoramento contínuo do desempenho ambiental, de segurança e de saúde ocupacional do setor.

Desde 1999 foram instituídas verificações de sistemas de gerenciamento, fiscalizações na sede dos distribuidores-membros para confirmar o respeito ao programa. As auditorias são conduzidas por empresas especializadas, contratadas pela NACD.

Conheça cada um dos códigos

Segurança de Processos (Sepro): Composto por 24 práticas, destina-se a prevenir a ocorrência de acidentes industriais nas instalações das empresas, por meio do uso de ferramentas de análises de risco e de conseqüência, associadas à aplicação de medidas para eliminar as fontes de risco identificadas.

Química e Derivados, Atuação responsável: conheça cada um dos códigos
Atuação responsável: conheça cada um dos códigos

Saúde e Segurança do Trabalhador (SST): Composto por 19 práticas, garante condições seguras de trabalho e um ambiente adequado nas áreas industriais, de modo que a empresa seja um local isento de riscos à saúde e proporcione segurança dos trabalhadores, sejam eles contratados ou terceiros.

Transporte e Distribuição (Tradi): Com 16 práticas, destina-se a reduzir o risco das atividades de transporte, por meio da melhoria de segurança das etapas de distribuição de produtos químicos. Além disso, estabelece requisitos para melhorar a resposta emergencial a eventuais acidentes.

Proteção ambiental (PA): Com 15 práticas, visa reduzir a geração de efluentes, emissões e resíduos das operações industriais, pela otimização da gestão dos processos de produção.

Diálogo com a Comunidade, Preparação e Atendimento a Emergências (DCPAE): Com 20 práticas, facilita o diálogo entre as empresas e os públicos interno (colaboradores) e externo (comunidade, mídia, clientes, etc). Visa dar transparência às questões de interesse comum, bem como preparar as empresas e as comunidades vizinhas às instalações industriais a atuarem em eventuais emergências.

Gerenciamento de Produto (Gepro): Com 12 práticas, visa fazer que as questões ligadas à saúde, segurança e meio ambiente sejam consideradas em todas as fases do desenvolvimento, produção, manuseio, utilização e descarte de produtos químicos, para garantir sua utilização da forma mais segura possível.

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