Indústria – Basf comemora cem anos no Brasil

Revista Química e Derivados - Complexo químico da companhia em Guaratinguetá-SP
Complexo químico da companhia em Guaratinguetá-SP, fundado em 1959

Muitas comemorações povoam a agenda da Basf no Brasil em 2011. A começar pelo centenário das operações no país, iniciadas em 1911, ainda sob a denominação de Badische Anilin & Soda Fabrik. Além disso, o grupo empresarial químico também ressalta os 50 anos da marca de tintas Suvinil, líder no segmento decorativo imobiliário.

Desde a fundação da companhia, em 1865, até 1910, as importações de produtos pelo Brasil apresentavam um crescimento contínuo, acompanhando em volume a demanda da Argentina, principalmente de anilina.

Em 1911, como a demanda brasileira superava à do vizinho, a Basf decidiu montar um escritório de representação comercial no Rio de Janeiro-RJ. Embora as remessas de produtos da Alemanha tenham sofrido interrupções durante a Primeira e a Segunda Guerra Mundiais, o relacionamento com o Brasil sempre foi atrativo.

Pouco antes da Segunda Guerra, aliás, a Basf foi incorporada ao gigante IG Farben, do qual se desligou, como as demais componentes, imediatamente após o encerramento das hostilidades. No imediato pós-guerra, a companhia ficou sob supervisão do governo francês.

Passada essa fase, durante a recuperação econômica da Europa, muitos motivos apoiavam a descentralização da produção química alemã: interesse dos demais países em evitar a formação de novos gigantes químicos concentrados em um só país, dificuldades em obter matérias-primas, custos logísticos elevados no pós-guerra, entre outros.

Revista Química e Derivados - Gislaine Regina Rossetti, diretora de comunicação corporativa da BASF para a América do Sul e responsável regional pelas áreas de comunicação e sustentabilidade
Gislaine: aquisições abriram novas oportunidades de crescimento

Na década de 50, a companhia resolveu apostar no desenvolvimento do Brasil, colocado em evidência pelos investimentos em infraestrutura e industrialização efetuados no governo de Juscelino Kubitschek. Como resultado, em 1959, a Basf inaugurou sua primeira fábrica na América do Sul, em Guaratinguetá-SP, para produzir o poliestireno expandido de marca Styropor. O sítio de Guaratinguetá produz atualmente 1,5 mil produtos diferentes, contando com uma capacidade produtiva anual da ordem de 295 mil toneladas, abrangendo desde polímeros estirênicos, pigmentos, plásticos, dispersões, produtos de performance, produtos de proteção de cultivos, acrilato de butila, entre outros, sendo o maior conjunto fabril da companhia na região.

Incentivada pelos bons resultados e pelo ciclo de investimentos no setor químico apoiado pelo governo federal na década de 70, a Basf investiu para montar, em 1978, uma complexa estrutura fabril em Camaçari-BA, onde são produzidas a linha de aminas e a dimetilformamida (DMF), esta usada na fabricação de solventes e de fibras têxteis.

A companhia conta também com fábricas em Indaiatuba-SP (catalisadores automotivos), Mauá-SP (sistemas de poliuretano e elastômeros de PU termoplástico e celular), na Vila Prudente (capital paulista, voltada para aditivos para concreto e produtos para construção civil).

As operações brasileiras da Basf totalizaram vendas de 2,3 bilhões de euros e empregavam 4,1 mil colaboradores em 2010. Fica no país a sede das operações regionais, que incluem outros dez países sul-americanos e também do Oriente Médio e da África. Essa região ampla teve vendas de 3,8 bilhões de euros no mesmo ano, com seis mil colaboradores. No mundo todo, o grupo Basf realizou vendas totais acima de 63,9 bilhões de euros em 2010, com 109 mil profissionais em sua estrutura global.

Futuro planejado – Os planos da Basf para o futuro já estão traçados. “A Basf no Brasil se insere no planejamento global da companhia, denominado Estratégia 2020”, comentou Gislaine Regina Rossetti, diretora de comunicação corporativa da companhia para a América do Sul e responsável regional pelas áreas de comunicação e sustentabilidade.

Como explicou, os planos se apoiam em três grandes frentes de negócios. A primeira delas é o fortalecimento da atuação no agronegócio. “Temos uma parceria com a Embrapa para a criação de uma variedade de soja transgênica, com previsão de ingressar no mercado brasileiro em 2012”, afirmou. Essa forma de atuação revela novos conceitos de agricultura sustentável, com a aplicação mais comedida e eficaz de defensivos químicos. A companhia conta com uma ferramenta de avaliação sócio-ambiental, denominada C-Balance, para acompanhar os resultados dessas iniciativas.

A segunda frente de negócios está ligada à construção civil. “A Suvinil, que já é líder em tintas, vai impulsionar também os negócios em construção, reforçados com a linha de produtos da Ciba, empresa que foi adquirida mundialmente pela Basf”, informou Gislaine. A Suvinil está cuidando no Brasil do projeto Casa-E, uma rede de casas ecoeficientes espalhadas pelo mundo. Todos os produtos Basf que possam apoiar iniciativas de construção sustentável serão incluídos no projeto.

“Não estamos esperando grandes saltos tecnológicos no campo dos produtos químicos para os próximos anos, mas a Basf pretende alcançar avanços contínuos e graduais, acompanhando as necessidades do mercado”, disse a diretora de comunicação corporativa. O amplo portfólio da companhia permite oferecer soluções mais amigáveis ao meio ambiente, principalmente usando fontes naturais renováveis. “A nova fábrica de metilato de sódio que estamos construindo em Guaratinguetá para catalisar a produção de biodiesel na região conta com essa diretriz”, aduziu. Ela fez questão de salientar que o enfoque da Basf em sustentabilidade contempla toda a cadeia produtiva e não apenas o produto em si. A unidade de metilato no Vale do Paraíba deve entrar em produção ainda este ano. Além dela, a Basf vai construir uma planta similar para 60 mil t/ano em Rosário, na Argentina. Os investimentos são coerentes com a estimativa da companhia de que aproximadamente 20% da demanda global de biodiesel em 2015 (estimada hoje em 30 milhões de t) seja produzida na América do Sul.

A terceira frente de negócios consiste em buscar oportunidades químicas que possam ser desenvolvidas dentro dos princípios da companhia. “Nos próximos cem anos, o setor químico deverá se reposicionar para atender às novas megatendências de mercado, incluindo novos combustíveis e iniciativas da química renovável”, ressaltou.

No campo das novas oportunidades deve se incluir o potencial de crescimento advindo da aquisição de companhias globais como a Ciba, a Engelhardt e a mais recente, da Cognis. “A Ciba nos abre caminhos novos na construção civil, a Engelhardt nos catalisadores automotivos e a Cognis representa a entrada da Basf nos oleoquímicos de origem vegetal, todos esses campos são absolutamente complementares ao portfólio da Basf”, comentou. Os produtos e o conhecimento dessas companhias ainda precisam ser totalmente integrados à estrutura da Basf para permitir a conquista de sinergias, gerando novas aplicações.

A integração dos negócios da Cognis aos da Basf no Brasil deve ser completada até outubro deste ano. O sítio oleoquímico de Jacareí-SP terá suas operações mantidas e está sendo ampliado para abrigar toda a estrutura técnica da área de higiene pessoal e cosméticos (care chemicals) local.

Além disso, a Basf firmou um memorando de entendimento com a Braskem para estudar um possível fornecimento de propeno para alimentar a produção de ácido acrílico no Brasil. A Basf estaria propensa a instalar uma unidade local de produção de ácido acrílico, projeto que havia anunciado há cerca de dez anos e do qual desistiu, alegando excesso de produto no mercado global. “Naquela época, o investimento não era viável, mas agora a companhia está refazendo esses estudos e, se for confirmada a viabilidade, o projeto caminhará adiante”, disse Gislaine.

Com o ácido acrílico, a Basf poderia produzir no país polímeros superabsorventes (para fraldas e produtos higiênicos) e acrilatos diversos. A companhia é a única produtora local de acrilato de butila (50 mil t/ano de capacidade, em Guaratinguetá), principal insumo para a produção de resinas para tintas imobiliárias, porém importa o ácido. Os estudos devem definir a capacidade e a localização da planta. A Braskem possui um excedente de propeno em Camaçari-BA, estimado em 120 mil t/ano, que hoje são exportadas.

Além de garantir a rentabilidade do empreendimento e disputá-lo com outros interessados – a Elekeiroz tenta há anos conseguir suprimento de propeno e viabilizar projeto semelhante no país –, a unidade brasileira precisa vencer uma batalha dentro da própria organização para tocar o projeto. “Um dos nossos maiores desafios é concorrer com a filial chinesa pelos investimentos em novas plantas”, explicou Gislaine.

Embora o Brasil seja visto no exterior como um dos países mais promissores do mundo, ainda há muitos obstáculos para torná-lo mais competitivo. “Temos sérias deficiências em infraestrutura e na formação de pessoal técnico qualificado, aspectos no qual a China está bem servida”, disse a diretora. A unidade brasileira se esforça para suprir parte dessas deficiências, ampliando seu programa de trainees para a área de engenharia e elaborando estratégias de transporte sofisticadas, por exemplo. “Nós somos competitivos até a porta da fábrica, mas daí por diante dependemos de investimentos e políticas estatais”, concluiu.

Marca Suvinil faz cinquenta anos

A marca Suvinil, líder nacional no segmento decorativo imobiliário, completa em maio 50 anos de existência. Ela nasceu da decisão do empresário Olócio Bueno de produzir um contratipo de uma tinta vinil-acrílica – um látex PVA para paredes –, oferecendo-a a um mercado que ainda aplicava cal nas paredes. Olócio era proprietário da Super, que fabricava tintas automotivas desde 1945 em um pequeno galpão no bairro paulistano da Pompeia.

Em 1950, ele transferiu suas instalações para uma ampla área em São Bernardo do Campo-SP, que hoje abriga o maior complexo de tintas e vernizes da Basf na América do Sul, capaz de produzir 330 milhões de litros de tintas por ano, nas linhas Suvinil, Glasurit (imobiliária e automotiva), Salcomix (automotiva) e as tintas Basf para a área industrial e automobilística original.

Lançada em 1961, a marca Suvinil obteve tamanha receptividade que Olócio renomeou sua fábrica com ela. Aliás, o “Su” veio de Super, e “vinil” da nova resina que dominou o mercado de tintas por décadas, até a chegada das estireno-acrílicas e das acrílicas puras. Apesar do sucesso comercial, alcançado por uma política de desenvolvimento calcada na avaliação dos produtos por parte de pintores profissionais, o empresário buscava sócios estrangeiros para seu negócio. Ao saber que a Basf havia adquirido a também alemã Glasurit Werke, em 1969, ele procurou a empresa que inicialmente assumiu 60% do capital da Combilaca, produtora de tintas com grandes vendas para a Volkswagen – o nome derivou da Kombi, veículo comercial da montadora. Logo depois, a Basf adquiriu todo o negócio, integrando Combilaca e Suvinil sob a denominação de Glasurit do Brasil.

Na década de 70, a companhia investiu na expansão da produção, abrindo a fábrica de Jaboatão dos Guararapes-PE, que hoje atende a uma boa fatia de demanda nordestina. Nos anos 80, a marca Suvinil assumiu a liderança nas tintas imobiliárias no país, especialmente no segmento premium, do qual detém 60% das vendas. Nesse período, também ampliou a linha de produtos, adicionando as linhas de tintas para pisos e para cerâmica.

Na década de 90, a companhia aproveitou a abertura comercial dos países da América do Sul para estender a atuação da marca, começando pela Argentina, Paraguai e Uruguai. Os sistemas tintométricos chegaram ao mercado local em 1994, logo recebendo o sistema da Suvinil de formulação de tintas.

Além de empreender uma estratégia agressiva de marketing, nessa década a marca Suvinil ganhou um novo logotipo. Os pontos de vendas também ganharam uma apresentação mais moderna e atraente. Desde 1997, a companhia se esforça para lançar pelo menos um produto por ano, abrindo caminho para as linhas próprias para fachadas, as premium 100% acrílicas, fundos preparadores para base água, texturatos, vernizes de alta performance, esmaltes epóxi, produtos adequados para exteriores e tintas sem cheiro, entre outros. Mais recentemente, também houve alterações nas embalagens, oferecendo mais praticidade para os clientes.

Entre os exemplos de interação com a sociedade por parte da Suvinil, podem ser citados a doação de tintas para pintar o Estádio do Pacaembu (1988) e o Museu de Arte de São Paulo – Masp (2008), o Mercado Modelo (Salvador-BA, 2006) e a participação atual da companhia nas obras de recuperação da cidade histórica de São Luís do Paraitinga-SP, arrasada por inundações no ano passado.

Segundo Eugênio Luporini Neto, vice-presidente de tintas imobiliárias e repintura automotiva para a América do Sul da Basf, “considerado como um dos países com maior potencial de crescimento entre os emergentes, o Brasil será a grande aposta da companhia para os próximos anos”. Isso justifica os investimentos que estão sendo feitos na produção de tintas.

A unidade de São Bernardo do Campo recebeu R$ 15 milhões para adquirir equipamentos para envase de tintas, automatizando e melhorando a ergonomia da linha de produção. “Essa unidade receberá mais R$ 30 milhões nos próximos cinco anos e se tornará a maior fábrica de tintas decorativas do mundo em um único sítio”, afirmou Luporini.

A unidade de Jaboatão dos Gua­rarapes segue um plano de investimentos de R$ 20 milhões para serem aplicados entre 2008 e 2013. “Isso nos permitirá dobrar a capacidade produtiva de massa corrida e complementos”, informou.

Leia Mais:

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.