Importação da soda cáustica avança

Estagnação petroquímica barra aumento de produção enquanto importação avança

– importação da soda cáustica avança:  Um dos produtos químicos mais versáteis e conhecidos no mundo, a soda cáustica, ou hidróxido de sódio, passa por um momento de estagnação de investimentos no Brasil, com a produção local mantida, porém sem avanços há quase duas décadas.

Obtida pela eletrólise do sal comum, também conhecido como cloreto de sódio, a produção de soda é condicionada pela demanda pelo cloro, obtido simultaneamente.

Por sua vez, a oferta de cloro depende da presença próxima da cadeia de PVC, ou pelo menos de seu primeiro intermediário, o dicloroetano (DCE). Ou seja, é preciso contar com um suprimento adicional competitivo de etileno, algo difícil de se obter hoje no Brasil, para viabilizar novas capacidades produtivas.

Existem outros usos para o cloro, como a fabricação de ácido clorídrico e hipoclorito de sódio, mas os volumes ficam muito abaixo da demanda da cadeia do PVC.

Ao contrário da soda, o armazenamento do cloro, um gás venenoso, é muito caro e inconveniente, representando um risco excessivo. Sua transformação imediata em substâncias menos agressivas é fundamental.

Soda cáustica: Importação avança ©QD Foto: iStockPhoto
Rego: lítio vai gerar demanda adicional na América Latina

“A capacidade produtiva do setor de cloro e soda no Brasil não cresce há mais de dez anos, porém a demanda local progride ano a ano, obrigando a aumentar a importação de soda cáustica”, comentou Milton do Rego, presidente-executivo da Associação Brasileira da Indústria de Álcalis, Cloro e Derivados (Abiclor) e também da Asociación Latinoamericana de la Industria del Cloro, Álcalis y Derivados (Clorosur).

“Atualmente, a produção nacional supre metade do consumo local, exigindo importar o restante, observando que a indústria de cloro-soda no Brasil opera com aproximadamente 20% de capacidade ociosa.”

O presidente-executivo da Abiclor aponta o estudo Rota Estratégica da Indústria de Cloro-Álcalis, realizado de forma conjunta entre indústrias, órgãos do governo, instituições de pesquisa, organizações do terceiro setor e academia, como base para traçar um quadro melhor para o setor.

“Falta isonomia entre o Brasil e os países exportadores pela ausência de uma política industrial em toda a cadeia produtiva; faltam investimentos em pesquisa, desenvolvimento e inovação; e há insegurança jurídica para investimentos de longo prazo”, considerou.

Como explicou Rego, enquanto o Brasil parou de ampliar sua produção, Estados Unidos, China e Japão mantêm cadeias produtivas sólidas para o consumo de clorados, especialmente de PVC. “Por isso, esses países têm excedentes importantes de soda cáustica para exportar”, ressaltou. Pela proximidade geográfica, os EUA são o maior fornecedor de soda para o Brasil, especialmente para a região Norte, onde está a produção de alumínio e uma indústria de celulose.

O dirigente explicou que o cálculo da rentabilidade setorial considera as vendas de cloro, soda e hidrogênio, este ainda com baixa participação, mas prometendo ganhar importância com a descarbonização dos processos industriais. “A soda, no passado, foi uma fonte importante de receita e de lucros, mas hoje seu preço empata com o custo de produção, o lucro é obtido com o cloro”, informou.

Ele ressaltou que a situação atual do mercado de cloro-soda tem um comportamento cíclico, porém não tão marcante quanto o da indústria petroquímica, esta em fase de baixa com duração prevista até 2025. “A China produz praticamente a metade da oferta mundial de cloro-soda e ainda tem fábricas para entrar em operação em pouco tempo”, comentou.

“A demanda de cloro por lá é firme, puxada pela construção civil que recentemente entrou em estagnação, e isso terá efeitos em toda a cadeia produtiva, muito embora os produtores chineses tenham o costume de manter a produção e aumentar a exportação de PVC para escoar o excedente”, ressaltou.

A América Latina apresenta oportunidades para o aumento do consumo de soda cáustica no médio prazo. Os associados da Clorosur, disse Rego, acompanham de perto a evolução da produção de lítio, elemento fundamental para a fabricação de baterias elétricas, em especial na Bolívia, Chile e Argentina. “A produção do lítio consome grande volume de soda, menor que o do alumínio, mas é relevante”, afirmou.

No Brasil, o maior consumo do álcali está na indústria de celulose e papel, seguida pelo uso químico/petroquímico, pela produção de sabões e detergentes e do alumínio. O uso cativo pelas indústrias (para produzir hipoclorito de sódio, por exemplo) chega a 10% da produção total.

Milton do Rego salienta que a produção do setor pode ser considerada limpa, pois consome eletricidade que, no caso brasileiro, é gerada por uma matriz de produção com predomínio de fontes naturais e renováveis, como a hidrelétrica, eólica e solar. “Temos eletricidade com baixa pegada de carbono, mas o preço é muito alto”, considerou. “A carga tributária, idem.”

Observadas as recomendações da rota estratégica setorial, seria possível atrair investimentos da ordem de US$ 600 milhões até 2035, ampliando a produção nacional de cloro, soda, hidrogênio e derivados em 40%, das atuais 1,2 milhão de t/ano para 1,8 milhões de t/ano (base cloro).

Atualmente, o hidrogênio resultante do processo eletroquímico é usado na própria indústria, para fazer ácido clorídrico. “Algumas unidades vendem o gás excedente para empresas especializadas em gases industriais que estejam próximas, ou o queimam nas suas instalações para gerar calor para o processo”, disse Rego, salientando que o transporte do hidrogênio é caro e perigoso, exigindo instalações e equipamentos específicos.

Como relatou, a Abiquim e a Abiclor defendem o uso do hidrogênio para descarbonizar processos industriais no Brasil. “Há quem queira produzir hidrogênio verde ou cinza para fazer amônia e exportar para a Europa, isso só vai baratear a descarbonização por lá, com poucos benefícios para cá”, criticou.

Soda cáustica: Importação avança ©QD Foto: iStockPhoto
EVOLUÇÃO DA SODA CÁUSTICA 2012-2022

Importação da soda cáustica: Mercado ativo

Commodity global, a soda cáustica tem um longo histórico de participação no comércio internacional, sendo acompanhada diariamente pelos consumidores e empresas de distribuição química. As vendas da indústria para as empresas comerciais tiveram em 2023 relevância próxima à do maior segmento consumidor, o de celulose e papel. A distribuição ficou com 21% da soda nacional, enquanto celulose e papel absorveu 25%, segundo a Abiclor, com dados de janeiro a novembro de 2023.

Daniela Nunes, gerente de vendas da Química Anastacio, informa que os preços da soda cáustica no Brasil aumentam ligeiramente em março, devido à demanda mista entre os setores clientes. Ao mesmo tempo, “os preços do Golfo dos EUA apoiam preços CFR (cost and freight, ou custo e frete) mais elevados na América Latina no final de fevereiro e a oferta regional segue estável, com níveis potenciais de estoque equilibrados este ano.”

Olhando esse quadro, Daniela prevê que o primeiro trimestre continuará com oferta menor até meados do segundo trimestre quando, porém, a demanda sazonal aumentará, gerando uma pressão ascendente sobre os preços.

Soda cáustica: Importação avança ©QD Foto: iStockPhoto
Daniela: oferta global menor aponta elevação de preços

“No final de fevereiro, os preços da soda cáustica no Brasil tiveram um ligeiro aumento, influenciado principalmente pela dinâmica do mercado internacional. As pressões sobre o frete e as restrições de disponibilidade, decorrentes de atrasos e extensões de rotas devido às restrições de trânsito no Mar Vermelho, desempenharam um papel significativo. As taxas de desconto continuam a ser normais e alguns preços são frequentemente personalizados para determinados nichos de mercado e volumes transacionados. A luta contínua pelo domínio do mercado entre fornecedores nacionais e concorrentes estrangeiros aumenta o incentivo para uma negociação melhor de preços para capturar uma porção adicional do mercado em 2024”, comentou.

Ao avaliar o comportamento dos clientes, Daniela verificou comportamentos distintos, até mesmo contraditórios, entre eles. A procura global se manteve relativamente estável em fevereiro, mas os níveis de consumo flutuaram em vários mercados. “Ouvi relatos de que a demanda por soda cáustica na indústria de bebidas foi boa, particularmente influenciada pelo clima quente e pelo feriado de Carnaval”, apontou.

O setor de celulose e papel apresentou visões divergentes de mercado. “Embora uma fonte tenha notado vendas de exportação robustas nessa indústria, outra indicou que o desempenho da mesma parecia mais fraco do que o previsto no primeiro trimestre.”

A disponibilidade de soda no Brasil permaneceu estável em fevereiro, com o mercado antecipando melhores resultados de vendas para Março, segundo a gerente de vendas da Química Anastacio.

Soda cáustica: Importação avança ©QD Foto: iStockPhoto
Potrich: projetos de celulose e papel puxam demanda futura

“O Brasil é dependente do mercado externo e a dinâmica do mercado local tem uma tendência a ser influenciada pelos índices internacionais, bem como o balanço dos inventários estão relacionados ao nível do volume das importações e da demanda local, assim o fornecimento local fica dependente das condições globais e suas particularidades, sendo o Brasil um mercado importador relevante no balanço da demanda mundial”, comentou Rafael Potrich, product manager da Brazil Brenntag.

Ele considera a soda cáustica como um insumo muito relevante na indústria química e também aplicado em muitas indústrias, assim, o desempenho comercial fica conectado ao crescimento do país e das principais atividades produtivas. “Um exemplo vem das fábricas de papel e celulose, que demandam um volume considerável de soda, fazendo com que o desempenho do negócio fique muito conectado à performance dos seus negócios, os quais estão com vários projetos importantes de expansão que irão impactar na demanda futura de soda”, apontou.

Segundo Daniela, a Química Anastacio oferece as principais apresentações da soda, em escamas (pura, 98%), líquida (diluída, 50%). “A maioria que importa soda em escamas busca a diluição, com alto rendimento, mas poucas empresas fazem a diluição devido ao alto índice de periculosidade”, salientou.

Daniela citou os principais consumidores de soda no Brasil, puxada pelo setor de celulose e papel (entra no processo de polpação para separação de fibras), mas também por sabões e detergentes (age como um agente saponificante, transformando gorduras e óleos em sabão); refinarias de petróleo (auxilia no processo de refino, neutralizando ácidos e removendo impurezas); indústria têxtil (é utilizada no tratamento e acabamento de fibras e tecidos). “Buscamos ter sempre estoque disponível para compor nosso pacote ofertado aos clientes, principalmente para o segmento de saneantes e para os fabricantes de sabão”, completou.

“A soda compõe o pacote de soluções que a Brenntag oferece ao mercado, temos frota própria que agrega valor ao negócio, como diferencial competitivo e que eleva o patamar do nosso nível de prestação de serviço; além disso, atendemos os clientes que demandam desde pequenas embalagens até bitrens de 55 toneladas, tendo flexibilidade adequada à demanda e exigência dos clientes, de Norte a Sul do Brasil”, afirmou Potrich.

Ele identificou que os segmentos consumidores de soda são muito diversificados, com exigências relacionadas à particularidade de cada indústria. “Existe uma tendência importante de demanda por soda cáustica obtida pelo processo de membrana, um grade diferenciado, pois sua produção apresenta menor consumo de energia e menor emissão de CO2”, informou.

Soda cáustica: Importação avança ©QD Foto: iStockPhoto
DESEMPENHO DA SODA NO BRASIL (em toneladas)

Adeus, mercúrio

O Brasil ratificou em 2018 a Convenção de Minamata sobre Mercúrio, incluindo-a no ordenamento jurídico nacional. Com isso, o uso industrial de mercúrio será banido do país depois de 2025, prazo final de carência para adaptação dos usuários, entre eles a indústria de cloro-soda.

Airton Andrade, consultor técnico da Abiclor, com décadas de experiência na indústria de cloro-álcalis, explicou que, em termos históricos, os Estados Unidos tinham uma base industrial com predominância da tecnologia de diafragma, a mais eficiente quando se utiliza salgema como matéria-prima. As empresas da Europa preferiam a tecnologia do amálgama de mercúrio. “Até a década de 1990, o Brasil tinha um parque produtor com ambas as tecnologias”, comentou.

A Convenção de Minamata mudou o panorama. Mais afetado pelo problema da contaminação com mercúrio, o Japão baniu a tecnologia de amálgama já nos anos 90, adotando o processo de membranas de uma geração antiga, menos eficientes. A Europa baniu o mercúrio em 2017, antes do prazo final. “Quem não mudou de tecnologia, fechou”, disse Andrade.

Com crescimento industrial mais recente, a China ergueu um parque eletroquímico com tecnologia moderna de membranas de alta eficiência nos últimos dez anos. E vem aumentando sua capacidade instalada, assim como os EUA, hoje apoiados em membranas.

No Brasil, cada produtor possui trens de produção com tecnologias diferentes. “Ainda há três plantas com tecnologia de mercúrio no Brasil e elas serão substituídas até o final de 2025; por sua vez, as unidades de diafragma são menos eficientes que as linhas com as novas membranas, mas o investimento na troca de tecnologia é grande e não se paga”, avaliou o consultor.

Em comunicado público, a Unipar anunciou investimento de um bilhão de reais para substituir as tecnologias de mercúrio e diafragma em sua instalação de Cubatão-SP, adotando a partir de 2025 a tecnologia de membranas. Segundo a companhia, a linha de mercúrio representa 60% da capacidade instalada em Cubatão, da ordem de 210 mil t/ano (em cloro).

Andrade salienta que a soda cáustica obtida em cada uma das opções tecnológicas apresenta diferenças. As membranas consomem menos energia na eletrólise, mas geram um produto mais diluído, a 32%, exigindo gastar mais energia para concentrar a soda a 50% para viabilizar o transporte.

“Clientes próximos das fábricas podem receber a soda a 32%, o transporte não fica tão oneroso a curta distância”, comentou Andrade. Ele explicou que 50% é a concentração máxima da solução de soda em que não ocorre a solidificação em baixa temperatura, que tornaria o manuseio do produto oneroso.

Soda cáustica: Importação avança ©QD Foto: iStockPhoto
CONSUMIDORES DA SODA PRODUZIDA NO BRASIL (em toneladas)

A tecnologia de diafragma, por sua vez, oferece uma concentração de soda no eletrólito de apenas 10%, exigindo uma etapa posterior de concentração que também consome energia. As linhas de amálgama de mercúrio, pelas suas características próprias, oferece grande flexibilidade operacional, permitindo operar com concentrações variadas de soda, até 50%, sem gasto adicional de energia no concentrador.

“A eletrólise aqui exige consumo mais alto de eletricidade que as membranas, porém isso é compensado pelo fato de dispensar a etapa de concentração”, comparou.

A forma usual de aplicação da soda é a líquida. “Alguns clientes precisam usar soda anidra, em escamas ou pérolas, porque seus processos produtivos não aceitam a presença de água”, explicou. Trata-se de uma especialidade que exige etapas de concentração mais exaustivas. “Alguns fabricantes na Europa e na China fazem a soda anidra, bem como a Unipar, aqui no Brasil”, disse, ressaltando que a forma líquida tem manuseio mais fácil, usando navios-tanque para transporte e bombeamento por dutos para movimentação.

“Grandes clientes da área de celulose e de alumínio consomem soda líquida”, informou. Aliás, o transporte de soda é bem regulamentado, tanto por questão de segurança, quanto pela necessidade de evitar contaminações.

Andrade acompanhou o desenvolvimento da tecnologia de membranas na produção de cloro-soda. “As membranas só ficaram boas durante a década de 90, antes disso eram inviáveis”, considerou. As primeiras membranas apresentavam uma distância muito grande entre os eletrodos e o material usado na sua constituição era pouco permeável e dificultava a passagem dos íons, como explicou.

Soda cáustica: Importação avança ©QD Foto: iStockPhoto
Andrade: Brasil encerrará até 2025 as células de mercúrio

“Os modelos atuais tem uma distância mínima entre os eletrodos e a membrana separadora é mais permeável, isso resulta em uma soda de qualidade superior, com baixa contaminação”, disse.

Andrade também verificou que as células a membranas antigas eram menos produtivas.

“Quanto maior a corrente elétrica, maior a produção; ora, as células antigas deixavam passar menos corrente por metro quadrado de célula e, por isso, eram pouco produtivas em relação aos modelos atuais”, explicou. “Os eletrodos são feitos de metais nobres, caríssimos, as células precisam ser muito produtivas para justificar o investimento.”

Na sua visão, o setor industrial brasileiro tem tecnologia adequada e alta qualidade de produção, mas está estagnado. “Se houver etileno com preço competitivo, haverá investimentos em plantas de cloro-soda”, finalizou.

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