IFAT ENTSORGA 2012 – Europa mais desenvolvida é adepta do waste-to-energy

No setor de gerenciamento de resíduos, ficava bastante clara na Ifat a tendência europeia de revalorização dos rejeitos. Nessa seara, a tecnologia chamada waste-to-energy, que nada mais é do que a incineração de resíduos para geração de energia, era destaque, com um espaço considerável reservado para empresas especializadas em ofertar soluções e para controlar emissões provenientes da tecnologia.

O destaque na feira para as soluções “incendiárias” tem relação direta, aliás, pelo que ocorre nos países mais desenvolvidos do continente europeu. Não é uma tecnologia promissora, mas uma realidade que se comprova por dados oficiais da Comunidade Europeia, divulgados na feira por Patrick Clerens, secretário geral da associação dos fornecedores europeus de tecnologia de valorização energética de resíduos (Eswet). “Quanto mais desenvolvido o país, mais ele usa a tecnologia, dada a sua eficiência ambiental e econômica para tratar lixo doméstico, comercial e industrial não-reciclável”, explicou Clerens, cuja associação dirigida por ele tem sede em Bruxelas, na Bélgica.

As estatísticas da Eurostat, escritório oficial da Comunidade Europeia, mostram que a Alemanha, para ficar no país-sede da Ifat, incinera 35% do lixo, recicla e usa compostagem em 64% e manda apenas 1% para aterros. A Dinamarca, país nórdico famoso por sua vocação e pioneirismo ecológico, é a recor-dista: 54% passa pelo tratamento térmico, 43% é reciclado e apenas 3% segue para aterros. E a constatação de Patrick Clerens segue (ver gráfico): quanto mais rico e desenvolvido o país, mais waste-to-energy; quanto menos, mais lixo vai para o aterro, menos se usa incineradores e menos se recicla. Simbólico nessa análise é a Grécia, país que, hoje em forte crise e considerado o “patinho feio” da zona do Euro, não usa incineradores e mantém os aterros como o principal destino dos resíduos.

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Tabela: Na Europa, quanto mais o país incinera, mais recupera materiais (2010) – Clique para ampliar

Outro ponto muito importante mostrado pelas estatísticas da União Europeia, segundo a análise do secretário geral da Eswet, é a influência positiva que a adoção da tecnologia de valorização energética exerce sobre a política de resíduos dos países. “Instalar essas centrais, e isso está comprovado com os dados da Eurostat, estimula a reciclagem de materiais”, disse Clerens. De fato, as estatísticas mostram que os países com maior porcentual de uso da incineração são os maiores recicladores de materiais. Isso por um fator determinante: nesses países, a tecnologia passa a ser uma alternativa para os casos em que não há possibilidade de reciclagem, estimulando uma política de gerenciamento de resíduos, e também porque no processo há a separação de metais e materiais de construção.

“A central de incineração, além de no final do processo revalorizar energeticamente os resíduos, transforma-se numa grande área de reciclagem e reaproveitamento”, afirmou. O argumento do executivo, aliás, rebate um lugar-comum de proprietários e defensores de aterros, que divulgam ser contrários à incineração porque ela limita a capacidade de reciclagem de materiais do país, destruindo-os termicamente. A experiência europeia prova o contrário.

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Clerens: melhor alternativa ambiental e econômica para o lixo

Estima-se a operação de mais de 1.000 centrais de combustão de resíduos no mundo. Basicamente, esses incineradores trabalham com sistemas de grelha de combustão. Os resíduos são transportados numa grelha ao longo da câmara de combustão, onde são queimados, normalmente sem combustíveis adicionais, com o ar de combustão sendo injetado por baixo. A escória resultante da combustão é descarregada no final da grelha e tem reaproveitamento na construção. Metais ferrosos e não-ferrosos contidos nela são destinados para reciclagem. A valorização energética se dá por uma caldeira de cogeração que recupera até 80% da energia dos resíduos, tornando-a revalorizada como vapor ou eletricidade, para uso em habitações ou na indústria.

Ponto importante para a tecnologia deslanchar na Europa é o fato de os gases gerados na combustão (SO2, HCl, HF, NOx, metais pesados e dioxinas e furanos) serem totalmente controlados, desde o momento da queima até as emissões. São várias combinações de tecnologias, mas a maior parte das centrais utiliza os chamados aditivos de limpeza em lavadores de gases, como o amoníaco, a cal ou o carvão ativado, que normalmente são reaproveitados. Os gases expulsos pela chaminé são permanentemente controlados e as autoridades dos países monitoram as emissões em tempo real.

“As unidades europeias seguem restrições superexigentes e posso garantir que todas usam tecnologias limpas”, afirmou Clerens. “Tanto é assim que o ministro do meio ambiente alemão em 2005, membro do partido verde, reconheceu publicamente que as emissões do waste-to-energy são seguras e não geram dioxinas em razão da alta temperatura e dos processos de lavagem de gases”, completou. Clerens lembra ainda que um simples churrasco gere muito mais dioxinas do que um forno de combustão de resíduos.

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Heidi: suportes tipo bobes removem dioxinas em scrubbers

Bobes para dioxinas – Na Ifat havia uma empresa dinamarquesa destacando sistema de remoção de dioxinas para ser adaptado em scrubbers antigos, que podem não estar funcionando a contento. Trata-se do sistema Adiox, da empresa Götaverken Miljö, que pode ser usado em sistemas de tratamento de gás a seco ou úmido, baseado na aplicação de suporte em forma de “bobes” de polipropileno com pequenas partículas de carbono, colocados no scrubber para reter as dioxinas. A tecnologia faz uso da alta afinidade das dioxinas por carbono. “Quando em contato, a ligação entre ambos é muito forte”, afirmou a engenheira da empresa dinamarquesa Heidi Bjerre Olesen.

As moléculas de dioxina nos fluxos de gases do scrubber (torre de lavagem) são primeiro absorvidas pelo suporte de PP e dali migram para os carbonos, onde são fortemente afixadas. “O bom dessa rota é que o PP serve como pré-filtro seletivo para concentrar a absorção das dioxinas no carbono”, disse Heidi. A tecnologia dinamarquesa combate o chamado efeito memória, que ocorre quando as dioxinas podem sair, em mudanças nas emissões, ao longo do tempo, de suportes feitos apenas de plástico, entrando no fluxo de gases novamente.

Além da aplicação para combater o efeito memória, o Adiox pode ser instalado em sistemas de absorção a seco depois de precipitadores eletrostáticos, com a capacidade de reduzir a concentração de dioxinas para índices menores do que 0.1 ng TEQ/Nm3, com custo baixo, tanto em fornos de combustão de resíduos como em unidades siderúrgicas e indústrias químicas. Bom ressaltar que a empresa dinamarquesa também projeta scrubbers específicos para o uso de sua tecnologia, além de outros sistemas para remoção de mercúrio e corrosão.

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Sajana: dessorção térmica para recuperar óleo

Além do waste-to-energy, havia também empresas mostrando outras tecnologias para gerenciamento de resíduos. A alemã Econ Industries, por exemplo, mostrava o sistema VacuDry, de dessorção térmica a vácuo com aquecimento indireto, usado principalmente para recuperação de borras de óleo de refinarias. O sistema funciona com uma pré-remoção mecânica de lodo, instalada pelo cliente. Após isso, a dessorção térmica recupera o óleo condensado, com propriedades similares às do óleo combustível leve. “Ele pode ser usado diretamente para geração de energia como ser adicionado ao óleo cru”, afirmou a engenheira da Econ, Sajana Schmidt.

O mesmo equipamento pode ser usado para recuperar resíduos com mercúrio, que pode remover o metal pesado de pellets, baterias, carvão ativado e de outros resíduos. A tecnologia separa ainda hidrocarbonetos de cavacos metálicos contaminados com lubrificantes. “Quaisquer voláteis podem ser tratados com a tecnologia. Um uso muito comum é para remediar lagoas contaminadas com hidrocarbonetos e resíduos de refinaria”, completou Sajana. Mais um exemplo do festival de soluções tecnológicas da Ifat para manter o planeta um pouco melhor habitável.

 

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