Meio Ambiente (água, ar e solo)

Hidrogênio é a chave para economia de baixo carbono

Marcelo Furtado
9 de novembro de 2020
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    Química e Derivados - Hidrogênio é a chave para economia de baixo carbono ©QD Foto: Divulgação

    Eletrolisadores da ThyssenKrupp usam tecnologia alcalina

    Há uma grande oportunidade para o Brasil se consolidar como um dos centros da revolução verde global, com papel de liderança na chamada transição energética. Além de já ter a matriz elétrica mais limpa do mundo, com 83% proveniente de fontes renováveis (64,9% hídrica, 8,6% eólica, 8,4% biomassa e 1% solar), e uma política nacional de biocombustíveis ousada como a recém-lançada Renovabio, o país tem o cenário ideal para ser também ator importante em outra grande aposta global de descarbonização: a produção do hidrogênio verde.

    É clara a vantagem competitiva do Brasil na nova onda de produzir hidrogênio a partir de fontes renováveis e assim permitir que seu uso como combustível limpo, que só emite vapor d´água, seja ferramenta para políticas nacionais de descarbonização em demandas nas quais é difícil a transição energética apenas via eletrificação. Justamente por ter matriz elétrica limpa, distribuída por um sistema interligado em todo o país, o SIN, a possibilidade do Brasil de produzir o hidrogênio verde a partir da eletrólise da água (também abundante em várias regiões) é muito grande. Principalmente ao se levar em conta que os investimentos nas novas renováveis – eólica e solar – continuarão em alta no país nos próximos anos.

    Em um primeiro cenário futuro, ainda sem grande demanda local para o combustível limpo – produzido em células eletrolíticas que repartem a molécula da água em moléculas de hidrogênio e oxigênio –, o Brasil poderia se tornar exportador para países desenvolvidos do H2 verde produzido localmente para uso em demandas de mobilidade. E nesse caso a opção seria pela transformação do hidrogênio em amônia, o que o torna mais estável e barato para exportação via navios-tanque para qualquer local do mundo, em países com planos futuros de expansão do hidrogênio como combustível de caminhões, ônibus, trens e mesmo carros de passeio, em menor escala. Nesse cenário, países como Alemanha, Holanda, França, Japão, Coreia do Sul e China são bons exemplos.

    Química e Derivados - Hidrogênio é a chave para economia de baixo carbono ©QD Foto: Divulgação

    Silva: única geradora de H2 verde do país fica em Guaíba

    Na Arábia – Esse futuro hipotético para o Brasil poderia se mirar no modelo de um projeto anunciado em julho deste ano pelas empresas Air Products, ThyssenKrupp e pela ACWA Power, empresa estatal da Arábia Saudita, onde está programado o investimento conjunto de US$ 7 bilhões para erguer planta de hidrogênio verde. A união entre as empresas não é fortuita: a Air Products é a maior produtora de hidrogênio do mundo, a ThyssenKrupp detém nova tecnologia alcalina de eletrólise da água e o governo da Arábia Saudita lidera o projeto construindo uma nova cidade, batizada de Neom, para torná-la centro mundial de energia renovável e do hidrogênio verde.

    Na nova cidade, que fica na fronteira com o Egito e a Jordânia, no Mar Vermelho, os sauditas vão instalar inicialmente 4 GW em parques solares e eólicos integrados para suprir de energia a planta de eletrólise da água que produzirá o hidrogênio verde e o converterá em amônia para exportação global. A estimativa é o complexo entrar em operação em 2025, quando serão produzidas 650 toneladas por dia de hidrogênio verde a partir da tecnologia da ThyssenKrupp, o suficiente para abastecer 20 mil ônibus a célula de hidrogênio.

    Uma unidade de separação (coluna de destilação criogênica), com tecnologia da Air Products, será empregada para retirar o nitrogênio do ar, que por sua vez será unido ao hidrogênio verde para sintetizar, com tecnologia da empresa Haldor Topsoe, a amônia. A previsão é de que sejam produzidas 1,2 milhão de toneladas/ano de amônia verde para exportação global, principalmente para a Europa, onde haverá plantas de dissociação da amônia e onde, após isso, o H2 verde será comprimido para distribuição. Apenas para a infraestrutura de distribuição do projeto, a Air Products será responsável pelo investimento de US$ 2 bilhões do total previsto de US$ 7 bilhões.

    De forma estratégica para este e outros projetos previstos, a Air Products está atuando em toda a cadeia do hidrogênio verde para uso como combustível, segundo explicou o gerente geral para o Brasil, Marcus Silva. Isso ocorre desde a operação da planta da ThyssenKrupp, com quem firmou parceria global para difusão da tecnologia, como na distribuição e nas estações dispensadoras de hidrogênio nos veículos, de 350 e 700 bar, para abastecer as células de combustível em postos. “Estamos nos preparando para atuar na geração, distribuição e no fornecimento para o usuário final”, disse.

    Para a Alemanha – Embora no Brasil o assunto ainda esteja incipiente, Silva acredita que o potencial é grande, principalmente por conta de a energia renovável no país ser cada vez mais abundante e estar entre as mais baratas do mundo, caso da eólica e cada vez mais da solar. “Estamos abertos a conversar com quem esteja disposto a entrar nesse mercado que com certeza vai dominar o mundo no médio prazo”, disse.

    Talvez o exemplo mais forte de que essa demanda vai crescer globalmente é o planejamento da Alemanha, que em junho deste ano anunciou uma estratégia nacional para o hidrogênio. Serão investidos, como parte de sua meta de se tornar neutra em carbono até 2050, 9 bilhões de euros para fazer com que o hidrogênio verde substitua os combustíveis fósseis na sua matriz.

    Desse total, 2 bilhões de euros serão utilizados apenas para firmar parcerias com outros países fortes em energia renovável. Isso porque, por suas condições climáticas e geográficas, a Alemanha não terá condições de atender a meta nacional internamente. A estimativa do país é de que eles conseguiriam gerar apenas 11% com complexos próprios de hidrogênio verde. Para suprir essa grande lacuna, inicialmente os “olhos” dos alemães estão para países da África, como Marrocos e Tunísia, e alguns poucos europeus, como a Espanha, que tem mais energia solar e eólica.

    Nada impede, porém, que o Brasil se aproveite dessa onda como um forte exportador. Esta é a opinião, por exemplo, do gerente de inovação e sustentabilidade da Câmara de Comércio e Indústria Brasil-Alemanha, Ansgar Pinkowski, que em recente webinar declarou que a câmara está trabalhando para divulgar essa oportunidade por aqui. “O potencial que o Brasil tem é gigantesco, por exemplo no Norte e Nordeste, com o crescimento expressivo da geração solar e eólica, e logicamente com a força da geração hídrica e ainda da biomassa”, disse.

    Pinkowski ainda chama a atenção para o fato de o Brasil ter mão de obra mais qualificada e ser muito mais industrializado do que os países africanos com os quais a Alemanha cogita fazer parcerias para ser suprida com hidrogênio. “Além disso, 95% das empresas que fazem parte do World Hydrogen Council têm filial no Brasil e podem ajudar a alavancar esse mercado”, disse. Na sua opinião, além de aproveitar essa oportunidade global, o país deve desenvolver o consumo local de hidrogênio para fins energéticos, o que ainda não existe. “O potencial interno de consumo é grande e o mercado ficaria maior ainda com a possibilidade de exportação em larga escala”, completou.



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