Glicerina – Oferta restrita e demanda aquecida elevam preços

Pandemia provocou aumento de demanda e reduziu a produção global, elevando os preços

Não é novidade para ninguém que a pandemia da Covid-19 deixou em um ano e meio um rastro de mortes de pessoas e empresas.

Por outro lado, em meio ao caos sanitário, o consumo de glicerina segue crescendo, impulsionado, principalmente, pelo setor de higiene e limpeza.

O diretor superintendente da União Brasileira do Biodiesel e Bioquerosene (Ubrabio), Donizete Tokarski, testemunha que o comércio global de glicerina “tomou proporções nunca vistas, especialmente pela explosiva e abrupta demanda por produtos de higiene e limpeza.

Diversos produtos sanitizantes tem em sua composição a glicerina, o que de uma forma pontual inflou a procura.

Estima-se um consumo médio na ordem de 8 mil a 10 mil toneladas mensais de glicerina em sua base 100% refinada”.

Felipe Camargo, gerente comercial responsável pela unidade de oleoquímicos da Aboissa, ratifica que “o novo coronavírus ampliou o mercado para diversos tipos de produtos de higienização.

O álcool em gel e o álcool 70% foram os dois produtos que mais cresceram desde março de 2021”.

De acordo com a União da Indústria de Cana-de-Açúcar, as vendas de etanol e outros derivados apresentaram crescimento acumulado de 86,57%, atingindo 242,16 milhões de litros vendidos desde o início do ciclo 2020/2021 até 1º de junho.

Apesar da explosão de demanda total por álcoois, principalmente, para produção de produtos de higiene e limpeza, em 2021, Camargo ressalta que esse mercado perdeu tração. Segundo os dados levantados pelo Farmácia App, a demanda por álcool em gel vem diminuindo de forma consistente.

Ao avaliar os resultados regionais, o Sudeste foi o que mais demonstrou queda de consumo, seguido pelo Centro-Oeste, Norte, Sul e Nordeste, respectivamente.

Entretanto, especialistas afirmam que os novos hábitos de higiene estabelecem práticas de medidas preventivas, como lavar as mãos com mais frequência e o uso regular de álcool em gel.

Com o arrefecimento da pandemia, é previsto que o mercado continue caindo até se estabilizar num piso, e que certamente será um piso ainda muito acima do período pré-pandemia.

Química e Derivados - Glicerina - Oferta restrita e demanda aquecida elevam preços ©QD Foto: iStockPhoto

Portanto, com base neste movimento, Camargo considera razoável esperar uma demanda mais contínua por glicerina pelo setor de higiene e limpeza.

Tokarski observa que “o ‘complexo glicerina’, isto é, glicerina em seu estado 80%, co-produto do biodiesel, segue sendo o principal item produzido e exportado.

O principal uso é para a produção de resinas epóxi, via obtenção da epicloridrina. Em termos globais, aproximadamente 50% da demanda está na Ásia, sendo 1/3 na China.

Estima-se uma produção, em 2021, de 4,2 milhões de toneladas de glicerina em base 100%, da qual o Brasil representa cerca de 15% do total”.

Se, em 2020, o setor de higiene e limpeza foi protagonista pela guinada na demanda nacional de glicerina, em 2021 o destaque vai para o setor de resinas para tintas automotivas e imobiliárias, prevê Camargo.

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Felipe Camargo, gerente comercial responsável pela unidade de oleoquímicos da Aboissa

“É importante lembrar que a glicerina é um produto muito versátil, usado como veículo nos mais diversos processos e aplicações. Por isso, acreditamos que a demanda permanecerá estável com viés de alta, pois na medida em que o PNI (Programa Nacional de Imunização) avança, outras atividades industriais que também representam uma considerável fatia no consumo de glicerina voltarão a funcionar próximo dos níveis pré-pandemia e, em razão disso, é esperado um cenário de demanda consistente no curto, médio e até longo prazo”, avalia o gerente da Aboissa.

A opinião de Tokarski é que, por se tratar de um produto quimicamente muito versátil, a glicerina continuará sendo um grande coringa da indústria química.

Seja para aplicações em higiene e limpeza, seja para aplicações químicas mais elaboradas, em substituição de cadeias petrolíferas, como o caso da epicloridrina (ECH), que pode ser feita por rota petroquímica ou por rota renovável, que neste caso é a glicerina submetida a tratamento ácido.

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Donizete Tokarski, diretor superintendente da União Brasileira do Biodiesel e Bioquerosene (Ubrabio)

“A proposta de adoção do HVO, também chamado diesel verde, traz essa desvantagem, também, de não produzir glicerina no processo. Isso já é uma realidade nos EUA e na Europa. Tal movimento tem feito com que grandes compradores destas regiões invistam para produzir glicerina no sudeste asiático (Malásia e Indonésia), bem como no Brasil. Trata-se de uma excelente oportunidade para avançarmos com esse co-produto do biodiesel. Basicamente, o Brasil deixou de ser o ‘patinho feio’ da história”, salienta o diretor da Ubrabio.

Vegetalização – Camargo ressalta que os produtos renováveis já são uma realidade: “Eu não os vejo mais como uma aposta.

Os produtos químicos e/ou petroquímicos estão sendo substituídos por produtos oleoquímicos, feitos à base de óleos e gorduras de origem renovável, e a glicerina faz parte da vasta gama de oleoquímicos”.

“Existe um consenso global no mercado de que a sustentabilidade nas empresas será determinante para a preservação do planeta e da saúde pública, e quem não se comprometer em fazer parte desta mudança, ficará para trás. Inclusive já existe uma tendência de os investidores optarem em investir apenas em organizações que tenham compromisso com a sustentabilidade”, adverte Camargo.

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Para Tokarski, este é o grande paradoxo do momento:

“Há uma crescente demanda por produtos com fórmulas mais insumos vegetais e renováveis, por outro lado, há uma crescente pressão por novas matérias-primas no biodiesel, afinal, não há como não falar em glicerina atualmente sem falar em biodiesel.

O advento da produção global do biodiesel mudou de forma disruptiva as cadeias de suprimento de glicerina mundialmente”.

E acrescenta: “Caso as indústrias de cosméticos e tintas permitam em suas formulações o uso de glicerina de origem mista, isto é, que leve em sua formulação não só óleos vegetais, mas também gorduras animais, estaremos em um oceano azul. Por outro lado, se obrigatoriamente deveremos fazer – e utilizar – glicerina 100% de origem vegetal, será um mercado cada vez mais de nicho”.

A questão dos preços do produto envolve uma ampla discussão. Tokarski conjetura que, devido a uma produção menor de biodiesel (pela menor necessidade de combustíveis globalmente), há uma falta de glicerina no mercado.

Mas, “há uma absurda necessidade de glicerina no mercado em razão da retomada da economia, bem como pelos baixos estoques. Para termos uma ideia, o preço a que hoje se negocia a glicerina em seu estado bruto (80%), é mais alto que os preços pré-Covid para o produto em seu estado refinado (grau USP). Nesse aspecto, o Brasil perdeu mais uma oportunidade quando reduziu a mistura de biodiesel no diesel, pois poderíamos ter produzido mais glicerina”.

Tokarski considera importante destacar que, enquanto em abril/maio de 2020 tivemos um crescimento abrupto de preço, e uma rápida queda desde outubro daquele ano, os preços passaram a crescer de uma forma recorrente, colocando a glicerina em um novo patamar de precificação.

“É fundamental nesse setor considerarmos os custos dos fretes marítimos, quer seja na importação ou na exportação. Fretes que no passado sempre giravam em mil dólares por contêiner para diversos destinos, hoje estão em incríveis US$ 20 mil, mudando as fontes de suprimento de toda a indústria química”.

Por sua vez, Camargo expõe que, neste momento, os preços estão estáveis, porém do lado dos fornecedores existe a expectativa de uma forte demanda, baseada na decisão do senado argentino que, em julho de 2021, aprovou a redução da obrigatoriedade de mistura de biodiesel no diesel comum, passando de 10% para 5%, podendo chegar a 3%.

Em tese, este movimento fará com que os principais compradores busquem mais glicerina no Brasil, o que deve estimular os preços por aqui.

Outro fator: a redução da produção de biodiesel na Indonésia (um dos maiores produtores de biocombustíveis do mundo).

Devido ao agravamento da pandemia pela chegada da variante Delta do vírus, aquele país segue restringindo a colheita de palma e a produção de biodiesel em grande escala; consequentemente, a geração de glicerina se tornou uma grande incógnita.

Sem Argentina e Indonésia no páreo, para aos chineses restará a glicerina do Brasil para comprar. Do lado dos compradores, há um forte anseio sobre o Leilão 81.

Camargo prossegue: apoiados pela decisão do Governo Federal, que em julho de 2021 aumentou a obrigatoriedade de mistura em 2%, muitos compradores acreditam que esse será o melhor leilão de todos os tempos, gerando uma produção recorde de glicerina.

Só no primeiro semestre de 2021, a glicerina nacional chegou a mais de 60 países, sendo que o mais importante deles foi a China.

O gigante asiático absorveu 57,8% das exportações brasileiras, liderando a demanda tanto no segmento 80% (total de 112,9 mil toneladas), quanto na refinada (total de 23,7 mil toneladas).

Conforme a Secex, as vendas de glicerina para a China fizeram US$ 55,5 milhões entrar na economia brasileira nos últimos seis meses.

Hoje os preços variam entre US$ 630-660/t CIF China para glicerina 80%; para glicerina refinada estão girando em torno de US$ 930-960/t CIF China ou R$ 6,10 kg CIF São Paulo, com impostos inclusos.

“Por isso, hoje é praticamente impossível trabalhar o mercado de glicerina sem acompanhar o mercado chinês, que ainda é considerado o principal driver deste produto”, arremata Camargo.

Aplicações – Tokarski, da Ubrabio, diz que em linhas gerais, existem muitos estudos promissores, especialmente pela versatilidade do produto em campos de refrigeração, resinas e lubrificação. Até se fala na produção de hidrogênio através de glicerina.

“No entanto, no momento não vislumbramos nada em curto espaço de tempo, de cinco a sete anos, que venha ser diferente das atuais aplicações de mercado. O problema também é que os altos preços do produto inviabilizam – ainda que momentaneamente – desenvolver novas aplicações”.

Camargo informa que a glicerina está sendo muito utilizada para produção de produtos agroquímicos. Com o crescimento contínuo da produção agrícola brasileira, essa aplicação relativamente “nova” tem se destacado nos últimos tempos.

A Aboissa, discorre o executivo, “está conectada a compradores e fornecedores em mais de 60 países, com equipes especializadas por segmento. Os mais de 30 anos de mercado da Aboissa conferem um vasto conhecimento da cadeia produtiva mundial, experiência, e um networking bastante relevante.”

Camargo foi convidado para apresentar palestra na 18ª edição do Global Oleochem Summit (GOS), realizado entre 14 e 16 de julho último, em Qingdao, na China.

O GOS é um dos principais eventos do mundo voltados para o mercado de produtos oleoquímicos, e a conferência aborda boa parte do mercado de ácidos graxos, ésteres, álcoois graxos e glicerina.

Ele apresentou um cronograma em que explicou a situação atual do mercado brasileiro de biodiesel, que tem impacto direto na oferta de glicerina na América do Sul.

Também traçou um breve panorama do mercado de biodiesel e glicerina no Brasil, incluindo uma visão geral do mercado e indicativos de preço para os mercados doméstico e internacional.

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UFRJ – Após mais de 15 anos de pesquisa na área de conversão de glicerina de produção de biodiesel, o Laboratório de Reatividade de Hidrocarbonetos, Biomassa e Catálise (LARHCO), vinculado ao Instituto de Química da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), diminuiu bastante o ritmo das pesquisas nesta área.

Atualmente, o foco principal é o estudo da produção do carbonato de glicerina e de derivados éteres, acetais/cetais que possam atuar como aditivos para combustíveis, informa o diretor do IQ-UFRJ, professor doutor Cláudio J. A. Mota

Conforme Mota, o carbonato de glicerina é um produto relativamente novo, com aplicações como monômero para produção de policarbonatos, solvente especial, eletrólito para baterias de lítio e uso em produtos de higiene pessoal.

O valor agregado é bastante significativo, pois a faixa de preço do carbonato de glicerina varia entre US$ 5 a US$ 8 por kg de produto.

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Claudio Mota

“Nossos estudos têm focado no desenvolvimento de novos catalisadores e processos de produção. Recentemente, tivemos uma patente concedida para um processo de produção do carbonato de glicerina, onde observamos conversões de praticamente 100%, mesmo com a utilização de glicerina sem qualquer purificação, obtida diretamente do processo de transesterificação”, descreve.

Os estudos dos derivados de glicerina para utilização como aditivos a combustíveis têm foco em éteres e acetais/cetais.

No caso dos éteres, o objetivo é, continua Mota, preparar derivados mistos, nos quais são incorporados diferentes grupos orgânicos na glicerina, através da reação com dois ou mais álcoois.

Um exemplo: “Temos estudado a reação de glicerina com etanol e butanol para produzir derivados éteres contendo grupos de diferentes tamanhos.

O objetivo é melhorar ainda mais as propriedades anticongelantes de combustíveis pela adição de pequenas quantidades destes derivados.

O grupo já demonstrou que os éteres de glicerina melhoram propriedades anticongelantes de combustíveis; a ideia atual é expandir a faixa de diminuição da temperatura de congelamento, de forma que os derivados possam ser utilizados de forma mais ampla, inclusive no contexto climático dos países europeus, onde o inverno é bem mais rigoroso do que no Brasil”.

No caso dos acetais/cetais, Mota explica que a ideia é preparar derivados que tenham atividades antioxidantes. “O grupo já desenvolveu acetais de glicerina com propriedades antioxidantes no passado, pela reação da glicerina com aldeídos aromáticos.

Os estudos atuais são uma continuação desta linha, explorando outros aldeídos e cetonas aromáticas.

A motivação principal é o maior rigor da especificação atual do biodiesel quanto à resistência à oxidação, que exigirá melhores formulações de antioxidantes.

Vale salientar, ainda, que antioxidantes são produtos de ampla aplicação e importante segmento da área de química fina”.

Em 2017, os professores Claudio Mota, Bianca Peres Pinto e Ana Lúcia de Lima, do IQ-UFRJ, publicaram o livro “Glycerol: a versatile renewable feedstock for the Chemical industry”, que é referência internacional no assunto.

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