Comércio e Distribuição de Produtos Químicos e Especialidades

Glicerina – Crescimento do biodiesel provoca inundação no mercado de glicerina, incentivando a descobrir novas aplicações

Marcelo Fairbanks
16 de julho de 2009
    -(reset)+

    Propeno verde absorverá excedentes

    O aproveitamento de recursos renováveis para a produção de resinas termoplásticas deve ganhar o reforço da Quattor em alguns anos. A empresa pretende iniciar a produção comercial de polipropileno feito de propeno derivado do glicerol, a partir de 2012. A tecnologia foi desenvolvida em parceria com a UFRJ e está atualmente em fase piloto, que permitirá coletar dados durante este ano. Essas informações serão úteis para montar a unidade semi-industrial em 2010, com capacidade entre 5 mil e 10 mil t/ano.

    A ideia nasceu na companhia. Entre várias propostas de desenvolvimento de produtos, uma delas chamou a atenção: a fabricação de glicerina sintética, partindo do propeno. “Ficamos pensando se era viável fazer o caminho inverso: fazer o propeno partindo da glicerina; e propusemos uma pesquisa à UFRJ, com quem já tínhamos uma parceria”, relatou Pedro Geraldo Bôscolo, gerente de tecnologia da Quattor.

    Química e Derivados, Pedro Geraldo Bôscolo, Gerente de tecnologia da Quattor, Glicerina

    Pedro Geraldo Bôscolo: planta para 100 mil t por ano deverá partir em 2012

    O projeto foi coordenado pelo pesquisador do IQ-UFRJ dr. Cláudio José A. Mota, que verificou a sua viabilidade técnica, porém entendeu ser necessário aprimorar o processo em duas etapas (hidrogenólise para 1,3 propanodiol e a posterior conversão a propeno) para fazer tudo em uma etapa única, usando catalisadores. Isso resultou nas patentes do processo e do catalisador. “O processo funcionou muito bem no laboratório, mas ainda precisaremos resolver alguns detalhes que venham a aparecer durante o scale up”, disse Mota.

    “O processo patenteado se revela mais eficiente que o das duas etapas”, comemora Bôscolo. A Quattor planeja montar uma planta comercial capaz de gerar 100 mil t/ano de propeno de glicerina, escala considerada mínima para dar viabilidade ao investimento. Para tanto, precisa garantir o suprimento de 260 mil t/ano de glicerina bidestilada, volume quase igual a toda a glicerina de biodiesel que será produzida no país nos próximos doze meses.

    Além das usinas de biodiesel, Bôscolo considera outras fontes. “A Abiquim registra uma produção nacional de glicerina ex-biodiesel de 35 mil a 40 mil t/ano, para uma capacidade instalada de mais de 50 mil t/ano, ou seja, existe ociosidade que podemos aproveitar”, considerou. Além disso, ele também pretende contar com o aumento do processamento de gorduras animais, também fontes renováveis de glicerina, hoje subaproveitadas. “Existem sobras de glicerina na Argentina e em outros países que poderiam ser nossos fornecedores.”

    Bôscolo também conta com a evolução do programa nacional de biodiesel. Dada a capacidade ociosa de produção nacional, é fácil prever a antecipação das metas de incorporação ao diesel, chegando ao B8 até 2012. Importante é que o preço da glicerina não torne inviável o investimento. “O polipropileno verde certamente terá um preço premium, mas não poderá ser totalmente descolado da realidade do mercado”, avaliou. Ele aponta interessados em adquirir o produto nos setores de autopeças, cosméticos e produtos farmacêuticos.

    Mota admite que o sucesso das alternativas para o uso de glicerina de biodiesel pode comprometer a sua disponibilidade. “Com o aparecimento das alternativas, é de se prever uma saturação e com isso um aumento no preço da glicerina”, comentou. “Mas quem sair na frente terá vantagens.”

    Bôscolo informou que até agora não foram feitos estudos sobre a purificação da glicerina para alimentar o processo, até pela falta de informações sobre suas exigências em alta escala. “Pelo que pesquisamos até agora, essa purificação seria feita por processos já consagrados, usando equipamentos usuais, sem maiores dificuldades, e com custos adequados a instalações de grande porte”, explicou.

    Uma vantagem do processo do propeno verde é a liberação de grande volume de água de boa qualidade. Ela pode ser usada na etapa de polimerização ou vendida para consumidores próximos. Isso completa o ciclo, que começa com a captura do gás carbônico pelas plantas oleaginosas. Um fator crítico para a unidade comercial é contar com grande suprimento de hidrogênio. A Quattor dispõe do gás no polo petroquímico paulista e no complexo da Baixada Fluminense. Seria preciso firmar contratos de suprimento de glicerina e montar uma estrutura logística para ela. “A Petrobras movimenta um volume maior ainda de biodiesel, sem problemas”, comentou o gerente de tecnologia da Quattor.

    A localização da planta comercial ainda não foi decidida. Nem a semi-industrial tem essa definição. Por enquanto, apenas o piloto está operando em Mauá-SP, junto ao laboratório de desenvolvimento da companhia. “Ele é mais sofisticado que o reator da UFRJ, admitindo condições mais próximas das reais do processo, com temperaturas acima de 300ºC e pressão de 20 bar”, disse.

    Até o momento, a pesquisa e o desenvolvimento do propeno verde representam investimento da ordem de R$ 2 milhões para a Quattor. O projeto contou com o apoio da Finep. Bôscolo admite que novos aportes financeiros devam ser feitos para se chegar ao processo definitivo.

    Fora a rota glicerínica, a Quattor também estudou a possibilidade de produzir propeno verde pela combinação de etanol e butanol, e também mediante gás de síntese obtido de biomassa. “Ambos são mais caros que a glicerina, que também é mais simples”, avaliou. Bôscolo ressalta a diferença entre a novidade e o aproveitamento de etanol para a produção de polietilenos. “A tecnologia do álcool já é bem dominada, assim como a produção de eteno, que era feita no Brasil na década de 60 e 70 do século passado”, comentou. A Quattor analisa a hipótese de produzir polietileno verde de etanol, dentro do seu planejamento estratégico.



    Recomendamos também:








    0 Comentários


    Seja o primeiro a comentar!


    Deixe uma resposta

    O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *