Comércio e Distribuição de Produtos Químicos e Especialidades

Glicerina – Crescimento do biodiesel provoca inundação no mercado de glicerina, incentivando a descobrir novas aplicações

Marcelo Fairbanks
16 de julho de 2009
    -(reset)+

    O mercado mundial de glicerina está equilibrado, principalmente com o crescimento da demanda de produtos cosméticos, ainda longe de qualquer crise. Além disso, a queda de demanda de combustíveis reduziu a oferta do derivado de biodiesel, aliviando a pressão, especialmente na Alemanha. A Malásia concentrou sua produção de glicerina de óleo de palma nos produtos mais valorizados, com todas as certificações, alcançando preços de US$ 697/t CIF Santos-SP. O maior consumidor mundial é a China, que enxugou o mercado. “Os chineses fecharam contratos de suprimento até o fim do ano, embora os preços não sejam exatamente maravilhosos”, informou. A Aboissa atua como representante no Brasil e no exterior da glicerina bidestilada, mediante contratos. Na loira, atua como broker, em operações spot e sem exclusividade.

    Usos imediatos – O excedente de glicerina de biodiesel provoca a criatividade de vários setores industriais. A indústria de tintas foi a primeira a intensificar o consumo do material para a produção de resinas alquídicas ou como reticulante, disputando a aplicação com o conhecido pentaeritritol sintético. Também há comentários de substituição de polióis sintéticos pelo triálcool. “Os usos nas tintas comportariam de 20% a 30% da loira bidestilada produzida no Brasil”, calculou Camargo. “Mas há fabricantes desse setor que preferem usar a bidestilada, mesmo sendo mais cara.”

    Camargo também aponta aplicações mais imediatas da glicerina a 80%. “Nos EUA, essa glicerina é usada como plastificante para concreto bombeado, ou pode ser aplicada como fluido para perfuração de poços de petróleo”, comentou. Uma aplicação que foi estudada é o uso como componente energético em rações animais, desaconselhado por Camargo, por causa dos resíduos de metanol, condenados pelas políticas de boas práticas de produção (GMP).
    “As saboarias têm a opção de deixar a glicerina na massa do sabão/sabonete, ou destiná-la para outros produtos da linha fabril, evitando separá-la para venda a baixo preço”, comentou Oliva, da Uniamerica. Um uso possível é a substituição do sorbitol como adoçante na produção de alimentos, mas isso se restringe às glicerinas de alta qualidade e certificadas.

    A glicerina também motivou as universidades nacionais a desenvolver pesquisas de novas aplicações. A Universidade Federal da Paraíba, por exemplo, estuda a produção de substâncias bioativas, como antibióticos, analgésicos e leishmanicidas com base na glicerina. A Universidade Federal do Paraná estuda a obtenção de plastificantes para PVC utilizando o mesmo material.

    O Instituto de Química da Universidade Federal do Rio de Janeiro (IQ-UFRJ) montou um grupo de pesquisas em biodiesel que também se dedica ao aproveitamento da glicerina, atento ao crescimento da oferta desse subproduto, sob a coordenação do professor dr. Cláudio José A. Mota. Por conta desses estudos, a UFRJ foi convidada pela Quattor para criar um processo químico para converter a glicerina de biodiesel em propeno apto à polimerização. Essa pesquisa rendeu duas patentes, do processo e do catalisador, das quais a universidade e a empresa são coproprietárias em condições paritárias.

    “Os resíduos de biodiesel são um problema imediato para o qual precisamos encontrar soluções”, salientou Mota. Esse problema não se restringe ao Brasil, pois a Argentina conta com uma boa produção do combustível verde, bem como a Bolívia. “Temos recebido consultas de vários produtores do Brasil e da região sobre isso.”

    Com base em estudos e investigações do IQ-UFRJ, ele aponta várias alternativas para os excedentes de glicerina. Em um primeiro momento, devem ser incentivados os usos imediatos, que dispensem maiores transformações do material, ou seja, exijam pouco investimento. Porém, eles agregam pouco valor à glicerina e tendem a ser deixados de lado em favor de alternativas mais rentáveis.

    É o caso da incorporação a rações animais. “Os resíduos de metanol e outros contaminantes podem ser um problema”, adverte. Outra possibilidade é a injeção da glicerina em poços de petróleo para aumentar a recuperação de óleo em campos maduros, objeto de pesquisas nas universidades da Bahia. “Nesse caso, a produção da glicerina deve estar muito próxima dos poços para que o custo de transporte não onere demais a operação”, considerou. Outra possibilidade é a fermentação da glicerina para a obtenção de biogás, permitindo que as usinas de biodiesel se tornem autossuficientes em energia. “Aqui, as dificuldades são o tamanho das instalações e o destino do lodo residual”, avaliou.

    A queima de glicerina parcialmente desidratada em caldeiras para gerar vapor é desaconselhada pelo pesquisador. A alcalinidade residual da transesterificação (feita com o auxílio do catalisador metilato de sódio ou da soda caústica) é neutralizada com ácidos, resultando na formação de sais dissolvidos. Lançados com a glicerina nas caldeiras, podem se incrustar nas paredes e encurtar a vida útil do equipamento. “Além disso, a queima da glicerina pode formar acroleína, substância muito tóxica”, alertou o professor.

    A acroleína é um intermediário para o ácido acrílico, e pode ser obtida industrialmente pela desidratação e oxidação do glicerol, empregando catalisadores ácidos. “O desafio que se propõe à pesquisa reside na criação de catalisadores bifuncionais, capazes de desidratar seletivamente o glicerol a acroleína e oxidá-la imediatamente, formando o ácido acrílico em uma só etapa”, comentou Mota. Ele salientou que o Brasil importa ácido acrílico e seus derivados (acrilatos e polímeros superabsorventes), não tendo produção local. Outros produtos que podem ser obtidos pela oxidação do glicerol são a di-hidróxi-acetona, aplicada nas formulações de protetores solares, e o ácido hidróxi-pirúvico.

    Mota informou que estão sendo desenvolvidos estudos no Brasil e no exterior para a produção de gás de síntese (CO + H2) aproveitando o glicerol como insumo. Com isso, seria possível produzir hidrocarbonetos na faixa do diesel e da gasolina de fonte renovável, por meio do processo de Fischer-Tropsch. Células a combustível também poderiam aproveitar o hidrogênio para geração de energia. “Também existe a possibilidade teórica de converter cada glicerol em três moléculas de metanol e, assim, fechar o ciclo completo do biodiesel, hoje abastecido de metanol petroquímico”, explicou. Isso exigiria contar com suprimento barato de hidrogênio.



    Recomendamos também:








    0 Comentários


    Seja o primeiro a comentar!


    Deixe uma resposta

    O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *