Comércio e Distribuição de Produtos Químicos e Especialidades

Glicerina – Crescimento do biodiesel provoca inundação no mercado de glicerina, incentivando a descobrir novas aplicações

Marcelo Fairbanks
16 de julho de 2009
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    “A indústria de tintas sempre foi um comprador ocasional de glicerina; agora está usando mais porque o preço compensa”, comentou Arigo Guido Miotto, gerente de vendas da Indústria Agroquímica Braido, produtora há mais de cinquenta anos de glicerina e ácidos graxos pela hidrólise de gorduras de origem animal. “Para nós, esse mercado era apenas eventual, nossos maiores clientes são da indústria farmacêutica, que trabalha com especificação USP [United States Pharmacopea.”

    Miotto explicou que, embora a glicerina obtida nos processos de hidrólise ou de saponificação tenha características diferenciadas, a entrada do subproduto do biodiesel provocou uma queda geral das cotações. “São coisas diferentes, mas o mercado acaba por nivelar por baixo os preços”, disse. Desde 2007, quando começaram a aparecer os primeiros lotes de glicerina de biodiesel, as cotações despencaram de R$ 4 para R$ 0,80 por kg. Segundo informou, desde maio as cotações voltaram para perto de R$ 1,80/kg. O melhor: a glicerina bidestilada grau USP está sendo reconhecida pelos clientes como produto superior, fazendo jus a uma remuneração mais alta. “Com os preços baixos demais, alguns produtores deixaram de atuar no mercado.”

    A Braido processa apenas gorduras animais coletadas em quatro mil pontos, geralmente açougues e frigoríficos no estado de São Paulo.

    Química e Derivados, Daniel Guimarães, coordenador de qualidade da Braido, Glicerina

    Daniel Guimarães: hidrólise de sebo alcança grau USP

    “São resíduos de produtos que passaram pela inspeção sanitária e foram aprovados para consumo humano”, salientou Daniel Guimarães, coordenador de qualidade da companhia. Essas gorduras são colocadas em um reator onde sofrem cisão por hidrólise a alta pressão (23 bar) e alta temperatura (220ºC). Do reator saem a água doce, rica em glicerina, e os ácidos graxos (esteárico e oleico) que são enviados para separação.

    Os principais produtos da Braido são os ácidos graxos, mas a glicerina a 40%-50% vai para destilação, seguida de clarificação e de nova destilação, chegando à pureza mínima de 99,5%. “Estamos produzindo consistentemente entre 99,7% e 99,8%”, afirmou Guimarães. Essa glicerina atende aos requisitos USP.

    “A tendência é diferenciar as glicerinas, com faixas de preços diferentes”, afirmou Eduardo Oliva, coordenador da área de óleos vegetais e produtos fracionados da Uniamerica. “A glicerina de biodiesel carrega resíduos de metanol e outros produtos e não deveria ser usada em alimentos, cosméticos e medicamentos.” As aplicações industriais podem aceitar produtos com teores de glicerol mais baixos, entre 90% e 98%, porém a presença de contaminantes pode interferir na coloração.

    Segundo Oliva, a exportação de glicerina foi uma solução adotada por muitos produtores de biodiesel, cujos tanques estavam lotados de glicerina nos últimos meses de 2008. “Só com a participação da Uniamerica foram vendidas vinte mil toneladas de glicerina para a China entre dezembro e junho deste ano”, informou. A empresa faz a aproximação entre vendedores e compradores, além de oferecer suporte logístico para as operações. “Oferecemos uma solução completa para as duas pontas da cadeia.” Ele informou que os compradores exigem teor de glicerol acima de 80% e baixos índices de metanol residual. Ele adverte, porém, que os estoques das usinas já estão baixos novamente, fato que contribui para elevar as cotações.

    Química e Derivados, Eduardo Oliva, Coordenador da área de óleos vegetais e produtos fracionados da Uniamerica, Glicerina

    Eduardo Oliva: soluções para produtor interessado em exportar

    Os preços em São Paulo também subiram por conta da paralisação de uma grande saboaria, por motivos técnicos. Segundo Oliva, a cotação de meados de junho de R$ 1,80/kg tende a subir para R$ 2. “Porém, o custo de extração e destilação da glicerina está próximo disso”, calculou.

    Outra diferenciação de mercado se relaciona com a matéria-prima usada para a obtenção da glicerina. “Atualmente, a glicerina de origem vegetal consegue melhor preço, por conta do apelo ambiental”, informou Oliva. Os preços mais altos são pagos pela glicerina com certificado Kosher, para uso em produtos alimentícios da comunidade judaica

    “A glicerina Kosher é muito valorizada, mas sua demanda é pequena, tanto que deve existir um ou dois produtores no Brasil, no máximo”, disse Felipe Camargo, da Aboissa. Mesmo a produção de glicerina vegetal é restrita, porque os produtores não querem dispensar o uso eventual de gorduras animais.

    Camargo confirma a redução de estoques da glicerina loira de biodiesel, mas adverte que a entrada da mistura B4 acelerará a sua recomposição. “A glicerina pode se tornar um problema ambiental, caso não se encontrem aplicações viáveis para ela”, afirmou. O resíduo da transesterificação, chamado de glicerina bruta, não tem mercado porque contém muita água (quase 60%). São poucas as usinas equipadas com unidades de destilação. “Mesmo assim, a água que sai do destilador também precisaria ser tratada antes do descarte”, afirmou

    O especialista da Aboissa informou que vários produtores de biodiesel estão investindo em destilarias de glicerina para valorizá-la. “Uma opção é arrendar instalações desativadas de fábricas de sabonete ou similares, capazes de separar a água da glicerina”, disse.



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