Oferta de Glicerina: B15 elevará oferta até 2026

B15 elevará oferta até 2026 e demanda segue firme

Indispensável e multifuncional, a glicerina – glicerol ou propanotriol para os químicos – é um composto orgânico com três hidroxilas, utilizado na fabricação de diversos tipos de produtos químicos cosméticos e farmacêuticos. Pode ter origem natural ou sintética, mas sua principal fonte está na produção do biodiesel, do qual é importante coproduto. Com o aumento da oferta do biocombustível, cresceu também a de glicerina o que motivou a desenvolver novos usos.

Segundo a Verified Market Research (VMR), empresa de pesquisa sediada nos Estados Unidos, o mercado de glicerina refinada foi avaliado em US$ 1,76 bilhão em 2021 e deve chegar a US$ 2,8 bilhões em 2030, crescendo a uma taxa anual de 5,252% de 2023 a 2030. No médio prazo, estima-se que o segmento de cuidados pessoais e cosméticos impulsione o mercado mundial.

Renan Fernandes Mendes, broker da unidade Oleochemical Products da Aboissa, uma das maiores operadoras de commodities da América Latina, confirma a supremacia mundial da oferta de glicerina de biodiesel. “Só no Brasil, estima-se que o segmento seja responsável por 89% dessa produção”, diz.

O especialista informa que, em 2022, o Brasil produziu 6,11 milhões de m³ de biodiesel e um volume equivalente a 10% disso na forma de glicerina bruta. “Em maio de 2023, o governo federal aprovou o B15, programa para aumentar em 1% ao ano a mistura de biodiesel no diesel de petróleo, com o objetivo de atingir a proporção de 15% (B15) em 2026. Atualmente, o mercado nacional opera com o B12. O Brasil conta com 69 usinas de biodiesel e 13 delas já possuem refinarias próprias de glicerina”.

Segundo Mendes, no ano passado, o Brasil exportou 486 mil t de glicerina, tanto bruta quanto refinada, número muito semelhante ao exportado em 2021, sendo 2,21% superior ao exportado em 2020, o primeiro ano da pandemia. Além disso, a produção brasileira de glicerina refinada tende a crescer com a previsão de novas destilarias a partir dos próximos anos.

“A China e a União Europeia são os principais mercados da glicerina brasileira para aplicações diversas, como química fina, cosméticos, farmacêuticos, alimentos e tintas. Do total exportado em 2022, 78,5% foi destinado para a Ásia e 7,9% foi enviado para a Europa, que apresenta uma demanda mais relevante para glicerina refinada, absorvendo 17,7% do total dessa versão mais nobre”, acrescenta Mendes.

Oferta de glicerina, consumo e tributação

Nos últimos anos, uma das demandas que mais cresceu no mundo veio do setor de higiene pessoal, devido aos novos hábitos gerados pela Covid-19. Cosméticos, cremes e demais produtos de cuidados com a pele se tornaram parte do cotidiano das pessoas, e diversos sanitizantes também incluem em sua composição a glicerina. Mendes aponta que os produtos de higiene pessoal, domissanitários e cosméticos somaram um crescimento de 10,9% nas exportações brasileiras do ano passado. O setor de tintas imobiliárias também ajudou a impulsionar a demanda por glicerina.

Com relação aos preços de mercado, o especialista da Aboissa informa que a glicerina refinada grau USP está sendo comercializada a R$ 3,30/kg, e a bruta (80% de pureza), em torno de R$ 1,20/kg, ambos preços CIF SP com impostos inclusos.

Glicerina: B15 elevará oferta até 2026 e demanda segue firme ©QD Foto: IStockPhoto
Mendes: demanda por glicerina não alergênica é crescente

“No âmbito internacional, o mercado opera nos níveis de US$ 450 a 480/t FOB Santos a granel, e a bruta a US$ 300/t CIF China. A glicerina do Sudeste Asiático segue mais competitiva do que a glicerina brasileira”, adverte Mendes.

Uma preocupação recente do mercado brasileiro recai na Reforma Tributária, aprovada na Câmara dos Deputados e enviada para o Senado, na qual poderá ser definido regime de tributação monofásica para combustíveis e lubrificantes, entre outros segmentos.

Mendes avalia que a tributação monofásica poderá ser aplicada na fase de produção do biodiesel e, assim, uma alíquota única de imposto seria cobrada do produtor ou importador.

“A simplificação do sistema tributário poderia reduzir a burocracia e os custos administrativos para as empresas, e a isenção de impostos para os demais elos da cadeia poderia incentivar a redução dos preços de venda do biodiesel ao consumidor final; isso fomentaria a produção de biodiesel e, por consequência, aumentaria a geração de glicerina, tornando-a um pouco mais atrativa. Porém, a concentração da carga tributária na fase de produção pode gerar um aumento significativo nos custos para os produtores de biodiesel, impactando a sua competitividade, dependendo das políticas do governo de cada estado. Mas, sem dúvida, a demanda será o fundamento decisivo para qualquer situação”, comentou.

De acordo com dados recentes do Ministério do Desenvolvimento da Indústria e do Comércio (MDIC), de janeiro a junho de 2023, cerca de 252,11 mil t de glicerina foram exportadas pelo Brasil. No segundo semestre deste ano, o país precisa exportar mais de 234 mil t para superar o total exportado no ano anterior. “As perspectivas para o segundo semestre de 2023 são positivas”, diz.

Mendes informa que a produção de biodiesel na Argentina não vive um bom momento e não há perspectivas de retomada no curto prazo, já que os Estados Unidos renovaram a tarifa antidumping contra o biodiesel argentino.

“As usinas argentinas que quiserem vender para o mercado norte-americano terão que pagar uma alíquota de 159%, o que inviabiliza a operação. Além disso, a Argentina, que é o terceiro maior produtor de soja do mundo, sofreu na atual temporada a maior quebra de safra de soja dos últimos 31 anos, e o governo federal reduziu a produção de biodiesel, comprometendo a produção e oferta de glicerina. Resumindo: as empresas da América Latina que compravam dos produtores argentinos terão que buscar glicerina no Brasil.”

Produtos diferenciados

A Almad produz propilenoglicol (PG), glicerina bidestilada USP e glicerina vegetal para aplicação em cosméticos, higiene pessoal e limpeza.

O diretor Leandro Lovato explica que:

  • “A glicerina bidestilada USP geralmente é obtida de fonte animal, sendo essa a principal diferença quando comparada à glicerina vegetal.
  • O PG é um derivado da cadeia do petróleo, usado na indústria cosmética com diversas finalidades, sendo as mais conhecidas como redutor de viscosidade na dissolução de essências, fixador de fragrâncias, antioxidante, agente antimicrobiano, excipiente ou veículo nas formulações, além de umectante.
  • Essa última finalidade coincide com a glicerina, seja a bidestilada USP ou a vegetal, e ela costuma ser utilizada como umectante, emoliente nas formulações de produtos capilares, cremes, loções, maquiagens, cremes dentais, sabões e sabonetes. Os produtos costumeiramente aparecem nas mesmas formulações, seja com funções diversas ou complementares.
  • Quando e porque usá-los em conjunto ou separadamente não é fácil determinar, pois cada formulação objetiva uma performance ou resultado diferente.
  • O PG, pelo que sabemos até o momento, possui potencial alergênico, enquanto as glicerinas de origem natural (animal ou vegetal) são classificadas como hipoalergênicas.
  • Embora grande parte das aplicações de ambos sejam equivalentes, em alguns casos, o uso das glicerinas promove melhor apelo ambiental, pois o PG faz parte da cadeia de derivados do petróleo, além da questão do potencial alergênico.
  • Atualmente também se fala no PG Plant-Based, gerado a partir da soja ou canola.”

A glicerina bidestilada é um dos componentes do álcool gel, produto que se tornou líder de vendas durante o período crítico da pandemia de Covid-19. Lovato diz que o aumento de consumo de matérias-primas para o álcool gel, evidenciado durante o período de pandemia, não se manteve e caiu em desuso por conta do controle da doença. Mas se mostra confiante com o desempenho do mercado de cosméticos.

Glicerina: B15 elevará oferta até 2026 e demanda segue firme ©QD Foto: IStockPhoto
Lovato: consumidor prefere ingredientes de origem vegetal

“Recentemente, recebemos um relato de queda de 60% da produção de álcool gel quando comparada ao ano 2021. Acreditamos, sim, numa retomada aos níveis pré-pandemia de crescimento da indústria cosmética brasileira. Esse é um dos ramos de atividade que mais cresce no mundo. Segundo o Euromonitor International, o Brasil possui o quarto maior mercado de beleza e cuidados pessoais no planeta. No primeiro semestre de 2022, pesquisas mostravam crescimento de 24% do mercado cosmético brasileiro em relação ao ano anterior.”

Outra tendência que vem se confirmando no segmento é o aumento da demanda por produtos com fórmulas contendo insumos vegetais.

O diretor da Almad confirma: “sim, há essa crescente demanda por produtos feitos de insumos vegetais, até mesmo pelo grande apelo mundial voltado a produtos veganos e green. Hoje existe um mercado mais seleto para produto vegetais, pois algumas empresas do segmento de cosméticos e de alimentos exigem produtos ‘isentos de testes em animais’. Pelo custo ao qual a glicerina está no mercado, até existem algumas alternativas de outras matérias-primas, não com as mesmas características ou preços melhores que ela”, diz o empresário, acrescentando que no portfólio da empresa também há especialidades à base vegetal.

“Sim, existe demanda para glicerina com certificação Kosher e Halal, e a Almad está apta a fornecer esses produtos.”

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Oferta de glicerina: Produção e pureza

O processo produtivo da glicerina pura e sua aplicação na indústria de cosméticos e/ou outros segmentos de consumo, é explicado pelo especialista Renan Fernandes Mendes.

“A diferença entre a glicerina produzida por via química e a produzida por via fermentativa está no processo de obtenção. A glicerina obtida por via química surge a partir da hidrólise de óleos e gorduras, enquanto a via fermentativa se dá por meio da fermentação de açúcares ou outros materiais orgânicos. Ambas as rotas resultam na obtenção de glicerina pura, amplamente utilizada na indústria de cosméticos devido às suas propriedades hidratantes e umectantes. Além disso, ela também é aplicada em outros segmentos, como a indústria farmacêutica, alimentos, tintas, colas e adesivos, tabaco, etc.”

A literatura registra que o glicerol foi produzido pela primeira vez pelo químico farmacêutico sueco Carl W. Scheele, em 1779, pelo aquecimento do óleo de oliva com litargírio (óxido de chumbo). A partir de 1948, o glicerol passou a ser produzido sinteticamente por rota petroquímica. Todavia, nos últimos anos, a rota de produção sintética, embora ainda utilizada em alguns países, tem diminuído devido a questões ambientais e de custos. No Brasil, a rota química predominante é a hidrólise de gorduras animais e óleos vegetais, e o processo por esta via é considerado de baixa complexidade tecnológica.

“A glicerina refinada 99,5% é obtida pelo refino da glicerina bruta, também conhecida como glicerina loira, com um teor mínimo de 80%”, detalha Renan Mendes.

“Estima-se que mais de 88% da glicerina refinada de alto grau de pureza produzida no mercado brasileiro seja oriunda do processo de transesterificação de óleos e gorduras naturais. O glicerol primário, um subproduto gerado no processo de transesterificação, também conhecido como glicerina bruta ou glicerina loira, contém água, sais, cinzas, material orgânico não glicerol (mong), óleo residual e traços de metanol. Para que a glicerina bruta se torne uma glicerina padrão cosmético, é necessário que o produto seja submetido ao refino, que compreende a destilação, clarificação e desodorização. Após esse processo, tudo aquilo que não era glicerol é removido, elevando grau de pureza ao nível mínimo de 99,5%, sendo incolor e inodoro, características exigidas pelo setor cosmético.”

Tendências de mercado

Entre as fontes de composição da glicerina vegetal está a soja que, entretanto, é considerada alergênica no caso de produtos destinados à aplicação sobre a pele. Por esta razão, os fabricantes têm buscado alternativas livres de alergênicos, que incluem a utilização de glicerina obtida de óleo de coco, palma, girassol ou canola. A Aboissa confirma que tem observado um aumento significativo na busca por glicerina refinada com um teor mínimo de 99,50% e livre de alergênicos, para aplicações cosméticas e alimentícias.

Essa tendência também é apontada pela consultoria indiana Mordor Intelligence, em suas Previsões 2023/2028, apontando que a maioria dos fabricantes de glicerina refinada está optando por substitutos como dietilenoglicol, ceramidas, óleos de manteiga, entre outros.

Diante de perspectivas tão animadoras de crescimento de consumo e da busca por bases naturais, os players de bens de consumo e higiene pessoal como Unilever e P&G estão adotando, cada vez mais, o glicerol natural como matéria-prima para desenvolvimento de seus produtos”, diz o estudo.

O relatório também informa que dados do Programa de Registro Voluntário de Cosméticos da FDA mostram que a glicerina é o terceiro ingrediente mais usado em cosméticos, depois da água e da fragrância, estando presente em mais de 23 mil produtos.

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