Instrumentação Analítica – Fusão cria gigante do analítico

Dois dos maiores nomes da instrumentação analítica mundial, empresas pioneiras do Vale do Silício (Califórnia, EUA), consolidaram suas operações mundiais, formando um gigante nos campos de análises químicas, biológicas, eletrônicas e de telecomunicações.

A Agilent Technologies (separada da Hewlett-Packard em 1999) finalizou o processo de compra – por US$ 1,95 bilhão – e integração de negócios da Varian em 1º de novembro de 2010, assumindo as suas conhecidas linhas de espectrometria, ICP óptico, ressonância magnética nuclear (RMN), sistemas de alto vácuo e dispositivos de preparação.

Órgãos reguladores da concorrência da Europa e dos Estados Unidos impuseram a venda de algumas linhas de produtos para concorrentes realmente capazes. Dessa forma, as linhas Varian de ICP-MS, Lab GC e GC-MS Quadrupole foram adquiridas pela Bruker.

A Inficon ficou com os analisadores dedicados de gases para indústrias da série 3000A MicroGC, da Agilent.

Os resultados da Agilent para o ano fiscal que foi encerrado em 30 de outubro indicam um faturamento global de US$ 5,4 bilhões, sem incluir os negócios da Varian.

O faturamento de 2009 foi de US$ 4,5 bilhões. Para 2011, já com os produtos da adquirida, a previsão de faturamento sobe entre 13% e 16%, somando entre US$ 6,1 bilhões e US$ 6,3 bilhões.

A estrutura da Agilent se divide em duas grandes divisões de negócios em medições: bioanalítica e eletrônica. O mercado mundial de medição eletrônica, incluindo energia e telecomunicações, é estimado em US$ 12 bilhões, com crescimento médio anual entre 4% e 5%. Para a Agilent, essa divisão responde por 52% de suas vendas.

A medição bioanalítica, que se divide nas áreas de biociências e análises químicas, tem mercado mundial estimado em US$ 28 bilhões, respectivamente de US$ 19 bilhões e US$ 9 bilhões, com evolução anual de 5% a 7%.

Química e Derivados, Reinaldo Castanheira, Agilent, biociências registrou crescimento
Castanheira: filial brasileira cresce sob a influência dos genéricos

“No Brasil, a nossa área de biociências registrou crescimento de 52,2% em vendas durante 2010, puxadas pelo setor farmacêutico, análises de qualidade de alimentos e bioenergia”, informou Reinaldo Castanheira, gerente-geral da Agilent Brasil para as áreas de análises químicas e biociências (divisão bioanalítica). O potencial de negócios no Brasil é musculoso, considerando os investimentos na produção de medicamentos genéricos, todos exigentes de instrumentos analíticos para controle de processos e de qualidade. Além disso, a Agilent prevê aumento de vendas para aprimorar o controle de qualidade dos alimentos direcionados para exportação. Dos grãos às carnes, não se aceitam mais resíduos de defensivos agrícolas, muitos deles banidos em vários mercados. “O país ainda está atrasado nisso, faltam até laboratórios acreditados internacionalmente para fazer essas análises”, comentou, apontando como exceção o laboratório da Universidade Federal do Rio de Janeiro, devidamente credenciado pela entidade que fiscaliza o uso de substâncias dopantes em modalidades esportivas olímpicas.

Aliás, Castanheira não espera grandes negócios por conta da Copa do Mundo de 2014 e da Olimpíada de 2016, ambas marcadas para o Brasil. “Já existe uma estrutura laboratorial bem equipada para isso, não vejo a necessidade de grandes investimentos nesse campo”, avaliou.

Um dos campos nos quais essa divisão tem encontrado largo caminho de crescimento está nas análises forenses, atividade mais conhecida no Brasil como Medicina Legal. As técnicas analíticas avançadas permitem caracterizar substâncias e identificar pessoas com base em poções muito diminutas de materiais coletados, incluindo todo o tipo de análises químicas, bioquímicas e até de identificação de DNA (ácido desoxirribonucleico, componente básico do código genético dos seres vivos). “Existem laboratórios bem equipados para isso no Brasil, mas são ainda em pequeno número”, comentou Castanheira.

As aplicações forenses dos produtos da Agilent contam com uma ampla divulgação entre o público em geral. Seus instrumentos aparecem frequentemente nos cenários de seriados americanos de investigação criminal, como o famoso CSI.

No mundo real, as aplicações na área de controle ambiental estão ganhando força no Brasil, junto com os negócios ligados ao petróleo e à energia. “No exterior, as vendas de instrumentos para monitoramento de resíduos de petróleo dispararam desde o acidente com a plataforma Deep Horizon, no litoral da Flórida”, comentou Castanheira. Isso se deve à decisão do governo americano de instalar várias estações de coleta e análise da água do mar ao longo do litoral americano para avaliar o impacto do vazamento de óleo.

Na área médica, ele apontou uma diferença importante entre as pesquisas atuais e as de décadas passadas. “Antes, o foco das análises estava ligado ao mapeamento do genoma, mas agora os cientistas estudam mais a estrutura das proteínas e o metabolismo humano”, explicou. Essas duas linhas de estudos levaram à criação de duas novas especialidades: proteômica e metabolômica, respectivamente. Para a indústria farmacêutica, está escondida nas proteínas (e no seu desequilíbrio ocasional) a fonte dos medicamentos do futuro, mais do que nas linhas tradicionais de síntese.Também os remédios de origem natural, como os fitoterápicos, abrem novos campos para a instrumentação analítica. “É preciso determinar os princípios ativos e também as contaminações presentes nos extratos vegetais”, exemplifica Castanheira.

Todas essas aplicações se servem do arsenal analítico atualmente disponível, exigindo, porém, o conhecimento das técnicas para a elaboração de novos procedimentos e ensaios de análises. Mesmo no caso das simples repetições de protocolos conhecidos, é preciso contar com pessoal qualificado nos laboratórios, para evitar erros.

Castanheira enfatizou a importância de o Brasil melhorar a formação de técnicos e analistas de nível superior, capazes de aproveitar a tecnologia disponível da melhor forma possível. “Temos clientes que não conseguem expandir suas atividades analíticas por falta de pessoal qualificado”, afirmou. A situação só não é pior porque os fabricantes de instrumentos investiram muito nos últimos anos em softwares de controle e operação dos instrumentos, atualmente capazes de realizar milhares de análises sem a intervenção de operadores. “Estes, porém, precisam preparar bem as amostras para alimentar os instrumentos”, salientou.

Química e Derivados Cromatógrafo líquido modular LC 1200 da Agilent
Cromatógrafo líquido modular LC 1200 da Agilent

Além da operação automática

É possível deixar um instrumento trabalhando sozinho durante toda a madrugada, por exemplo – e das rotinas de autoajuste e autocalibração, os fabricantes também dotaram seus instrumentos de sistemas de validação e rastreamento das análises em conformidade com as principais normas internacionais. “Essa parte, voltada para o aumento da produtividade laboratorial, avançou mais que as técnicas analíticas propriamente ditas nos últimos anos”, admitiu Castanheira.

Para o futuro, ele espera que os sensores tirem proveito dos avanços da nanotecnologia para ampliar sua capacidade, oferecer novas funções e ainda ganhar praticidade em relação aos atuais. A tendência de criar analisadores dedicados para uma determinada substância ou elemento químico utilizando instrumentos de uso geral, como cromatógrafos, não deve ir muito além da situação atual. “Onde for possível instalar um analisador dedicado, ele certamente estará lá, mas eles sempre serão mais limitados que os instrumentos de bancada”, explicou. Como exemplo, ele citou as análises de cunho ambiental. “Já estamos falando na detecção de atogramas, ou seja, uma escala mil vezes menor que um fentograma, isso só se consegue dentro de laboratórios.”

Linha ampliada

A incorporação da Varian abriu para a Agilent a possibilidade de atuar em maior número de clientes e produtos a analisar. A compradora já tinha liderança nas técnicas de cromatografia gasosa (GC, indicada para analisar substâncias voláteis) e líquida (LC, para substâncias termicamente sensíveis), e espectrometria de massa (MS, para detecção e diferenciação de elementos e substâncias, geralmente associadas a uma técnica de separação, como os cromatógrafos) com ou sem acoplamento a plasma (ICP, acessório para análise de metais em baixa concentração).

As linhas da Varian abrem as portas para a aplicação de espectroscopia atômica por absorção (usada para determinar resíduos de metais pesados, teor de nutrientes em plantas ou para detectar metais em lubrificantes, um indicador de desgaste), bem como para usar a técnica altamente sensível de armadilha de íons (ion trap) em MS, além do plasma induzido óptico, mais econômico que a técnica de ICP/MS.

A Varian também desenvolveu alta tecnologia em instrumentos analíticos por ressonância magnética nuclear (RMN), com usos nas linhas químicas e farmacêuticas, gerando imagens que mostram em que posição se localiza um determinado resíduo ou contaminante, facilitando a determinação de métodos de intervenção. Também auxilia a determinar estruturas moleculares.

A adquirida também desenvolveu bem as bombas de alto vácuo, aparelhos de cromatografia líquida preparatória (usada para separar os constituintes de extratos vegetais, por exemplo), linhas de equipamentos completos para testes de dissolução, que simulam a deglutição de remédios no corpo humano, para avaliar a taxa de absorção dos fármacos e o comportamento dos revestimentos.

A união de forças terá reflexos imediatos. Desde 1º de novembro, o quadro de pessoal da Agilent no Brasil foi praticamente duplicado, com a agregação das equipes Varian. Como são atividades complementares, não há previsão de cortes. Em âmbito global, a união dos gigantes permitirá ampliar em US$ 75 milhões o orçamento para pesquisas. A Agilent atua na venda de instrumentos, softwares e consumíveis, além de oferecer serviços diversos, voltados para o planejamento da atividade laboratorial, consultoria para elaboração de novos protocolos analíticos e também em treinamento e formação de analistas.

Quanto à eterna queixa dos compradores em relação ao custo dos sofisticados instrumentos analíticos, Castanheira recomenda avaliar os resultados obtidos com esses equipamentos, cuja produtividade atual é gigantesca. “Não podemos conseguir financiamento do tipo Finame, pois são aparelhos importados, mas estão disponíveis algumas operações de leasing muito interessantes”, comentou.

Ele descartou a possibilidade de iniciar a fabricação local desses instrumentos, pela falta de escala e de componentes de alto conteúdo tecnológico. Curiosamente, a produção dos instrumentos da Agilent se encontra espalhada por diversos países. “Vários instrumentos foram desenvolvidos em cooperação com pesquisadores e universidades diferentes, e isso levou à instalação fabril nesses locais, mas ela é eficiente, não teria sentido unificar tudo em um só local”, explicou Castanheira.

O fato de os instrumentos se tornarem cada vez mais produtivos, realizando mais análises por dia, não reduz a demanda por eles. Isso se explica pelo aumento nas exigências de qualidade em todos os tipos de produção, impondo mais e mais análises. A troca de custódia de gás natural, por exemplo, requer a caracterização das substâncias presentes por parte de quem o recebe e de quem o envia, para efeito de cobrança pela qualidade do produto. Mercado não falta.

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