Ferramenta de gestão para a indústria química

Gestão - Revisão transformará o programa em ferramenta de gestão para a indústria

Um complexo trabalho de remodelamento do Atuação Responsável no Brasil vai unificar o programa com as normas ISO, incluir novos temas e deixar sua estrutura dividida por processos.

O objetivo é torná-lo mais abrangente e simples de ser adotado.

Para fazer jus ao princípio da melhoria contínua, presente na maior parte dos sistemas de gestão, o programa da Atuação Responsável deu início a intenso processo de revisão.

O propósito visa atender a uma demanda de mudança vinda dos próprios signatários, e da sua coordenação geral, que sonham em ter um programa mais amplo e ao mesmo tempo mais simples de ser adotado.

Já com 11 anos de adoção no Brasil, e compulsório aos associados da Abiquim, o sistema de gestão de saúde, segurança e meio ambiente da indústria química estava começando a ser visto como ultrapassado.

Principalmente pelas associadas mais adiantadas na implantação dos códigos, aquelas que normalmente lideram o andamento do programa.

Química e Derivados: Atuação: Soto - o sistema estava deixando de ser um desafio.
Soto – o sistema estava deixando de ser um desafio.

“Chegamos a um ponto em que o Atuação Responsável deixou de ser um desafio, tornando-se apenas uma ferramenta cotidiana para implantar os procedimentos de gestão”, afirmou o gerente corporativo de saúde, segurança e meio ambiente da Braskem, Jorge Soto, também responsável pela comissão técnica do programa pela Abiquim.

Segundo ele, para voltar a ter esse perfil mais desafiador o AR precisava de nova roupagem, mais abrangente, que abarcasse outros tópicos, além dos aspectos de saúde, segurança e meio ambiente, de modo a preparar a signatária para a chamada excelência empresarial.

“O objetivo é o desenvolvimento sustentável”, diz.

Esses outros itens referidos por Jorge Soto são, num primeiro momento, as questões da qualidade e responsabilidade social, que começam a ser consideradas por grupos de estudo da Abiquim para se tornarem práticas gerenciais do programa.

Mas também englobam novíssimas questões, como a proteção corporativa, ou no original em inglês, security. Este último item nasceu nos Estados Unidos depois dos atentados de 11 de setembro, como medida de prevenção contra eventuais ameaças do gênero também à indústria química.

Mas a mudança do programa, cujas discussões se iniciaram no começo do ano e devem se alongar pelo menos até o fim de 2004, será muito mais complexa do que o simples acréscimo de novas práticas ou códigos. Para começar, a fim de incorporar esse aspecto amplo e ambicioso de levar a empresa à chamada excelência, toda a estrutura teórica e até ideológica do Atuação Responsável será reformulada.

Os seus princípios diretivos, espécie de mandamentos centrais do programa, terão um novo texto da visão, da ética e dos valores do AR. Esse texto já tem até uma primeira versão pronta, aprovada pelo conselho diretor da Abiquim, a ser apresentada ao público no próximo congresso do Atuação Responsável, de 29 de setembro a 1º de outubro de 2003, em São Paulo.

Química e Derivados: Atuação: atua_abre.

Na nova visão proposta, fica evidente a mudança de rumo. Segundo o próprio texto da versão, o programa “será a principal referência (…) para a sustentabilidade econômica, ambiental e social da indústria química e de sua cadeia de valor, visando a permanente melhoria da qualidade de vida da sociedade”.

Nota-se aí que a preocupação ideológica do programa deixa de ser apenas com os critérios limitados e técnicos das práticas ideais de saúde, segurança e meio ambiente, como ainda é na ética atual (ver QD-382, pág. 9), ganhando agora um caráter mais engajado.

“Queremos menos engenharia e mais sociologia”, explica Jorge Soto, referindo-se à nova visão.

O caráter menos tecnicista, porém, não significa que a estrutura do Atuação Responsável não passará por modificações técnicas.

Pelo contrário, o próprio ordenamento por códigos, que hoje segmenta o programa em seis itens (segurança de processos, saúde e segurança do trabalho, transporte e distribuição, proteção ambiental, diálogo com a comunidade e atendimento a emergências e gerenciamento de produto), não existirá mais.

Para tornar seu perfil mais adequado para a implantação de um sistema de gestão integrado, um novo modelo, dividido por áreas de processo e de apoio, foi montado entre os membros-líder da Abiquim para discussão entre os demais participantes.

Química e Derivados: Atuação: Proposta de nova estrutura do programa.
Proposta de nova estrutura do programa.

“Estamos fazendo um esforço de harmonização e integração das práticas de todos os códigos, para evitar duplicações de procedimentos e simplificar a implementação do programa”, explicou o gerente de assuntos técnicos da Abiquim, Marcelo Kós.

Com a nova estrutura por áreas de processo, isso significa que práticas comuns aos variados códigos, antes repetidas, poderão agora servir de uma vez a todos os aspectos do programa, sejam eles, saúde, segurança, meio ambiente ou os aspectos ainda a ser incorporados, como qualidade ou responsabilidade social.

Um exemplo seria uma prática que indica a necessidade de se ter um plano de emergência para acidentes, que antes poderia estar no código de segurança de processos e também no de saúde e segurança do trabalho.

Com a revisão, ele se unifica. Na avaliação de Kós, esse movimento de harmonização reduzirá o total de práticas das 116 atuais para prováveis 70.

Em vez de códigos, no novo modelo por áreas de processos haverá guias de práticas de gestão. Cada um dos guias reunirá as práticas harmonizadas e detalhadas com o procedimento de aplicação específico para os aspectos abordados.

Ao todo, deverão ser propostas quatro áreas de processo: cadeia de suprimento, produção, transporte e distribuição e comercialização dos produtos. Além desses, haverá ainda mais duas áreas consideradas de apoio: diálogo com as partes interessadas e P&D, I (pesquisa, desenvolvimento e inovação).

Uma auditoria só – Outra preocupação técnica com o novo Atuação Responsável é fazer o programa ser harmônico com as normas de certificação tradicionais: ISO 9000, de qualidade; ISO 14000, de meio ambiente; e OHSAS 18000, de segurança.

Química e Derivados: Atuação: Kós - revisão vai deixar versão brasileira inédita.
Kós – revisão vai deixar versão brasileira inédita.

“Vamos seguir a linha de implantação das normas”, explicou Marcelo Kós. A idéia de sinergia tem como objetivo permitir, no futuro, que a empresa submetida ao processo de verificação do Atuação Responsável, o VerificAR, ao mesmo tempo seja certificada ou auditada para as normas citadas.

Essa tarefa não será das mais difíceis, segundo informa o gerente da Abiquim. Isso porque as empresas especialistas nas normas, certificadoras e consultorias como Bureau Veritas, DQS, SGS,

Fundação Vanzolini, já participam do VerificAR como líderes das comissões de verificação, que ainda contam com representantes da comunidade, de outras signatárias e da Abiquim.

Essa participação facilita a sinergia e deve encaminhar o programa para seguir o ciclo de implementação das normas, conhecido como PDCA (planejamento, implementação, mensuração e avaliação, e revisão e melhoria).

Também faz parte da etapa de sinergia com outros modelos de gestão a adequação do AR com o Prêmio Nacional da Qualidade (PNQ). Os novos guias de implementação terão o cuidado de responder também os questionamentos necessários para concorrer ao PNQ, e de forma ainda mais detalhada.

“Convidamos a FNPQ [Fundação para o PNQ] e a FEA-USP [Faculdade de Economia e Administração da USP] para participar da elaboração do novo modelo”, ressalta Kós.

Depois de discutido o modelo com as signatárias, o plano é sentar com as certificadoras para promover melhor sinergia e até mesmo alterar o atual VerificAR, para adequar automaticamente as empresas aos outros sistemas.

Para o coordenador executivo do Atuação Responsável, Antonio Rollo, também diretor superintendente da Akzo Nobel, toda essa movimentação, em resumo, se traduz em dois pontos fundamentais: transformar o programa em uma ferramenta de gestão ampla e inédita e simplificá-lo de tal maneira que qualquer empresa química, inclusive as não-associadas da Abiquim, possa implantá-lo.

Química e Derivados: Atuação: Rollo quer aumentar transparência externa.
Rollo quer aumentar transparência externa.

“A revisão é uma oportunidade única de se criar um programa que definitivamente melhore a imagem da indústria química, tornando seu processo mais transparente”, diz.

Tanto é assim que, segundo ele, são grandes objetivos da revisão focar com mais preocupação os indicadores de desempenho, para oferecer e divulgar mais dados ao público externo, e a tentativa de voltar as atenções da sociedade e do próprio setor mais para os produtos da indústria do que para seus processos.

Nesse ponto, ganha importância os trabalhos de análise do ciclo de vida do produto.

Para facilitar o acesso do programa a empresas menores, a idéia é escrever uma cartilha com as 20 principais práticas. Voltada especificamente para indústrias sem muita estrutura, a iniciativa será um Atuação Responsável resumido, possivelmente denominado manual PreparAR.

“Será uma ponte para quem não tem nenhum sistema de gestão poder se aproximar do programa”, afirmou Marcelo Kós. Segundo ele, aliás, trata-se de projeto pioneiro no mundo. Nenhum dos 47 países signatários do AR até hoje cogitou iniciativa semelhante.

“Tenho certeza que o manual terá boa aceitação mundial, visto que atende um anseio da coordenação mundial do programa de expandi-lo a empresas e países de menor importância econômica”, diz.

Mas não é só nesse aspecto que Marcelo Kós vê pioneirismo no processo de revisão brasileiro.

De acordo com ele, apesar de a associação internacional da indústria química (ICCA) promover mundialmente o reordenamento do Responsible Care, nenhum país faz as modificações no nível da realizada pelo Brasil.

“No mundo, a revisão se limita aos princípios diretivos, que vão ser mudados para ter um caráter global e voltado ao desenvolvimento sustentável”, afirma. Isso não significa que os outros países estejam mais avançados que o Brasil, por não estarem fazendo revisão.

Nos Estados Unidos, agora é que está sendo criado um sistema de verificação para o programa completo de gerenciamento, o RCMS (Responsible Care Management System).

Até então havia apenas uma verificação harmonizada com a ISO 14001, concedente da certificação RC 14001, voltada para atender às exigências ambientais de montadoras americanas.

Química e Derivados: Atuação: Grau de Prioridade da revisão do Atuação Responsável.
Grau de Prioridade da revisão do Atuação Responsável.

Quando ficar pronta, a revisão deve tornar o programa brasileiro inédito. Apesar da versão canadense também ser estruturada por processos, ela não tem o mesmo perfil harmonizador com as demais normas e não inclui os novos temas, como questões sociais e a proteção corporativa (security).

“Nenhum programa no mundo terá a amplitude do nosso”, prevê Marcelo Kós. Esse papel de liderança do Atuação Responsável nacional, aliás, se manifestará logo após o congresso deste ano, quando a Abiquim organiza nos dias 2 e 3 de outubro o 1º Encontro Sul-Americano do Atuação Responsável, atendendo a uma solicitação da ICCA para promover a união regional dos países signatários.

Security – Apesar do Brasil em certos pontos situar-se à frente de países desenvolvidos, na questão da proteção corporativa, ou security, a Abiquim e seus associados seguem uma onda provocada pelos Estados Unidos.

Com os atentados às torres gêmeas de 11 de setembro de 2001, a sociedade americana aumentou consideravelmente as atenções contra eventos voluntários que coloquem em risco sua segurança. Esse surto paranóico atingiu também a indústria química americana, um alvo óbvio para terroristas que porventura desejem provocar acidentes de graves proporções em instalações industriais.

Gestão - Atuação Responsável - Diferenças entre o antigo e o futuro programa
Gestão – Atuação Responsável – Diferenças entre o antigo e o futuro programa

Como resposta, a associação americana da indústria química (ACC) criou em tempo recorde, um mês após os atentados, em outubro de 2001, um documento chamado Security Guideline for US Chemical Industry, que daria origem, em julho de 2002, ao código de segurança corporativa e logo em seguida ao seu guia de implementação.

Trata-se de caudaloso material, criado com a liderança de empresas americanas mais adiantadas nessa questão, que em suma contém 13 práticas complexas para promover a segurança da corporação, das instalações e das pessoas da indústria contra eventos provocados.

A partir da iniciativa, todas as indústrias químicas associadas da ACC passaram a ser obrigadas a adotar o código em um cronograma apertado.

O documento tornou compulsória às empresas a aplicação de um protocolo da Sandia National Laboratories, que realiza análises da vulnerabilidade e cuja metodologia permite a definição dos riscos da corporação.

Com o protocolo, as empresas passam a ter elementos para fundamentar medidas de proteção, com mapeamento das probabilidades de sofrer eventos indesejados e dos prazos para se proteger.

Faz parte ainda do código americano medidas para pesquisar os antecedentes de funcionários e prestadores de serviços, para controlar o acesso e cercar as instalações, e até mesmo procedimentos para se adotar serviços de inteligência.

Nesse último caso, embora pareça exagero, trata-se de ocorrência adotada por alguns grupos empresariais até antes do 11 de setembro. Para evitar e desmascarar casos de espionagem industrial, empresas como Dow e DuPont já utilizavam desse metiê e passaram a usá-lo com mais uma nova função: a de se precaver de terroristas.

Não por menos, o diretor global de segurança corporativa da DuPont é um ex-agente da polícia federal norte-americana, o FBI.

No Brasil, logicamente, estão sendo necessárias várias traduções e adaptações. Em primeiro lugar, a própria tradução do inglês da palavra security demandou discussões no grupo de estudos da área na Abiquim. Isso porque tanto safety, utilizado para definir segurança do trabalho, como security, possuem o mesmo significado literal em português de segurança.

Química e Derivados: Atuação: Garcia - security vai dar origem a práticas.
Garcia – security vai dar origem a práticas.

“Mas não poderíamos manter a palavra, sob o risco de interpretações errôneas”, explicou o responsável pela comissão formada na Abiquim para implantar o tema, César Garcia.

A solução foi criar o termo proteção corporativa. A discussão lingüística também gerou outras conclusões.

Segundo explica Garcia, safety, a segurança ocupacional, significa proteger a empresa contra eventos involuntários, ou seja, acidentes do trabalho. Já security se traduz como a segurança contra agressões voluntárias, de terroristas ou afins.

A definição para o sentido correto em português também demandou outra pequena correção, de cunho mais factual à realidade brasileira. As agressões voluntárias de origem nacional são provenientes de outro tipo de criminoso.

Afinal de contas, até agora o Brasil não criou animosidade com o mundo islâmico, como os Estados Unidos.

No caso brasileiro, evidentemente, as precauções são voltadas para o crime comum, desde roubo de cargas e agressões a funcionários e executivos das empresas, até assaltos, seqüestros e demais contravenções.

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Os trabalhos da equipe coordenada por César Garcia, que reúnem profissionais da área de segurança do trabalho e patrimonial, de tecnologia da informação e de logística, começaram com a tentativa de identificar nos códigos atuais do Atuação Responsável alguma prática igual à do documento de security da americana ACC.

Para espanto da equipe, foi encontrada apenas uma, que dita procedimentos para a prevenção na entrada de pessoas não-qualificadas em áreas impróprias da fábrica. Mesmo assim, a prática é muito genérica e visa atender cuidados em prevenir acidentes de trabalho.

A criação das práticas brasileiras, porém, ainda está em fase incipiente. “A primeira etapa do trabalho será entender o que está no código americano para, a partir daí, traduzi-lo à nossa realidade com o novo formato por áreas e de excelência que o programa revisado terá”, explica Garcia.

Para a adaptação do tema no AR, aliás, que faz parte das metas de curto prazo, a participação da DuPont, onde César Garcia exerce o cargo de gerente de segurança corporativa para América do Sul, será fundamental.

A multinacional de origem americana já possui estrutura de segurança corporativa no Brasil com características semelhantes da planejada a se incorporar no Atuação Responsável.

Seguindo os princípios adotados por sua matriz, a DuPont tem várias práticas específicas de security, já adaptadas à realidade brasileira. Além de a empresa contar com serviços tradicionais de segurança patrimonial, com seguranças e controle de acesso com tecnologia de sensores, adota também medidas pouco usuais.

Há treinamentos constantes para evitar que os funcionários sejam vítimas de ocorrências fora do ambiente de trabalho e ainda a contabilização de indicadores específicos de proteção corporativa, como número de roubos de carga, de funcionários vítimas de seqüestros-relâmpago ou assaltos, quantidade de notebooks roubados e de colaboradores envolvidos em acidentes de trânsito.

“Os funcionários são incentivados com premiações concedidas a grupos de pessoas que não registram problemas geradores de faltas ao trabalho”, lembra Garcia.

Uma outra adaptação necessária à versão brasileira das práticas de proteção corporativa diz respeito ao rastreamento do passado de prestadores de serviços e de funcionários contratados.

Nos Estados Unidos, há restrições a pessoas respondendo processos judiciais ou que estejam com dívidas protestadas. Já no Brasil, segundo a experiência da DuPont, essa exigência inviabilizaria muitas contratações, tendo em vista o alto grau de inadimplência gerado pelo desempenho tímido da economia nacional.

A DuPont também se preocupa com o gerenciamento de informações no Brasil. Não no mesmo grau da matriz, é claro, tendo em vista que espionagem industrial só ocorre onde existe a pesquisa da empresa, ou seja, nos EUA, e que a questão do terrorismo também passa longe do Brasil.

No caso brasileiro, porém, vez por outra há varredura de grampos na empresa e os altos executivos também têm acesso a relatórios de segurança de serviços de informação.

Os cuidados com a informação, no Brasil, outra vez, visam mais evitar crimes comuns, como roubos de carga. “Não se deve alardear as rotas das nossas cargas, são poucos os que têm essas informações”, diz Garcia. Este á apenas um exemplo de que a empresa possui cuidados para não ser surpreendida e que as medidas de proteção corporativa devem ser estendidas aos demais signatários do Atuação Responsável.

VerificAR progride – De acordo com seus mentores, os próximos passos para a melhoria contínua do Atuação Responsável ainda devem contar com outras ferramentas, além da questão de proteção corporativa, de responsabilidade social e das mudanças estruturais de sua teoria.

De início, precisa sair do papel a criação do conselho consultivo nacional (CCN), um grupo de notáveis de várias áreas convidados pela Abiquim para opinar sobre os rumos do programa no País e para avaliar periodicamente o seu desempenho. Segundo a Abiquim, ainda neste ano ele estará formado, dando tempo para participar das discussões sobre a revisão do programa.

Um outro ponto considerado fundamental para o aprimoramento e o aumento da credibilidade do AR é o processo de verificação externa (ver QD-403, abril de 2002, pág. 24), o VerificAR, adotado desde o ano passado pela Abiquim. “Ele é fundamental para atender o nosso propósito de transparência externa”, afirmou o coordenador executivo, Antonio Rollo.

Até agora, duas empresas foram verificadas: a primeira foi a dirigida pelo coordenador, a Akzo Nobel, no ano passado. A segunda foi a Basf, em sua unidade de poliestireno de São José dos Campos-SP. Neste ano, mais cinco empresas serão verificadas (entre elas Carbocloro Oxypar, DuPont e Polibrasil) e em 2004, mais 20.

Quando a revisão do programa ficar pronta, daqui provavelmente a um ano e meio, o VerificAR também vai ser modificado. De acordo com Marcelo Kós, suas perguntas e critérios terão que ser reformulados para servir como auditoria única também das outras normas.

A idéia é fazer com que o verificado atenda os requisitos da ISO 14001, ISO 9001 e da OHSAS 18001. A certeza da mudança da verificação, porém, não inibe o desenvolvimento das primeiras verificações ainda sob o modelo atual.

Além de existir uma fila de empresas interessadas em passar pelo teste, as duas primeiras experiências de verificação foram bem vistas pelas avaliadas.

A Akzo Nobel, segundo Antonio Rollo, teve um desempenho “exemplar” no VerificAR feito em meados de 2002. Depois dos quatro dias de verificação, realizada por um representante da Abiquim, um do BVQI, um presidente da associação da comunidade de Itapevi e mais representantes da Basf e Braskem, a nota da empresa, em uma escala de 0 a 5, foi 4.

“Só não tiramos a nota máxima por causa de alguns problemas identificados no marketing”, lembra Rollo. Aliás, esse aspecto mercadológico, para ele, não deve ser problema identificado apenas na Akzo Nobel. “Precisamos melhorar a divulgação do Atuação Responsável ao público externo e à mídia”, diz.

Já a unidade da Basf verificada recebeu nota média de 4,4. Depois de ter sido uma das duas empresas auditadas de forma piloto em 2002, junto com a Akzo, a Basf passou por um processo de verificação, em abril de 2003, já com melhorias sugeridas e oriundas da versão piloto.

Para começar, o grupo alemão concentrou a verificação apenas em uma unidade de negócios e não em três áreas como na piloto, quando foram analisadas as unidades de agroquímicos, plásticos e químicos, no complexo de Guaratinguetá-SP e no escritório em São Bernardo do Campo.

Química e Derivados: Atuação: Stella - representante da comunidade melhora VerificAR.
Stella – representante da comunidade melhora VerificAR.

“Isso toma menos dias dos verificadores, que ficam afastados do trabalho nesse período, além de facilitar a aplicação do questionário”, afirmou a coordenadora regional do Atuação Responsável na América do Sul para a Basf, Maria Stella Agostini.

Com a iniciativa de verificar apenas a unidade de poliestireno, foram ocupados três dias da equipe de verificação, contra cinco na piloto.

O processo atual de verificação difere das tradicionais auditorias. De início, ele não é feito apenas com auditores profissionais, também conta com representantes da comunidade e de outras empresas.

Outra diferença é o modo da aplicação: por meio de questionários e entrevistas, em detrimento do sistema mais documental das auditorias das normas ISO, por exemplo.

No caso da verificação na Basf, foram feitas 23 perguntas para a alta administração, 13 para marketing e vendas, 12 para compras e logística, 32 para gerência de fábrica e 16 para as áreas de processos.

Além disso, para o público interno, operários e funcionários de baixo escalão escolhidos aleatoriamente, realizaram-se entrevistas atreladas em cinco perguntas básicas, para testar o grau de envolvimento da fábrica com o programa.

Maria Stella Agostini identificou muitas vantagens na forma como o grupo de verificadores foi constituída. “A participação de um membro da comunidade é fundamental para dar um caráter mais crítico à verificação”, afirma a coordenadora.

Nesse sentido, ela lembra de um episódio ocorrido no meio do questionário feito com o diretor da unidade de São José dos Campos.

Ao ser indagado sobre como a empresa se organizava para responder reclamações de mau cheiro pela vizinhança, o diretor lembrou da existência de uma linha direta com a comunidade para atender reclamações.

Mas sua resposta foi questionada pelo representante comunitário presente no comitê de verificadores, o presidente da associação de bairro.

Segundo ele, o atendimento não era ágil o suficiente. Isso porque a unidade de PS da Basf fica dentro do site da Monsanto e todas as ligações são atendidas pela portaria e telefone desta empresa.

“Ele tinha razão, isso atrasava muito o atendimento da Basf”, diz Maria Stella. Essa intervenção fez a Basf melhorar a comunicação interna com os funcionários da empresa “hospedeira”.

Outra vantagem apontada pela coordenadora é o fato de haver funcionários de empresas signatárias e da Abiquim no comitê. Isso facilita o trabalho do grupo, tendo em vista que o auditor da DQS, o líder da verificação, não entende tanto como eles do Atuação Responsável.

Na Basf, uma funcionária da Kodak, de São José dos Campos, participou do comitê. “O intercâmbio de conhecimento torna o processo mais pró-ativo”, diz.

A Basf pretende estender as verificações para suas outras unidades. As próximas a passarem pelo processo serão as de tintas e vernizes, situadas em sites do ABC paulista, provavelmente em 2004, e na seqüência outras unidades.

Nem mesmo a certeza de o VerificAR passar por algumas alterações com a revisão do Atuação Responsável, faz a empresa diminuir o ânimo em querer ser verificada.

Em primeiro lugar, porque a Basf já conseguiu fazer o programa ser aceito por alguns clientes de peso, como substituto de exigências de sistemas de gestão ambiental, como a ISO 14000.

As montadoras de carros, em específico a GM e a Ford, recentemente passaram a exigir a ISO 14000 de todos os fornecedores, inclusive da divisão de poliuretanos da Basf. Como essa unidade não possuía a norma, mas seguia o AR, foi feito um trabalho de convencimento.

E que deu resultado. “A Ford aceitou o Atuação com a condição de que a fábrica passe pelo VerificAR, e a GM também, ainda sem exigir a verificação”, comemora Maria Stella Agostini.

Um outro motivo de a Basf não desanimar, e até preferir passar pelo VerificAR, tem muito a ver com uma certeza mais técnica da sua coordenadora regional.

Segundo explica Maria Stella, os primeiros processos de verificação já foram concebidos sob o mesmo princípio que norteará a estrutura do próximo Atuação Responsável.

Isto é: as verificações são feitas por áreas de processo, analisando todos os quesitos de saúde, segurança e meio ambiente de uma só vez, em um determinado departamento da empresa: seja ele o de suprimentos, o de processo ou o administrativo.

“A auditoria já está quase pronta para se adequar ao Atuação Responsável melhor que vai surgir no ano que vem”, finaliza.

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