Gerenciamento de riscos como ferramenta de prevenção – Abiquim

Análise de risco dos processos e dos produtos das plantas químicas é a melhor ferramenta para evitar emergências

A análise de riscos é essencial para o desenvolvimento de um sistema de gerenciamento de risco eficaz, que poderá reduzir o número de acidentes/incidentes nas indústrias. Ela envolve a identificação, avaliação, gerenciamento de riscos ao meio ambiente e à saúde. E permite antecipar e atuar sobre eventos danosos, de forma a planejar ações de controle, capacitação e a agir em emergências.

 

Química e Derivados, Moradores do entorno da Carbocloro compõem Conselho Comunitário
Moradores do entorno da Carbocloro compõem Conselho Comunitário

A análise de riscos é essencial para o desenvolvimento de um sistema de gerenciamento de risco eficaz, que poderá reduzir o número de acidentes/incidentes nas indústrias. Ela envolve a identificação, avaliação, gerenciamento e comunicação de riscos ao meio ambiente e à saúde. E permite antecipar e atuar sobre eventos danosos, de forma a planejar ações de controle, capacitação e a agir em emergências.

O risco é definido como a medida de perda econômica e/ou de danos à vida humana resultante da combinação entre a frequência de ocorrência de um evento indesejável e a magnitude das respectivas consequências. O risco está associado à chance de acontecer um evento indesejado, assim, deve-se entender que o perigo pode ser intrínseco à operação industrial, mas ele pode ser gerenciado, atuando-se na sua frequência de ocorrência, nas consequências ou em ambas as variáveis.

A legislação e o estabelecimento de ferramentas para a análise de riscos em uma planta química se fortaleceu após o desastre de Flixborough, na Inglaterra, que teve como consequência a morte de 28 pessoas, além de lesionar gravemente 36 funcionários e 53 pessoas da comunidade. O incidente aconteceu em 1974 e deu origem, no mesmo ano, ao Ato de Segurança no Trabalho (HSW Act), primeira legislação no Reino Unido sobre saúde e segurança no trabalho.

No Brasil o Ministério do Meio Ambiente, por meio das legislações estabelecidas pelo Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama) e pelas legislações estaduais dos órgãos ambientais, define que as empresas efetuem a análise de risco para a obtenção das licenças necessárias para a instalação e operação. Além disso, no caso de manuseio e armazenamento de líquidos inflamáveis e combustíveis, o Ministério do Trabalho estabelece por meio da Norma Regulamentadora 20 – Segurança e Saúde no Trabalho com Inflamáveis e Combustíveis os requisitos mínimos para a gestão da segurança e saúde no trabalho.

Química e Derivados, Segurança comportamental ganha relevância na prevenção de acidentes em indústrias químicas - Abiquim ©QD

A indústria química também segue as orientações do Programa Atuação Responsável®, que visa a melhoria contínua de seu desempenho nas áreas de segurança, saúde e meio ambiente e estabelece a comunicação com a comunidade do entorno das fábricas e outras partes interessadas. O programa foi lançado pela Associação Brasileira da Indústria Química (Abiquim), em 1992, e com base no programa Responsible Care®, lançado em 1984 pela Canadian Chemical Producers Association (CCPA).

O Programa Atuação Responsável® estabelece por meio do elemento 4.2 que a empresa deve identificar os aspectos e perigos e avaliar os impactos e riscos, considerando seus processos, atividades, produtos, pessoas e serviços e instalações. Para tal, deve empregar ferramentas adequadas de análise de risco, que são especificadas para cada escopo avaliado.

Antes de ser inaugurada uma planta química é necessário fazer uma avaliação do fluxo de processos, da estrutura e do sistema de logística. “O trabalho se inicia na fase de escolha de alternativas para o projeto, pois a análise de segurança de processo na fase inicial busca a eliminação do perigo de forma intrínseca, ou seja, eliminar a causa do desvio. Por exemplo, não se pode vazar um produto inflamável se você não utilizá-lo”, explica o engenheiro de segurança de processos – PSM da Cabot, Ivan Mantovani Mendes de Freitas

Após a escolha da alternativa a ser implantada, o estudo de segurança de processo é aprofundado, utilizando-se técnicas de análise de perigos e avaliação dos riscos como a Hazard and Operability Study (HazOp), também conhecido como Estudo de Perigos e Operabilidade. “Nesta fase, a alternativa escolhida é minuciosa e metodologicamente avaliada com foco nos desvios que podem ocorrer na nova instalação e, assim, prever suas consequências, permitindo projetar ações que possam evitá-las ou mitigar seus efeitos”.

Mas a evolução da planta química, mudanças nos processos de produção ou o início da fabricação de um novo produto demandam novas análises de riscos. “O trabalho é contínuo e inclui pequenos projetos e modificações menores, de forma a garantir que o nível de segurança obtido no projeto se mantenha íntegro depois dessas modificações e garante que nas novas alterações qualquer novo perigo tenha seus controles adequados”, complementa Freitas.

Química e Derivados, Andrade: análise de riscos precisa ser revista a cada cinco anos
Andrade: análise de riscos precisa ser revista a cada cinco anos

O diretor industrial da Unipar Carbocloro, Airton Andrade, explica que o acúmulo desses pequenos projetos e modificações tornam necessário reavaliar a análise de riscos a cada cinco anos, com o objetivo de checar o que pode ser melhorado em toda a operação. Além da reavaliação, Andrade também ressalta a importância da gestão de mudanças. “A qualquer alteração de processo, seja temporária ou permanente, é checado se não serão gerados novos riscos que precisam ser analisados antes de sua implantação”.

Química e Derivados, Kleiber: livro de bolso ajuda a entender melhor os riscos
Kleiber: livro de bolso ajuda a entender melhor os riscos

A necessidade de se fazer uma reavaliação também é lembrada pelo gerente de segurança de processos e do Atuação Responsável da Basf, em Guaratinguetá-SP, Werner Kleiber. A empresa também realiza revisões a cada cinco anos, caso tenham sido executadas pequenas alterações na planta e a cada dez anos é feito o Cleaning Analysis Sheet. “É uma avaliação feita a partir do zero, para evitar o acúmulo de pequenos riscos por causa de pequenas modificações. Aprendemos com os incidentes que aconteceram em qualquer planta e temos a oportunidade de implantar novas tecnologias, que ainda não existiam quando foram feitas as ações para diminuir os riscos”.

Gerenciamento de riscos – Fortalecendo bons hábitos

Ter uma cultura voltada à segurança e manter os colaboradores atentos aos procedimentos necessários para operar com segurança é determinante no gerenciamento de riscos. Na análise de perigos é fundamental e inegociável a participação dos colaboradores envolvidos na operação e que lidarão diariamente com o processo. “É importante o operador ter claro e definido em sua atuação quais são os controles de processo que ocupam grande parte de sua atividade e quais os controles de segurança que precisam ser respondidos rapidamente”, explica Ivan Freitas, da Cabot.

Apesar de as indústrias aplicarem o maior número possível de barreiras tecnológicas, com o objetivo de minimizar os controles administrativos, que necessitam da intervenção de um profissional para ativar uma barreira, alguns processos ainda necessitam da intervenção de um colaborador. Manter todos eles atualizados sobre as alterações, que podem ser feitas nos processos, estruturais ou nos produtos, é um desafio para as indústrias.

“Onde os controles são feitos por pessoas, as mudanças são incluídas nas instruções de trabalho e é feita uma atualização com todos os turnos de operação, informando os motivos das alterações e revisada a análise de risco para que tenham conhecimento das consequências dos desvios, homogeneizando assim a informação e garantindo a participação e envolvimento de todos nesses controles”, avisa Freitas.

Protegendo o público interno e externo

A avaliação de risco químico no ambiente de trabalho, a sua comunicação e o seu gerenciamento tem o objetivo de prevenir acidentes e proteger todos os usuários dos produtos químicos ao longo do seu ciclo de vida. O Gerente Regional de Hazmat Compliance – América Latina da Givaudan, Daniel Rios, explica que o Sistema Globalmente Harmonizado de Classificação e Rotulagem de Produtos Químicos (GHS) define os critérios para classificação e comunicação de perigos aos trabalhadores através da rotulagem, da Ficha de Informações de Segurança de Produtos Químicos (FISPQ) da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT), instruções de trabalho, e outros meios alternativos.

“Considerando que os perigos dos produtos químicos são conhecidos e os cenários de exposição são determinados pelos processos industriais e características do ambiente de trabalho, os riscos podem ser adequadamente avaliados conforme as tarefas, e assim devidamente comunicados aos trabalhadores através de treinamentos periódicos”, analisa Rios.

Segundo ele, o gerenciamento do risco deve ser realizado utilizando estratégias de redução da exposição do trabalhador no ambiente de trabalho, tais como: a eliminação de um produto químico perigoso; a substituição de um produto químico por outro menos perigoso; uso de medidas de engenharia, como ventilação e exaustão, por exemplo e, como última medida complementar, o uso de equipamentos de proteção individual.

Outra etapa fundamental no Programa Atuação Responsável®, de acordo com Daniel Rios, da Givaudan, é a empresa contar com uma equipe especializada no gerenciamento de riscos de transporte de produtos perigosos, capaz de fornecer atendimento à emergência em todos os mercados onde atua, 24 horas por dia, fornecendo as devidas orientações técnicas e tomando decisões de resposta à emergência para mitigar eventuais efeitos adversos que possam ocorrer devido a acidentes de transporte.

Mesmo com todos os cuidados e precauções desenvolvidos para se evitar uma situação de emergência, o diretor industrial da Unipar Carbocloro, Airton Andrade, conta que as empresas precisam estar preparadas para enfrentar situações de emergência. “Você faz de tudo para que não aconteça nada com a comunidade interna e externa, são criadas barreiras para que uma emergência não gere consequências e todos são treinados para não haver uma crise”. Mas é preciso estar pronto para qualquer cenário. Em 2004 a Unipar Carbocloro implantou o Conselho Comunitário Consultivo (CCC), e por meio dele passou a treinar a comunidade do entorno. “Os membros do conselho conhecem a planta, ouvimos seus receios e fazemos simulados de evacuação da comunidade a cada três anos”, conta Andrade.

Gerenciamento de riscos – Ações e ferramentas para aprimorar a segurança

Química e Derivados, Gerenciamento de riscos como ferramenta de prevençãoA empresa também precisa criar ferramentas e métodos que possam ser assimilados com facilidade pelos colaboradores. A Basf distribuiu 3,7 mil exemplares para colaboradores, contratados e membros do CCC, de seu Guia Rápido de Segurança de Processos. “É um livro de bolso com as principais práticas e conceitos para o dia a dia, com os principais riscos de acordo com a chance de frequência e severidade, que podem causar incêndios ou vazamentos, e as ações para evitar qualquer incidente que possa trazer danos ao meio ambiente”, explica Werner Kleiber, gerente de segurança de processos e do Atuação Responsável da empresa.

Por sua vez, o gerente da Givaudan, Daniel Rios, elogia o desenvolvimento da ferramenta Aquarela®, pela Abiquim. “É uma ferramenta de análise de risco qualitativa, com o objetivo de colaborar para que a indústria química brasileira atenda a um dos principais compromissos do Responsible Care Charter, que é o de elevar o nível de gestão de risco de produtos químicos”.

Todos os conceitos de análise de risco também são aplicáveis às atividades de transporte. Segundo o executivo de negócios do operador logístico Cesari e diretor técnico da Associação Brasileira de Transporte de Produtos Perigosos (ABTLP), Sergio Sukadolnick, o lançamento do Sistema de Avaliação de Segurança, Saúde, Meio Ambiente e Qualidade (Sassmaq), pela Abiquim, em 2001, foi importante para tornar o transporte mais seguro. “A implantação reduziu o número de acidentes no transporte de produtos perigosos, pois as empresas que trabalham nesse ramo passaram ser avaliadas e a aprovação é um diferencial no mercado”.

Sukadolnick explica que o profissional responsável por transportar produtos perigosos já tem experiência no transporte de produtos não perigosos e passa por um treinamento de 48 horas antes de iniciar as atividades. Além do treinamento, para fazer com que os profissionais absorvam a cultura de sempre informar sua localização e de adotar os procedimentos de segurança, todos são acompanhados por motoristas mais experientes ou monitores em suas primeiras viagens.

A Abiquim promoverá o debate sobre a Segurança de Processo e o Sistema de Avaliação de Segurança, Saúde, Meio Ambiente e Qualidade (Sassmaq), com profissionais do Brasil e do exterior, no 16º Congresso de Atuação Responsável.

Serviço: 16ª edição do Congresso de Atuação Responsável

Data: 18 e 19 de outubro

Local: Novotel Center Norte –

Endereço: Avenida Zaki Narchi 500 – Vila Guilherme, São Paulo (SP)

Inscrições: www.congressoar.com.br

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