Gerenciamento adequado agrega valor aos resíduos industriais

Meio Ambiente - Gerenciamento adiciona valor aos resíduos

Potencial na química

Apesar de a cultura de gerenciamento total, com foco em valorização, já ser uma realidade nos grandes grupos empresariais do setor de celulose e papel, máquinas e equipamentos e nos setores de cosméticos e de bebidas, para a CEO da Ambipar o setor químico apenas mais recentemente começou a perceber essa possibilidade. Isso porque, segundo ela, por terem uma infinidade de tipos de resíduos, boa parte deles classificados como perigosos, as restrições das legislações motivam a destruição completa, por meio principalmente do coprocessamento em fornos de cimento ou mesmo pela incineração.

“Há um potencial muito grande de aproveitamento dos resíduos do setor químico, basta estudar soluções”, disse. Nesse sentido, a Ambipar tem a seu favor, para explorar esse mercado, o fato de liderar no país a prestação de serviços na área de atendimento a emergências químicas, no qual tem mais de 700 empresas como clientes e 4 mil transportadoras de produtos perigosos, com mais de 100 bases de atendimento em todo o país e também em outros países, como nos Estados Unidos, onde conta com filial para esse tipo de operação.

Aliás, a estratégia de conquista de novos mercados da Ambipar recebeu suporte considerável quando, em julho de 2020, a empresa fez uma oferta pública de ações (IPO), pela qual captou R$ 1,1 bilhão, que serão investidos em crescimento orgânico e inorgânico, segundo revelou o CFO, Thiago da Costa Silva. Além de ser utilizado para expandir as operações da área de atendimento a emergências (Ambipar Response), o gerenciamento de resíduos industriais também faz parte das novas investidas, o que já ocorreu, aliás.

Em fevereiro, a Ambipar adquiriu a AFC Soluções Ambientais, de Cabo de Santo Agostinho-PE, que atua também em gerenciamento total de resíduos com soluções integradas na região Nordeste. A empresa iniciou sua operação há dez anos com central de tratamento de efluentes no porto de Suape-PE e hoje presta serviços de gerenciamento de resíduos em Pernambuco, Paraíba e Rio Grande do Norte.



GRI também

Outros grupos da área também estão se preocupando em ofertar soluções integradas de gerenciamento total de resíduos industriais com foco em valorização. É o caso da GRI Koleta, do grupo Solví, que recentemente criou uma área específica para direcionar as soluções de suas ofertas em gerenciamento total para o conceito de economia circular e sustentabilidade.

Segundo a gerente da área de sustentabilidade e economia circular, Ariane Mayer, a escolha da alternativa de tratamento e valorização exige estudos e a elaboração de projetos para cada tipo de resíduo, considerando aspectos ambientais, técnicos e econômicos. De forma geral, porém, são utilizadas as tecnologias disponíveis pelas empresas do grupo, em blendagem para coprocessamento em fornos de cimento, compostagem, dessorção térmica, incineração, tratamento de água e efluentes, estações de transferência (transbordo), estações de triagem e os próprios aterros sanitários do grupo Solví.

Do total de resíduos gerenciados pela GRI, cerca de 85% é enviado para tratamento voltado à valorização e recuperação energética, como a reciclagem, blendagem e coprocessamento, compostagem e incorporação em outra cadeia produtiva em substituição à matéria-prima virgem.

Já os resíduos que não podem ser destinados para essas soluções por requisito legal ou inviabilidade técnica ou financeira, são objeto de avaliação para o estudo de alternativas em parceria com os clientes, incluindo, quando necessário, o desenvolvimento em pesquisa e inovação, segundo disse Ariane Mayer.

No serviço de gerenciamento total de resíduos, para começar, a GRI Koleta se baseia em procedimentos de gestão para reduzir a geração. Após isso, é criada a sistemática mais adequada para passar a operar a coleta, armazenamento, transporte, tratamento e destinação final. Isso pode incluir ainda a operação de centrais de resíduos e equipamentos para o beneficiamento, como prensas e trituradores. A empresa também se encarrega pela gestão dos requisitos legais e das licenças ambientais.

MTR Eletrônico

Mais do que a possibilidade de contar com oferta de empresas de prestação de serviços com escopo de valorização de resíduos, outro sinal de evolução do mercado de gerenciamento foi a obrigatoriedade, a partir deste ano, do MTR Eletrônico, o Sistema de Manifesto de Transporte Eletrônico de Resíduos, instituído pela Portaria nº 280, de junho de 2020, do Ministério do Meio Ambiente.

O sistema foi viabilizado graças ao envolvimento da Associação Brasileira das Empresas de Tratamento de Resíduos e Efluentes (Abetre), que já havia desenvolvido a ferramenta eletrônica para uso em alguns estados do país e que nacionalizou a operação eletrônica para o restante do país. Em 2019, a Abetre foi convidada pelo MMA para criar o Sistema Nacional de Informações sobre a gestão de Resíduos Sólidos (Sinir), que gerou o MTR Eletrônico, uma ferramenta eletrônica e autodeclaratória que passou a ser obrigatória para geradores, transportadores e destinadores de todo o país a partir de 1º de janeiro.

Isso significa que, antes de embarcar resíduos para a destinação, os geradores precisam entrar no sistema eletrônico e registrar o volume expedido. Na saída da carga, o transportador passa a levar consigo documento comprovando a declaração, caso lhe seja pedido em fiscalização e sob risco de, ao não tê-lo, ter carga e caminhão apreendido.

Ao chegar ao destino para tratamento ou disposição, a empresa responsável precisa dar baixa e se houver incongruência no balanço de massa, a informação fica revelada no sistema. “O sistema de fiscalização é como o da Receita Federal, via CPF, ou seja, se a declaração for falsa ou não bater ao longo do ciclo da destinação, quem responde pela infração é a pessoa física”, explicou o presidente da Abetre, Luiz Gonzaga Alves Pereira.

Essa ferramenta eletrônica já existia em São Paulo, com o sistema Sigor, e nos estados do Rio de Janeiro, Minas Gerais, Rio Grande do Sul e Santa Catarina, em iniciativas que contaram com o suporte e a participação direta da Abetre. Para Gonzaga, o fundamento básico dela é tornar o processo de destinação de resíduos transparente e criar uma oportunidade fácil para que geradores ajam de maneira correta, mesmo que no passado não tivessem esse costume.

Outro ponto favorável com a criação do Sinir é a instituição do inventário nacional de resíduos, que passará a ser alimentado anualmente com declarações obrigatórias dos geradores. Neste ano, haverá o primeiro levantamento com os dados recebidos no sistema. Um passo mais adiante, já em conversas com o governo, é criar um MTR Eletrônico específico para resíduos sólidos urbanos.

 

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