Gases Industriais

Gás natural – Implantação da nova política para destravar projetos

Marcelo Furtado
6 de abril de 2021
    -(reset)+

    TCC – A segunda linha para abertura do mercado, o Termo de Cessação de Conduta (TCC) assinado pela Petrobras com o Cade, em julho de 2019, pelo qual a estatal se comprometeu até o fim de 2021 a sair do transporte e ceder ativos maduros e marginais da produção, está caminhando dentro do acordado, embora em alguns pontos com lentidão.

    Em julho de 2020, por exemplo, a Petrobras concluiu a venda dos 10% que ainda detinha da Transportadora Associada de Gás (TAG), participação adquirida por R$ 1,1 bilhão pela Engie e pelo fundo canadense CDPQ. Além disso, a empresa está em processo de venda das suas participações na TBG (Transportadora Brasileira Gasoduto Brasil-Bolívia), da qual tem 51%, e na TSB (Transportadora Sulbrasileira de Gás), com 25% das ações. Também está em processo de venda os 10% remanescentes na NTS (Nova Transportadora do Sudeste), que tem 2 mil quilômetros de dutos entre os estados do Rio de Janeiro, São Paulo e Minas Gerais.

    Ainda como parte do acordo para liberar o mercado, além de também ter desistido do direito de preferência na capacidade dos gasodutos, a estatal se desfez de vários ativos maduros e marginais de produção de gás. Outra sinalização positiva é a Petrobras ter reaberto em fevereiro licitação de arrendamento do terminal de regaseificação da Bahia, depois de o processo anterior aberto em agosto de 2020 ter sido anulado por ter alterado o chamado Grau de Risco de Integridade da Petrobras, já que a proposta vencedora envolveu a Golar Power, empresa que tinha um ex-executivo citado em uma das fases da Operação Lava Jato.

    Mercado livre – Para os grandes consumidores de gás, notadamente a indústria, a expectativa para o longo prazo é a possibilidade de consolidação do mercado livre, o que seria a consequência natural com o fim da atual estrutura monopolista. Pelo modelo, que já opera há ٢٠ anos em energia elétrica no país, os consumidores poderiam contratar diretamente com o produtor de gás e com os responsáveis pelos gasodutos e pela distribuição, firmando contratos bilaterais.

    Na verdade, com a saída em curso da Petrobras no transporte de gás e as obrigações que a estatal tem de permitir o acesso a terminais e unidades de processamento (UPGNs) por outros produtores, o modelo já pode até ser adotado, pelo menos para desbravar o caminho. E é isso o que já está acontecendo. Duas grandes indústrias, Yara e Rhodia (grupo Solvay), estão há mais de um ano tentando colocar em prática contratos livres em São Paulo, mas sem muito sucesso. Finalmente, em janeiro, o primeiro contrato foi celebrado no país, pela Unigel, para abastecimento de gás para as unidades de fertilizantes nitrogenados (Fafen) de Sergipe e Bahia, arrendadas por 20 anos da Petrobras.

    O contrato de dez anos foi assinado de forma pioneira pela Unigel com a Petrobras, que se comprometeu a entregar 2,3 milhões de m3 por dia de gás às duas plantas, sendo 1,1 milhão de m3 para a Fafen-SE, o que já ocorre desde janeiro, e 1,2 milhão m3 para a Fafen-BA, em Camaçari, com início de abastecimento previsto para daqui a dois meses, provavelmente em abril. A Unigel Agro, nome da nova operação do grupo, utiliza o gás natural para produção de amônia, intermediário que na sequência gera a ureia.

    Petróleo & Energia - Gás natural - Investidores e usuários esperam a implantação da nova política para destravar projetos - Perspectivas 2021 ©QD Foto: Divulgação

    Nitschke: Unigel garantiu gás para produzir amônia e ureia

    Além do acordo com a Petrobras, o modelo de contratação livre envolveu outro contrato, com a TAG, responsável pela malha de gasodutos que vai entregar o gás em Sergipe e na Bahia até os city-gates das distribuidoras Sergás e Bahiagás, respectivamente em Laranjeiras-SE e Camaçari-BA, com as quais também foram assinados outros contratos.

    “Foi um aprendizado e um desafio negociar concomitantemente com os envolvidos, inclusive com as agências estaduais, que foram muito cooperativas no processo”, disse o diretor de suprimentos da Unigel, Luiz Antonio Nitschke. Entre as novidades dessa negociação, o diretor cita por exemplo a necessidade de a Unigel precisar se cadastrar como carregadora na ANP para fazer uso do sistema de transporte e ainda obter a caracterização como agente comercializador no mercado livre.

    Embora os valores dos contratos envolvam confidencialidade, Nitschke afirma que seria muito difícil viabilizar os dois empreendimentos com os preços médios do gás do mercado cativo, na faixa de US$ 7 por milhão de BTU. Há a referência de mercado, porém, de que o negócio de amônia/ureia é viável apenas com gás abaixo de US$ 5,2 por milhão de BTU. Sobre a origem do gás que será fornecido pela Petrobras, o executivo afirma que a estatal pode usar qualquer fonte, sem determinar uma especificamente, embora fontes do setor afirmem que inicialmente o gás virá do campo de Manati, na Bahia, também em processo de desinvestimento pela Petrobras, cuja participação é de 35% no campo.

    O gás natural na Bahia, explica Nitschke, produzirá amônia não só para a produção da ureia da Unigel, mas também para ser utilizada em outros processos industriais no polo petroquímico. Nesse caso, a própria Unigel, maior consumidora de amônia no polo, onde tem planta de acrilonitrila e etil-benzeno/estireno, será beneficiada pela produção local. Mas também outras empresas, como Braskem e Oxiteno, vão comprar a amônia produzida pela Unigel.

    Segundo o diretor, aliás, uma das motivações do investimento nas Fafens foi o risco de desabastecimento de amônia, que é importada pela Petrobras para fornecimento ao polo. Por sua vez, a Fafen-SE utilizará a amônia integralmente para a ureia, cuja produção total das duas unidades será de 1,2 milhão de t/ano.



    Recomendamos também:








    0 Comentários


    Seja o primeiro a comentar!


    Deixe uma resposta

    O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *