FISA 2018 – Ingredientes somam benefícios sem estourar os orçamentos

Pão de queijo com colágeno, hambúrguer com proteína de soja e açúcar mascavo líquido figuraram entre os atrativos alimentares apresentados na 22ª edição do FiSA (Food ingredients South America), ocorrida entre 21 e 23 de agosto, em São Paulo. Em tempos de crise, muitos expositores preocupados em disponibilizar ao mercado ingredientes e refeições funcionais prontas tiveram que inovar ainda mais para conciliar seus lucros com a emergência de hábitos de consumo inspirados em sanidade, praticidade e bom gosto. Buscou-se nesse caso ajustar os custos da diversificação de portfólio com a liquidez do capital de giro dos clientes e o bolso dos consumidores finais.

“A gente é capaz de trabalhar tanto em nichos de mercado que demandam o leite de amêndoa – um produto vegano, com custo e valor agregado maiores – quanto em soluções bem equilibradas em custo-benefício”, afirmou Thelma Bayoud, líder de marketing da ADM Nutrition. A estratégia de comunicação da empresa na feira orientou-se, segundo ela, em três das principais megatendências: “conveniência, indulgência inteligente e soluções sustentáveis. Entendemos que isso resume aquilo que o mercado requer, tanto hoje quanto para o futuro”, justificou. Com base nesses fundamentos, a companhia construiu em seu estande o que ela denominou de “três estações de experiências para os clientes”, visando à degustação de produtos como o já referido leite de amêndoa, iogurte com 30% menos de açúcar e barras salgadas, com proteína à base de fibras, entre outros.

A lista contemplou alguns dos produtos que utilizam como insumo parte de seus mais de 75 ingredientes naturais, muitos produzidos em sua recém-inaugurada fábrica de proteínas de soja, localizada em Campo Grande-MS, fornecidos a clientes de segmentos como carnes processadas, laticínios, panificação e bebidas. A sinergia entre crise, inovação e novas oportunidades motivou a alemã Brenntag, com 30 anos de experiência na distribuição de produtos químicos no Brasil, a estrear no segmento de foods, em 2016, por meio do suprimento de matérias-primas para alimentos industrializados. Alguns dos itens de seu portfólio, como gordura vegetal, fosfatos e pó de cacau, foram testados em seu estande, onde a companhia disponibilizou bolos e cookies para degustação, com a marca de parceiros com produção local, como a Cargill, por exemplo.

A decisão de migrar parcialmente para ingredientes alimentares resultou da prospecção de novos negócios e do próprio know-how de relacionamento e operação em cadeia desenvolvidos pela companhia, em termos globais, como informou o diretor comercial Christiano Marcel da Costa. “Esse mercado teve queda, mas também cresceu, pois ninguém pode deixar de comer. Talvez algumas marcas mais conhecidas tenham sido substituídas por outras, como as de bolachas, por exemplo, mas os produtos alternativos também atendem as necessidades básicas dos consumidores. A empresa vem se concentrando no atendimento de fabricantes de médio e pequeno portes, responsáveis pela estratificação do segmento de panificação”, afirmou Costa.

Os gargalos de mercado acirram a disputa entre concorrentes, segundo alguns expositores, mas ao mesmo tempo são saudáveis para as operações, pois propiciam o desenvolvimento de abordagens inovadoras. Ao concordar com esse raciocínio, Gustavo Assis, diretor de operações da MasterSense, declarou que “a pizza reduziu de tamanho, mas todo mundo quer garantir seu pedaço”, inclusive sua empresa. Por exemplo, o clima no estande foi marcado pelo compartilhamento com parceiros das comemorações de seus 13 anos de mercado, reforçando sua marca e colhendo informações para novos projetos. “Estamos aproveitando o histórico da feira para mostrar que temos inovação em nosso DNA. Um dos nossos objetivos é provar aos clientes que é possível incluir em seus produtos ingredientes funcionais ou nutricionais e entregar uma experiência sensorial incrível para o consumidor final”, afirmou Assis.

Ancorada nessa narrativa, a empresa se apresentou, trazendo mais de 20 conceitos de ingredientes e aromas. Os produtos seguem tendências globais como eficiência e sustentabilidade e são voltados para aplicações em alimentos contendo proteínas lácteas e vegetais, além de adoçantes naturais com moduladores de sabor. Entre esses Gustavo destacou, por exemplo, uma versão diferenciada de adoçante stévia, baseada em uma variedade de folhas, com sabor mais arrojado. Citou também o pão de queijo com colágeno que, graças ao seu aporte proteico, traz benefícios estéticos e reforça sua funcionalidade como alimento de grande apreço entre os consumidores em geral.

A preocupação com o corpo se destacou, igualmente, em ingredientes da MCassab, através de um iogurte com vitaminas antioxidantes e colágeno. Ao se referir ao mix desenvolvido, produzido e distribuído pela companhia, o gerente de negócios Marco Resende disse que o produto simboliza também o esforço contínuo de renovação da unidade de nutrição, que está completando 30 anos. A empresa é voltada para melhorias nutricionais adicionadas a alimentos e bebidas com teores reduzidos de açúcar e sódio. Há muito desafio e espaço para inovação ainda nesse campo. As exigências de consumo estão evoluindo qualitativamente, à medida que cresce a expectativa de vida dos consumidores, segundo ele. Porém, a diversificação da oferta de produtos alimentícios mais saudáveis nem sempre acompanha esse ritmo, até por restrições legais. Esse gap só poderá ser reduzido com aceleração da pesquisa e desenvolvimento sobre o potencial de sanidade de substâncias químicas já aprovadas e que podem ser inseridas em ingredientes alimentares, avalia.

Não por acaso, a Agropalma planeja lançar no mercado, em breve, insumos de alto conteúdo tecnológico, concebidos a partir de óleo de palma, como informou o diretor executivo Marcelo Brito.

Brito: tecnologia avançada para processar óleos vegetais
Brito: tecnologia avançada para processar óleos vegetais

São ingredientes destinados a fabricação de produtos à base de vitamina E, essencial ao funcionamento equilibrado do organismo humano, incluindo a prevenção de doenças cardiovasculares e rejuvenescimento da pele. A iniciativa é resultado de uma espécie de mudança de paradigma em relação à sua estratégia de produção e aplicação do conhecimento no chão de fábrica. A transição para um novo patamar tecnológico levou a empresa a investir R$ 280 milhões na construção de uma unidade estado da arte em processamento de óleos vegetais. A planta está localizada em Limeira-SP e é apoiada em uma forte estrutura de P&D.

Presente no ranking das três fabricantes mundiais de óleo de palma melhor avaliadas em termos de sustentabilidade, a companhia expôs na feira alguns ingredientes processados em Limeira, como substitutos de manteiga de cacau e produtos para frituras com blend de óleo de algodão, voltados ao segmento de food service. O pacote incluiu também algumas das soluções para aplicações em chocolates, coberturas, recheios e bolos produzidos na nova planta, cuja capacidade permite desenvolver mais de 70 itens diferenciados. Esse portfólio deverá responder por 23% do faturamento da companhia este ano e 80% em 2019, espera Brito. De olho nas tendências de mercado e no cenário macroeconômico, a Basf segue, igualmente, a trilha da inovação. Esse percurso vem se concretizando por meio do lançamento de alguns produtos inéditos como os que foram apresentados na feira, os quais buscam atender as expectativas dos consumidores em relação à longevidade e felicidade, conforme sintetizou Claudio Tacconi, gerente sênior de nutrição humana para América Latina.

“O consumidor tem uma ideia muito clara sobre o que está buscando. Boa experiência sensorial associada a uma qualidade de vida que lhe possibilite ser feliz. Isso significa alimentação saudável com preço razoável. Baseados nessas mensagens, nós procuramos combinar diferentes tecnologias que nos permitam desenvolver produtos inovadores que contribuam para que as pessoas superem alguns problemas que impedem o bem-estar. É o caso do Omega 3, voltado para o combate à obesidade, e o Hepaxa, que ajuda a controlar doenças hepáticas”, afirmou Tacconi. O primeiro produto (origem animal – peixe; ou vegetal – algas, opção vegana) é disponibilizado em cápsulas, podendo ser ingerido como um medicamento ou adicionado em algum tipo de alimentação.

Degustação ajudou a promover insumos de origem natural da ADM
Degustação ajudou a promover insumos de origem natural da ADM

O segundo, composto pelos ácidos eicosapentaenoico e docosahexaenoico, destina-se especificamente ao tratamento do acúmulo de gordura no fígado. A eficácia de ambos depende também de uma atitude proativa do usuário por meio da adoção de hábitos alimentares saudáveis, ressalta Tacconi. O segmento de nutrição infantil também está na mira da empresa, conforme anunciado por ocasião do evento. O plano prevê o lançamento no início de 2019 de um ingrediente obtido de um oligossacarídeo.

Trata-se de uma fonte de carboidrato natural contida no leite materno. A iniciativa é considerada pela Basf como uma contribuição significativa para a melhoria nutricional das fórmulas infantis. O leite de origem animal, por sua vez, já é bastante explorado como base de alimentação saudável, mediante receitas alinhadas com maior aporte proteico, como ressaltou o vendedor técnico Bruno Conte, da IMCD Brasil. Por exemplo, um dos protótipos que chamaram a atenção dos visitantes do estande da empresa originou-se do processamento (spray drying) do soro do leite. A fórmula desenvolvida resultou em um pó com 90% de concentração de gordura média que pode ser adicionado a alimentos líquidos.

“Nosso produto pode ser usado para enriquecer um shake visando suplementação esportiva. Por suas características, classifica-se entre os alimentos de teor médio de gordura. Nesse sentido, ele se diferencia de outras fórmulas que acabam dificultando a digestão. Além disso, não gera pico glicêmico e ajuda a dosar o teor de açúcar no sangue”, explicou Conte. A distribuidora dispõe de um portfólio diversificado de ingredientes, enzimas e conservantes destinados a grandes fabricantes de alimentos industrializados.

Tacconi: consumidor procura comida saudável a preço baixo
Tacconi: consumidor procura comida saudável a preço baixo

A Univar, gigante global em distribuição de ingredientes dos maiores fabricantes do mundo, também apresentou derivados oriundos do soro do leite para o mercado de lanches. “Apresentamos nossa campanha Desfrute, elaborada com os ingredientes do nosso portfólio. São produtos saudáveis, práticos e, sobretudo, saborosos para que as pessoas possam aproveitar cada momento do dia, seja com amigos, família ou sozinhas” afirmou a gerente de marketing Milena Carvalheira. Em relação aos lanches, a empresa exibiu tanto frutas e vegetais liofilizados como tecnologias de modulação para redução de sal e de açúcar (em bebidas), bem como de adição de whey protein.

O portfólio incluiu ainda aromas e corante naturais. Esse último tem como base a semente de uva e se destina ao mercado de bebidas. “Todas as nossas propostas visara garantir bem-estar em termos de saúde, sem abrir mão do sabor. Mesmo para momentos de lanches rápidos ou em reuniões com amigos, conseguimos desenvolver soluções aliando tanto produtos saudáveis quanto indulgentes”, ponderou Cavalheira. Há algum certo consenso entre os entrevistados de que o equilíbrio entre composição química e sabor dos alimentos se tornou uma equação de difícil solução no cenário atual. Por exemplo, a adição de aromas eleva a satisfação alimentar, mas em contrapartida pesa no custo. Por outro lado, o cliente pode perder o paladar na gôndola, com o preço salgado, alertou Ana Beatriz Tesini, gerente de marketing da multinacional francesa Biospringer.

Por conta disso, sua empresa montou um time misto no estande, incluindo profissionais de culinária de dois restaurantes de São Paulo, com o objetivo de reforçar a comunicação como público. Na prática, a equipe assumiu a missão de preparar e mostrar aos visitantes algumas gostosuras com base em ingredientes veganos, com menos sódio e com a promessa de não comprometer o gosto nem a competitividade. “Hoje as pessoas estão mais conectadas e querem detalhes sobre o tipo de alimento que estão consumindo”, justificou Tesini. Em sintonia com essa realidade interativa e seguindo as novas tendências de consumo focalizadas em saúde e bem-estar, a empresa apresentou alguns tipos de refeições prontas, com extrato de levedura. O uso desse tempero, uma de suas especialidades, buscou aguçar o apetite dos consumidores.

“Quando misturadas a algumas receitas, como a de polenta, por exemplo, o extrato de levedura incrementa e prolonga o sabor dos alimentos. São ingredientes naturais livre de matérias-primas de origem animal, com rótulo limpo, que podem ser aplicados em salgados, doces e bebidas”, afirmou a gerente de marketing. Tendo sua marca igualmente identificada com produtos naturais, a Concepta destacou a apresentação de açúcar mascavo líquido, proveniente do manejo orgânico da cana-de-açúcar. Conhecido também como açúcar integral, o ingrediente não passou por refinamento, preservando os minerais e fitoesteróis da matéria-prima.

Cálcio, magnésio, fósforo e potássio, além de outros elementos como ferro e polifenóis, também constam em sua composição, conforme explicou a gerente comercial Lilia Kawazoe. Já existe demanda para o açúcar desenvolvido e patenteado há cerca de um ano, mas a empresa ainda está em processo de lançamento e negociação com redes de comércio. Enquanto isso, se prepara para a produção em grande escala, explorando em sua comunicação outros diferenciais do produto. Ao contrário do pó, a forma líquida não corre o risco de empedrar durante a armazenagem, observa Kawazoe. Como representante de fabricantes internacionais de frutas cristalizadas, a Concepta trouxe para a feira diversos itens da italiana Cesarin.

Apresentados em forma de cubos e em raspas com baixa atividade de água, os produtos se destinam a várias aplicações culinárias. A lista inclui pães, bolos, cookies e bolachas recheadas, além de sobremesas, sorvetes, chocolates e doces artesanais. Laranja e limão estão entre as frutas de maior receptividade no mercado doméstico brasileiro, informa Kawazoe. Atuando há mais de 25 anos no mercado de distribuição de produtos químicos, ingredientes e aditivos, a Plury enfatizou seu potencial de assistência.

“Se o cliente tem dificuldade de encontrar uma determinada matéria-prima, a gente entra em campo. Nosso trabalho nesse caso é procurar o material, fazer aplicações a partir de uma base oferecida pelo cliente e mostrar que seu funcionamento é eficaz”, detalhou o gerente técnico Adalberto Luiz Faria de Almeida. Dentre os mais de 200 produtos distribuídos pela companhia estão o cacau e fosfato, ambos aplicados na indústria de alimentos de seus cerca de dois mil clientes. Manter uma estrutura desse porte em operação com bons resultados demanda o acompanhamento sistemático do dia a dia, visando melhorias e inovações que estão em andamento. Contudo, Almeida considera que “ainda não é o momento de a empresa se pronunciar sobre perspectivas futuras”.

Expositores fazem balanço positivo da feira – Mesmo sem colher frutos imediatos, muitos expositores da Food ingredients South America (FiSA) retornaram a suas empresas com mais gosto para inovar. A aproximação com potenciais clientes e parceiros reforçou as expectativas positivas sobre o crescimento do setor de alimentos industrializados. Alguns executivos se surpreenderam com o assédio de visitantes em seus estandes já no primeiro dia do evento, que reuniu cerca de 11 mil pessoas, segundo balanço dos organizadores. Outros avaliaram que seria necessária muita mobilidade para contatar tanta gente.

Lilia: açúcar líquido mantém propriedades nutritivas
Lilia: açúcar líquido mantém propriedades nutritivas

A feira reuniu 87 expositores de ingredientes naturais e 52 de orgânicos, além de 56 voltados para alimentos funcionais. No total, mais de 750 marcas apresentaram os recentes lançamentos em alimentos, ingredientes, bebidas, suplementos e aditivos alimentares. Paralelamente, 500 congressistas participaram dos debates sobre o futuro do setor no Brasil, América Latina e no mundo Em geral esse tipo de aproximação entre empresas atrai ou consolida relacionamentos além de proporcionar ganhos invisíveis com o posicionamento de suas respectivas marcas, conforme admitiu Thelma Bayoud, líder de marketing da ADM Nutrition. “É a terceira vez que participamos e esperamos tornar mais conhecida a nossa unidade.

Nosso objetivo é expandir a abrangência em termos de ser conhecido e experimentado pelo cliente”, afirmou. Motivos semelhantes foram citados por Christiano Marcel da Costa, diretor comercial da Brenntag, que estreou no segmento de food em 2016 e busca difundir a inserção da companhia no ramo. “Distribuir esses ingredientes é um negócio novo para nós, mas estamos otimistas. No primeiro dia da feira tivemos uma forte presença de novos clientes. Fomos um dos patrocinadores do cordão do crachá que franqueou o acesso ao evento e isso representou um ponto crucial de nossa comunicação” ponderou.

Ana Beatriz Tesini, gerente de marketing da Biospringer, outra novata na feira, disse ter ficado satisfeita com os resultados da participação de sua empresa. “Trouxemos uma equipe do nosso centro de culinária e foi bastante interessante, pois prospectamos clientes e novas oportunidades”, justificou. “A feira certamente proporcionará frutos a partir da conexão das empresas com potenciais clientes. Essa aproximação traz ideias e conceitos que poderão alimentar projetos futuros”, disse Gustavo Assis, diretor de operações da MasterSense.

Em sua opinião, os desdobramentos desses relacionamentos facilitarão a realização de novos negócios. Marcelo Brito, diretor executivo da Agropalma concorda. “Muitos contatos feitos aqui dão o primeiro passo para vender depois. Ao invés de fazermos 50 visitas, nos deslocando para atingirmos um número razoável de contatos, aqui no estande recebemos pessoas de todo o mundo”. Esse raciocino é compartilhado por Marco Resende, gerente da unidade de negócios da MCassab.

“Em um dia registramos 100 visitas. Normalmente, para alcançar esse resultado precisaríamos de um mês. Agora é só dar continuidade ao trabalho”, afirmou. Sem citar números, o vendedor técnico Bruno Conte, da IMCD Brasil, também confirmou a eficácia da feira, depois de seis anos de participação consecutiva. “É sempre muito bom para fazer novos relacionamentos e exposição da marca”. De posse desse capital simbólico, as empresas “agregam as mensagens que tem competência em desenvolvimento e aplicações”, acrescentou Cláudio Tacconi, gerente de Nutrição Humana da Basf na América Latina.

“O resultado que colhemos ficou acima das expectativas em termos de relacionamento. Manter contato com empresas, associações e autoridades é muito positivo. Ajuda a tirar dúvidas e construir um diálogo produtivo”, finalizou.

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