Filtros Solares – Mudança normativa adicionou proteção contra UVA no Mercosul

Com a Resolução RDC nº 30, de 1º de junho de 2012, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou o Regulamento Técnico do Mercosul sobre Protetores Solares ( Filtros Solares ) em Cosméticos e gerou um avanço significativo no mercado de proteção solar.

A RDC nº 30 revogou a RDC nº 237, que estava em vigor desde 2002, e adicionou o cuidado com a faixa de radiação do UVA – determinando nova metodologia analítica – além de atualizar a atenção à faixa do UVB. Com isso, a determinação do fator de proteção solar (FPS) dos produtos finais vendidos aos consumidores se tornou mais ampla, admitindo também outras características, como a resistência à água, além de apresentar os requisitos necessários de rotulagem.

Química e Derivados, Khury: além dos filtros, eficácia dos protetores depende da qualidade das formulações
Khury: além dos filtros, eficácia dos protetores depende da qualidade das formulações

A faixa de radiação eletromagnética da região do ultravioleta (UV) começa imediatamente abaixo do início da faixa de luz visível, abrangendo comprimentos de onda de 100 a 400 nanômetros (nm). Ela se divide em UVA (320 a 400 nm), UVB (280 a 320 nm) e UVC (100 a 280 nm).

“Quanto menor o comprimento de onda, mais biologicamente ativa é a radiação”, comentou o farmacêutico-bioquímico Emiro Khury, consultor e sócio-diretor da EK Consulting.

O UVC, no entanto, é retido pela camada de ozônio existente na estratosfera da Terra. O UVB já era alvo da regulamentação anterior, por ser mais facilmente percebido. Radiação predominante na luz solar entre 10h e 14h, ela provoca eritema (vermelhidão na pele) e pode levar a queimaduras dependendo do tempo de exposição com muito mais facilidade do que o UVA.

“Embora pouco perceptível, a radiação UVA incide durante todo o período do dia, sendo responsável por danos mais leves, porém crônicos e gradativos à pele, induzindo o envelhecimento precoce”, salientou Khury.

Tanto o UVA quanto o UVB estão relacionados ao aparecimento de câncer de pele.

Mercado atraente

O Brasil é um dos maiores mercados consumidores de protetores solares do mundo. “A indústria cosmética nacional está na vanguarda do desenvolvimento de formulações, incluindo componentes que complementam a proteção à pele, como hidratantes e antioxidantes, entre outros”, afirmou Khury. No entanto, apenas 30% da população declara o uso regular de protetores solares. A maioria admite que só os aplica no verão e quando vai à praia.

Estudos científicos resultaram no estabelecimento de um método analítico global, incluindo UVA e UVB, que foi adotado pela legislação de vários países. Verificou-se que o escurecimento imediato (IPD –immediate pigment darkening) ocorre segundos após à exposição ao UVA e desaparece em mais ou menos duas horas, ou seja, não chega a ativar a melanina. Mas, se a pele continuar exposta à radiação UVA, aparecerá uma pigmentação consistente, o PPD (persistent pigment darkening), que proporciona o tom bronzeado para a pele. “Antes da RDC nº 30, algumas empresas indicavam um fator de proteção para UVA com base no PPD”, disse o especialista. O marcador biológico para avaliação da proteção ao UVB já era, e continua sendo, a formação de eritema, critério que vem sendo aperfeiçoado nos últimos vinte anos. (ver tabela)

Proteção contra câncer

O câncer de pele é o mais frequente no Brasil, representando 25% de todos os tumores diagnosticados em todas as regiões geográficas, segundo dados do Ministério da Saúde. A incidência da radiação ultravioleta natural, proveniente do sol, é apontada como a principal causa.

O consumo de protetores solares no país, infelizmente, ainda é determinado pelo preço (de R$ 19,00 a R$ 60,00, em média) e, portanto, considerado artigo de luxo para a maioria da população, além de ser visto como um item feminino de cosmético. Trabalhadores em atividades externas durante o dia, por exemplo, deveriam usar obrigatoriamente protetor solar, mas ainda há resistência por fatores culturais. Além disso, o protetor solar  não é definido como Equipamento de Proteção Individual, porque não tem certificado de aprovação (CA) do Ministério do Trabalho e Emprego.

Rotulagem

Na Europa, a rotulagem de produtos finais expressa apenas a proteção UVB e, para a proteção UVA, informa-se que ela equivale a 1/3 do FPS do UVB. Na RDC, a Anvisa determina que todo protetor solar proteja contra radiação UVA e UVB, porém o fabricante não é obrigado a colocar símbolos que diferenciem um do outro.

Nos EUA, por exemplo, só há especificação no rótulo para proteção UVB com amplo espectro, deixando implícita a proteção ao UVA.

A unificação dos testes de protetores solares para obtenção de códigos de nos padrões internacionais ISO foi feita em 2006 e teve o aval da Colipa (Associação de Perfumaria, Cosméticos e Produtos de Higiene Europeia). Há também o padrão FDA (agência responsável pelo controle de alimentos e medicamentos nos EUA), utilizados pelos norte-americanos nos requerimentos de testes para rotulagem de FPS. O Brasil adota os dois protocolos que, segundo os especialistas, são cientificamente semelhantes.

Alta segurança

A tendência do mercado é desenvolver produtos cosméticos de uso diário cada vez mais seguros, com alto FPS. Percebe-se, nos últimos anos, o aumento da intensidade dos raios ultravioleta incidentes na Terra. Em alguns países, já há produtos com FPS de 140. Na Europa, porém, o FPS 50 continua sendo o máximo admitido em rotulagem, cabendo a por o sinal “+” para informar o grau de proteção acima do valor indicado. Essa determinação europeia visa não incentivar a exposição exagerada ao sol, alimentada pela sensação do consumidor de que quanto maior o FPS, mais seguro ele estará contra os efeitos da radiação e, por isso, ficaria dispensado de observar cuidados básicos, como reaplicar o protetor a cada duas horas.

Desde 2012, no Brasil é permitido rotular o FSP até 99. Isso porque o brasileiro tem um comportamento muito diferente do europeu no que se refere aos cuidados com a pele e, além disso, o país recebe radiação solar mais intensa. “Mas, se não houver educação e informação, as pessoas não vão aplicar protetor solar corretamente”, alertou Khury.

Química e Derivados, Tabela: Rotulagem de protetores solares - Brasil e Mercosul
Rotulagem de protetores solares – Brasil e Mercosul

Filtros Solares

Protetores solares são formulações cosméticas preparadas com vários ingredientes, entre eles os filtros de radiação UV. Esses filtros são compostos por substâncias químicas divididas em dois grandes grupos: os filtros físicos e os filtros químicos. Grosso modo, pode-se dizer que os filtros físicos refletem a radiação ultravioleta, ou seja, exercem o efeito “bate e volta” da luz sobre a superfície da pele tratada. Por sua vez, os filtros químicos absorvem e refratam os raios UV, com um efeito “bate-atravessa-sai”.

A diferença principal entre filtro químico e filtro físico é a forma como essas substâncias interagem com a pele. Os físicos – grupo de natureza inorgânica, dominado pelos óxidos de zinco e de titânio – se fixam e se distribuem pela superfície, enquanto os químicos – orgânicos – também se comportam assim, mas também interagem com as camadas iniciais da derme, a ponto de alguns desses itens serem por ela absorvidos.

Segundo Emiro Khury, o desempenho de um protetor solar depende dos filtros solares aplicados, mas, fundamentalmente, da qualidade e do equilíbrio da formulação. Entre as vantagens e desvantagens, ele destaca: “No caso de conter filtros físicos, é preciso aplicar o protetor solar mais vezes sobre a pele, porque ela não o absorve de forma eficiente, entretanto esses filtros alcançam bom desempenho de proteção, quando utilizados de forma correta”, comentou.

O uso de nanopartículas de dóxido de titânio e de óxido de zinco oferece propriedades diferenciadas a esses filtros físicos de radiação UV. “O uso dessas substâncias em nanoescala já se mostrou seguro e eficiente”, avaliou o especialista.

Por sua vez, os filtros químicos são de fácil absorção, mas podem provocar irritação ou coceira na pele, no caso de pessoas sensíveis a essas substâncias. Por isso, cada vez mais, os formuladores estão indo na direção de combinar filtros químicos e físicos para garantir a máxima performance com maior margem de segurança. A indústria também tem procurado atender os seguintes requisitos no desenvolvimento de formulações: faixa de FPS desejada; quanto dura essa proteção; e probabilidade de ocorrência de efeitos adversos.

A mudança de regulamentação permitiu o lançamento de novas moléculas de filtros solares que absorvem mais a radiação UVA e UVB, com maior margem de segurança. Como disse Khury, a tendência em inovação nesse segmento de mercado para os próximos anos é transformar o desconforto de passar o protetor na pele regularmente em hábito e prazer. “Em qualquer FPS e forma de apresentação, o produto precisa ser eficiente e, ao mesmo tempo, suave, gostoso de aplicar na pele”, salientou.

Existem alternativas técnicas à disposição dos formuladores para aprimorar os protetores solares. A incorporação de silicones específicos aumenta a resistência do produto à água, por exemplo, dispensando a reaplicação a cada mergulho. “Para ser eficiente, toda a formulação precisa ser desenvolvida visando essa característica”, ressaltou Khury. Assim, os silicones são coadjuvantes úteis para formulações que tenham como foco a resistência à transpiração, água de piscina, mar, etc.

Uso complementar

Cremes faciais ou corporais com apelo adicional de proteção solar são muito bem-vindos no mercado atual, pois associam o cuidado estético da pele ao benefício da proteção contra os raios ultravioleta. Para serem seguros, esses cremes devem cumprir a regulamentação da Anvisa no que se refere aos cosméticos e sua classificação: Grau 1 – perfumes, sabonetes, hidratantes, maquiagem; e Grau 2 – produtos com fotoproteção, tinturas e alisantes, repelentes, antirrugas, entre outros.

Deve-se atentar também para o fato de ser a pele do rosto mais fina e delicada que a do resto do corpo e, portanto, requerer um filtro com baixo espalhamento e elevada absorção. Outro detalhe importante: desde a implantação da RDC nº 30 da Anvisa não se deve mais usar o termo “bloqueador solar”, pois a norma identifica o produto final como “protetor solar”, e “filtro solar” é a designação do ingrediente.

Um Comentário

  1. Muito coerente a abordagem dos chamados produtos químicos que, afinal não podem não existir em nenhum produto ou em particular cosméticos pois, enfim toda matéria e constituída por átomos e, portanto, de químicos. A colocação da expressão “compostos em equilíbrio” e que não são nocivos e pelo contrário benéficos, é bastante didática e acredito que possa fazer diferença na cabecinha dos conservadores naturebas.

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