Meio Ambiente (água, ar e solo)

Fiema mostra soluções locais para passivos – Bento Gonçalves

Fernando C. de Castro
5 de novembro de 2004
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    Bento Gonçalves, cidade de 100 mil habitantes incrustada na serra geral do Rio Grande do Sul, a 125 quilômetros de Porto Alegre, notabilizada pelos vinhos produzidos em seus domínios, ingressou na importante agenda do debate sobre a produção industrial ecologicamente correta. Explica-se: de 9 a 13 de novembro, a localidade foi anfitriã da primeira edição da Fiema – Feira Internacional de Ecologia e Meio Ambiente

    Promoção da Abepan (Associação de Proteção ao Ambiente Natural do Município) com apoio de diversas instituições oficiais, entidades de classe e da comunidade acadêmica.

    Entre os workshops realizados paralelamente à feira, o tratamento térmico de resíduos sólidos ocupou a maior parte das atenções a partir da divulgação de uma alternativa de pirólise rápida aplicada na transformação de borra de tinta em óleo combustível e gás.

    Química e Derivados: - Fiema - Muniz e Ana Rosa - pirólise rápida tranforma borra de tinta em GLP. ©QD Foto - Fernando de Castro

    Muniz e Ana Rosa – pirólise rápida tranforma borra de tinta em GLP.

    O estudo com pirólise rápida resulta de uma parceria das faculdades de engenharia química da Universidade de Caxias do Sul (UCS) e da Fundação Universidade de Blumenau, de Santa Catarina. Envolve ainda a Secretaria de Ciência e Tecnologia do Rio Grande do Sul e o Centro Gestor de Inovação, uma instituição patrocinada por empresários do ramo de autopeças.

    “Não é uma destinação final, pois formamos um novo produto”, faz questão de salientar Ana Rosa Costa, mestre em engenharia química e coordenadora do projeto pela instituição caxiense.

    Ela revelou com exatidão como se desenvolve o processo. A degradação da borra de tinta ocorre sob transferência de calor entre 450 °C e 550 °C por intermédio de uma cinta metálica aquecedora colocada ao redor do reator, um silo de armazenamento do rejeito.

    Os produtos saem do reator 100% em estado gasoso e ingressam na unidade de separação flash, onde ocorre a divisão em duas fases: óleo combustível com características BPF (obtido no fundo do tambor) e o gás combustível com características de GLP (retirado pelo topo da unidade flash), o qual colocado em tanque de armazenagem com compressor retorna à fornalha gerando calor para o reator num ciclo contínuo de geração energética.

    O objetivo do estudo de Ana Rosa e da equipe de Blumenau é combinar a destruição do passivo ambiental proveniente da borra de tinta e também de outros produtos originários da agroindústria em mercadoria com algum valor.

    Uma pesquisa realizada no perímetro urbano de Caxias do Sul revelou um descarte mensal de 30 toneladas por mês de borra de tinta numa amostragem de 150 firmas do ramo de autopeças. Quando completarem os questionários com o universo total de 300 indústrias, os pesquisadores irão encontrar um número próximo a 60 toneladas de passivo ambiental provenientes da pintura a cada 30 dias.

    A próxima etapa é tirar a pesquisa do laboratório e construir uma planta piloto já projetada para converter 100 quilos por hora de borra de tinta em óleo combustível e GLP. Há pendências legais no caminho dos pesquisadores, como a licença ambiental da rigorosa Fundação Estadual de Amparo ao Meio Ambiente do Rio Grande do Sul (Fepam).

    De qualquer forma, Ana Rosa faz questão de diferenciar a pirólise rápida das plantas de incineração tradicionais “Na incineração você destrói resíduos. A pirólise sempre resultará numa nova substância quimicamente aproveitável e serve como alternativa de tratamento a diversas modalidades de passivo ambiental sólido como plástico, madeira e areia de fundição contaminada por metais pesados”, ressaltou a pesquisadora.

    Química e Derivados: - Fiema - Graciema - parceria entre universidade e empresas. ©QD Foto - Fernando de Castro

    Graciema – parceria entre universidade e empresas.

    A apresentação da pirólise rápida desenvolvida em Caxias do Sul impressionou positivamente um grupo de dez funcionários da Casa da Moeda presentes à Fiema.

    Eles acreditam ser possível implantar um sistema semelhante para aproveitar os resíduos de tinta de impressão empregados na confecção do dinheiro fabricado no Brasil. Atualmente, a tecnologia incorporada ao processo de confecção das cédulas consome 90 toneladas/mês, das quais 65 toneladas são descartadas a um custo de R$ 400, por tonelada acomodada em aterro sanitário.

    No entendimento de Luiz Rezende Muniz, parceiro de Ana Rosa, as indústrias interessadas em empregar a borra de tinta em pirólise rápida poderiam formar centrais de recuperação na forma de cooperativas. Segundo ele, na unidade da Petrobrás em São Mateus do Sul, norte do Paraná, há uma usina de pirólise para obtenção de GLP, óleo combustível e enxofre a partir de xisto e pneus queimados.

    Fiema – Legislação dispersa

    Para Vânia Schneider, coordenadora científica da Fiema, os debates em relação ao tratamento térmico de resíduos sólidos serviram ainda para levantar divergências entre a comunidade acadêmica e a esfera oficial. Ela se queixou da inexistência de uma política nacional de resíduos sólidos. Conforme explicou, a legislação atual é dispersa.

    Cada estado legisla, fiscaliza e controla de acordo com seus critérios. “Como o Rio Grande do Sul detém normas rigorosas, tem indústria levando a sujeira para Santa Catarina, estado mais flexível”, justificou Schneider. “Por enquanto a legislação de resíduos sólidos no Brasil é um samba do crioulo doido. A União tem de definir de cima para baixo uma política mínima aplicável em todas as unidades da federação”, sugeriu a pesquisadora.



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