Fiema mostra soluções locais para passivos – Bento Gonçalves

Bento Gonçalves, cidade de 100 mil habitantes incrustada na serra geral do Rio Grande do Sul, a 125 quilômetros de Porto Alegre, notabilizada pelos vinhos produzidos em seus domínios, ingressou na importante agenda do debate sobre a produção industrial ecologicamente correta. Explica-se: de 9 a 13 de novembro, a localidade foi anfitriã da primeira edição da Fiema – Feira Internacional de Ecologia e Meio Ambiente

Promoção da Abepan (Associação de Proteção ao Ambiente Natural do Município) com apoio de diversas instituições oficiais, entidades de classe e da comunidade acadêmica.

Entre os workshops realizados paralelamente à feira, o tratamento térmico de resíduos sólidos ocupou a maior parte das atenções a partir da divulgação de uma alternativa de pirólise rápida aplicada na transformação de borra de tinta em óleo combustível e gás.

Química e Derivados: - Fiema - Muniz e Ana Rosa - pirólise rápida tranforma borra de tinta em GLP. ©QD Foto - Fernando de Castro
Muniz e Ana Rosa – pirólise rápida tranforma borra de tinta em GLP.

O estudo com pirólise rápida resulta de uma parceria das faculdades de engenharia química da Universidade de Caxias do Sul (UCS) e da Fundação Universidade de Blumenau, de Santa Catarina. Envolve ainda a Secretaria de Ciência e Tecnologia do Rio Grande do Sul e o Centro Gestor de Inovação, uma instituição patrocinada por empresários do ramo de autopeças.

“Não é uma destinação final, pois formamos um novo produto”, faz questão de salientar Ana Rosa Costa, mestre em engenharia química e coordenadora do projeto pela instituição caxiense.

Ela revelou com exatidão como se desenvolve o processo. A degradação da borra de tinta ocorre sob transferência de calor entre 450 °C e 550 °C por intermédio de uma cinta metálica aquecedora colocada ao redor do reator, um silo de armazenamento do rejeito.

Os produtos saem do reator 100% em estado gasoso e ingressam na unidade de separação flash, onde ocorre a divisão em duas fases: óleo combustível com características BPF (obtido no fundo do tambor) e o gás combustível com características de GLP (retirado pelo topo da unidade flash), o qual colocado em tanque de armazenagem com compressor retorna à fornalha gerando calor para o reator num ciclo contínuo de geração energética.

O objetivo do estudo de Ana Rosa e da equipe de Blumenau é combinar a destruição do passivo ambiental proveniente da borra de tinta e também de outros produtos originários da agroindústria em mercadoria com algum valor.

Uma pesquisa realizada no perímetro urbano de Caxias do Sul revelou um descarte mensal de 30 toneladas por mês de borra de tinta numa amostragem de 150 firmas do ramo de autopeças. Quando completarem os questionários com o universo total de 300 indústrias, os pesquisadores irão encontrar um número próximo a 60 toneladas de passivo ambiental provenientes da pintura a cada 30 dias.

A próxima etapa é tirar a pesquisa do laboratório e construir uma planta piloto já projetada para converter 100 quilos por hora de borra de tinta em óleo combustível e GLP. Há pendências legais no caminho dos pesquisadores, como a licença ambiental da rigorosa Fundação Estadual de Amparo ao Meio Ambiente do Rio Grande do Sul (Fepam).

De qualquer forma, Ana Rosa faz questão de diferenciar a pirólise rápida das plantas de incineração tradicionais “Na incineração você destrói resíduos. A pirólise sempre resultará numa nova substância quimicamente aproveitável e serve como alternativa de tratamento a diversas modalidades de passivo ambiental sólido como plástico, madeira e areia de fundição contaminada por metais pesados”, ressaltou a pesquisadora.

Química e Derivados: - Fiema - Graciema - parceria entre universidade e empresas. ©QD Foto - Fernando de Castro
Graciema – parceria entre universidade e empresas.

A apresentação da pirólise rápida desenvolvida em Caxias do Sul impressionou positivamente um grupo de dez funcionários da Casa da Moeda presentes à Fiema.

Eles acreditam ser possível implantar um sistema semelhante para aproveitar os resíduos de tinta de impressão empregados na confecção do dinheiro fabricado no Brasil. Atualmente, a tecnologia incorporada ao processo de confecção das cédulas consome 90 toneladas/mês, das quais 65 toneladas são descartadas a um custo de R$ 400, por tonelada acomodada em aterro sanitário.

No entendimento de Luiz Rezende Muniz, parceiro de Ana Rosa, as indústrias interessadas em empregar a borra de tinta em pirólise rápida poderiam formar centrais de recuperação na forma de cooperativas. Segundo ele, na unidade da Petrobrás em São Mateus do Sul, norte do Paraná, há uma usina de pirólise para obtenção de GLP, óleo combustível e enxofre a partir de xisto e pneus queimados.

Fiema – Legislação dispersa

Para Vânia Schneider, coordenadora científica da Fiema, os debates em relação ao tratamento térmico de resíduos sólidos serviram ainda para levantar divergências entre a comunidade acadêmica e a esfera oficial. Ela se queixou da inexistência de uma política nacional de resíduos sólidos. Conforme explicou, a legislação atual é dispersa.

Cada estado legisla, fiscaliza e controla de acordo com seus critérios. “Como o Rio Grande do Sul detém normas rigorosas, tem indústria levando a sujeira para Santa Catarina, estado mais flexível”, justificou Schneider. “Por enquanto a legislação de resíduos sólidos no Brasil é um samba do crioulo doido. A União tem de definir de cima para baixo uma política mínima aplicável em todas as unidades da federação”, sugeriu a pesquisadora.

Química e Derivados: - Fiema - Equipamentos italiano TPA tritura pneus e recupera arames. ©QD Foto - Fernando de Castro
Equipamentos italiano TPA tritura pneus e recupera arames.

Neste aspecto, Vânia lamentou a ausência do deputado federal Emerson Kapaz, responsável pela elaboração da Política Nacional de Resíduos Sólidos no Congresso e de um representante do Ministério das Cidades, a pasta do governo federal responsável pela centralização do debate de uma nova legislação global de saneamento básico, a qual deverá unificar a legislação para água, resíduos industriais, líquidos, sólidos e esgotos. Outro eixo de debate prejudicado foi o de resíduos hospitalares. Isso porque atualmente existe um conflito de interesses entre a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e o Conselho Nacional de Meio Ambiente (Conama).

Sobre o tema da incineração, Vânia Schneider explicou que aos poucos a comunidade científica está conseguindo difundir a maneira correta para realização do processo. “Um incinerador pressupõe a existência de um queimador dos resíduos, outro de gases e um precipitador eletrostático para retirar os metais pesados, e posteriormente um lavador de gases usado na remoção das substâncias sulfurosas e nitrogenosas”, ensinou. De qualquer forma ela aponta a necessidade de controle preciso do processo porque a dioxina é destruída a 1.200 °C, mas pode se formar novamente entre 200 °C e 60 °C se o resfriamento não ocorrer rapidamente.

Química e Derivados: - Fiema - Reciclagem de pneus foi tema recorrente na exposição. ©QD Foto - Fernando de Castro
Reciclagem de pneus foi tema recorrente na exposição.

Um recurso muito utilizado em incineradores modernos são sensores eletrônicos nas chaminés para detectar a presença de dioxinas e nitrosaminas na saída do queimador. O principal entrave para o desenvolvimento da incineração no Brasil ainda é o custo. Na Europa, os incineradores são construídos de tal forma a processar 2 mil toneladas por dia. Aqui, a opção ainda é por incineradores até 20 toneladas/dia, cuja operação se torna cara e pouco lucrativa.

No entendimento da engenheira química da consultoria Green Lab, Graciema Formolo Pellini, a Fiema revelou a disposição das instituições de ensino e da iniciativa privada em promover as soluções mais adequadas para diminuir o passivo ambiental gerado na indústria de transformação. “A empresa precisa planejar, gerenciar e definir o potencial econômico ao reaproveitamento de seus resíduos, determinando qual a parcela inevitavelmente descartável”, opinou. Conforme Pellini, os técnicos da Green Lab atuam no mercado justamente no atendimento da demanda ambiental da indústria. Eles têm percebido o crescimento do nível de conscientização dos empresários sobre a importância de proteger o ambiente externo ao processo industrial.

Isso gera reflexos inclusive na melhoria da qualidade das matérias-primas a partir da preocupação permanente em substituir substâncias deletérias como metais pesados e solventes aromáticos. “Estão pensando nas conseqüências de longo prazo e isso é um fato positivo”, assinalou Graciema.

No Green Lab são realizadas 13 mil análises por mês. De acordo com Pellini, existem processos cuja análise de saída dos rejeitos é permanente como os que envolvem processos líquidos por batelada. Quando o lixo é sólido as análises são mais espaçadas, semanais, quinzenais ou até mesmo somente na ocorrência de mudança de processo. “A legislação ambiental moderna sempre irá responsabilizar a fonte geradora do rejeito”, finalizou. Alertou ainda que os laboratórios e consultorias também devem se atualizar, acompanhando a tecnologia, além de se credenciar junto ao Inmetro, proceder a calibração auditada dos aparelhos e adquirir a certificação ISO 17025, a qual define os parâmetros de qualidade dos laboratórios e de seus equipamentos.

Química e Derivados: - Fiema - Piva ( esq) e Capoani - feira tem tudo para se consolidar. ©QD Foto - Fernando de Castro
Piva ( esq) e Capoani – feira tem tudo para se consolidar.

O vice-presidente do Simplavi (Sindicato da Indústria de Material Plástico da Região dos Vinhedos), Airton Capoani, é outro entusiasta da Fiema. Ele garantiu que o evento veio para ficar, pois nasceu da necessidade de um projeto voltado à defesa do ambiente natural e dentro do conceito de desenvolvimento sustentável direcionado principalmente à melhoria dos processos industriais. Somente na base do Simplavi 15 transformadores manufaturam objetos a partir de resinas recicladas. Produzem embalagens, fitas de arqueação, pisos industriais, sacarias e lonas de tal forma a atender a demanda. Na outra ponta há uma recicladora na região de Bento Gonçalves para a recuperação de polietilenos, polipropilenos, PET e poliestirenos fornecidos aos transformadores.

Cases – Concebida com o intuito de difundir também as iniciativas provenientes das indústrias, a Fiema abriu espaço à apresentação de cases provenientes de expositores. A Plastisul apresentou sua tecnologia em geomembrana marca comercial Trigeo em polietileno de alta densidade fabricada pelo processo de Blow Film (filme soprado), utilizando resinas produzidas sob os mais rigorosos controles de qualidade, normas internacionais e garantia de propriedades como excelente resistência mecânica e compatibilidade química.

As principais vantagens do Trigeo são a instalação fácil, resistência a inúmeros agentes químicos, estabilidade térmica aos raios solares, impermeabilidade, resistência a impacto, rasgo, excelente flexibilidade, fácil transporte, adesão às soldas e risco zero em relação a microporos. A aplicação do Trigeo ocorre em reservatórios da água, tanques de piscicultura, canais de irrigação, esterqueiras, lagoas de contenção, revestimento de silos, impermeabilização de estruturas de concreto, cobertura protetora de tanques, proteção estrutural de taludes, aterros sanitários, lixiviação de minérios e revestimento de adutoras.

A área de exposição da Fiema 2004 reservou algumas novidades para o mercado brasileiro como o triturador de pneus para o aproveitamento integral dos arames de aço na metalurgia e da borracha na confecção de pisos e asfalto, equipamento desenvolvido pelo grupo italiano TPA e fabricado na filial da empresa em São Paulo.

O diretor Alberto Paesani destacou que a partir de 2005 a empresa produzirá 60% da sua linha de equipamentos no Brasil, todos voltados à montagem de usinas de reciclagem de elastômeros, plásticos, metais, papelões, entre outros materiais descartáveis. A empresa levou também uma maquete de uma usina completa para reciclagem de metais e borracha provenientes de pneus.

Já a Tetrapack demonstrou o processo de reciclagem das embalagens longa vida e expôs materiais obtidos a partir da reciclagem de embalagens como móveis e telhas.

Atualmente, 20% dessas embalagens no Brasil são recicladas. Em 2000, o índice era de 13% e o preço da tonelada pago às cooperativas de catadores era de R$ 50,00. Hoje os recicladores pagam cerca de R$ 250,00 por tonelada, o que comprova a geração de valor na cadeia de reciclagem.

A Fiema voltou suas atenções também à comunidade de Bento Gonçalves. Ao público infanto-juvenil, o evento ofereceu o Projeto Viva a Natureza, desenvolvido nos meses de setembro e outubro em parceria com uma escola do município, por meio da distribuição de 30 mil livretos educativos em escolas públicas e privadas da região, explicando como funciona a reciclagem de lixo. Na Hora do Conto, alunos de quatro a nove anos tiveram contato com a problemática ambiental por meio de histórias infantis.

O trabalho de educação ambiental contou ainda com a presença do Promusit – Museu itinerante de Ciência e Tecnologia da Pontifícia Universidade Católica (PUC/RS), instalado em um ônibus adaptado à apresentação de oficinas sobre ecologia, astronomia, arqueologia, física e matemática. O museu sobre rodas recebeu sete mil visitas.

“Em feiras a maioria dos negócios se concretiza a curto e médio prazo, mas aqui já estão se realizando. Nosso objetivo foi o de promover a difusão das informações e tecnologias para a preservação ambiental e fomos além do esperado”, salientou o presidente da Fiema, Juarez José Piva. Em seus cinco dias, o evento reuniu um total de 190 empresas, 8,5 mil visitantes da região, de outros estados brasileiros e de 25 delegações estrangeiras, com forte presença da União Européia. A próxima está programada para maio de 2006 e a previsão é dobrar o número de expositores. Com isso, os organizadores querem ocupar todo o espaço de 50 mil metros quadrados do Parque de Exposições de Bento Gonçalves. Nesta primeira experiência, 45% da área foi utilizada para a estrutura do evento. Da forma organizada e criteriosa como foi concebida, a Fiema tem tudo para se firmar como um grande acontecimento em favor do desenvolvimento econômico combinado com o respeito ao meio ambiente.

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