Fabricante local de nitrocelulose faz 85 anos e mira mercado global

Química e Derivados entrevistou o presidente (CEO) da Nitro, Marcos Cruz, para conhecer a atual estratégia de negócios da companhia, em um ambiente de negócios cada vez mais globalizado.

Uma das mais tradicionais indústrias químicas do Brasil completou 85 anos de atuação ininterrupta.

Fundada como Cia. Nitro Química Brasileira, em 1935, agora denominada apenas Nitro, a empresa passou por várias mudanças ao longo dos anos.

A começar pela linha de produção, pois o plano inicial era fabricar o Rayon, fio artificial celulósico fundamental para a indústria têxtil de então.

Na década de 1950, foram adicionadas as unidades de ácido sulfúrico, soda e celulose de línter, linha mantida até o fim dos anos 1990, quando passou a se concentrar em nitrocelulose e nos ácidos sulfúrico e fluorídrico (este descontinuado há muitos anos).

A produção de nitrocelulose foi ampliada, com destaque para uma nova fábrica em 2006.

Estima-se a capacidade de produção em 36 mil t/ano de nitrocelulose (base seca, dado não confirmado pela companhia), muito superior à demanda brasileira pelo produto, por volta de 15 mil t/ano.

Em 2011, o controle do capital passou da Votorantim para um grupo de investidores privados, que lhe encurtaram o nome e direcionaram a produção para nitrocelulose e ácido sulfúrico, introduzindo recentemente o enxofre pastilhado de grande consumo no setor Agro.

Química e Derivados entrevistou o presidente (CEO) da Nitro, Marcos Cruz, para conhecer a atual estratégia de negócios da companhia, em um ambiente de negócios cada vez mais globalizado.

QD – O sr. poderia comentar um pouco sobre a história da companhia e qual a sua configuração atual?

Marcos Cruz – A Companhia Nitro Química Brasileira, atual Nitro, foi oficialmente inaugurada em 11 de Setembro de 1935 por iniciativa de dois lendários empreendedores nacionais: José Ermírio de Moraes e Wolf Klabin.

A empresa foi instalada às margens do Rio Tietê, no bairro de São Miguel Paulista, em São Paulo, com a missão de contribuir com o desenvolvimento da crescente indústria química brasileira. À época, o principal produto era o fio Rayon, fibra de celulose produzida pelo método “viscose” e depois chamado simplesmente de viscose. A Nitro também produzia algumas matérias-primas deste processo (a própria celulose de línter de algodão) e outros derivados. Os produtos foram essenciais para o desenvolvimento das indústrias têxtil, química e de pneumáticos no país.

Ao longo das décadas, o portfólio da Nitro foi estrategicamente ampliado de acordo com as necessidades dos seus clientes, os avanços da tecnologia e a atuação em diferentes mercados. Alguns destes mercados se demonstraram mais promissores e a Nitro se especializou nestes produtos, em sintonia com os clientes.

O ácido sulfúrico, que era um insumo vital para a própria operação dos demais produtos da Nitro e para a geração limpa de energia para a fábrica, passou por diversas modernizações de tecnologia e ampliações de capacidade que transformaram a empresa num dos maiores fornecedores nacionais do insumo no mercado livre (não autoproduzido), tão importante para outras indústrias como papel e celulose, alimentos, tratamento de água e agropecuária.

A nitrocelulose, utilizada principalmente nas indústrias de tintas e vernizes, ganharia maior relevância no portfólio a partir da década de 1950, com o crescimento da indústria automobilística e principalmente pelo surgimento das indústrias de embalagens (as embalagens flexíveis dos alimentos são todas impressas com tintas à base de nitrocelulose, por suas propriedades naturais, atóxicas e sua incomparável velocidade de secagem nas modernas máquinas de impressão) e de cosméticos (os esmaltes de unhas do mundo todo contêm nitrocelulose como a principal resina pelos mesmos motivos citados, além da flexibilidade, do brilho e da beleza do filme formado sobre as unhas).

Desde o início de 2000, a Nitro passou por um intenso processo de internacionalização de seus mercados. Atualmente a empresa exporta para mais de 70 países em todos os continentes e se tornou o líder global em nitrocelulose.

Em 2011, um grupo de investidores brasileiros adquiriu a Nitro do grupo Votorantim. Focamos no desenvolvimento e na produção de soluções customizadas e especialidades químicas para os clientes, incluindo a ampliação da unidade de São Miguel, adquirimos uma planta de soluções customizadas nos Estados Unidos em 2016, e no Uruguai em 2017.

Os investimentos no setor agro ganharam força a partir de 2019, com a aquisição da MCM, uma das maiores fabricantes de sulfato de cobre e de zinco do país, e da participação na Fast Agro, empresa especializada em fisiologia e nutrição vegetal. Também fizemos grandes investimentos para o desenvolvimento de novos produtos destinados ao setor agrícola.

QD – O principal produto é a nitrocelulose, material usado por diversas indústrias – seria possível detalhar os principais segmentos de mercado atendidos? Trata-se de um produto maduro, ou seja, que já desenvolveu seus clientes em potencial. Sabemos dos esforços da companhia para criar soluções mais adequadas para cada segmento atendido, mas qual a estratégia para atuar com a nitrocelulose nas próximas décadas?

Marcos Cruz – A nitrocelulose é uma resina utilizada na fabricação de tintas de impressão para embalagens flexíveis, esmaltes, e outros segmentos como repintura automotiva, acabamento em couro e farmacêutico.

A Nitro possui o mais amplo portfólio de nitrocelulose do mundo, além de ser o maior produtor de formulações customizadas para os clientes, por meio das três unidades industriais no Brasil, Uruguai e Estados Unidos. Investimos anualmente cerca de 2% da receita em P&D, desenvolvimento de novos produtos e novos processos, para continuar apresentando inovação não somente nos produtos e soluções de nitrocelulose, mas criando outros produtos para diferentes mercados, novos serviços e novos modelos de negócios voltados ao cliente.

QD – A nitrocelulose tem apelo de sustentabilidade, por não depender de insumos fósseis na produção. Isso é um fator interessante para a atuação da companhia?

Marcos Cruz – Certamente. A nitrocelulose é uma resina de origem natural, que utiliza insumos biorenováveis como a celulose de madeira de reflorestamento ou o línter (celulose do caroço do algodão), e é também solúvel em solventes orgânicos naturais, então é um produto muito sustentável.

Além destas características, é um produto atóxico e não traz riscos para a saúde na utilização de embalagens de alimentos, bebidas, medicamentos e produtos cosméticos. Nos Estados Unidos, nossa subsidiária é certificada pelo FDA, produz soluções de nitrocelulose especiais para a indústria farmacêutica e de tratamentos dermatológicos como curativos líquidos, remédios para tratamento de calos e verrugas, redutor de cicatrizes entre muitos outros. Pretendemos expandir este mercado para o Brasil e outros países também. Todas as nossas iniciativas estão atreladas aos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU, e temos muito orgulho da redução do impacto ambiental dos nossos processos ao longo dos anos.

QD – O ácido sulfúrico é um produto essencial para várias atividades, já foi considerado indicador de desenvolvimento econômico de países. Quanto esse ácido representa dentro dos negócios da companhia? A produção de enxofre pastilhado tende a reduzir a oferta de ácido para o mercado?

Marcos Cruz – O ácido sulfúrico é uma das matérias-primas mais importantes para a fabricação dos nossos produtos e é o carro-chefe da nossa unidade de negócios de Químicos Industriais. A Nitro concluiu em 2019 um projeto de modernização e ampliação da capacidade de produção deste ácido em cerca de 25%.

Com a entrada da Nitro no setor de agro, as aquisições e a inauguração das fábricas de Sulfato de Magnésio e do Midas® (marca da linha de enxofres pastilhados), estamos produzindo mais ácido sulfúrico e derivados de enxofre, e também consumindo parte desta expansão para atender a demanda nas nossas operações de agronegócios, sem, no entanto, impactar no fornecimento do ácido sulfúrico 98% e Oleum para os nossos clientes.

QD – Qual o papel da internacionalização dos negócios no desenvolvimento da companhia? Quanto à exportação representa no total das vendas e resultados? 

Marcos Cruz – A Nitro já exportava seus produtos há várias décadas e, ao longo dos anos, aumentamos muito nossa participação no mercado externo. Em 2016, finalizamos a aquisição da Alchemix, em Atlanta, nos Estados Unidos, e abrimos o primeiro escritório regional fora do Brasil, em Viena, na Áustria. No ano seguinte, realizamos a aquisição da Promak, em San José, no Uruguai.

Essas aquisições e investimentos na ampliação do portfólio fizeram com que a nossa presença no mercado externo ganhasse força e é muito importante para nós atendermos clientes no Brasil e no exterior. Hoje, as exportações representam cerca de metade de todo o faturamento da empresa e aproximadamente dois terços de todo o volume de nitrocelulose produzido em São Miguel são destinados a mais de 70 países do mundo em todos os continentes.

QD – Quais os maiores problemas encontrados por um fabricante brasileiro para disputar mercados e atender bem seus clientes em outros países? Como lidar com eles?

Marcos Cruz – As operações internacionais oferecem muitos desafios, os principais são os logísticos e os regulatórios, pois cada país importador pode contar com diferentes legislações. Nossas equipes de logística, de assuntos regulatórios e de customer services lidam com estes desafios todos os dias, com muita seriedade e comprometimento, buscando manter a qualidade e o nível de serviço nas operações internacionais.

Para melhor atender os clientes, além das operações centrais no Brasil e das unidades do Uruguai e Estados Unidos, temos o escritório regional com uma equipe de customer services na Áustria, onde temos profissionais de várias nacionalidades e culturas, falando dez idiomas diferentes. Para aumentar a confiabilidade nas nossas entregas, temos armazéns, além de Brasil, Uruguai e dois nos Estados Unidos, na Holanda, França e Itália.

A Nitro é uma empresa internacional muito respeitada por clientes do mundo todo e as dificuldades causadas pela pandemia foram prova disso. A competência da empresa nessas operações internacionais permitiu que nossos clientes, empresas de embalagens para alimentos ou empresas farmacêuticas, consideradas essenciais, continuassem operando apesar dos episódios de fechamentos de fronteiras portuárias ou rodoviárias, das dificuldades no transporte marítimo e mesmo a interrupção de fábricas de concorrentes na China e em outros países.

QD – Quais são os planos da companhia para os próximos anos? Quanto precisará ser investido para isso? Há planos para internacionalizar também a produção? 

Marcos Cruz – Nosso principal plano é seguir crescendo mediante novos investimentos e de aquisições e participações estratégicas, mas principalmente atendendo nossos clientes com produtos de excelente qualidade, com soluções cada vez mais eficientes e sustentáveis.

Trabalhamos para ampliar, cada vez mais, nossa atuação nesses setores estratégicos, com compromisso de longo prazo para o setor agro, e constante inovação em especialidades químicas, que faz parte da nossa história desde a fundação.

A equipe de P&D da Nitro se empenha para desenvolver soluções cada vez mais customizadas e completas, que atendem às necessidades de clientes nos diversos mercados. Além disso, somos comprometidos com a segurança das nossas operações, que são características já reconhecidas da Nitro no Brasil e no exterior, e continuaremos investindo nas nossas unidades fabris, com o objetivo de sempre melhorar nossos processos.

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