Etanol – Produtividade agrícola cai e importação aumenta para abastecer frota nacional – Perspectivas 2018

Química e Derivados, Etanol - Produtividade agrícola cai e importação aumenta para abastecer frota nacional - Perspectivas 2018

Com início previsto para 1º de abril, a safra 2018/19 de produção de açúcares totais recuperáveis (ATR), matéria-prima para a produção de etanol e açúcar, deverá sofrer uma redução de oferta na região Centro-Sul, resultado do “clima desfavorável durante boa parte de 2017, que comprometeu o desenvolvimento das soqueiras, do fogo acidental e criminoso dos canaviais, da maior incidência de mato e pestes, e do envelhecimento dos canaviais pela taxa de renovação ainda insuficiente para reverter essa tendência”.

Química e Derivados, Nastari: RenovaBio estimula a investir em biocombustíveis
Nastari: RenovaBio estimula a investir em biocombustíveis

Esta é a previsão de Plínio Nastari, da consultoria agrícola Datagro. Apesar da menor produção de ATR, ele avalia que o mix de produção deve ser bem mais alcooleiro, por conta dos preços muito baixos no mercado mundial de açúcar, pressionado pelo aumento de produção da União Europeia, Índia, Paquistão e Tailândia.

Áreas protegidas por tarifas muito elevadas, e outras restrições ao livre comércio, na Europa, Estados Unidos, Índia, China e Rússia, têm contribuído para manter o negócio de açúcar como um dos mais protegidos do mundo. Subsídios à exportação na Tailândia e no Paquistão têm atrapalhado bastante as transações.

Nastari admite que 2018 deverá registrar uma repetição da produção de etanol verificada em 2017, num mercado de ciclo Otto que deverá crescer em cerca de 1,5 bilhão de litros de gasolina equivalente. Como não há perspectiva de aumento da produção local de gasolina A, isso significa que a importação de gasolina, que foi de 2,93 bilhões de litros em 2016, e que deve fechar em 4,5 bilhões de litros em 2017, pode atingir 6 bilhões de litros em 2018.

“Este volume representa uma perda enorme para o Brasil, pois poderia estar sendo produzido localmente, seja na forma de gasolina ou de etanol, gerando efeito multiplicador na economia, e não indo embora do país”, adverte.

Química e Derivados, Pádua: açúcar barato favorece aumento da produção de etanol
Pádua: açúcar barato favorece aumento da produção de etanol

Para o diretor técnico da União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Unica), Antônio de Pádua, o comércio de etanol está diretamente ligado ao preço do petróleo. O valor da gasolina na praça internacional vai se refletir no Brasil de acordo com a taxa de câmbio. Ele aposta em um incremento até superior a 4%, fruto da maior demanda de combustíveis em 2018.

Por sua vez, o mercado de açúcar está superofertado e os preços relativos, entre o açúcar e o álcool, são mais favoráveis ao etanol. Por isso, dependendo da oferta de cana de 2018, mesmo havendo uma redução, Pádua também acredita que a safra será mais alcooleira que no ano passado. Ele calcula uma redução de 3 milhões de toneladas de açúcar e aumento de oferta de aproximadamente 2 bilhões de litros de etanol.

Entre os fatores que levarão à redução da produção de cana, o dirigente cita o envelhecimento do canavial, que leva à queda de produtividade agrícola, mesmo com clima favorável: “O veranico do Centro-Sul vai provocar a redução da produtividade agrícola, pela quantidade de falhas, da não brotação, da falta de chuva; além disso, a quantidade de incêndios que houve na palha na lavoura foi muito grande. E a última variável, para saber se a área colhida vai ser maior ou menor, vai depender do clima de dezembro a abril”.

Na avaliação de Pádua, a safra 2017 iniciou com certa expectativa, no período de abril, que até o final da moagem ficasse em 585 milhões de toneladas de cana, número inferior a 2017, que foi de 607 milhões. No final do ano, a cifra foi revista para 570 milhões de toneladas.

“Não houve redução de açúcar e etanol, porque, se a seca prejudicou a área colhida, favoreceu a concentração de açúcar na cana. Ou seja, com menor quantidade de cana se produziu a mesma quantidade (de produto final). A safra foi semelhante, portanto, à anterior”, comenta.

O que mudou foi que, até setembro, a safra era bem açucareira. “Aí passou a ser etanol (maior quantidade de cana destinada ao etanol, fruto da combinação da queda do preço do açúcar no mercado spot e a nova política de preços da Petrobras). O aumento de preços ao consumidor, em outubro-novembro, estimulou o consumo de etanol hidratado. Resumindo, o ano de 2017 começou com o etanol remunerando menos no início e terminou com o etanol remunerando mais”.Em 2017, a produção de ATR repetiu o volume do ano anterior, contabiliza a Datagro. Até 1º de dezembro, com a safra próxima do encerramento, a produção de ATR foi 0,32% superior à de 2016. “O mix de produção iniciou a safra bem açucareiro e, a partir de agosto, reverteu na direção do etanol. No acumulado da safra, a produção de etanol e açúcar ficou também muito próxima daquela observada no ano passado. Em 2017/18, o Brasil deve moer 651,6 milhões de toneladas de cana, produzir 38,73 milhões de toneladas de açúcar e 27,68 bilhões de litros de etanol”, destaca. Estas estimativas somam as regiões Centro-Sul (encerrando em 31 de março) e Norte-Nordeste (em 31 de agosto).

O consumo de combustíveis do ciclo Otto (gasolina mais etanol) evoluiu 1,7%, embora o PIB tenha crescido apenas 0,7%, o que indica o vigor e a resiliência desse negócio. Em 2018, com previsões de avanço do PIB entre 2,5% e 3%, o consumo de combustíveis do ciclo Otto deve aumentar 3% a 3,5%.

O consumo de etanol para usos industriais e alcoolquímica, no entanto, apresentou um pequeno recuo, de 1,47 bilhão de litros para 1,41 bilhão, reflexo das dificuldades enfrentadas pela economia em geral, principalmente a redução de demanda para tintas no setor automotivo.

RenovaBio – Nastari considera que a participação do etanol no consumo de combustíveis do ciclo Otto tem variado bastante nos últimos anos. Em gasolina equivalente, entre 30,3% e 45%, nos últimos 8 anos.

“Esta é uma variação muito grande e denota a falta de política para o setor de combustíveis líquidos. Com o RenovaBio, o novo Plano Nacional de Biocombustíveis, aprovado na Câmara dos Deputados e no Senado, respectivamente, nos dias 28 de novembro e 12 de dezembro, isso tende a mudar no médio prazo, trazendo mais estabilidade e previsibilidade para o mercado”, opina.

“O RenovaBio vai estimular investimentos em eficiência e valorizar os biocombustíveis por sua capacidade de promover descarbonização. Irá estimular o etanol 2G, e todos os métodos de produção de biocombustíveis (etanol, biodiesel, biogás/biometano e bioquerosene) que sejam eficientes do ponto de vista energético e ambiental”, afirma.

Pádua também ficou animado com a aprovação do RenovaBio, que vai criar um cenário de retomada de desenvolvimento. Cauteloso, espera pela regulamentação, que deve tardar mais dois anos. De qualquer forma, “é uma política de longo prazo, que vai dar segurança ao investimento e levará o setor a ganhar produtividade”.

Ele também espera que estimule a indústria automobilística a melhorar a eficiência do etanol nos veículos. Se for bem regulamentado, “haverá uma retomada do etanol de cana 1G, 2G, etanol de milho…”.

O Projeto de Lei da Política Nacional do Biocombustível (RenovaBio) cria a política específica para todos os biocombustíveis e as bases para o desenvolvimento sustentado dessa atividade, com previsibilidade para os agentes públicos e privados.

Em outras palavras, o RenovaBio é uma política de Estado que objetiva traçar uma estratégia conjunta para reconhecer o papel de todos os tipos de biocombustíveis na matriz energética brasileira, tanto para a segurança energética quanto para mitigação de redução de emissão de gases causadores do efeito estufa.

“Todo o programa se baseia em metas de descarbonização e estima-se que gerará 1,4 milhão de empregos diretos e 4,2 milhões de empregos indiretos, investimentos de R$ 1,4 trilhão e substituição de importações na casa de 300 bilhões de litros de gasolina e diesel”, pronuncia o professor da FEA/USP Ribeirão Preto, Marcos Fava Neves.

A Federação dos Plantadores de Cana do Brasil (Feplana) também projeta que haverá novos investimentos da ordem de R$ 1,4 trilhão até 2020, ano em que o RenovaBio será implementado oficialmente. O montante deve ser aplicado, na sua maioria, na construção de novas usinas para a produção de mais etanol. Atualmente, o combustível é majoritariamente fabricado à base de cana-de-açúcar – mais eficiente, com maior qualidade e com menor capacidade poluente dentre as outras matrizes agrícolas para este fim.

A entidade diz ainda que o investimento previsto também será aplicado na adequação dos parques produtivos existentes, mas com capacidade parcialmente ociosa, como é o caso da maioria das usinas brasileiras.

Na região Nordeste, por exemplo, as unidades fabris sucroalcooleiras operam ocupando, no máximo, 70% de suas capacidades produtivas, conforme avalia a União Nordestina dos Produtores de Cana (Unida), entidade que reúne cerca de 21 mil produtores. Em Pernambuco, a ociosidade é ainda superior: 40%.

Conjetura-se que o RenovaBio poderá gerar uma economia interna de 300 bilhões de litros de gasolina e diesel, que seriam importados no período 2020-2030.Dados – As estatísticas da Datagro indicam que o Brasil é o segundo maior produtor de etanol do mundo. O primeiro é os Estados Unidos, com 59,5 bilhões de litros por ano. Isso ocorre porque o negócio de gasolina dos EUA é quase 10 vezes maior que o do Brasil. Por esse motivo, aqui, a proporção do etanol no ciclo Otto é de 39,4%, e nos EUA é de 9,9%.

Por falta de excedentes disponíveis para exportar, o Brasil tem se concentrado em enviar etanol para mercados especiais, nos quais por questões de qualidade ou de reconhecimento de seu valor ambiental, o produto nacional recebe um prêmio. A abertura brasileira a importações também tem resultado num volume considerável de importações de etanol. As exportações em 2017/18 devem somar 1,44 bilhão de litros, e as importações, 1,75 bilhão de litros.

De acordo com Nastari, os preços do etanol têm se mantido em patamares razoavelmente competitivos com a gasolina, o que tem resultado em um volume mensal de consumo de etanol hidratado superior a 1,4 bilhão de litros. O produto usado como combustível puro na frota flex tem o seu consumo concentrado nos Estados de São Paulo, Minas Gerais, Goiás, Mato Grosso do Sul, Mato Grosso e Paraná.

“Apenas nos últimos 30 dias, o preço do etanol anidro ao produtor subiu 9,4%, para R$ 1,8 por litro, e o preço do etanol hidratado subiu 7,8% para R$ 1,75 por litro, livre de impostos”, declarou, no final de dezembro.

Indagado sobre projetos de investimento em usinas, ele responde que continuam a existir, embora limitados, na área industrial, para aumento da capacidade de diversificação entre açúcar e etanol, e na cogeração de energia. Na área agrícola, em mecanização da colheita e plantio, e em tecnologias modernas de plantio e tratos culturais por georreferenciamento, drones, e outras tecnologias que poupam mão-de-obra.

Pádua sustenta que os investimentos existentes são para manutenção e acontecem todos os anos: reformas nos canaviais e troca de implementos e veículos. “Se gasta mais de R$ 7,5 mil por hectare para renovar a cana. 18% da área plantada tem que ser renovada. Estes são investimentos de rotina, representam cerca de 25% do faturamento total. Não estão havendo investimentos em novas plantas. A capacidade está estática”, acentua.

Novidades tecnológicas também continuam em pauta. Nastari menciona a expectativa de lançamento dos veículos híbridos flex, capazes de utilizar etanol, a partir dos lançamentos de 2019. “Esta tecnologia e, no futuro, as células a combustível movidas a etanol, devem revolucionar e valorizar ainda mais o uso do etanol combustível de baixa pegada de carbono produzido e consumido no Brasil”, assinala.

Com relação às possibilidades de aproveitamento do etanol (e do açúcar) como insumos industriais químicos ou biotecnológicos, observa que há “enorme potencial”. E acrescenta: “Se o setor não tivesse enfrentado a crise de preços causada pelos subsídios de preço da gasolina, com certeza estaria mais avançado nesta área”.

Pádua concorda: “Esse negócio tem potencial, mas está basicamente estagnado porque as grandes transações são para fins carburantes. Este segmento representa de 4% a 5% do mercado global e não tem experimentado grandes alterações”.

A Unica dimensiona o comércio carburante em 26 bilhões de litros; não carburante, 1 bilhão de litros. O Brasil exporta 1,5 bilhão de litros de etanol (e importa volume semelhante). A produção nacional de açúcar é da ordem de 38 milhões de toneladas/ano – 2/3 são exportadas (28 milhões de toneladas).

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