Entrevista: A produção brasileira de celulose

Meta é dobrar as exportações de papel e celulose até 2012

A produção brasileira de celulose alcançou 8 milhões de toneladas em 2002, crescendo 7,9% em relação a 2001, e foi seguida pela produção de papel que, ao atingir 7,7 milhões de toneladas, expandiu-se em 2,9%.

Enquanto as vendas internas de celulose tiveram crescimento de 5%, as vendas de papel expandiram-se em 2%, totalizando, respectivamente, 750 mil toneladas e 4,9 milhões de toneladas.

O consumo aparente de papel refletiu expressiva queda das importações, totalizando 6,8 milhões de toneladas, com crescimento de 1,2% em relação ao ano anterior, resultado que também trouxe à tona um consumo per capita estável, da ordem de 38 kg/ano.

Na próxima década, porém, o Brasil deverá ter um consumo per capita de 50 kg/ano, de acordo com o engenheiro Osmar Elias Zogbi, presidente da Associação Brasileira de Celulose e Papel (Bracelpa) e também presidente e superintendente do grupo Ripasa.

Para conhecer, no entanto, quais são os alicerces que darão base a perspectivas futuras mais favoráveis, Química e Derivados foi ouvir essa liderança e publica a seguir o resultado da entrevista.

Meta é dobrar as exportações de papel e celulose até 2012

Q&D – Quais são as perspectivas para o setor da celulose e papel em 2003?

Química e Derivados: Papel: Osmar Elias Zogbi é presidente da Associação Brasileira de Celulose e Papel (Bracelpa) e do grupo Ripasa.
Osmar Elias Zogbi é presidente da Associação Brasileira de Celulose e Papel (Bracelpa) e do grupo Ripasa.

Osmar Elias Zogbi – A indústria brasileira de celulose e papel desde o início de sua implantação teve de realizar um esforço gigantesco para poder operar em condições de concorrer com os grandes produtores dos países mais desenvolvidos, devido às próprias características deste mercado, sempre marcado pela competição internacional.

Em 2003, daremos início a um novo programa de investimentos com sequência até 2012, período em que pretendemos ampliar a produção para dobrar as exportações, como já fizemos nas duas últimas décadas.

Os investimentos realizados em 2002 e os programados para 2003 indicam um aumento da capacidade instalada de l,5 milhão de toneladas para a celulose e de 250 mil toneladas para o papel, o que nos leva a projetar crescimento de 13% na produção de celulose e de 5% na produção de papel em 2003.

Q&D – Quais foram os índices de produtividade alcançados nos últimos anos?
Osmar Elias Zogbi – A indústria brasileira como um todo teve de enfrentar uma situação nova e desafiadora, em função do processo de globalização, tornando-se aberta às pressões do comércio e da concorrência internacionais. Nesse período, nosso setor realizou um imenso esforço adicional de racionalização, conseguindo alcançar enormes ganhos de produtividade. Basta dizer que, nas últimas três décadas, aumentamos nossa produção a cada ano, em média, em mais de 7% para a celulose e acima de 6% para o papel.

Q&D – Qual é o volume de investimentos previstos para os próximos anos?
Osmar Elias Zogbi – Na última década, investimos US$ 13 bilhões. Esses investimentos, que deverão manter seu nível histórico durante a próxima década, são indispensáveis também para que a nossa indústria mantenha e melhore suas posições de 7° produtor mundial de celulose, 11° fabricante de papel e l° produtor mundial de celulose de fibra curta.

Q&D – O senhor poderia tecer um panorama sobre o consumo interno da celulose e papel?
Osmar Elias Zogbi – As empresas integradas produzem 4,2 milhões de toneladas/ano de celulose. Desse total, 3,7 milhões de toneladas são consumidas na produção de papéis por elas próprias, sendo o saldo remanescente de 600 mil toneladas comercializado tanto no mercado interno, como externo.

Em papel, as vendas ao mercado doméstico totalizam aproximadamente 5 milhões de toneladas, destacando-se os papéis para embalagens destinados à conversão, que representam l,5 milhão de toneladas.

Q&D – Quais foram os últimos resultados colhidos com as exportações e o que será feito a partir de 2003 para ampliar a participação do Brasil no mercado externo?
Osmar Elias Zogbi – Nossas exportações, que eram de pouco mais de US$ 1 bilhão no início da década de 90, ampliaram-se em mais de 100%, alcançando em 2002 US$ 2,2 bilhões, o que gerou um saldo comercial positivo de US$ 1,6 bilhão para o País. Os principais mercados de exportação de celulose são a União Européia e Ásia, que representam cerca de 70% do total das vendas externas.

Já quanto às exportações de papel, a América Latina seguida da União Européia, com 60% do total, representam os principais mercados de exportação. Em 2003, nossa meta é exportar US$ 3,1 bilhões e importar US$ 600 milhões, mantendo a balança comercial do setor positiva em US$ 2,5 bilhões.

Em função do cumprimento de nossas metas, o setor da celulose e papel vem buscando ampliar sua atuação no comércio exterior, estabelecendo negociações de acesso a mercados da Alca, União Européia, Comunidade dos Países Andinos, México, entre outros.

Adicionalmente a essas negociações, a AFCP – Associación de Fabricantes de Celulosa y Papel, de Buenos Aires, Argentina, e a Bracelpa assinaram a quarta renovação do acordo binacional para papéis para imprimir e escrever. O significado e a importância desse acordo podem ser avaliados pelo alto grau de interesse despertado entre as autoridades governamentais dos dois países.

Q&D – Como as empresas têm-se comportado frente às projeções de crescimento das exportações ?
Osmar Elias Zogbi – Com base nas previsões de que a partir de 2003 o cenário para as exportações apresentará melhora sensível em valor e quantidade, as empresas do setor vêm intensificando seus programas de investimento para atender ao crescimento da demanda mundial tanto de celulose, que deverá crescer nos próximos anos a uma taxa média de 2,7%, destacando-se a celulose de fibra curta, com 4,5%, como do papel e papel-cartão, cujas previsões feitas por consultorias especializadas indicam crescimento de 2,2%.

Q&D – Existem planos para incrementar as atividades de reflorestamento no País?
Osmar Elias Zogbi – O setor de celulose e papel utiliza exclusivamente madeira de florestas plantadas, aplicando modernas técnicas silviculturais e de manejo florestal que, conjugadas com solo e clima favoráveis, apresentam altos índices de produtividade. Atualmente, possui uma área florestal de 1,4 milhão de hectares, sendo 69% de eucalipto, 29% de pinus e 2% de outras madeiras.

As principais áreas plantadas encontram-se nos Estados de São Paulo, com 308 mil ha, seguido pelo Paraná e Bahia, com 267 mil ha e 217 mil ha, respectivamente. A disponibilidade de áreas florestais em condições de sustentar novos empreendimentos industriais, porém, está muito limitada.

O setor industrial vem mantendo sua performance apenas pelo crescimento da produtividade florestal, cujas médias brasileiras situam-se em 45 st/ha/ano e 36 st/ha/ano, respectivamente, para eucalipto e pinus. No entanto, o segmento florestal tem previsão de plantios e reformas programadas para o período de 2003 a 2010, da ordem de 1,2 milhão de hectares, representando média anual de 152 mil hectares.

Além disso, a aprovação da filiação do CERFLOR, pela Assembléia Geral do Pan European Forest Certification System, é de grande valia para a área de florestas plantadas e o primeiro passo para que o CERFLOR possa buscar o reconhecimento mútuo junto a esse sistema.

Q&D – Quais são os principais gargalos existentes no setor ? O senhor tem propostas para superá-los?
Osmar Elias Zogbi – O principal gargalo enfrentado pelo setor é a falta de isonomia competitiva com nossos concorrentes internacionais, que somente será alcançada mediante a adoção pelo governo de medidas mais eficazes de apoio à expansão da base florestal, eliminação da acentuada desvantagem em relação ao custo de capital para investimento e capital de giro, e da excessiva carga tributária, além da ampliação de linhas de financiamento de longo prazo.

Nesse sentido, nosso setor pode auxiliar o Brasil a ir além, apoiando a adoção de uma política industrial que nos dê a possibilidade de nos tornarmos um agente de desenvolvimento da nossa cadeia produtiva, e permitindo-nos construir em parceria com o governo uma política conjunta de desenvolvimento das exportações, ajudando nossos clientes a vender seus produtos com maior valor agregado no exterior.

Q&D – O senhor poderia analisar a conjuntura setorial envolvendo a celulose de fibra longa e a celulose de fibra curta?
Osmar Elias Zogbi – O Brasil importa cerca de 350 mil toneladas/ano de celulose de fibra longa, pois a demanda interna é superior à capacidade produtiva. Produzida a partir de coníferas, esse tipo de celulose possui características especiais de resistência à tração, sendo utilizada essencialmente na produção de papéis de embalagem, na sua forma não-branqueada, pelas empresas integradas.

Já a celulose de fibra curta, produzida no Brasil a partir do eucalipto, e aplicada em papéis brancos de imprimir e escrever, possui grande excedente, regularmente exportado aos mercados da Europa, América do Norte e Ásia.

Q&D – Como estão se comportando a produção e o consumo nos vários mercados do papel, o senhor poderia fazer comentários a esse respeito?
Osmar Elias Zogbi – O Brasil é praticamente auto-suficiente na produção de todos os tipos de papel e cartões, à exceção do papel de imprensa, LWC e alguns especiais, parcialmente importados. O consumo nacional de papel de imprensa até outubro de 2002 alcançou 420 mil toneladas, com as importações representando 55% desse total.

As importações, nesse caso, ocorrem por falta de isonomia competitiva, como mencionei antes, uma vez que são importados totalmente isentos de impostos, enquanto o produto nacional sofre tributação ao longo da cadeia produtiva, inviabilizando os investimentos nesse segmento.

Q&D – Como estão os investimentos no segmento dos papéis para impressão e escrever?
Osmar Elias Zogbi – As empresas estão realizando grandes investimentos em papéis de maior valor agregado, a exemplo do papel couchê, tornando-se auto-suficientes e exportadoras. No acumulado de janeiro a outubro de 2002, a produção nesse segmento foi de 1,8 milhão de toneladas, com crescimento de cerca de 2%. As vendas domésticas foram de 1,2 milhão de toneladas, apresentando crescimento de 4,6%, e as exportações totalizaram 555 mil toneladas.

Q&D – O senhor poderia comentar a produção e o consumo nos segmentos dos papéis para embalagem, papel-cartão e papéis sanitários?
Osmar Elias Zogbi – A produção brasileira de papel para embalagem de janeiro a outubro de 2002 atingiu 3 milhões de toneladas, sendo que 1,2 milhão de toneladas foram destinadas à produção de caixas de papelão ondulado e sacos multifolhados.

As exportações nesse período apresentaram crescimento de 13%, totalizando 370 mil toneladas. No segmento de papel-cartão, a produção até outubro atingiu 451 mil toneladas, com crescimento de 7%, destacando-se as exportações que cresceram 35%. Já a produção de papéis sanitários até outubro de 2002 foi de 555 mil toneladas, destinando-se essencialmente ao mercado interno, cujas vendas totalizaram 531 mil toneladas.

Q&D – Como está-se desenvolvendo a reciclagem do papel no País?
Osmar Elias Zogbi – O setor de celulose e papel tem na reciclagem do papel uma atividade complementar à produção de matérias-primas virgens, e não a considera como atividade substituta. Atualmente, o foco de ação está centralizado na participação contributiva à preservação e conservação do meio ambiente, principalmente nos grandes centros urbanos. Em 2002, o consumo de papéis recicláveis na produção total do papel manteve-se estável em relação a 2001, totalizando 2,8 milhões de toneladas.

Os papéis ondulados, com 1,7 milhão de toneladas, constituem o principal item na composição dessa matéria-prima e correspondem a 61% desse volume. Ao ser relacionado com o consumo aparente de papéis, de 6,8 milhões de toneladas, esse total indica uma taxa de recuperação de 41%, bem inferior àquelas obtidas pelos países industrializados.

A intensidade da reciclagem do papel ocorre de maneira diferente, de acordo com a região. No Sul e Sudeste, onde estão concentradas as principais indústrias do País, as taxas de recuperação são altas, da ordem de 64% e 44%, respectivamente. Nas demais regiões, as taxas são de 16%.

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