Química

Entrevista: Walter Piccirillo Pinto, fundador da Ipel Itibanyl

Quimica e Derivados
29 de julho de 2013
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    QD – Os desafios eram interessantes?
    Piccirillo – Muito. Na época, a Lamar decidiu entrar no mercado das tintas decorativas imobiliárias, o mercado apontava para esse caminho. Eram formulações de base água, com látex PVA, e naquela época a cal ainda era muito usada para pintura de paredes. Ao mesmo tempo, na Europa, já se trabalhava com o sistema acrílico. Em 1964, os sócios não se entenderam mais e resolveram desfazer a sociedade. Um deles, o sr. José Modolin me ofereceu uma parte na sociedade, que aceitei. Além da sociedade, iniciamos uma amizade que perdura até os dias de hoje. Nós fizemos muitas coisas interessantes, acho que, entre os pequenos fabricantes, fomos os primeiros a produzir as próprias resinas. Os grandes fornecedores de PVA daquela época desaconselhavam a polimerização devido aos altos investimentos e à tecnologia, que era conhecida por poucos.

    QD – Um pouco de medo de perder mercado também.
    Piccirillo – Na época instalamos um pequeno reator de 600 kg para fazer o PVA para nossas tintas. Percebemos que havia um grande mercado também na área de colas e adesivos. Começamos a fornecer resina para a Orniex, que fazia a cola Tenaz. O interessante é que a Orniex quis lançar uma cola lavável e solicitou uma nova resina para nós e para outro fornecedor. A Lamar atendeu primeiro a essa necessidade e, por conta disso, já que a demanda era boa, instalamos um reator de dez toneladas.

    QD – Esse período de sucesso durou muito?
    Piccirillo – Ia tudo muito bem, até que o governo federal, em 1973, depois do choque do preço do petróleo, adotou uma política de contingenciamento de importações, pela qual quem quisesse importar precisaria depositar o respectivo valor seis meses antes da operação. Importávamos muitos insumos: álcool polivinílico, dióxido de titânio, monômeros. Esse contingenciamento comeu nosso capital de giro.

    QD – Crise à vista. Como sobreviver?
    Piccirillo – Éramos uma indústria pequena, mas fazíamos uma tinta de primeira qualidade, não ficávamos atrás de ninguém. Nossa qualidade era equivalente à dos grandes fabricantes. Com o aperto no caixa, passamos a produzir uma linha inferior, de combate, com a marca Utilar. Colocávamos nela menos titânio, menos resina. Era um produto voltado a preço, para uso em interiores.

    QD – Isso funcionou?
    Piccirillo – Quando você trabalha com um produto que só se diferencia pelo preço, você não tem cliente fiel. A fidelidade vai embora com a qualidade. Nós vendíamos muita tinta para revendedores e distribuidores grandes, eram cadeias de lojas que começaram a nos apertar para reduzir o preço mês após mês. Isso nos colocou em muitas dificuldades, o que acabou levando à decisão de vender o negócio, repassado a um pessoal que tinha saído da Oxford. Posteriormente, eles mudaram o nome da empresa para Tintas Tietê. Isso aconteceu entre 1977 e 1978.

    QD – E o sr. foi para onde?
    Piccirillo – Fiquei com eles ainda uns seis meses, cuidando da parte técnica. Depois saí, pois recebi um convite para trabalhar na Bertoncini Indústrias Químicas, empresa de colas e adesivos que havia sido adquirida pelo grupo, o embrião do atual Grupo Formitex. A Bertoncini atuava no ramo de adesivos para calçados e madeiras e, por ser uma empresa antiga, precisava melhorar muita coisa na parte técnica. Fiquei lá quase dez anos.

    QD – O sr. ficou só na Bertoncini? O grupo estava crescendo nesse período.
    Piccirillo – Nesse período, o grupo realmente cresceu, comprou outras empresas e eu sempre ajudei no que podia. Quando ele comprou uma fábrica de resinas, a atual Denver, colaborei tecnicamente para fazer as primeiras emulsões.

    QD – Como o sr. deixou um grupo em crescimento para ficar sozinho?
    Piccirillo – Fiquei quase dez anos na empresa e nesse período sempre atuei com espírito empreendedor totalmente envolvido na atividade e o tempo passou sem que eu percebesse, mas senti a necessidade de montar um negócio por minha conta e, em 1988, decidi iniciar um novo empreendimento. Até hoje tenho relacionamento e amizade com diversas pessoas do Grupo Formitex. Não queria fazer tintas, mas alguma coisa ligada ao setor, porque conhecia esse ramo e as pessoas que trabalhavam nele.

    QD – Foi daí que vieram os biocidas?
    Piccirillo – Não nesse momento. Montei uma empresa para vender emulsões e aditivos. O plano era bem simples: comecei terceirizando a produção, pegava as amostras e levava aos clientes, gente que eu já conhecia. Vendi alguma coisa, até para empresas grandes. Quando fui visitar a Coral, uma ex-funcionária da Lamar trabalhava na área de compras e comentou comigo que os biocidas à base de mercúrio tinham sido banidos e isso criou um problema. Eu já conhecia alguma coisa de biocidas, preparei umas amostras e levei para a Coral e outras empresas. Felizmente, elas foram aprovadas e os pedidos começaram a chegar.

    QD – Havia empresas vendendo biocidas naquela época?
    Piccirillo – Conforme comecei a trabalhar, as vendas foram crescendo e percebi que os biocidas eram especialidades, mas estavam sendo tratados como simples matérias-primas. Era preciso colocar mais dedicação. Nesse momento decidi deixar de vender os outros produtos para concentrar esforços nos biocidas.



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