Entrevista: Visão de longo prazo ajuda a atravessar turbulências

QD – A liderança exige essas e outras habilidades?
Lacerda – Existem as habilidades técnicas, como o direito, a administração e a engenharia, que você pode “comprar” passando pela universidade, por exemplo. Outras habilidades são inatas ou desenvolvidas com o tempo, são chamadas modernas, como a capacidade de alinhar pessoas na busca de um sonho comum, um objetivo. Na Lanxess, temos a meta de alcançar o Ebitda de € 1,8 bilhão até 2018, esse é o objetivo de todos os colaboradores da companhia, um sonho comum. A capacidade de motivação e a habilidade de fazer as equipes renderem o máximo possível também são importantes.

QD – Qual a contribuição do Brasil para esse objetivo?
Lacerda – É crescente. As vendas no Brasil já representam 10% das vendas totais do grupo, ou seja, perto de € 900 milhões em 2012. Esse percentual era de apenas 1% em 2005, quando a companhia foi criada. Em grande parte, esse crescimento foi obtido com as aquisições da antiga Petroflex (borracha sintética, SBR, com fábricas em Cabo de Santo Agostinho-PE, Duque de Caxias-RJ e Triunfo-RS) e da fábrica de EPDM da DSM Elastômeros, em Triunfo-RS. Mas também obtivemos crescimento orgânico, mediante investimentos na unidade de Porto Feliz-SP (pigmentos de ferro), por exemplo, e na atualização das unidades adquiridas. Temos uma expectativa muito grande quanto ao desenvolvimento dos negócios aqui. Tanto que estamos investindo R$ 75 milhões para iniciarmos a produção de compostos de poliamida (PA 6) e polibutadieno (PBT), incluindo a chegada da unidade de plásticos de alta performance, com partidas previstas para o terceiro trimestre de 2013. Em Triunfo, investiremos R$ 208 milhões para converter a produção de SBR de emulsão para solução (S-SBR), com parada mínima das operações. Isso será concluído em 2014. Veja que, em 2005, apenas duas das 14 unidades de negócios tinham produção local. Hoje são sete. O Brasil é importante para a companhia.

QD – Mas a Ásia é a menina dos olhos…
Lacerda – A região Ásia-Pacífico registrou vendas de € 2,2 bilhões em 2012, com um crescimento de 10% sobre 2011. Está crescendo depressa e terá números ainda maiores em 2013, pois foi inaugurada no começo deste ano uma fábrica enorme de borracha butílica em Cingapura, na qual foram investidos € 400 milhões. Na China, está para ser inaugurada uma fábrica de produtos químicos para couro, um mercado importante.

QD – Essa fábrica poderia ter vindo para o Brasil, mas o país preferiu se tornar um exportador de couros wet blue (fase inicial de tratamento) e apoiar a cadeia produtiva…
Lacerda – De fato, o Brasil tem um rebanho bovino muito grande, perto de 200 milhões de cabeças, e exporta muito wet blue, curtido com nossos produtos, diga-se. Seria preciso ver se o mercado local comportaria uma produção de insumos químicos do tamanho da chinesa. Temos uma unidade de produtos para couro na Argentina, mercado que também está sofrendo.

QD – Qual a visão que o grupo tem do Brasil do ponto de vista de negócios?
Lacerda – A companhia aposta muito nos mercados emergentes, especialmente nos BRICs. É preciso tirar a Rússia da análise, porque ela é uma exportadora de gás natural para a Europa e isso a torna diferente dos demais componentes do bloco. Sabemos que esses BRICs não formam um grupo homogêneo. Pelas avaliações dos órgãos internacionais, o Brasil leva vantagem sobre a China e a Índia, por ter um mercado consumidor grande e sofisticado, com grande participação do setor de serviços, um sistema político estável, contar com mais cadeias produtivas bem estabelecidas, um sistema financeiro eficiente e uma grande produção agropecuária. No entanto, falta desenvolver a infraestrutura nacional e melhorar os indicadores de educação, sem os quais não se conseguirá ir muito longe. O avanço tecnológico é fundamental, e já encontramos problemas para conseguir profissionais especializados.

QD – A China é muito diferente disso?
Lacerda – A visão chinesa favorece mais o planejamento. Eles investem primeiro em infraestrutura para depois atrair investimentos privados com grande facilidade. O Brasil quer fazer o contrário e isso é mais difícil. Cingapura também se preparou e está recebendo investimentos, como o da fábrica da Lanxess. É preciso lembrar que a China apresenta instabilidades políticas e sociais, com grandes desafios a vencer. A Índia precisa se esforçar todos os dias para alimentar sua população de mais de 1,3 bilhão de habitantes. Eles têm algumas vantagens, mas o Brasil tem um quadro geral mais animador.

QD – O setor químico reclama muito dos impostos e dos preços das matérias-primas. Apesar disso, a Lanxess está investindo…
Lacerda – Fazemos parte da Abiquim e posso atestar que as reclamações procedem. Acabou de ser aprovado pelo governo um pleito que fizemos na proposta do Pacto Setorial para 2020: a redução do PIS/Cofins cobrado nas vendas de matérias-primas da primeira e da segunda geração petroquímica. As tratativas para isso consumiram dois anos, mas oferecerão uma contribuição importante. Acredito que o Brasil vai atingir um patamar de competitividade global em várias cadeias produtivas. E é preciso observar o desempenho das cadeias produtivas inteiras, não os segmentos isolados. Se a cadeia não é competitiva, o importado toma o lugar do produto nacional. O Brasil tem petróleo e gás natural, além de contar com um mercado interno consumidor de grande porte. São essas as duas variáveis mais importantes. Porém, caso o país queira ter uma indústria química mais forte, é preciso ter matérias-primas competitivas internacionalmente, caso da nafta e do gás. Já estamos entre as seis maiores indústrias químicas do mundo, temos uma produção equivalente a quase 70% da alemã. E é preciso ter boa gestão, fazer a lição de casa. Reserva de mercado não funciona, já tivemos isso no passado.

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