Sustentabilidade abre caminhos para a química

QD – Outros países também estudam suas espécies vegetais. Não há um risco de substituição futura por produtos mais econômicos?
Rodgério – Como não tratamos de commodities, esse risco é muito baixo. Nós oferecemos aos clientes produtos com funcionalidades especiais e comprovadas, com sustentabilidade. Não é fácil substituí-los. Grandes clientes da indústria cosmética e farmacêutica são muito criteriosos para mexer nas formulações. Eles não querem correr o risco de prejudicar suas marcas valiosas porque um fornecedor de óleo essencial mais barato usou trabalho escravo ou prejudicou o ambiente. Seria um desastre para eles.

QD – Há algum foco para os trabalhos de pesquisa e desenvolvimento?
Rodgério – Estamos sempre avaliando novas espécies vegetais, procurando ingredientes que possam trazer novas funcionalidades para o setor cosmético, farmacêutico ou de alimentos. Estudamos outras formas de aproveitar as plantas já conhecidas em novas aplicações. Estamos equipados para isolar princípios ativos mediante extração com fluidos em estado supercrítico ou por destilação avançada. Temos unidades piloto para tanto, em nosso centro de tecnologia, para processar sementes, galhos, folhas e tubérculos. A extração supercrítica com gás carbônico é uma operação sensacional, não gera efluentes, nem introduz solventes ou gasta energia com aquecimento, entre outras vantagens técnicas.

QD – A coleta de espécies nativas foi regulamentada pela chamada lei da biopirataria. Como o sr. avalia essa regulamentação?
Rodgério – Diria que o arcabouço legal é perfeito, mas sua implementação deixa a desejar. Nossa legislação é moderna, inovadora, foi criada em 2007, antes mesmo do acordo COP 10, da ONU, sobre biodiversidade, que é de 2010. Ela impede o acesso indevido e predatório ao material genético nativo, mas garante às populações o acesso a recursos econômicos dessa exploração. As empresas que atuam legalmente nessa atividade também são protegidas contra a concorrência predatória. O órgão governamental incumbido desse controle é a Cegen, que precisou criar estrutura para lidar com essas tarefas durante a implementação. Houve um impacto inicial que criou dificuldades, mas que agora começam a ser superadas. Ainda há dificuldades burocráticas para se obter autorizações, apoio à bioprospecção e acompanhar fiscalizações.

QD – Há algum apoio oficial para pesquisas privadas, como as da Beraca?
Rodgério – Falta uma coordenação de todos os esforços envolvidos. O governo tem oferecido verbas, por meio da Finep, por exemplo. Há um órgão de pesquisa oficial, o Centro de Biotecnologia da Amazônia, que está bem equipado e possui bons pesquisadores, mas ele está distante das necessidades empresariais. Faltam incentivos para transformar todo esse conhecimento avançado em produtos comerciais, abrangendo todos os elos da cadeia econômica e social.

QD – As divisões relacionadas à alimentação humana e nutrição animal também se beneficiam dessas pesquisas?
Rodgério – Estamos estudando alguns ativos de origem amazônica para melhorar a qualidade e conferir funções inovadoras para as rações animais. Teremos aditivos alimentares e funcionais, são campos em que há um grande mercado para o futuro. Basta verificar que o Brasil tem a segunda maior população mundial de cães e gatos domésticos. Por enquanto, atuamos mais nos campos animal e de alimentação humana por meio da distribuição de produtos especiais, de origem importada.

QD – Qual é o plano de investimentos da Beraca para os próximos anos?
Rodgério – Promovemos uma grande mudança na estrutura do grupo no ano passado. Foi criada uma holding, a Sabará Participações, de controle familiar, para ser a principal acionista das várias empresas do grupo, formadas pelas diferentes áreas de negócios. O conselho de administração da holding, do qual participam os dois irmãos e os principais acionistas, ao lado de outros conselheiros, vai decidir as prioridades, metas e formas de crescimento do grupo, inclusive mediante aquisições. Ainda neste ano, deveremos ter um plano de investimentos detalhado, com base nessas orientações. Nessa nova estrutura, os gestores deverão atingir os resultados estabelecidos, com transparência e responsabilidade. Essa estrutura também facilitará eventuais captações de recursos para projetos de maior fôlego. As perspectivas são excelentes.

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