Sustentabilidade abre caminhos para a química

QD – O tratamento de água é a maior unidade de negócios, quanto ela representa no faturamento? E as outras três?
Rodgério – A divisão Water responde por 70% do faturamento, é a nossa atividade mais antiga. Em seguida vêm os insumos para cosméticos, com 18%. As divisões de food ingredients (para humanos) e animal nutrition and health, somadas, perfazem os 12% restantes. A área de cosméticos tem um ritmo forte de crescimento e deve ampliar sua fatia no futuro.

QD – A indústria brasileira de produtos cosméticos e de artigos de higiene pessoal registrou um crescimento menor no ano passado. Isso preocupa?
Rodgério – Nosso crescimento está mais ligado à substituição de ingredientes de origem sintética ou animal por outros, obtidos de fontes vegetais. A vegetalização das formulações já é uma realidade, é um mercado enorme que está aberto e receptivo aos óleos naturais brasileiros. Também é importante verificar que o mercado brasileiro de cosméticos cresceu um pouco menos que a média dos últimos anos, mas já se trata de um dos maiores mercados mundiais.

QD – Como a empresa ingressou nesse ramo como fabricante?
Rodgério – Em 1999, a Beraca adquiriu uma participação minoritária na Brasamazon, empresa incubada na Universidade Federal do Pará e especializada na extração e refino de óleos especiais de origem amazônica. Em 2003, a companhia comprou o controle dessa empresa, instalada em Ananindeua-PA. Lá instalamos um centro de pesquisas tecnológicas e de bioprospecção. Ou seja: estudamos tanto as técnicas para industrializar as espécies vegetais quanto a identificação e seleção de novas plantas com potencial promissor de aproveitamento. Por enquanto, os trabalhos são feitos apenas para o setor cosmético, mas é possível que as indústrias farmacêutica e de nutrição sejam também beneficiadas com inovações ali produzidas. O investimento no Pará chegou a U$ 10 milhões.

QD – A inovação é relevante para a companhia? Quanto se investe nisso?
Rodgério – A Beraca investe mais de 10% do seu faturamento em pesquisa e desenvolvimento. O perfil da empresa é voltado para inovação, não queremos depender de commodities. Nos insumos vegetais para cosméticos, produzimos óleos refinados, extratos, scrubs [formulações esfoliantes] e ingredientes ativos, que são vendidos no Brasil e no exterior para grandes fabricantes de cosméticos. Instalamos escritórios comerciais na França (Paris) e nos Estados Unidos (Jersey) e temos uma rede de distribuidores em quase 40 países, incluindo o Oriente Médio e a Ásia. É preciso ter produtos inovadores, eficientes e de alta qualidade, incluindo a questão da sustentabilidade, cada vez mais importante.

QD – É possível manter uma atividade extrativa de forma sustentável?
Rodgério – Com certeza, mas é preciso desenvolver um trabalho muito profundo com as comunidades das regiões produtoras para mostrar que manter a floresta de pé é mais vantajoso do que destruí-la. Atuamos desde 2000 com o nosso Programa de Valorização da Biodiversidade, orientando essa população a retirar materiais nativos sem prejudicar as espécies vegetais ou animais presentes e também sem danificar o solo. Oferecemos apoio técnico especializado para isso e somos auditados em todas as etapas do processo pela francesa Ecocert.

QD – É um trabalho muito diferente da ideia tradicional de extrativismo. A aceitação é grande?
Rodgério – O esquema extrativista tradicional não dá retorno todos os anos. O comprador aparece de tempos em tempos para pegar a produção e paga pouco por ela. Quando se abatem as árvores, o prazo para que a flora se recupere demora décadas. As comunidades logo percebem que nós compramos regularmente a produção, a receita aparece a cada safra, com segurança. Além disso, incentivamos o empreendedorismo. Dentro das comunidades são formadas cooperativas que usam os materiais da floresta para a produção artesanal de vários itens, como sabonetes e xampus, que geram receitas adicionais. Damos apoio técnico para essas atividades também.

QD – Não seria mais fácil cultivar essas espécies vegetais?
Rodgério – Nem sempre isso é possível, nem desejável. Além da vegetalização, os clientes pedem produção orgânica certificada. Produtos extraídos de florestas naturais, com os devidos cuidados, são orgânicos. Obter produtos orgânicos por cultivo é possível, porém mais complicado. Participamos de um projeto de cultivo de uma espécie aromática na Região Norte, realizado por produtores agrícolas locais, com nosso apoio, em parceria com a Natura e a Casa de Fragrância, que faz a extração a vapor dos tubérculos. Unimos todos os interessados para viabilizar o projeto.

QD – A Amazônia é uma fonte gigantesca de material vegetal. É a única fonte?
Rodgério – Temos atividades semelhantes nos biomas da caatinga e do cerrado, ambos com suas riquezas vegetais. Embora o trabalho seja bem parecido, há diferenças marcantes. O manejo florestal na Amazônia é muito mais complexo. A estrutura logística de lá é menos desenvolvida, as comunidades ficam mais isoladas. Em compensação, a região do cerrado sofre ataques severos da produção de soja e da pecuária, que estão destruindo os biomas naturais. Na caatinga também há ameaças à flora nativa. Nesses casos, o desafio é preservar algumas áreas para coleta, convencendo as populações a adotar posturas menos agressivas ao ambiente. Firmamos contratos de compra garantida de material vegetal, oferecemos apoio técnico e incentivamos iniciativas empresariais, como fazemos na Amazônia. Em todas as regiões, promovemos um ciclo de inclusão, até mesmo com incentivo à alfabetização e à escolarização dessas populações. É um trabalho muito interessante e gratificante.

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