Sustentabilidade abre caminhos para a química

Não existe uma receita única para fazer crescer uma empresa do setor químico. Mas existem exemplos de sucesso que devem ser analisados, até para orientar novas iniciativas.

É o caso da Beraca Sabará Químicos e Ingredientes S/A, empresa com 56 anos de história (completará 57 em outubro), iniciada com a distribuição de cloro e hipoclorito de sódio, mas que hoje possui uma estrutura complexa, englobando negócios de tratamento de águas, cosméticos, alimentos, farmacêuticos e produtos para nutrição e saúde de animais.

A diversificação de interesses começou em 1994, tomando corpo a partir de 2003, quando a companhia assumiu o controle da Brasamazon, destacando-se como produtora de óleos essenciais especiais, de origem natural.

De lá para cá, investimentos em pesquisas e muitos esforços ampliaram a participação dos insumos para a indústria cosmética no faturamento, que somou R$ 138 milhões em 2012, 15% acima do registrado no ano anterior.

O caminho do crescimento incluiu profundas transformações: de distribuidora para fabricante; de empresa de commodities para fornecedora de especialidades; e de sociedade limitada para uma sociedade anônima, com interesses divididos em quatro unidades de negócios, com exportações equivalentes próximas a 5% das vendas totais.

No ano passado, a estrutura corporativa foi readequada, permitindo isolar e preservar mutuamente os interesses do grupo empresarial da vida dos acionistas, pertencentes à família do fundador, Ubirajara Sabará.

O diretor financeiro Wellington Santos Rodgério recebeu Química e Derivados na sede da Beraca, instalada em um moderno edifício no bairro paulistano do Tatuapé, para explicar a nova estrutura empresarial e apontar novos caminhos para empreendimentos inovadores no setor químico.

Química e Derivados – A Beraca Sabará é uma empresa de distribuição ou industrial?
Wellington Santos Rodgério – Tomando por base o faturamento de 2012, de R$ 138 milhões, estimo que a participação dos itens de fabricação própria chegue a 80%, enquanto a distribuição pura gira em torno de 20%. Por esse aspecto, somos mais fabricantes do que distribuidores. Mas, em ambos os casos, nós nos situamos nas especialidades, produtos mais sofisticados ou que têm seu valor aumentado pela agregação de serviços e tecnologia.

QD – A Beraca Sabará iniciou atividades em outubro de 1956 como distribuidora de cloro e derivados. Hoje é uma empresa diversificada, com produção própria. Quando ocorreu essa transformação?
Rodgério – A história da companhia tem alguns marcos importantes. Com a morte do fundador, em 1978, os filhos Marco Antonio e Ulisses Sabará assumiram a direção do negócio e o ampliaram, a partir de uma unidade operacional situada no bairro da Penha, em São Paulo. Em 1988, eles decidiram abrir uma operação no Nordeste, em Itapissuma, Pernambuco, para distribuição de cloro e derivados, incluindo produção própria. Em 1994, foi aberta a filial de Pacatuba, no Ceará, e, no ano seguinte, em Anápolis-GO, marcando a entrada no Centro-Oeste. Nesse ano, as operações da Penha foram transferidas para novas e maiores instalações em Santa Bárbara do Oeste-SP. A diversificação de atividades e a segmentação em unidades de negócios começaram a ser feitas entre 1994 e 1995, quando pegamos distribuições de produtos nas áreas de alimentos e cosméticos.

QD – A empresa já era fabricante nessa época?
Rodgério – Sim. A simples revenda de cloro não é muito interessante. Dentro da nossa atual divisão Water (voltada para saneamento básico e tratamento de água industrial), pegamos o cloro fornecido pelos diversos fabricantes nacionais e o industrializamos em nossas fábricas, produzindo hipoclorito, dióxido de cloro, pastilhas de cloro e outros. Além disso, agregamos valor mediante a venda de equipamentos especializados para aplicação desses produtos em processos de tratamento de água, que exigem dosadores e outros itens. Com isso, conseguimos oferecer sistemas de desinfecção de água com cloro gasoso em lugar do hipoclorito, com elevados padrões de segurança e desempenho, já usados, por exemplo, em estações de tratamento e água e na indústria sucroalcooleira. Criamos o Global Service, que oferece aos clientes um pacote com produtos, assistência técnica e logística para atender às suas necessidades.

QD – Há muitas empresas disputando o mercado de tratamento de água. A briga está acirrada nesse setor?

Química e Derivados, Rodgério: cadeia produtiva deve apoiar inclusão social
Rodgério: cadeia produtiva deve apoiar inclusão social

Rodgério – É um mercado muito disputado, mas há espaço para crescer. Atuamos em mais de 25 segmentos diferentes dessa atividade, das usinas sucroalcooleiras às petroquímicas, passando pelos fabricantes de bebidas. Mesmo no mais tradicional deles, o de saneamento básico, há um déficit imenso no Brasil até para a produção de água potável. Em esgotamento sanitário, então, a demanda é gigantesca. Muitas regiões do país simplesmente não contam com esses serviços essenciais.

QD – O tratamento de água é a maior unidade de negócios, quanto ela representa no faturamento? E as outras três?
Rodgério – A divisão Water responde por 70% do faturamento, é a nossa atividade mais antiga. Em seguida vêm os insumos para cosméticos, com 18%. As divisões de food ingredients (para humanos) e animal nutrition and health, somadas, perfazem os 12% restantes. A área de cosméticos tem um ritmo forte de crescimento e deve ampliar sua fatia no futuro.

QD – A indústria brasileira de produtos cosméticos e de artigos de higiene pessoal registrou um crescimento menor no ano passado. Isso preocupa?
Rodgério – Nosso crescimento está mais ligado à substituição de ingredientes de origem sintética ou animal por outros, obtidos de fontes vegetais. A vegetalização das formulações já é uma realidade, é um mercado enorme que está aberto e receptivo aos óleos naturais brasileiros. Também é importante verificar que o mercado brasileiro de cosméticos cresceu um pouco menos que a média dos últimos anos, mas já se trata de um dos maiores mercados mundiais.

QD – Como a empresa ingressou nesse ramo como fabricante?
Rodgério – Em 1999, a Beraca adquiriu uma participação minoritária na Brasamazon, empresa incubada na Universidade Federal do Pará e especializada na extração e refino de óleos especiais de origem amazônica. Em 2003, a companhia comprou o controle dessa empresa, instalada em Ananindeua-PA. Lá instalamos um centro de pesquisas tecnológicas e de bioprospecção. Ou seja: estudamos tanto as técnicas para industrializar as espécies vegetais quanto a identificação e seleção de novas plantas com potencial promissor de aproveitamento. Por enquanto, os trabalhos são feitos apenas para o setor cosmético, mas é possível que as indústrias farmacêutica e de nutrição sejam também beneficiadas com inovações ali produzidas. O investimento no Pará chegou a U$ 10 milhões.

QD – A inovação é relevante para a companhia? Quanto se investe nisso?
Rodgério – A Beraca investe mais de 10% do seu faturamento em pesquisa e desenvolvimento. O perfil da empresa é voltado para inovação, não queremos depender de commodities. Nos insumos vegetais para cosméticos, produzimos óleos refinados, extratos, scrubs [formulações esfoliantes] e ingredientes ativos, que são vendidos no Brasil e no exterior para grandes fabricantes de cosméticos. Instalamos escritórios comerciais na França (Paris) e nos Estados Unidos (Jersey) e temos uma rede de distribuidores em quase 40 países, incluindo o Oriente Médio e a Ásia. É preciso ter produtos inovadores, eficientes e de alta qualidade, incluindo a questão da sustentabilidade, cada vez mais importante.

QD – É possível manter uma atividade extrativa de forma sustentável?
Rodgério – Com certeza, mas é preciso desenvolver um trabalho muito profundo com as comunidades das regiões produtoras para mostrar que manter a floresta de pé é mais vantajoso do que destruí-la. Atuamos desde 2000 com o nosso Programa de Valorização da Biodiversidade, orientando essa população a retirar materiais nativos sem prejudicar as espécies vegetais ou animais presentes e também sem danificar o solo. Oferecemos apoio técnico especializado para isso e somos auditados em todas as etapas do processo pela francesa Ecocert.

QD – É um trabalho muito diferente da ideia tradicional de extrativismo. A aceitação é grande?
Rodgério – O esquema extrativista tradicional não dá retorno todos os anos. O comprador aparece de tempos em tempos para pegar a produção e paga pouco por ela. Quando se abatem as árvores, o prazo para que a flora se recupere demora décadas. As comunidades logo percebem que nós compramos regularmente a produção, a receita aparece a cada safra, com segurança. Além disso, incentivamos o empreendedorismo. Dentro das comunidades são formadas cooperativas que usam os materiais da floresta para a produção artesanal de vários itens, como sabonetes e xampus, que geram receitas adicionais. Damos apoio técnico para essas atividades também.

QD – Não seria mais fácil cultivar essas espécies vegetais?
Rodgério – Nem sempre isso é possível, nem desejável. Além da vegetalização, os clientes pedem produção orgânica certificada. Produtos extraídos de florestas naturais, com os devidos cuidados, são orgânicos. Obter produtos orgânicos por cultivo é possível, porém mais complicado. Participamos de um projeto de cultivo de uma espécie aromática na Região Norte, realizado por produtores agrícolas locais, com nosso apoio, em parceria com a Natura e a Casa de Fragrância, que faz a extração a vapor dos tubérculos. Unimos todos os interessados para viabilizar o projeto.

QD – A Amazônia é uma fonte gigantesca de material vegetal. É a única fonte?
Rodgério – Temos atividades semelhantes nos biomas da caatinga e do cerrado, ambos com suas riquezas vegetais. Embora o trabalho seja bem parecido, há diferenças marcantes. O manejo florestal na Amazônia é muito mais complexo. A estrutura logística de lá é menos desenvolvida, as comunidades ficam mais isoladas. Em compensação, a região do cerrado sofre ataques severos da produção de soja e da pecuária, que estão destruindo os biomas naturais. Na caatinga também há ameaças à flora nativa. Nesses casos, o desafio é preservar algumas áreas para coleta, convencendo as populações a adotar posturas menos agressivas ao ambiente. Firmamos contratos de compra garantida de material vegetal, oferecemos apoio técnico e incentivamos iniciativas empresariais, como fazemos na Amazônia. Em todas as regiões, promovemos um ciclo de inclusão, até mesmo com incentivo à alfabetização e à escolarização dessas populações. É um trabalho muito interessante e gratificante.

QD – Outros países também estudam suas espécies vegetais. Não há um risco de substituição futura por produtos mais econômicos?
Rodgério – Como não tratamos de commodities, esse risco é muito baixo. Nós oferecemos aos clientes produtos com funcionalidades especiais e comprovadas, com sustentabilidade. Não é fácil substituí-los. Grandes clientes da indústria cosmética e farmacêutica são muito criteriosos para mexer nas formulações. Eles não querem correr o risco de prejudicar suas marcas valiosas porque um fornecedor de óleo essencial mais barato usou trabalho escravo ou prejudicou o ambiente. Seria um desastre para eles.

QD – Há algum foco para os trabalhos de pesquisa e desenvolvimento?
Rodgério – Estamos sempre avaliando novas espécies vegetais, procurando ingredientes que possam trazer novas funcionalidades para o setor cosmético, farmacêutico ou de alimentos. Estudamos outras formas de aproveitar as plantas já conhecidas em novas aplicações. Estamos equipados para isolar princípios ativos mediante extração com fluidos em estado supercrítico ou por destilação avançada. Temos unidades piloto para tanto, em nosso centro de tecnologia, para processar sementes, galhos, folhas e tubérculos. A extração supercrítica com gás carbônico é uma operação sensacional, não gera efluentes, nem introduz solventes ou gasta energia com aquecimento, entre outras vantagens técnicas.

QD – A coleta de espécies nativas foi regulamentada pela chamada lei da biopirataria. Como o sr. avalia essa regulamentação?
Rodgério – Diria que o arcabouço legal é perfeito, mas sua implementação deixa a desejar. Nossa legislação é moderna, inovadora, foi criada em 2007, antes mesmo do acordo COP 10, da ONU, sobre biodiversidade, que é de 2010. Ela impede o acesso indevido e predatório ao material genético nativo, mas garante às populações o acesso a recursos econômicos dessa exploração. As empresas que atuam legalmente nessa atividade também são protegidas contra a concorrência predatória. O órgão governamental incumbido desse controle é a Cegen, que precisou criar estrutura para lidar com essas tarefas durante a implementação. Houve um impacto inicial que criou dificuldades, mas que agora começam a ser superadas. Ainda há dificuldades burocráticas para se obter autorizações, apoio à bioprospecção e acompanhar fiscalizações.

QD – Há algum apoio oficial para pesquisas privadas, como as da Beraca?
Rodgério – Falta uma coordenação de todos os esforços envolvidos. O governo tem oferecido verbas, por meio da Finep, por exemplo. Há um órgão de pesquisa oficial, o Centro de Biotecnologia da Amazônia, que está bem equipado e possui bons pesquisadores, mas ele está distante das necessidades empresariais. Faltam incentivos para transformar todo esse conhecimento avançado em produtos comerciais, abrangendo todos os elos da cadeia econômica e social.

QD – As divisões relacionadas à alimentação humana e nutrição animal também se beneficiam dessas pesquisas?
Rodgério – Estamos estudando alguns ativos de origem amazônica para melhorar a qualidade e conferir funções inovadoras para as rações animais. Teremos aditivos alimentares e funcionais, são campos em que há um grande mercado para o futuro. Basta verificar que o Brasil tem a segunda maior população mundial de cães e gatos domésticos. Por enquanto, atuamos mais nos campos animal e de alimentação humana por meio da distribuição de produtos especiais, de origem importada.

QD – Qual é o plano de investimentos da Beraca para os próximos anos?
Rodgério – Promovemos uma grande mudança na estrutura do grupo no ano passado. Foi criada uma holding, a Sabará Participações, de controle familiar, para ser a principal acionista das várias empresas do grupo, formadas pelas diferentes áreas de negócios. O conselho de administração da holding, do qual participam os dois irmãos e os principais acionistas, ao lado de outros conselheiros, vai decidir as prioridades, metas e formas de crescimento do grupo, inclusive mediante aquisições. Ainda neste ano, deveremos ter um plano de investimentos detalhado, com base nessas orientações. Nessa nova estrutura, os gestores deverão atingir os resultados estabelecidos, com transparência e responsabilidade. Essa estrutura também facilitará eventuais captações de recursos para projetos de maior fôlego. As perspectivas são excelentes.

Leia Mais:

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.