Entrevista: Petroquímica precisa manter competitividade

QD – A eficaz infraestrutura seria um importante trunfo para a perpetuação do polo, incluídos os sistemas viário, portuário, o de proteção ambiental e a disponibilidade de mão de obra capacitada? Essa própria infraestrutura, associada aos investimentos industriais já amortizados, bastaria para assegurar a permanência do segundo polo por muitos anos mais?

Mascarenhas – Com efeito, a melhor qualidade da infraestrutura é fonte de avanço possível e disponível para as empresas de Camaçari. As ações estão ligadas principalmente à área de transportes. A ampliação e a modernização do porto de Aratu são os pontos mais sensíveis. Suas ligações rodoviárias e a retomada da implantação do trecho ferroviário, ligando-o ao polo de Camaçari, são igualmente prioritárias. Adiante, seria preciso modernizar a ligação ferroviária com São Paulo (Ferrovia Centro-Atlântica), que está com projeto em andamento. E, igualmente, viabilizar um transporte de cabotagem mais eficiente. Em proteção ambiental, Camaçari desde o início tem sido um modelo. E quanto à qualificação de trabalhadores, não tem sido um problema maior a ser considerado. Mas tudo isso, como visto, isoladamente, não garante a perpetuidade da indústria.

QD – Que outras possíveis vantagens comparativas no quadro atual podem ser associadas ao segundo polo petroquímico?

Mascarenhas – Essas vantagens já foram comentadas. Algumas novas, como as relativas às melhorias tecnológicas e inovadoras são mais relativas às empresas, independentemente de sua localização. Outras são de natureza mais compatível com a dinâmica das políticas utilizadas. O segundo polo petroquímico, ou polo de Camaçari, conta com administradores competentes, que estarão atentos às oportunidades quando disponíveis, e certamente não as deixarão passar.

QD – O chamado polo acrílico poderá se constituir em um desdobramento capaz de apontar nova oportunidade para a indústria de transformação? Qual o seu alcance?

Mascarenhas – O polo acrílico é o melhor acontecimento recente na área do segundo polo. A Basf aproveitará o propeno da Braskem e fornecerá insumos acrílicos à recém inaugurada fábrica da Kimberly-Clark (descartáveis), para a produção de tintas e para outras aplicações. Recentemente, o consultor Albert Hahn fez um estudo para a Federação das Indústrias do Estado da Bahia (Fieb) e para o governo do estado, no qual apontou várias oportunidades disponíveis após a entrada em operação da planta da Basf, principalmente se houver a ampliação do suprimento de propeno ao polo. Iniciativas dessa natureza, com o adensamento das cadeias, são essenciais para o crescimento do polo.

QD – Seria necessária também uma radical elevação das escalas de produção das olefinas e aromáticos e nas que, a seguir, produzem resinas e outros produtos de segunda geração para se assegurar a competitividade global mínima? Essa elevação, que pressupõe forte investimento, seria viável?

Mascarenhas – A ampliação das plantas da produção depende, como sabido, da existência de condições objetivas, como mercado, matéria-prima, custos competitivos, além de outros. O mercado nacional de resinas tem sido bem abastecido e não tem registrado crescimento mais expressivo. Restaria o global, mas aí retorna a questão das matérias-primas competitivas, que no Brasil não existem nesse instante, como existem em outros países ou regiões. Estados Unidos, México e Oriente Médio são exemplos, para só falar de alguns. Haveria uma exceção na execução de projetos de poliolefinas baseados em etanol, dado o apelo decorrente de uma matéria-prima de origem vegetal e renovável. Até porque o pagamento de preço premium por tais produtos tem sido aceito.

QD – Pode-se imaginar em um futuro razoavelmente próximo a instalação de um terceiro cracker em Camaçari e até onde essa possibilidade estaria na dependência da futura oferta de gás com adequado teor de etano e preço alinhado às cotações do mercado global?

Mascarenhas – Pelas razões precedentes, não vemos viabilidade, neste momento, para a instalação de mais um cracker no país, independentemente de ampliações marginais e oportunísticas da produção que possam ser viabilizadas em qualquer um dos polos existentes.

QD – A esta altura, em qualquer circunstância, estaria descartada a possibilidade de uma nova pirólise com base na nafta? O excedente de propeno, a última disponibilidade olefínica do segundo polo, será consumido na produção de ácido acrílico?

Mascarenhas – Conforme visto, no campo básico, haveria apenas espaço para a ampliação da produção de alguns intermediários, em escala limitada, como seria o caso do propeno, para viabilizar a fabricação de certos derivados do ácido acrílico, à consideração da Petrobras.

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