Entrevista: Petroquímica precisa manter competitividade

Química e Derivados, Mascarenhas: nas condições atuais, é melhor produzir no exterior
Mascarenhas: nas condições atuais, é melhor produzir no exterior

Um dos executivos mais historicamente ligados ao setor petroquímico no Brasil, o engenheiro José de Freitas Mascarenhas acredita que, se os americanos continuarem a pautar o preço das matérias-primas para a indústria química com base nos preços vigentes do shale gas, e se paralelamente não forem aprovadas contramedidas por aqui, “a melhor solução para nossas empresas será mesmo produzir lá fora e exportar para cá”.

Mascarenhas ressalta que a política de preço das matérias-primas para a indústria química é muito mais importante estruturalmente do que o manuseio dos componentes da política macroeconômica. Diante do quadro atual, marcado pela baixa competitividade da indústria química, em razão do preço das matérias-primas, ele entende que a opção pela produção nos Estados Unidos ou em outro país tende a ser inevitável.

Na década dos anos 70, Mascarenhas coordenou o planejamento regional para a implantação do segundo polo petroquímico brasileiro, em Camaçari-BA. Atualmente, é presidente da Federação das Indústrias do Estado da Bahia (Fieb), vice-presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI) e diretor da Odebrecht S.A., com assento no conselho de administração da Braskem.

Com a agenda tumultuada, como é de se esperar pelas suas atribuições múltiplas, Mascarenhas atendeu às solicitações do jornalista José de Castro Leal Valverde por telefone e mediante uma intensa troca de informações por e-mails enviados de vários países. O resultado está aqui, exclusivamente para os leitores de Química e Derivados, como homenagem aos 35 anos de operação do polo de Camaçari.

Química e Derivados – Qual mudança de rumo ou de estratégia a indústria química nacional deve empreender para assegurar sobrevivência e prosperidade em um provável ambiente marcado pela abertura mais acentuada da economia?

José de Freitas Mascarenhas – Essa possibilidade de mudança não faz muito sentido nos dias atuais, enquanto os fatores inibidores de maior competitividade da indústria brasileira não forem removidos. Diria que a direção do movimento deveria ser outra, como aliás reconhece o governo federal, com o esforço aplicado na aprovação da MP 613 [de maio de 2013, que isentou de PIS/Cofins a primeira e segunda geração petroquímica], esta sim, favorecendo a competitividade da indústria química. Mas a atenção à questão da política de preços das matérias-primas para a indústria química é muito mais importante estruturalmente que o manuseio dos componentes da política macroeconômica. Se os americanos continuarem a pautar sua política de produção dos petroquímicos com base nos preços vigentes do shale gas, e nós não tomarmos contramedidas, então nós vamos ter um grande problema a resolver. Se nada for feito, a melhor solução para as nossas empresas será mesmo produzir lá fora, e exportar para cá. De toda forma, e em qualquer
circunstância, penso que a indústria deve continuar a perseguir a competitividade da produção nacional.

QD – O polo petroquímico do Nordeste, que parece ser o mais vulnerável, foi formado em um ambiente macroeconômico caracterizado pela substituição de importações e não pelo interesse em produzir para também suprir o mercado global, como fazem os chineses. Essa característica requer uma correção e essa correção seria realmente possível? Ou a estratégia continuaria direcionada para o mercado interno, notadamente para o ainda travado mercado consumidor do Nordeste?

Mascarenhas – De fato, as políticas econômicas do Brasil e da China são diferentes, e não é o caso de discuti-las aqui. Também é fato que o segundo polo petroquímico – como todos os outros – na origem foi orientado para produzir visando o suprimento do mercado interno. Mas, com a posterior globalização dos mercados, as empresas passaram a defender sua sobrevivência e perpetuidade, com base nas reais condições de retorno econômico, determinadas pelas novas políticas públicas. O fato é que, com raras exceções, as indústrias brasileiras que não contam com fatores de produção ligados a recursos naturais, como minerais e celulose, não estão fazendo parte das cadeias globais de produção. Isso acontece basicamente por uma questão: falta de competitividade. E, lá fora, ninguém perde o sono por isso. Mudar esse quadro não é fácil, vamos reconhecer. Requer um grande esforço de redirecionamento de políticas.

QD – Que análise atual o senhor apresentaria do segundo polo petroquímico, empreendimento instalado na Bahia pelos governos militares, com o propósito específico de desenvolver o Nordeste com a oferta local de olefinas, aromáticos e consequentes produtos de segunda geração destinados à ampla indústria de transformação?

Mascarenhas – Na Bahia, a petroquímica passou por substantiva reestruturação no início dos anos 2000, quando a Copene foi vendida e, em seguida, criada a Braskem. A profundidade dessa transformação pode ser medida pela análise das empresas de segunda geração que foram incorporadas à Braskem: OPP, Nitrocarbono, Propet, Polialden e Trikem. Posteriormente, a Politeno e a Quattor foram também incorporadas. Mais recentemente, este processo foi ampliado, com a entrada da Petrobras no grupo, mediante a aquisição de quase metade das ações da Braskem – logo a seguir essa integração foi ampliada nacionalmente para toda a petroquímica brasileira. Na Bahia, houve então um salto de qualidade nesse segmento, com consequência positiva em muitos aspectos, a exemplo da maior inserção na economia mundial e a operação em escala global. No entanto, essas ações de busca de eficiência no setor privado nunca terminam, os desafios apenas mudam.

QD – A eficaz infraestrutura seria um importante trunfo para a perpetuação do polo, incluídos os sistemas viário, portuário, o de proteção ambiental e a disponibilidade de mão de obra capacitada? Essa própria infraestrutura, associada aos investimentos industriais já amortizados, bastaria para assegurar a permanência do segundo polo por muitos anos mais?

Mascarenhas – Com efeito, a melhor qualidade da infraestrutura é fonte de avanço possível e disponível para as empresas de Camaçari. As ações estão ligadas principalmente à área de transportes. A ampliação e a modernização do porto de Aratu são os pontos mais sensíveis. Suas ligações rodoviárias e a retomada da implantação do trecho ferroviário, ligando-o ao polo de Camaçari, são igualmente prioritárias. Adiante, seria preciso modernizar a ligação ferroviária com São Paulo (Ferrovia Centro-Atlântica), que está com projeto em andamento. E, igualmente, viabilizar um transporte de cabotagem mais eficiente. Em proteção ambiental, Camaçari desde o início tem sido um modelo. E quanto à qualificação de trabalhadores, não tem sido um problema maior a ser considerado. Mas tudo isso, como visto, isoladamente, não garante a perpetuidade da indústria.

QD – Que outras possíveis vantagens comparativas no quadro atual podem ser associadas ao segundo polo petroquímico?

Mascarenhas – Essas vantagens já foram comentadas. Algumas novas, como as relativas às melhorias tecnológicas e inovadoras são mais relativas às empresas, independentemente de sua localização. Outras são de natureza mais compatível com a dinâmica das políticas utilizadas. O segundo polo petroquímico, ou polo de Camaçari, conta com administradores competentes, que estarão atentos às oportunidades quando disponíveis, e certamente não as deixarão passar.

QD – O chamado polo acrílico poderá se constituir em um desdobramento capaz de apontar nova oportunidade para a indústria de transformação? Qual o seu alcance?

Mascarenhas – O polo acrílico é o melhor acontecimento recente na área do segundo polo. A Basf aproveitará o propeno da Braskem e fornecerá insumos acrílicos à recém inaugurada fábrica da Kimberly-Clark (descartáveis), para a produção de tintas e para outras aplicações. Recentemente, o consultor Albert Hahn fez um estudo para a Federação das Indústrias do Estado da Bahia (Fieb) e para o governo do estado, no qual apontou várias oportunidades disponíveis após a entrada em operação da planta da Basf, principalmente se houver a ampliação do suprimento de propeno ao polo. Iniciativas dessa natureza, com o adensamento das cadeias, são essenciais para o crescimento do polo.

QD – Seria necessária também uma radical elevação das escalas de produção das olefinas e aromáticos e nas que, a seguir, produzem resinas e outros produtos de segunda geração para se assegurar a competitividade global mínima? Essa elevação, que pressupõe forte investimento, seria viável?

Mascarenhas – A ampliação das plantas da produção depende, como sabido, da existência de condições objetivas, como mercado, matéria-prima, custos competitivos, além de outros. O mercado nacional de resinas tem sido bem abastecido e não tem registrado crescimento mais expressivo. Restaria o global, mas aí retorna a questão das matérias-primas competitivas, que no Brasil não existem nesse instante, como existem em outros países ou regiões. Estados Unidos, México e Oriente Médio são exemplos, para só falar de alguns. Haveria uma exceção na execução de projetos de poliolefinas baseados em etanol, dado o apelo decorrente de uma matéria-prima de origem vegetal e renovável. Até porque o pagamento de preço premium por tais produtos tem sido aceito.

QD – Pode-se imaginar em um futuro razoavelmente próximo a instalação de um terceiro cracker em Camaçari e até onde essa possibilidade estaria na dependência da futura oferta de gás com adequado teor de etano e preço alinhado às cotações do mercado global?

Mascarenhas – Pelas razões precedentes, não vemos viabilidade, neste momento, para a instalação de mais um cracker no país, independentemente de ampliações marginais e oportunísticas da produção que possam ser viabilizadas em qualquer um dos polos existentes.

QD – A esta altura, em qualquer circunstância, estaria descartada a possibilidade de uma nova pirólise com base na nafta? O excedente de propeno, a última disponibilidade olefínica do segundo polo, será consumido na produção de ácido acrílico?

Mascarenhas – Conforme visto, no campo básico, haveria apenas espaço para a ampliação da produção de alguns intermediários, em escala limitada, como seria o caso do propeno, para viabilizar a fabricação de certos derivados do ácido acrílico, à consideração da Petrobras.

QD – Qual o impacto que a revolução do shale gas tende a causar nas petroquímicas fora dos Estados Unidos? A exploração desse mesmo gás no mercado interno poderá equilibrar o jogo?

Mascarenhas – Mantidas as condições de preço do shale gas americano, o que somente poderá ser verificado após a recuperação plena da economia norte-americana, com os novos projetos intensivos em gás já em operação, a competição seria inviável. Pode haver uma tendência de que o preço desse gás suba para remunerar melhor os investimentos da indústria de lá, sem perda de competitividade, o que pode nos proporcionar uma oportunidade, independentemente de outras medidas e políticas que possam ser introduzidas pelo governo. A oferta do gás do pré-sal a preços aceitáveis seria uma dessas medidas. No Brasil, onde há ocorrência de folhelho semelhante em várias bacias, as melhores oportunidades estão no Recôncavo Baiano, na zona onde já houve a exploração de petróleo. Mas é preciso considerar que esse preço do gás americano deriva em grande parte de uma ampla rede de infraestrutura preexistente, que foi aproveitada para a produção de óleo e gás atual. Assim, mesmo que tenhamos o shale gas produzido aqui no Brasil, os custos de extração e, portanto, o seu preço final não poderão ser semelhantes ao americano.

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