Farmacêutico e Biotecnologia

Entrevista: Farmoquímica nacional precisa de proteção

Quimica e Derivados
24 de abril de 2014
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    QD – Piorou em vez de melhorar…
    JDP – Em 2007, chegamos a um impasse. A maior parte do nosso faturamento, cerca de 65%, tem origem nas vendas para laboratórios oficiais. É um bom cliente, que compra mensalmente quantidades importantes de fármacos. Mas tem uma peculiaridade: os pagamentos só começam a sair no segundo semestre, por entraves burocráticos. Isso nos deixa com um buraco no caixa, que era coberto com empréstimos bancários. Em 2007, o BNDES executou um de nossos financiamentos de capital de giro e isso nos colocou em situação difícil. Ou iríamos à falência, da pior maneira possível, ou os acionistas precisariam colocar mais dinheiro na empresa. Dos sete acionistas, restaram apenas três. O contrato dos antirretrovirais foi a nossa chance de sair da sinuca. Fizemos cortes profundos de custos, ajustes internos e outras providências. E conseguimos sobreviver.

    QD – Situação curiosa essa de vender e só receber seis meses depois.
    JDP – Fosse o governo mais eficiente nos pagamentos, nossos custos financeiros cairiam. No ano passado, um grupo financeiro inglês comprou parte do capital e eles estão capitalizando a empresa. Isso nos tirou um peso enorme das costas, referente aos juros. Em 2013, tivemos um Ebitda de R$ 8 milhões, porém gastamos R$ 3 milhões com juros. O negócio é interessante com 15% a 20% de Ebitda.

    QD – Não é um risco muito grande depender de um cliente impontual?
    JDP – Depois da crise de 2007, decidimos que não podíamos mais depender tanto assim do cliente oficial. Mas, no caso dos farmoquímicos, não dá para vender para laboratórios privados, eles compram da Ásia, com exceção do cloreto e do carbonato de lítio, que têm uma reserva de mercado. Começamos, então, a desenvolver produtos de uso industrial, ou seja, diversificamos as operações, sem sair das especialidades. E também reforçamos a participação nas PDPs.

    QD – Diversificar, sem sair dos fármacos?
    JDP – Nossa meta é equilibrar o faturamento obtido no setor público com a demanda dos clientes da iniciativa privada. Isso nos dará um fluxo de caixa mais estável. Compramos uma coluna de fracionamento da Sulzer e começamos no ano passado a oferecer ao mercado uma série de derivados terpênicos, obtidos de extratos de pinheiros. A terebintina tem uso como solvente, mas se comporta como uma commodity, com margens baixas e muita oscilação de preços. A árvore de derivados é ampla, vai de ingredientes para aromas e fragrâncias até adesivos especiais. As fraldas descartáveis, por exemplo, são fixadas com adesivos naturais politerpênicos, é uma grande oportunidade, pois o Brasil terá em breve uma grande produção de polímeros superabsorventes e, consequentemente, de fraldas. Esperamos obter uma receita de R$ 7 milhões a R$ 10 milhões com essa unidade de produção em 2014.

    QD – Mas os farmoquímicos não perderão relevância para a empresa?
    JDP – Eles continuam no foco central. A fábrica é antiga, mas investimos para manter os ativos em excelente estado de operação, fizemos algumas reformas e substituições necessárias. Além disso, investimos R$ 4,6 milhões para instalar uma unidade completamente nova, voltada para ingredientes ativos para tratamentos oncológicos com alto grau de pureza e segurança.

    QD – São produtos novos?
    JDP – São produtos conhecidos, mas todos eles importados. Seremos o primeiro produtor local deles, com registro e garantia da qualidade. Laboratórios oficiais já reportaram perdas de 40% com o descarte de insumos importados por falta de qualidade. Só essas perdas já compensariam ter um fornecedor local qualificado, ainda que mais caro. Ocorre que a lei de licitações públicas não permite selecionar fornecedores por qualidade, é uma deficiência a corrigir.

    QD – A unidade já está operando?
    JDP – Fizemos o primeiro lote em maio de 2012 e iniciamos os ensaios de estabilidade de seis meses em agosto, com bons resultados. O laboratório EMS, nosso parceiro, iniciou seus próprios testes de estabilidade no ano passado e deve apresentar os resultados agora, em março de 2014. Todos esses estudos, além dos demais, serão encaminhados para a Anvisa, que tem prazo legal de até dois anos para aprovar ou não o produto. É muito tempo.



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