Farmacêutico e Biotecnologia

Entrevista: Farmoquímica nacional precisa de proteção

Quimica e Derivados
24 de abril de 2014
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    QD – As PDPs funcionam com esse objetivo também?
    JDP – Com certeza. As primeiras PDPs foram criadas para produzir os antirretrovirais, medicamentos para o tratamento da aids, produtos de alto preço e com alcance social muito grande. Um contrato desses, firmado em 2006, salvou a Globe da falência. Em geral, as PDPs são feitas para viabilizar a produção nacional dos fármacos de grande consumo que estão prestes a perder os benefícios de proteção patentária. Ao expirar a patente, começa uma corrida para lançar medicamentos genéricos para substituir os de marca.

    QD – Mas, neste caso, trata-se de um projeto voltado para preço. Ainda assim é estimulante?
    JDP – O mercado de produtos com patentes expiradas tem um comportamento peculiar. Quando acaba a proteção sobre um fármaco, o preço dele desaba para um quinto do valor praticado. Depois de cinco anos, esse valor cairá para um décimo do original. Portanto, os investimentos realizados nesses projetos precisam ser amortizados em prazo muito curto. Quem sai na frente tem vantagem. Com a garantia de margem oferecida pela PDP, o fabricante tem alguma segurança para investir. É um bom incentivo.

    QD – Mas não seria mais atraente investir em inovação, para obter fármacos com proteção patentária e de alto valor?
    JDP – Isso seria o ideal, mas não é o que conseguimos fazer no Brasil. Há alguns casos, excepcionalíssimos, de pesquisadores que tiveram êxito na descoberta e na síntese de moléculas novas. No geral, precisamos produzir em escala para aprendermos a atuar nessa atividade. É muito fácil fazer isso em teoria. O Brasil está cheio de professores capazes de colocar as equações no quadro-negro, mas temos muito pouca gente preparada para construir e operar uma fábrica de química fina. É uma dificuldade até para quem pretende fazer os genéricos. Mas a sequência evolutiva usual é começar copiando e inovar depois, quando já se tem massa crítica desenvolvida.

    QD – Os genéricos evitaram um estrago maior na desindustrialização farmoquímica?
    JDP – A produção de medicamentos genéricos no Brasil já atrai atenções internacionais. Ela é importante para o desenvolvimento de laboratórios competentes em formulação de produtos finais, especialmente no setor público. Isso nos ajuda a promover fármacos mais modernos, de difícil incorporação. O imunossupressor micofenolato de sódio, por exemplo, que estamos desenvolvendo aqui, é um insumo de alto nível não apenas como princípio ativo, mas também exige expertise para a formulação de remédios.

    QD – Os genéricos puxam o preço para baixo. Isso não prejudica a cadeia produtiva?
    JDP – Sempre digo que o segmento de medicamentos genéricos é autofágico. Depois da queda de uma patente, os fabricantes de genéricos começam a brigar por fatias de mercado e derrubam os preços dramaticamente, até chegar a um ponto em que não vale mais a pena produzir. Isso aconteceu, por exemplo, com a hidroxiureia, um produto com mais de 50 anos de mercado cujo preço caiu tanto que pouca gente se dispõe a produzi-la. A amiodarona era vendida a US$ 120/kg em 2001, e caiu para US$ 65/kg em 2006, era produzida na Índia, mas ela deixou de fazer. Hoje, está cotada a US$ 200/kg, porque os fornecedores chineses não tiveram êxito na renovação do registro, por problemas de qualidade. Às vezes me perguntam sobre a vida útil de um produto farmoquímico, mas isso é difícil de prever. Produzimos o propranolol, que é um produto para o coração conhecido há décadas e com alta demanda. O ácido acetilsalicílico tem mais de um século e ainda é muito usado para dores de cabeça.

    QD – A industrialização e a desindustrialização obedecem os ciclos econômicos de cada atividade?
    JDP – Talvez. O mundo inteiro hoje está preocupado com a desindustrialização. Os Estados Unidos estão em uma fase de reindustrialização. A Alemanha manteve suas instalações de produção mecânica e química. Nesses casos, é importante perceber que eles tinham tecnologia de ponta e massa crítica suficientes para se reindustrializar e até escolher os segmentos mais avançados e lucrativos para atuar. Por aqui, não temos nada disso. É muito difícil construir ou reconstruir uma indústria farmoquímica no país. Por isso, algumas medidas heterodoxas devem ser tomadas para não acabar com o setor.

    QD – A própria Globe Química nasceu como resultado da globalização?
    JDP – De fato. Nos anos 1990, a Sanofi ainda era uma estatal francesa quando resolveu acabar com a produção que mantinha no Brasil. Esta fábrica tem mais de 35 anos e as alternativas que a empresa tinha na época eram a venda ou o fechamento da unidade. Alguns empresários nacionais da área de defensivos agrícolas resolveram comprá-la, embora pouco entendessem do ramo farmoquímico e suas regulamentações. Daí nasceu a Globe. Eles achavam que seria fácil produzir moléculas sob encomenda. No acordo de venda, a Sanofi se comprometeu a comprar produtos da unidade por dois anos e também fornecer suporte administrativo. Era uma fase de transição dos governos FHC para Lula, esperava-se uma política industrial mais nacionalista, mas isso não se materializou. As importações cresceram ainda mais.



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