Farmacêutico e Biotecnologia

Entrevista: Farmoquímica nacional precisa de proteção

Quimica e Derivados
24 de Abril de 2014
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    Química e Derivados, Peter: sociedade paga pelas irrealidades nacionais

    Peter: sociedade paga pelas irrealidades nacionais

    Proteger para competir. Espremida entre o nefasto custo Brasil e a concorrência aberta com produtos baratos, em especial os provenientes do Sudeste Asiático, a indústria nacional pede proteção ou mesmo subsídios oficiais para não perecer. A desindustrialização do país avança a olhos vistos e se torna cada vez mais preocupante no setor de química fina, demandante de pessoal altamente qualificado, de matérias-primas e intermediários de síntese pouco usuais. O empresário Jean Daniel Peter, presidente da Globe Química, produtora nacional de fármacos, conhece bem os efeitos da concorrência internacional sobre a atividade produtiva. Engenheiro mecânico formado pela Escola Politécnica de Lausanne (Suíça), ingressou em 1967 na Union Carbide, na qual desenvolveu longa carreira, tendo chegado a presidir a subsidiária brasileira até a venda da companhia para a Dow Chemical, em 2001, quando se aposentou. Procurado por um dos acionistas da Globe Química, formada pela compra da unidade farmoquímica da Sanofi, em Cosmópolis-SP, interessou-se pelo projeto e passou a presidir a empresa. Em 2004, assumiu uma participação de 10% do capital e deixou o cargo executivo, ao qual retornou em 2007, durante uma forte crise que quase levou a companhia à falência. De lá para cá, mudaram alguns de seus acionistas e a Globe Química passou a diversificar seu portfólio mediante investimentos em projetos específicos, não restritos a farmoquímicos.

    Apesar da ascendência suíça, formação europeia e carreira em multinacional norte-americana, Jean Peter considera o Brasil um bom lugar para se viver e contribui para o seu desenvolvimento, tendo participado da diretoria de entidades setoriais, como a Abiquim, além de atuar na Associação Brasileira de Química Fina (Abifina), da qual foi presidente de 2010 a 2012, sendo o atual vice-presidente para farmoquímicos. A preferência pelo país é coerente com a paixão pelas praias e veleiros. Ele também cruza o país pilotando um hidroavião experimental em saborosas aventuras, sempre acompanhado pela mulher. Jean Peter recebeu Química e Derivados na fábrica da Globe Química, instalada em um terreno de 460 mil m² a alguns quilômetros da Refinaria de Paulínia.

    Química e Derivados – O governo federal contratou um estudo para identificar oportunidades de investimentos no setor químico, especialmente na química fina. A Globe Química pretende participar disso?
    Jean Daniel Peter – O governo já nos avisou que esse estudo não contemplará a produção de farmoquímicos, pelo menos nesse momento. A prioridade deverá ficar com os agroquímicos. Nós já contamos com alguns mecanismos, como as Parcerias para Desenvolvimento Produtivo (PDP), que garantem ao produtor nacional com o devido registro oficial um valor adicional em relação ao do importado, que varia de 8% a 25%. Essa diferença de preço permite o desenvolvimento do setor farmoquímico e farmacêutico nacional.

    QD – É realmente necessário criar mecanismos de subsídio ou proteção para a indústria farmoquímica? Os lucros não são suficientes?
    JDP – As margens de lucro em farmoquímica não são tão extraordinárias assim. E o Brasil não é um país competitivo na maioria das indústrias. Com a globalização econômica, durante os anos 1990, muitos fabricantes de produtos de química fina foram transferidos de vários lugares do mundo para a Ásia, em especial para a China e para a Índia, que apresentavam vantagens enormes de custos e menores pressões ambientais. Hoje, qualquer coisa produzida na China custa a metade do similar brasileiro. Só existem duas maneiras de lidar com isso: a primeira seria eliminar todo o chamado custo Brasil, fazendo reformas trabalhistas, tributárias e fiscais, além de rever a legislação ambiental, que parece ser sueca, embora seja aplicada nos trópicos. Como nada disso foi feito ainda, caímos na segunda solução: aumentar as barreiras contra os importados. A desvalorização cambial também funciona dessa maneira, embora outros países tenham derrubado sua moeda em relação ao dólar. Aliás, o câmbio ideal deveria estar na faixa dos R$ 3,50 por dólar. Existem, além disso, os aspectos regulatórios, que são muito fortes no caso dos farmoquímicos e nem sempre respeitados pelos produtores mundiais de baixo preço.

    QD – A Organização Mundial do Comércio (OMC) faz restrições às barreiras alfandegárias?
    JDP – A OMC deveria avaliar o pacote de impostos incidentes sobre as mercadorias, em vez de olhar imposto por imposto. Por isso, ela muitas vezes ataca o imposto de importação. No nosso caso, esse tributo deveria ser de 45% para defender adequadamente a produção nacional. Mas o preço final dos medicamentos subiria muito, não seria bem-aceito pela população.

    QD – E com razão, afinal seria um aumento considerável. De certo modo, todas as formas de proteção acabam pesando no bolso dos consumidores.
    JDP – Sim. Esse é o preço da irrealidade brasileira nas áreas fiscal, tributária e trabalhista, entre outras coisas. Ou se paga esse preço, ou seguiremos desindustrializando o país. Em algumas cadeias esse fenômeno é inevitável. Mas a produção de medicamentos é crucial para o país. O Sistema Único de Saúde (SUS) distribui remédios para a população e não pode ficar refém de importações. É necessário eleger prioridades e desenvolver um trabalho sensato para que os preços finais não subam e até caiam com o tempo.


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