Entrevista: Farmoquímica nacional precisa de proteção

Química e Derivados, Peter: sociedade paga pelas irrealidades nacionais
Peter: sociedade paga pelas irrealidades nacionais

Proteger para competir. Espremida entre o nefasto custo Brasil e a concorrência aberta com produtos baratos, em especial os provenientes do Sudeste Asiático, a indústria nacional pede proteção ou mesmo subsídios oficiais para não perecer. A desindustrialização do país avança a olhos vistos e se torna cada vez mais preocupante no setor de química fina, demandante de pessoal altamente qualificado, de matérias-primas e intermediários de síntese pouco usuais. O empresário Jean Daniel Peter, presidente da Globe Química, produtora nacional de fármacos, conhece bem os efeitos da concorrência internacional sobre a atividade produtiva. Engenheiro mecânico formado pela Escola Politécnica de Lausanne (Suíça), ingressou em 1967 na Union Carbide, na qual desenvolveu longa carreira, tendo chegado a presidir a subsidiária brasileira até a venda da companhia para a Dow Chemical, em 2001, quando se aposentou. Procurado por um dos acionistas da Globe Química, formada pela compra da unidade farmoquímica da Sanofi, em Cosmópolis-SP, interessou-se pelo projeto e passou a presidir a empresa. Em 2004, assumiu uma participação de 10% do capital e deixou o cargo executivo, ao qual retornou em 2007, durante uma forte crise que quase levou a companhia à falência. De lá para cá, mudaram alguns de seus acionistas e a Globe Química passou a diversificar seu portfólio mediante investimentos em projetos específicos, não restritos a farmoquímicos.

Apesar da ascendência suíça, formação europeia e carreira em multinacional norte-americana, Jean Peter considera o Brasil um bom lugar para se viver e contribui para o seu desenvolvimento, tendo participado da diretoria de entidades setoriais, como a Abiquim, além de atuar na Associação Brasileira de Química Fina (Abifina), da qual foi presidente de 2010 a 2012, sendo o atual vice-presidente para farmoquímicos. A preferência pelo país é coerente com a paixão pelas praias e veleiros. Ele também cruza o país pilotando um hidroavião experimental em saborosas aventuras, sempre acompanhado pela mulher. Jean Peter recebeu Química e Derivados na fábrica da Globe Química, instalada em um terreno de 460 mil m² a alguns quilômetros da Refinaria de Paulínia.

Química e Derivados – O governo federal contratou um estudo para identificar oportunidades de investimentos no setor químico, especialmente na química fina. A Globe Química pretende participar disso?
Jean Daniel Peter – O governo já nos avisou que esse estudo não contemplará a produção de farmoquímicos, pelo menos nesse momento. A prioridade deverá ficar com os agroquímicos. Nós já contamos com alguns mecanismos, como as Parcerias para Desenvolvimento Produtivo (PDP), que garantem ao produtor nacional com o devido registro oficial um valor adicional em relação ao do importado, que varia de 8% a 25%. Essa diferença de preço permite o desenvolvimento do setor farmoquímico e farmacêutico nacional.

QD – É realmente necessário criar mecanismos de subsídio ou proteção para a indústria farmoquímica? Os lucros não são suficientes?
JDP – As margens de lucro em farmoquímica não são tão extraordinárias assim. E o Brasil não é um país competitivo na maioria das indústrias. Com a globalização econômica, durante os anos 1990, muitos fabricantes de produtos de química fina foram transferidos de vários lugares do mundo para a Ásia, em especial para a China e para a Índia, que apresentavam vantagens enormes de custos e menores pressões ambientais. Hoje, qualquer coisa produzida na China custa a metade do similar brasileiro. Só existem duas maneiras de lidar com isso: a primeira seria eliminar todo o chamado custo Brasil, fazendo reformas trabalhistas, tributárias e fiscais, além de rever a legislação ambiental, que parece ser sueca, embora seja aplicada nos trópicos. Como nada disso foi feito ainda, caímos na segunda solução: aumentar as barreiras contra os importados. A desvalorização cambial também funciona dessa maneira, embora outros países tenham derrubado sua moeda em relação ao dólar. Aliás, o câmbio ideal deveria estar na faixa dos R$ 3,50 por dólar. Existem, além disso, os aspectos regulatórios, que são muito fortes no caso dos farmoquímicos e nem sempre respeitados pelos produtores mundiais de baixo preço.

QD – A Organização Mundial do Comércio (OMC) faz restrições às barreiras alfandegárias?
JDP – A OMC deveria avaliar o pacote de impostos incidentes sobre as mercadorias, em vez de olhar imposto por imposto. Por isso, ela muitas vezes ataca o imposto de importação. No nosso caso, esse tributo deveria ser de 45% para defender adequadamente a produção nacional. Mas o preço final dos medicamentos subiria muito, não seria bem-aceito pela população.

QD – E com razão, afinal seria um aumento considerável. De certo modo, todas as formas de proteção acabam pesando no bolso dos consumidores.
JDP – Sim. Esse é o preço da irrealidade brasileira nas áreas fiscal, tributária e trabalhista, entre outras coisas. Ou se paga esse preço, ou seguiremos desindustrializando o país. Em algumas cadeias esse fenômeno é inevitável. Mas a produção de medicamentos é crucial para o país. O Sistema Único de Saúde (SUS) distribui remédios para a população e não pode ficar refém de importações. É necessário eleger prioridades e desenvolver um trabalho sensato para que os preços finais não subam e até caiam com o tempo.QD – As PDPs funcionam com esse objetivo também?
JDP – Com certeza. As primeiras PDPs foram criadas para produzir os antirretrovirais, medicamentos para o tratamento da aids, produtos de alto preço e com alcance social muito grande. Um contrato desses, firmado em 2006, salvou a Globe da falência. Em geral, as PDPs são feitas para viabilizar a produção nacional dos fármacos de grande consumo que estão prestes a perder os benefícios de proteção patentária. Ao expirar a patente, começa uma corrida para lançar medicamentos genéricos para substituir os de marca.

QD – Mas, neste caso, trata-se de um projeto voltado para preço. Ainda assim é estimulante?
JDP – O mercado de produtos com patentes expiradas tem um comportamento peculiar. Quando acaba a proteção sobre um fármaco, o preço dele desaba para um quinto do valor praticado. Depois de cinco anos, esse valor cairá para um décimo do original. Portanto, os investimentos realizados nesses projetos precisam ser amortizados em prazo muito curto. Quem sai na frente tem vantagem. Com a garantia de margem oferecida pela PDP, o fabricante tem alguma segurança para investir. É um bom incentivo.

QD – Mas não seria mais atraente investir em inovação, para obter fármacos com proteção patentária e de alto valor?
JDP – Isso seria o ideal, mas não é o que conseguimos fazer no Brasil. Há alguns casos, excepcionalíssimos, de pesquisadores que tiveram êxito na descoberta e na síntese de moléculas novas. No geral, precisamos produzir em escala para aprendermos a atuar nessa atividade. É muito fácil fazer isso em teoria. O Brasil está cheio de professores capazes de colocar as equações no quadro-negro, mas temos muito pouca gente preparada para construir e operar uma fábrica de química fina. É uma dificuldade até para quem pretende fazer os genéricos. Mas a sequência evolutiva usual é começar copiando e inovar depois, quando já se tem massa crítica desenvolvida.

QD – Os genéricos evitaram um estrago maior na desindustrialização farmoquímica?
JDP – A produção de medicamentos genéricos no Brasil já atrai atenções internacionais. Ela é importante para o desenvolvimento de laboratórios competentes em formulação de produtos finais, especialmente no setor público. Isso nos ajuda a promover fármacos mais modernos, de difícil incorporação. O imunossupressor micofenolato de sódio, por exemplo, que estamos desenvolvendo aqui, é um insumo de alto nível não apenas como princípio ativo, mas também exige expertise para a formulação de remédios.

QD – Os genéricos puxam o preço para baixo. Isso não prejudica a cadeia produtiva?
JDP – Sempre digo que o segmento de medicamentos genéricos é autofágico. Depois da queda de uma patente, os fabricantes de genéricos começam a brigar por fatias de mercado e derrubam os preços dramaticamente, até chegar a um ponto em que não vale mais a pena produzir. Isso aconteceu, por exemplo, com a hidroxiureia, um produto com mais de 50 anos de mercado cujo preço caiu tanto que pouca gente se dispõe a produzi-la. A amiodarona era vendida a US$ 120/kg em 2001, e caiu para US$ 65/kg em 2006, era produzida na Índia, mas ela deixou de fazer. Hoje, está cotada a US$ 200/kg, porque os fornecedores chineses não tiveram êxito na renovação do registro, por problemas de qualidade. Às vezes me perguntam sobre a vida útil de um produto farmoquímico, mas isso é difícil de prever. Produzimos o propranolol, que é um produto para o coração conhecido há décadas e com alta demanda. O ácido acetilsalicílico tem mais de um século e ainda é muito usado para dores de cabeça.

QD – A industrialização e a desindustrialização obedecem os ciclos econômicos de cada atividade?
JDP – Talvez. O mundo inteiro hoje está preocupado com a desindustrialização. Os Estados Unidos estão em uma fase de reindustrialização. A Alemanha manteve suas instalações de produção mecânica e química. Nesses casos, é importante perceber que eles tinham tecnologia de ponta e massa crítica suficientes para se reindustrializar e até escolher os segmentos mais avançados e lucrativos para atuar. Por aqui, não temos nada disso. É muito difícil construir ou reconstruir uma indústria farmoquímica no país. Por isso, algumas medidas heterodoxas devem ser tomadas para não acabar com o setor.

QD – A própria Globe Química nasceu como resultado da globalização?
JDP – De fato. Nos anos 1990, a Sanofi ainda era uma estatal francesa quando resolveu acabar com a produção que mantinha no Brasil. Esta fábrica tem mais de 35 anos e as alternativas que a empresa tinha na época eram a venda ou o fechamento da unidade. Alguns empresários nacionais da área de defensivos agrícolas resolveram comprá-la, embora pouco entendessem do ramo farmoquímico e suas regulamentações. Daí nasceu a Globe. Eles achavam que seria fácil produzir moléculas sob encomenda. No acordo de venda, a Sanofi se comprometeu a comprar produtos da unidade por dois anos e também fornecer suporte administrativo. Era uma fase de transição dos governos FHC para Lula, esperava-se uma política industrial mais nacionalista, mas isso não se materializou. As importações cresceram ainda mais.

QD – Piorou em vez de melhorar…
JDP – Em 2007, chegamos a um impasse. A maior parte do nosso faturamento, cerca de 65%, tem origem nas vendas para laboratórios oficiais. É um bom cliente, que compra mensalmente quantidades importantes de fármacos. Mas tem uma peculiaridade: os pagamentos só começam a sair no segundo semestre, por entraves burocráticos. Isso nos deixa com um buraco no caixa, que era coberto com empréstimos bancários. Em 2007, o BNDES executou um de nossos financiamentos de capital de giro e isso nos colocou em situação difícil. Ou iríamos à falência, da pior maneira possível, ou os acionistas precisariam colocar mais dinheiro na empresa. Dos sete acionistas, restaram apenas três. O contrato dos antirretrovirais foi a nossa chance de sair da sinuca. Fizemos cortes profundos de custos, ajustes internos e outras providências. E conseguimos sobreviver.

QD – Situação curiosa essa de vender e só receber seis meses depois.
JDP – Fosse o governo mais eficiente nos pagamentos, nossos custos financeiros cairiam. No ano passado, um grupo financeiro inglês comprou parte do capital e eles estão capitalizando a empresa. Isso nos tirou um peso enorme das costas, referente aos juros. Em 2013, tivemos um Ebitda de R$ 8 milhões, porém gastamos R$ 3 milhões com juros. O negócio é interessante com 15% a 20% de Ebitda.

QD – Não é um risco muito grande depender de um cliente impontual?
JDP – Depois da crise de 2007, decidimos que não podíamos mais depender tanto assim do cliente oficial. Mas, no caso dos farmoquímicos, não dá para vender para laboratórios privados, eles compram da Ásia, com exceção do cloreto e do carbonato de lítio, que têm uma reserva de mercado. Começamos, então, a desenvolver produtos de uso industrial, ou seja, diversificamos as operações, sem sair das especialidades. E também reforçamos a participação nas PDPs.

QD – Diversificar, sem sair dos fármacos?
JDP – Nossa meta é equilibrar o faturamento obtido no setor público com a demanda dos clientes da iniciativa privada. Isso nos dará um fluxo de caixa mais estável. Compramos uma coluna de fracionamento da Sulzer e começamos no ano passado a oferecer ao mercado uma série de derivados terpênicos, obtidos de extratos de pinheiros. A terebintina tem uso como solvente, mas se comporta como uma commodity, com margens baixas e muita oscilação de preços. A árvore de derivados é ampla, vai de ingredientes para aromas e fragrâncias até adesivos especiais. As fraldas descartáveis, por exemplo, são fixadas com adesivos naturais politerpênicos, é uma grande oportunidade, pois o Brasil terá em breve uma grande produção de polímeros superabsorventes e, consequentemente, de fraldas. Esperamos obter uma receita de R$ 7 milhões a R$ 10 milhões com essa unidade de produção em 2014.

QD – Mas os farmoquímicos não perderão relevância para a empresa?
JDP – Eles continuam no foco central. A fábrica é antiga, mas investimos para manter os ativos em excelente estado de operação, fizemos algumas reformas e substituições necessárias. Além disso, investimos R$ 4,6 milhões para instalar uma unidade completamente nova, voltada para ingredientes ativos para tratamentos oncológicos com alto grau de pureza e segurança.

QD – São produtos novos?
JDP – São produtos conhecidos, mas todos eles importados. Seremos o primeiro produtor local deles, com registro e garantia da qualidade. Laboratórios oficiais já reportaram perdas de 40% com o descarte de insumos importados por falta de qualidade. Só essas perdas já compensariam ter um fornecedor local qualificado, ainda que mais caro. Ocorre que a lei de licitações públicas não permite selecionar fornecedores por qualidade, é uma deficiência a corrigir.

QD – A unidade já está operando?
JDP – Fizemos o primeiro lote em maio de 2012 e iniciamos os ensaios de estabilidade de seis meses em agosto, com bons resultados. O laboratório EMS, nosso parceiro, iniciou seus próprios testes de estabilidade no ano passado e deve apresentar os resultados agora, em março de 2014. Todos esses estudos, além dos demais, serão encaminhados para a Anvisa, que tem prazo legal de até dois anos para aprovar ou não o produto. É muito tempo.

QD – Nada está sendo produzido nessa unidade?
JDP – Fizemos os lotes para os ensaios. Trata-se de uma instalação dedicada para produtos de alta potência. Como doses ínfimas desencadeiam efeitos, o padrão de segurança é altíssimo, tanto para impedir contaminações quanto para garantir a segurança dos operadores. Eles entram na unidade por um caminho diferente dos insumos, precisam usar roupas especiais, com equipamento de respiração adequado. E só saem de lá depois de passar por lavagem completa. O ar das salas é trocado 45 vezes por hora e é filtrado e lavado antes de ser liberado para o ambiente. Todos os efluentes são recolhidos e enviados para incineração. É uma instalação de alta segurança, tem equipamentos específicos. Sua capacidade atual é de uma tonelada por ano de mesilato de imatinibe, um intermediário que pode ser usado para outras moléculas. Estamos nos preparando para triplicar essa capacidade até setembro deste ano, produzindo capecitabina, hidroxiureia e temozolomida. Quando a Anvisa aprovar, poderemos substituir as importações. Aliás, essa unidade entregará produtos acondicionados em embalagens com a dosagem exata para o batch a ser produzido pelo cliente, evitando manipulações.

QD – Seria possível acelerar esse processo de aprovação?
JDP – O sistema brasileiro se caracteriza pela desconfiança total. Em alguns países, o fabricante assina um documento pelo qual assume a responsabilidade pelo produto e inicia a produção. Aqui isso não vale. É preciso passar por toda a maratona de ensaios e aprovações. Além disso, no caso dos medicamentos genéricos, a legislação em vigor só admite o uso de um fármaco de referência e dois contratipos. Deveria ser possível incluir um produto de fabricação local com aprovação rápida, um fast track.

QD – Os antirretrovirais continuam sendo atraentes?
JDP – Sim. Nós sintetizamos os principais ativos para o tratamento da aids: efavirenz, zidovudina e lamivudina, para este desenvolvemos um processo de produção com reator de absorção, que patenteamos. Esses fármacos compõem os coquetéis dois em um e três em um. Estamos desenvolvendo a síntese do darunavir, produto mais recente.

QD – Quando se fala em química fina, há quem defenda a verticalização total da produção. Isso é viável?
JDP – Com raras exceções, isso não é viável e nem mesmo desejável. Os produtos da química fina são o resultado de umas cinco ou seis reações de síntese sucessivas, das quais as três primeiras são relativamente simples. As reações finais são as mais complexas, exigem alta tecnologia e especialização. É exatamente nelas que deveríamos concentrar os esforços e recursos. Os intermediários iniciais podem e devem ser importados. Há casos em que é possível pensar em verticalização. Nós estamos desenvolvendo a produção do topiramato, um anticonvulsivo usado no tratamento de várias doenças neurológicas. Como ele é produzido com base na frutose, o Brasil tem condições de fazer todo o processo aqui. No geral, fazer uma ou duas etapas de síntese aqui já é uma grande vitória.

QD – Como administrar uma linha extensa de produtos de fabricação complexa?
JDP – Em fármacos, temos cerca de 20 produtos. Na linha industrial, outro tanto. E também produzimos moléculas sob encomenda, como o piroxicam e o cambendazol. Isso exige um esforço grande de planejamento para a melhor ocupação dos reatores e dentro das boas normas de fabricação, com análises de controle de qualidade realizadas em laboratórios modernos e bem equipados. Mas essa complexidade faz parte do jogo. Temos essa demanda porque estamos equipados para fazer pelo menos 16 tipos de reações diferentes, como as de Grignard, Williamson e Friedel Crafts. Como nossas moléculas são registradas na Anvisa, os clientes nos procuram.

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