Entrevista: Fabricante de tintas nasce para ser líder

Química e Derivados, Antonio-Carlos-de-Oliveira_Axalta
Oliveira: Axalta entrará na linha decorativa

Chama-se Axalta Coating Systems e tem por objetivo de longo prazo se tornar a maior fabricante de tintas do mundo. A empresa é resultado do spin off da divisão de tintas automotivas da DuPont, a DPC (DuPont Performance Coatings), vendida por US$ 4,9 bilhões para o grupo de investimento privado Carlyle em 1º de fevereiro deste ano. A Axalta assume um negócio com faturamento de US$ 4,3 bilhões em 2012, fruto da operação de 35 fábricas e sete centros de pesquisas espalhados por alguns dos 130 países nos quais atua, entre eles o Brasil. Instalada em Guarulhos-SP, na unidade fabril iniciada em 1962 pela antiga Polidura e comprada pela DuPont em 1975, a subsidiária local é presidida pelo engenheiro químico Antonio Carlos de Oliveira, experiente e reconhecido profissional do setor, que revelou à Química e Derivados os caminhos que serão trilhados daqui para a frente pela jovem companhia. Oliveira ingressou na DuPont em 1973, como estagiário de laboratório, passou por vários cargos, no país e no exterior, acompanhando durante esse período a evolução dos negócios em escala global.

QD – A DPC foi comprada por um grupo do setor financeiro. Na prática, o que muda no dia a dia dos negócios?
Antonio Carlos de Oliveira – Podemos dizer que, agora, o nosso foco está concentrado em tintas e acabamentos, nos dedicamos totalmente a essa atividade e não concorremos com outros interesses.

QD – A transição deixou algum ressentimento?
Oliveira – Pelo contrário, a DuPont conduziu um processo de transição perfeito, que manteve o valor do negócio. Há alguns anos a companhia decidiu concentrar seus esforços nas áreas ligadas aos alimentos, energia e no agronegócio, por uma decisão estratégica. Dentro da DuPont, a DPC era um gerador de caixa muito bom, mas não alinhado com a expectativa de longo prazo. Era uma vaquinha leiteira, a milky cow, como dizem os americanos. Quando a companhia decidiu se desfazer da produção de tintas automotivas e industriais, ela preparou bem a operação e buscou alguém realmente interessado em manter o negócio, mediante um valor adequado. Saliento que a equipe mundial foi toda transferida para a Axalta, com as instalações fabris, laboratórios e marcas comerciais. Até o pessoal da área administrativa, que compartilhávamos com o resto da companhia, foi separado e transferido para Guarulhos. Não houve nenhum tipo de ruptura, foi muito tranquilo e transparente.

QD – Os clientes sentiram alguma diferença?
Oliveira – Nenhuma. Os 14 mil funcionários mundiais são os mesmos, a equipe no Brasil tem 1,2 mil colaboradores, todos mantidos. Os valores corporativos, como a atuação ética, o respeito ao meio ambiente e à segurança vieram da DuPont e foram reforçados. Além disso, os compromissos com os clientes globais e regionais foram preservados e serão aprofundados.

QD – As marcas dos produtos serão as mesmas?
Oliveira – Com certeza, tanto os produtos da DuPont quanto os da Herberts foram transferidos para a Axalta. Polidura, CorMax, Duxone e todas as outras continuarão no mercado. O que os clientes perceberão é a mudança em alguns logotipos, porque precisaremos abandonar o formato oval que é característico da DuPont. O contrato de venda nos permite usar o oval por 24 meses a partir de 1º de fevereiro deste ano. Esse período é suficiente para mudar a identidade visual e renovar os estoques de produtos, sem perder a força das marcas.

QD – Fazer parte de uma grande corporação química oferecia sinergias?
Oliveira – Algumas, é verdade, mas não muitas. Desde a compra da Herberts, na década de 1990, a atividade de P&D foi descentralizada, por isso temos sete centros de excelência mundiais. O setor de tintas não faz muita pesquisa pura, mas aplica os conhecimentos produzidos pela ciência tanto nas formulações quanto na etapa da aplicação do revestimento. Por sua vez, uma empresa bicentenária como a DuPont inevitavelmente possui uma estrutura interna poderosa e pesada. A Axalta nasceu lean, enxuta. Isso nos dá mais agilidade para a tomada de decisões. E custos menores, também.

QD – Até o começo deste ano, o sr. se relacionava com um gigante químico mundial, agora o sr. se reporta a um gigante financeiro. O diálogo é diferente?
Oliveira – O relacionamento com um grupo financeiro é uma coisa nova para nós, mas o início está sendo muito bom. O grupo Carlyle é um investidor do tipo private equity com 25 anos de experiência e mais de US$ 170 bilhões aplicados em diversos empreendimentos. A Axalta se enquadra na divisão de negócios em transportes (transportation), ao lado dos pneus da Goodyear, das transmissões da Allyson e da locadora Hertz, por exemplo. O foco do Carlyle é gerir bem cada empresa do portfólio e obter lucros crescentes, ou seja, manter a estrutura de produção e de qualidade. Com isso, oferece retornos adequados aos investidores que participam do fundo, além de valorizar cada um desses negócios para uma eventual venda futura ou abertura de capital na bolsa. Eles são excelentes em finanças, mas apoiam as decisões da área operacional, buscam manter as competências existentes. Eles querem resultados, é óbvio, mas entendem os ciclos de negócios, não impõem metas que não possam ser cumpridas.

QD – E se os resultados não forem alcançados?
Oliveira – Nesse caso, é possível que eles tragam gente do mercado para mudar a operação. É uma visão muito melhor do que a dos investidores que compram as empresas para vender os pedaços. Além disso, eles têm capital para investir e efetivamente investem, basta apresentar projetos bem definidos e viáveis, com uma taxa interna de retorno favorável. Na China, por exemplo, estão sendo aplicados US$ 50 milhões na atualização da fábrica e vários projetos que estavam em andamento foram mantidos.

QD – Existe alguma meta definida?
Oliveira – Nossa meta de longo prazo é simples: queremos ser a maior empresa de tintas do mundo. Já somos líderes em pintura automotiva, não deixaremos esse setor de lado, mas precisaremos investir em outros segmentos.

QD – Quais deles?
Oliveira – Cada região do planeta possui suas particularidades e demandas. Aqui no Brasil, por exemplo, o maior segmento de mercado em tintas é o setor decorativo imobiliário. Não podemos continuar fora desse segmento. Aliás, a DuPont optou por não atuar nele porque era um grande fornecedor de dióxido de titânio e não via sentido em disputar mercado com seus clientes. Agora não temos mais esse vínculo e vamos entrar no segmento imobiliário.

QD – A entrada será por meio de aquisições ou partirá do zero?
Oliveira – Estamos avaliando as duas possibilidades. Não se trata simplesmente de comprar alguém que já esteja no mercado. Essa empresa precisa ter uma participação relevante, produtos qualificados, imagem respeitada, sem problemas ambientais, por exemplo, além de ativos operacionais condizentes. Partir do zero pode ser mais complicado no começo, mas temos área disponível aqui em Guarulhos e pessoal qualificado. Estamos estudando, mas logo teremos essa resposta. Nosso CEO, Charles Shaver, virá ao Brasil em setembro e talvez possamos anunciar alguma novidade.

QD – A linha industrial é bem parecida com a de tintas automotivas, em termos de composição. Não seria um bom ponto de partida para a diversificação?
Oliveira – Já temos alguns negócios nessa área. E, realmente, algumas tintas automotivas podem ser usadas diretamente em aplicações industriais. Esquadrias metálicas, por exemplo, podem ser pintadas com as mesmas tintas protetivas que vendemos para automóveis. Mas o segmento é pequeno, em comparação com o decorativo. Além disso, o mercado industrial tem maturação lenta. Podemos produzir as tintas para pintar uma plataforma da Petrobras, mas só a aprovação do produto pelo cliente poderia levar uns dez anos. A construção civil permite retorno muito mais rápido dos investimentos.

QD – O setor automotivo ainda será o mais importante para a Axalta?
Oliveira – Não vejo como isso possa mudar. Estamos nesse mercado há mais de 145 anos, se considerarmos as experiências da Herberts e da DuPont, nossas antecessoras. As vendas de tintas automotivas originais e de repintura representam a maior parte do nosso faturamento, muito além de outras atividades. Outros segmentos vão crescer, com certeza, sem prejudicar nossa posição no mercado automotivo.

QD – De alguma forma, o setor decorativo imobiliário se parece com o da repintura automotiva. Há um grande número de fabricantes de tintas, a demanda é pulverizada, por exemplo. Esse quadro é ideal para uma empresa como a Axalta?
Oliveira – Sim, esses mercados são parecidos, mas ambos estão passando por mudanças profundas. Com a entrada de leis que impõem qualidade mínima, além daquelas relacionadas à proteção do meio ambiente e até da reciclagem de resíduos sólidos, assistiremos a uma seleção desse mercado, que favorecerá empresas comprometidas com avanço tecnológico e qualidade. Na repintura automotiva, por exemplo, o uso crescente das formulações base água precisa ser acompanhado pela evolução tecnológica das oficinas de pintura. Isso impulsiona a venda de tintas de alta qualidade. O mesmo vai acabar acontecendo no setor decorativo.

QD – O mercado brasileiro está se comportando bem?
Oliveira – Está um pouco fraco. Os resultados de 2012 não foram muito animadores e 2013 não será muito diferente. Apesar disso, o futuro do setor de tintas no Brasil é promissor, todos os indicadores e pesquisas mostram que há muito espaço para crescimento. Na indústria automotiva, por exemplo, Brasil e China são sempre apontados como mercados em crescimento, que devem receber mais fábricas nos próximos anos. Há uma expectativa de US$ 34 bilhões para investimentos novos nos próximos vinte anos. A Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores, a Anfavea, informou que o Brasil deve exportar mais de um milhão de veículos por ano a partir de 2014, não só de carros populares, mas dos tipos leves, a categoria B do setor, de valor mais alto. E os destinos não ficarão mais restritos à América Latina, chegando aos mercados mais tradicionais. A frota nacional está crescendo, isso exige mais tintas originais e também de repintura, porque o Brasil é um campeão mundial em colisões de trânsito, infelizmente. A renovação da frota incentiva a repintura, para valorizar o carro usado. O setor automotivo também é um forte impulsionador da economia e da inovação, por isso tem recebido apoio do governo.

QD – Cujas intervenções muitas vezes geram distorções…
Oliveira – De fato, há represamento de vendas na expectativa de novos benefícios, há tratamento favorecido para um setor e não para outros, não se atacam os gargalos estruturais, como as carências logísticas, a complexidade tributária etc. Mas beneficiam o setor, de alguma forma. As mudanças frequentes de regras, em especial na área econômica, acabam por afastar os investidores estrangeiros. A variação cambial, por sua vez, também desperta receios nos investidores. Para nós, isso não muda nossos planos, estamos preparados, temos capital, tecnologia e o pessoal está muito motivado.

QD – A construção civil sofreu mais do que o setor automotivo?
Oliveira – Sofreu mais, sim. Ao mesmo tempo, o potencial é imenso. Há uma previsão da entrega de 23 milhões de novas moradias até 2020 no país, sem contar as reformas. O mercado nacional de tintas imobiliárias já está acima de um bilhão de litros por ano e o consumo per capita ainda é baixo, em relação aos Estados Unidos e Europa. Não podemos ficar fora disso. Lembre-se que o Brasil constrói principalmente com tijolos e concreto, é um substrato diferente do usado em outros mercados, por isso é considerado como uma particularidade, favorecendo a fabricação local.

QD – O nome Axalta quer dizer alguma coisa?
Oliveira – Esse nome foi criado com o auxílio da FutureBrand, uma empresa internacional especializada. Ela realizou uma pesquisa ampla, com clientes e funcionários da empresa em vários lugares do mundo. Ela identificou os valores corporativos e a imagem externa da empresa e com base neles organizou um concurso interno para sugerir nomes. Alguns funcionários foram premiados pela colaboração. Axalta venceu porque passa a ideia de exaltar, elevar. Pode ser pronunciado com facilidade em várias línguas, embora cause algum desconforto em alemão e em chinês. O nome foi bem recebido tanto pelo pessoal interno como pelos clientes. Depois que você se acostuma com a pronúncia, fica fácil. Aliás, é “eczalta”.

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