Elekeiroz – Abiquim – Demanda firme estimula setor a superar obstáculos

Ganhar “musculatura” para se habilitar à disputa de espaços no mercado petroquímico internacional é a meta perseguida por Marcos De Marchi, atual presidente executivo da Elekeiroz, uma das mais antigas indústrias químicas do Brasil, com 118 anos de atividades e capital acionário nacional (grupo Itaúsa).

Engenheiro mecânico, De Marchi fez longa carreira na Rhodia, na qual ingressou como estagiário, em 1979, e exerceu várias atividades, desde a produção de têxteis até a presidência da companhia na América Latina, cargo que deixou para assumir o atual, em abril de 2012.

De Marchi também é o 3º vice-presidente da Associação Brasileira da Indústria Química (Abiquim), sendo o coordenador da comissão de economia da entidade setorial, função que lhe permite acompanhar de perto a evolução dos negócios químicos e petroquímicos nacionais, bem como as suas agruras, evidenciadas pelo aumento da participação de produtos químicos importados no mercado nacional.

Química e Derivados entrevistou De Marchi quando ele retornou de San Antonio (Texas), onde participou da reunião da American Fuel & Petrochemicals Association (AFPM), nova denominação da National Petrochemical & Refiners Association (NPRA). Lá encontrou um ambiente de euforia, alimentada pelas expectativas criadas em torno do shale gas e do shale oil, formas não convencionais de obtenção de gás natural e petróleo. Contando com gás barato, abaixo de US$ 5 por milhão de BTUs, os anúncios de investimento em crackers de etano pipocam nos Estados Unidos e geram nova onda de investimentos na cadeia produtiva.

QD – A petroquímica norte-americana, que se supunha morta ou hibernando, vai ressurgir com o shale gas?

De Marchi – Só se falou nisso na conferência internacional de petroquímica da AFPM. Usaram e abusaram da palavra renaissance. O gás e o óleo mais baratos, e em solo americano, devem ter grande influência na petroquímica e também no preço global das matérias-primas.

QD – Eles não estariam sendo precipitados, sem avaliar melhor os riscos ambientais, por exemplo?

Química e Derivados, Marcos De Marchi, Elekeiroz, plano de crescimento inclui inovação
De Marchi: plano de crescimento inclui inovação

De Marchi – Eles têm essa preocupação, mas isso ainda é pouco evidente. O que realmente pode preocupar é a reação de outros mercados aos novos preços do gás. Um dos executivos mais importantes do setor disse que a única certeza que existe são as flutuações de preços de matérias-primas. Há mais países com possibilidade de explorar o shale gas, como a China e a Argentina, por exemplo, e podem surgir alternativas.

QD – Isso torna o futuro mais nebuloso?

De Marchi – A discussão que eles travam no momento é se é melhor exportar o gás natural barato para realizar lucros imediatamente ou se deve haver incentivos ou bloqueios oficiais para impedir essa exportação e estimular o renascimento das cadeias a jusante, agregando mais valor ao gás. Essa proposta implica exportar derivados petroquímicos, mas exige esperar para ver o resultado. Há defensores ferrenhos das duas correntes.

QD – Para a Elekeiroz, o encontro de San Antonio trouxe negócios?

De Marchi – Estamos sempre atentos ao que se passa nos mercados, temos algumas operações, mas ainda precisamos ganhar “musculatura”, escala de produção e estrutura operacional para entrar firme nos mercados internacionais. Nossa meta atual é crescer, mas sempre com resultados positivos no balanço.

QD – Não é fácil conseguir isso, ainda mais com o shale gas barato nos EUA.

De Marchi – Não é impossível, mas estamos espremidos, como toda a indústria química e petroquímica brasileira, de um lado pelo suprimento de matérias-primas, que é limitado e caro, e de outro pelo preço dos produtos importados. Precisamos encontrar caminhos entre essas duas frentes de pressão.

QD – Qual o caminho para crescer?

De Marchi – Estamos buscando crescer por três caminhos. O primeiro é o crescimento orgânico, investindo no próprio negócio. Por exemplo, fizemos em 2012 o desengargalamento (DBN) da nossa linha de produção de resinas de poliéster, passando de 12 mil para 18 mil t/ano. Em 2011 já havia sido ampliada a unidade de ácido fumárico, e há uma série de projetos que são desenvolvidos aos poucos. A segunda via é a inovação, montamos laboratório para criar produtos novos ou para esticar o aproveitamento dos itens existentes para outros usos, reforçando o nosso marketing de desenvolvimento. Nosso setor de pesquisa, desenvolvimento e inovação conta com 15 pessoas qualificadas e já possui um portfólio de projetos bem interessante, alguns deles na linha da inovação aberta. Nessa modalidade, temos contratos firmados com universidades e institutos de pesquisa brasileiros para fazer pesquisa científica ou aplicada. Nós não teríamos como arcar com todos esses custos sozinhos, temos nesses contratos 12 PhDs trabalhando, não em full time, mas apoiando nossos esforços. Esse tipo de parceria entre empresas e universidades é muito comum na Alemanha, por exemplo. O terceiro caminho é o das fusões e aquisições, estamos sempre estudando possibilidades.

QD – A Elekeiroz é mais conhecida como fabricante de plastificantes. Essa é a definição do seu escopo?

De Marchi – Vamos além. Somos fortes nos plastificantes e nos intermediários necessários para a sua produção. Essas duas áreas representaram 69% do faturamento de 2012. Temos uma fatia de 62% no mercado brasileiro de plastificantes. As resinas de poliéster responderam por 25% do nosso faturamento, mas só temos 7% de market share. Nossa produção de ácido sulfúrico só traz 6% ao faturamento e detém 4% da capacidade instalada do ácido no país.

QD – Ainda vale a pena produzir ácido sulfúrico?

De Marchi – Produzimos 250 mil t/ano muito bem localizadas, em Várzea Paulista-SP, e elas são entregues para vários clientes que produzem fertilizantes, detergentes, cosméticos e até usinas sucroalcooleiras, todos situados em um curto raio de distância. É uma commodity, o custo do frete pesa muito, pode inviabilizar a operação. Além disso, temos uma vantagem com a produção do ácido sulfúrico: ela permite gerar energia suficiente para suprir 75% da nossa demanda nesse local. Só compramos 25% da rede elétrica, temos uma boa economia.

QD – Não dá para aumentar a produção para cobrir esses 25%?

De Marchi – Infelizmente, não é tão fácil. Não dá para fazer um “puxadinho”, seria preciso montar uma unidade nova, com uma capacidade produtiva muito superior à atual. Não seria viável economicamente.

QD – O DOP ainda é o carro-chefe dos plastificantes? Ele sofre com restrições dos clientes?

De Marchi – O DOP é o melhor plastificante que existe, seu desempenho é insuperável. Desde a década de 70 que se ataca o DOP, mas até hoje não há comprovação científica nenhuma de que ele represente algum risco à saúde. Tanto assim que o DOP é o único plastificante aprovado para a fabricação dos tubos que levam soro e sangue para os pacientes em hospitais. Mesmo assim, temos várias opções de plastificantes, ftálicos ou não.

QD – Daí a importância de contar com os intermediários?

De Marchi – Exatamente. Temos produção integrada de butanol e octanol, além dos anidridos ftálico e maleico. Isso nos permite fazer muitas combinações: nos ftálicos temos o DOP (dioctil), DBP (dibutil), DPHP (dipropil heptil); nos derivados maleicos, o DOM (dioctil maleato). Temos também produção de DOA (dioctil adipato) e do TOTM (trioctiltrimetilato). Do ponto de vista do aproveitamento de recursos renováveis, produzimos o Plastek 81, um substituto do DOP elaborado com base em glicerina. Isso nos dá uma grande vantagem no mercado brasileiro, tanto para aditivação do PVC como em tintas e outros produtos.

QD – A inovação entra pelos plastificantes?

De Marchi – Sim, e também pelos poliésteres, nesse caso olhamos para aplicações mais nobres, como as do setor automobilístico. Não há muito o que inovar em ácido sulfúrico.

QD – Como a Elekeiroz integra as operações dos sites de Várzea Paulista e Camaçari-BA?

De Marchi – Nós somos muito eficientes na produção, mas o custo de transporte é muito alto, sempre estamos procurando alternativas mais econômicas. A melhor seria a cabotagem, depois as ferrovias. Os caminhões seriam a terceira opção, mas essa é a mais usada, dadas as deficiências dos outros modais. Além disso, temos um consumo considerável de DOP na Região Nordeste. Como temos octanol e anidrido ftálico em Camaçari, fazemos esse plastificante por lá e o excedente é exportado. Trazemos octanol de lá para Várzea Paulista, onde temos o ftálico, para ter DOP competitivo no Sudeste e no Sul. E esse site é mais diversificado.

QD – Os resultados de 2012 foram bons?

De Marchi – Conseguimos aumentar nossa receita líquida em 16%, chegando a R$ 899,8 milhões, ampliamos o volume expedido de produtos em 6,3%, para 470,6 mil toneladas. Mas o lucro líquido caiu de R$ 14,8 milhões para R$ 500 mil em 2012. O Ebitda melhorou, de R$ 27 milhões em 2011, chegou a R$ 38,4 milhões. Esperamos resultados melhores em 2013 com as expansões realizadas em 2012, como a do ácido 2 etil hexanoico, um produto interessante.

QD – Os problemas enfrentados pela Elekeiroz são típicos do país, afetam todo o setor químico.

De Marchi – Exatamente. Um dos maiores desafios que o setor enfrenta no Brasil é ter estrutura de produção distante do local de consumo. Mas o governo federal poderia nos ajudar (e a toda a economia nacional) caso desonerasse a incidência dos impostos em cascata e fizesse pesados investimentos no setor de logística. Pelo menos na área de inovação as coisas têm andado bem, as verbas chegaram aos centros de pesquisa, há estímulos aos cientistas. Tem muita coisa a fazer, mas está funcionando. Os juros também baixaram um pouco.

QD – O câmbio continua defasado?

De Marchi – Os analistas estimam que o dólar deveria estar entre R$ 2,80 e R$ 3. Vemos que não só os produtos importados estão mais baratos que os nossos, mas até os serviços por aqui estão bem mais caros. Uma consulta médica particular na Alemanha, por exemplo, custa menos que no Brasil. Acabei de chegar dos Estados Unidos e as contas de restaurante de lá estavam mais leves que as daqui. A defasagem cambial explica isso.

QD – O impacto para a indústria química acaba se revelando no déficit crescente da balança comercial setorial?

De Marchi – Sim. O levantamento feito pela Abiquim nos últimos doze meses até fevereiro mostra que o déficit comercial químico passou de US$ 30 bilhões. Os importados representam 31% do consumo local de produtos químicos. Isso quer dizer: temos uma demanda enorme, mas não estamos conseguindo supri-la. Outro dado complicado: verificamos que desde 2010 o consumo aparente de químicos ficou estável no país. Nesse período, houve um aumento dramático da importação de produtos finais, ou seja, a cadeia toda foi afetada. Pelo menos, o primeiro trimestre de 2013 já dá sinais de uma recuperação no consumo aparente.

QD – O que impede novos investimentos no setor?

De Marchi – A indústria química é de importância fundamental para a economia de um país, trata-se de um setor com faturamento mundial de US$ 5,1 trilhões. O Brasil tem a sexta indústria química do mundo, é um player relevante. Sempre tivemos dificuldades, mesmo assim conseguimos construir essa indústria e não podemos deixar que ela se apague. O maior entrave é o suprimento de matéria-prima competitiva e abundante. Mas, com o pré-sal, temos a expectativa de poder contar com produção local de 4 milhões de barris de óleo por dia em alguns anos, ou seja, o dobro da produção atual. E vai ter uma quantidade assombrosa de gás natural associada a esse óleo todo; e existem estudos preliminares para explorar shale gas também no Brasil. Vamos ter essa matéria-prima disponível, mas é preciso ver a que preço.

QD – Há algum parâmetro de preço desejado pelo setor?

De Marchi – Nós precisamos de gás natural a preço competitivo em bases globais. Hoje, apenas 16 empresas usam o gás como matéria-prima de seus processos. Porém, é enorme a quantidade de empresas que usam o gás como insumo de produção, em processos térmicos ou para geração elétrica. O impacto do preço do gás na economia é muito grande.

QD – O setor químico responderia rápido a mudanças no preço do gás?

De Marchi – No preço do gás e com a desoneração de impostos em cascata, com certeza. Temos um índice de ocupação de capacidades nos últimos doze meses antes de fevereiro de 2013 da ordem de 80%. O setor pode oferecer imediatamente mais 20% de produção, sem nenhum investimento adicional, apenas rodando a plena carga. Essas mudanças até atrairiam novos investimentos.

QD – O governo federal tem sido receptivo aos pleitos da indústria?

De Marchi – Tem havido muitas conversas. Participei dos trabalhos do conselho de competitividade, desenvolvemos um trabalho profundo com vários empresários, economistas e especialistas do BNDES para montar uma proposta setorial que foi entregue ao governo federal em abril de 2012. Até agora não tivemos nenhuma resposta. O que nós precisamos, está tudo lá.

QD – No ano passado, vários produtos químicos receberam uma proteção adicional por meio da elevação de alíquotas do imposto de importação. Isso beneficiou o setor?

De Marchi – Sim, tivemos um benefício, mas a indústria química nunca pleiteou isso. Nós pedimos mudanças estruturais para que possamos ser competitivos e também para poder exportar. Não adianta ter alíquotas protetivas, isso só funciona no curto prazo. Além disso, a cadeia a jusante reclama, e com razão. Se as medidas adotadas pelo governo não favorecem a cadeia produtiva como um todo elas não funcionarão. Qualquer empresa que atue em uma cadeia produtiva precisa ter benefícios operacionais, não vantagens tributárias isoladas. Isso mata a livre iniciativa.

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