Entrevista: Arkema investe na produção nacional

Investir no Brasil requer uma dose de teimosia. São tantas as dificuldades burocráticas, tributárias e econômicas que é fácil desanimar no meio do caminho, especialmente no caso de empresas internacionais, com várias alternativas geográficas para alocar seus recursos.

Mesmo assim, com uma bagagem de vários anos e muitas experiências no país, Eric Schmitt, diretor-presidente da Arkema Química Ltda., subsidiária do grupo empresarial de origem francesa, comanda um plano de investimentos iniciado em 2012, com a aquisição da planta e de parte dos negócios da Resicryl, em Araçariguama-SP. Cidadão francês, ele é um especialista em Brasil, onde está pela quarta vez, cumprindo missões distintas.

A primeira se deu em 1986, quando ainda estudante de Administração de Empresas da Essec (École Supérieure des Sciences Économiques et Commerciales) veio fazer um ano de intercâmbio na Universidade de São Paulo.

Logo depois de formado, voltou ao país, dessa vez para servir como funcionário do Consulado da França no Rio de Janeiro, por dois anos. Ao retornar ao país de origem, ingressou na Elf Atochem, braço petroquímico do grupo petroleiro, regressando ao Brasil como executivo, acumulando experiências no Argentina e no México.

Voltou ao Brasil já como diretor-presidente da subsidiária local da Arkema, denominação assumida após a reorganização dos negócios químicos das francesas Elf e Total. Essas idas e vindas ao país lhe renderam o casamento com uma brasileira, com quem tem dois filhos, ambos nascidos aqui.

Às vésperas de inaugurar um laboratório de desenvolvimento de produtos e assistência técnica aos clientes, ao lado da fábrica local de resinas acrílicas, Schmitt concedeu uma entrevista a Química e Derivados no escritório central da Arkema Química, no elegante largo de Moema, na capital paulista.

Química e Derivados – Essa relação profunda que o sr. mantém com o Brasil pode ser a explicação para esses investimentos?

Química e Derivados, Schmitt: mercado local de emulsões busca sofisticação
Schmitt: mercado local de emulsões busca sofisticação

Eric Schmitt – De forma alguma. Na verdade, foi a equipe da Coatex, empresa especializada em aditivos e emulsões acrílicas especiais adquirida pela Arkema em 2007, que indicou a compra de parte da Resicryl, tanto que o nome mantido até hoje nessa unidade é o da Coatex. Naquela época, quarto trimestre de 2012, o Brasil vinha acumulando uma sequência de aumentos impressionantes no PIB, coisa de 7% ao ano, enquanto a Europa estava em recessão. Eu até avisei que o Brasil era assim mesmo: anos de crescimento rápido são sempre seguidos de anos de estagnação. Mas o investimento foi feito e estamos indo muito bem.

QD – O sr. é um expert em Brasil. Como foi a sua adaptação ao nosso curioso modo de conduzir a economia?
E.S. – Foi um choque. Cheguei aqui como estudante, em 1986, sem falar Português, em meio ao Plano Cruzado. A primeira expressão que aprendi foi “não tem”. Era só isso que ouvia quando ia fazer compras. Claro que tinha, mas o preço não era o oficial, aquele da tabela divulgada pelo governo. Para um estrangeiro, era uma loucura. Depois, com o tempo, fui me acostumando.

QD – Como o sr. escolheu o Brasil para o ano de estudos?
E.S. – O curso na Essec permitia um ano de intercâmbio em outro país. Naquela época, a maioria dos meus colegas queria ir para a Ásia. Era o fenômeno do momento, com forte crescimento na Coreia e na China. Eu preferi conhecer o Brasil, a escola tinha e ainda tem um convênio com a USP. Foi uma experiência muito proveitosa. Gostei tanto que voltei para cá alguns anos depois, para trabalhar no consulado francês no Rio, como forma alternativa de cumprir o serviço militar obrigatório.

QD – Do seu ponto de vista, como executivo de um grupo internacional, vale a pena investir no Brasil?
E.S. – Vale a pena, com certeza. O Brasil tem um potencial imenso para negócios, embora tenha falhas muito grandes em infraestrutura, moradia, burocracia, impostos e outras coisas. Não quero parecer muito crítico ou pessimista, mas a parte tributária daqui é um pesadelo. Lá fora ninguém entende a complexidade do sistema e a quantidade de mudanças que acontece a toda hora. Também o sistema judicial brasileiro é assustador, pois as decisões demoram muito e os custos são elevados, isso gera uma incerteza muito grande. E tem a burocracia, papéis que precisam ser carimbados aos montes, uma coisa muito atrasada. Na parte química, além disso, falta acesso às matérias-primas, e algumas cadeias produtivas têm lacunas importantes. Por isso, a importação aumenta.

QD – Essas fragilidades colocam o país em uma posição ruim na hora de direcionar investimentos?
E.S. – Sim. Ainda mais agora que outros países mostram vantagens em matérias-primas e mão de obra, como os Estados Unidos, com o shale gas, e a Ásia. O Brasil está perdendo terreno. Além disso, o grau de intervenção oficial na economia ainda é muito grande. Às vezes, isso é até desejável, mas não por muito tempo. No longo prazo, essa intervenção cria distorções que atrapalham os negócios.

QD – Não sobra muita coisa… Mesmo assim, como a Arkema está investindo aqui?
E.S. – Nem tudo está perdido, o Brasil é um país grande e mantém firme a intenção de se tornar uma potência global em termos econômicos e industriais. É certo que o ritmo de crescimento do PIB caiu, mas os principais indicadores macroeconômicos ainda são interessantes. Perto dos países vizinhos e de alguns europeus, a situação daqui é muito boa. Essa variação do PIB, dos 7% para os atuais 1,5% a 2%, é o resultado das fragilidades de que já falamos. A matriz nem sempre entende essa queda.

QD – Qual o montante dos investimentos que estão em curso por aqui?
E.S. – Posso dizer que, nos últimos exercícios fiscais, estamos investindo no Brasil de R$ 10 milhões a R$ 15 milhões por ano, considerando todas as nossas unidades de negócios. E estamos estudando novas oportunidades.

QD – Também em resinas ou em outras unidades?
E.S. – Em todas elas. A Arkema está estruturada em doze unidades de negócios, mas só temos produção local em quatro: derivados do enxofre, peróxidos orgânicos, emulsões acrílicas e aditivos, as duas últimas voltadas para coatings, principalmente. Também temos muitos negócios com a importação de outras unidades, a exemplo dos gases fluoroquímicos para refrigeração, das poliamidas especiais – muito usadas em atividades offshore –, o Kynar [PVDF] e os polímeros Plexiglas [metacrilato de metila] para peças automotivas. Nosso maior mercado global é o de produtos químicos para óleo e gás, como peneiras moleculares para plataformas e a linha de aditivos anticorrosivos feitos pela Ceca, nossa subsidiária integral, mas ainda precisamos atuar mais nesse mercado aqui no Brasil.

QD – Por aqui, a Arkema ficou mais forte em emulsões e aditivos. Mas, os investimentos realizados não são tímidos em relação ao tamanho da companhia no mundo?
E.S. – Ainda estamos entrando nesse mercado, que é o nosso segundo maior faturamento mundial. Compramos um player de porte médio, que produzia commodities. É preciso considerar que os grandes fabricantes e tintas, com a exceção da PPG, produzem as suas resinas. Os pequenos e médios se abastecem de uma ampla rede de players, com vários níveis de qualidade e de preço. Temos alguns clientes corporativos, com contratos mundiais de suprimento, mas é um volume pequeno. Nós precisamos nos diferenciar, fazer produtos mais nobres e, por meio deles, abrir portas nos grandes clientes do setor.

QD – Qual o caminho para conseguir isso?
E.S. – Investindo. Estamos trocando o reator 6 da fábrica de Araçariguama, o principal da linha, e queremos comprá-lo no Brasil. Ele será maior que o atual e terá toda a instrumentação e controle no estado da arte mundial, sendo totalmente automatizado. Com ele, teremos um ganho de produtividade e de qualidade. Além disso, estamos inaugurando ainda neste mês de abril um laboratório completo para desenvolvimento de produtos e assistência técnica aos clientes de emulsões e aditivos, da Arkema e da Coatex. Nós já conseguimos deter, aproximadamente, 10% do mercado de emulsões especiais no Brasil, sempre em base água, não temos nada com solventes. E vamos crescer. Aliás, a ideia inicial da Coatex era produzir aditivos nessa instalação. Hoje, nossa produção de emulsões já supera em muito a dos aditivos, embora esses tenham um valor muito interessante e uma concorrência menor.

QD – Como o sr. qualifica o mercado de resinas para tintas e adesivos no país?
E.S. – O Brasil tem um consumo grande de emulsões e a tendência de mercado aponta para uma sofisticação. A Abrafati tem feito um trabalho notável para melhorar a qualidade das tintas e isso exige usar resinas de qualidade superior. Isso também se percebe claramente nos adesivos e materiais para construção. Portanto, é um mercado em evolução, e nós temos tecnologia para suportar esse avanço. Por exemplo, iniciamos a produção nacional da linha Encor, da Arkema, de emulsões acrílicas de alta qualidade e desempenho. Começaremos a oferecer por aqui as emulsões Encor 726, 726 plus e 1243.

QD – Em termos globais, a Arkema é conhecida por manter processos integrados. No Brasil, a Basf está construindo um complexo de ácido acrílico e acrilatos em Camaçari-BA. Sua operação será cliente deles?
E.S. – De fato, nós atuamos na cadeia completa dos acrílicos, nos monômeros, polímeros e emulsões, com fábricas na Europa e nos Estados Unidos. Na China, acabamos de estabelecer uma joint venture com a Jurong, denominada Sunki, para comprarmos o site mais moderno de acrílicos daquele país. Aqui no Brasil, no passado, nós tentamos construir uma unidade de acrílicos, mas a Basf acabou vencendo a disputa. Não queremos ser totalmente dependentes deles, mas vamos comprar uma quantidade significativa de ácido acrílico e dos acrilatos de etila, butila e 2-etil-hexila fabricados em Camaçari. Isso também vai depender do grau de proteção tarifária que eles venham a receber do governo federal.

QD – A fábrica brasileira será usada para suprir clientes na América do Sul?
E.S. – A América do Sul é um bom mercado para produtos de alto valor agregado, é o caso dos nossos aditivos e das resinas para adesivos sensíveis a pressão (PSA). Para as emulsões, nem tanto. O custo de transporte é muito alto e já existem fornecedores locais nos principais países consumidores.

QD – Qual a posição da Arkema no mercado global de acrílicos?
E.S. – Hoje nós disputamos de perto com a Basf e a Dow esse mercado. Aliás, nós crescemos muito nos Estados Unidos mediante a compra de algumas fábricas que foram colocadas à venda após a aquisição da Rohm and Haas pela Dow, para atender à ordem do órgão de controle da concorrência de lá. Foi muito bom para nós.

QD – Em que pé está o projeto da Arkema de produzir acrílico a partir de glicerina?
E.S. – O processo foi desenvolvido em pequena escala, mas não está mais avançando. A Europa parou de estimular o crescimento da produção de biodiesel, do qual a glicerina é um subproduto.

QD – Como a companhia está avançando nas especialidades?
E.S. – Isso é um ponto forte para nós. As aquisições da Coatex, da Cray Valley e da Sartomer nos colocaram em uma excelente posição, tanto em termos de mercado quanto em tecnologia. A Cray Valley e Sartomer têm produtos únicos para tintas em pó e de cura por ultravioleta, por exemplo, um mercado muito interessante. No Brasil, a concorrência com insumos asiáticos é muito forte, mas eles nem sempre entregam a qualidade exigida pelos clientes. As aplicações mais qualificadas não são muito atingidas.

QD – O PVDF tem mercado no Brasil?
E.S. – É a nossa linha Kynar, que tem grande participação nos EUA, Europa e China, onde a fabricamos. Aqui no Brasil, temos há anos um grande demanda para revestimento dos flexíveis usados em offshore, pois o PVDF tem elevada resistência ao intemperismo e inércia química. Mas a Petrobras está usando alternativas de menor custo. Na área de coatings, o Kynar Flex apresenta excelente desempenho em mangueiras, até mesmo na distribuição de água potável, pois não libera bisfenol nem outras substâncias indesejáveis. O PVDF também é usado como aditivo de polimerização de poliolefinas. A demanda brasileira, porém, ainda é pequena para justificar a instalação de uma fábrica local.

QD – Para o futuro, qual a intenção da Arkema no Brasil?
E.S. – Queremos continuar a investir no país, a fábrica de emulsões é um exemplo. Precisamos superar as dificuldades, sem desanimar nunca.

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