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Entrevista: Análises apontam mudanças nos rumos do setor químico

Quimica e Derivados
20 de dezembro de 2013
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    QD – Como o shale gas vai afetar os produtores do Oriente Médio, que também contam com gás natural barato?
    Dickson – Algumas companhias daquela região foram, no passado recente, muito agressivas nas aquisições, como a Sabic. Eles até perderam alguns mercados, por força da evolução natural dos negócios, como as caixas de CDs e DVDs, mas ficaram com um portfólio amplo. Melhor que isso, eles têm gás natural muito barato e estão geograficamente bem localizados, podem chegar facilmente à China, Europa e Américas. Eles planejam rodar as fábricas cheias e, assim, manter os empregos que foram criados.

    QD – Há riscos nessa estratégia?
    Dickson – Sempre há riscos. Mas a escala global dos crackers está cada vez maior. A China é um grande comprador, mas não está crescendo tanto quanto no passado. Além disso, os chineses estão construindo suas próprias capacidades, usando carvão. E eles também poderão ter shale gas. Ao mesmo tempo, Brasil e Argentina têm projetos para se tornarem autossuficientes em gás, petróleo e petroquímicos. Para quem o Oriente Médio vai vender suas commodities? A Europa é o destino óbvio, um grande mercado.

    QD – O preço do shale gas ficará no patamar atual, entre US$ 3 e US$ 4 por milhão de BTUs?
    Dickson – É difícil fazer essa previsão. Para a indústria química, quando o gás está acima de US$ 4/MM BTUs, outras matérias-primas entram no jogo. Abaixo de US$ 4, isso já aconteceu, mas não por muito tempo. Vai ser preciso acompanhar os movimentos dos dois principais usos do gás nos EUA, o uso energético, para gerar eletricidade e calor, e a alimentação dos crackers, para se entender o comportamento dos preços. Quanto às exportações de gás natural liquefeito (LGN), não acredito que elas sejam feitas. Não faria muito sentido para os Estados Unidos.

    QD – O chamado renascimento da indústria química americana vai longe?
    Dickson – De fato, o momento é de euforia nos Estados Unidos, alimentada pelo gás e pelo petróleo de fontes não convencionais. Acredito que o país desenvolverá novos processos e materiais avançados, não se restringirá às commodities. E química verde também deve ir adiante. Ao mesmo tempo, os Estados Unidos devem oferecer novas e boas respostas em termos de sustentabilidade, logística, transportes e no campo da energia, incluindo fontes alternativas. Uma das grandes preocupações por lá está ligada ao envelhecimento da população, ou seja, está começando a diminuir a proporção de jovens. Isso já aconteceu na Europa e pode resultar em perda de dinamismo.

    QD – O shale gas significa o fim dos biocombustíveis?
    Dickson – Não acho que o shale gas seja a resposta para tudo. O presidente Obama declarou que vai manter o programa de incentivo aos combustíveis de origem renovável, isso é muito bom. O gás natural só oferece metano e etano. E o resto das cadeias carbônicas? Precisamos ver quanto vai sobrar do parque atual de refinarias e quanto o mundo demandará de outras correntes. Atualmente, benzeno e tolueno são boas apostas, mas o estireno enfrenta volatilidade de preços. A Europa está mantendo seus crackers de nafta e maximizando a produção de aromáticos, que estão com bons preços. Os produtos de origem biológica podem ser uma alternativa para algumas cadeias carbônicas.

    QD – O sr. apontou a tendência de concentração nas commodities. Há espaço para a migração de players para as especialidades?
    Dickson – Não é uma saída para todos. O Oriente Médio, por exemplo, investe nas commodities, não vai muito além disso. Para eles, o melhor é ter escala e produção grandes. Um problema típico da indústria química é que ela é excelente para produzir, mas é ruim para vender os seus produtos. Está acostumada a olhar para poucos clientes, não para mercados pulverizados. Isso é importante quando se avança na cadeia de produção. É preciso observar mais as necessidades dos clientes do que as características dos produtos. Isso explica porque as companhias integradoras, que vendem soluções completas, como a GE, estão obtendo melhores resultados do que as empresas que focam só nos seus produtos. E isso explica o fluxo das concentrações de negócios.

    QD – O desempenho nas bolsas de valores é o que determina as decisões empresariais?
    Dickson – Em muitos casos. Algumas companhias não dependem do mercado financeiro, estão fora das bolsas, como a Sabic e as chinesas. As que têm ações nas bolsas precisam dar respostas de retorno aos acionistas, expansão de capacidades e perpetuação dos empreendimentos. Tudo isso se reflete no valor das ações. Muitas vezes, para atingir os números de crescimento anual prometidos, uma empresa precisa adquirir outros negócios. Essa é a lógica. Isso também acaba criando ciclos de investimento, provocando acúmulo de projetos ao mesmo tempo, elevando os custos por escassez de pessoal e de equipamentos. Quando há uma ruptura, a queda é muito forte. Foi o que aconteceu em 2009, uma tempestade perfeita.

    QD – A China foi considerada o grande perigo para a indústria química mundial. Ela ainda é a maior ameaça?
    Dickson – As coisas mudaram na China. Ela continuará a ser um mercado enorme, mas não vai incomodar por muito mais tempo. Os custos para produzir na China estão crescendo e seu consumo interno vai demandar cada vez mais produtos, reduzindo os excedentes exportáveis. Eles também têm problemas sociais e a disponibilidade de água é uma limitação grave. Nesse aspecto, vejo a Índia e o Brasil com melhores possibilidades de crescimento.



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