Entrevista: Análises apontam mudanças nos rumos do setor químico

A análise de centenas de balanços de empresas químicas e petroquímicas permite antever tendências e antecipar movimentos para 2020.

Faltam menos de sete anos para isso, mas a grande quantidade de variáveis, algumas das quais surpreendentes, por vezes impõem a necessidade de revisões, como se deu com o advento do shale gas.

Para compartilhar com os brasileiros essa visão de futuro, Duane Dickson, líder do setor de produtos químicos mundiais da Deloitte Touche Tohmatsu Ltd. (DTTL), veio ao país em outubro e conversou com empresários regionais desse segmento mundial sobre a situação atual dos movimentos de fusões e aquisições.

Com experiência profissional de 34 anos em consultoria e em empresas de porte global, como Union Carbide – “o melhor emprego do mundo”, diz –, e Hercules/Betz Dearborn, ele foi responsável por desenvolver e executar estratégias regionais e globais de crescimento e melhoria de rentabilidade em vários negócios na América do Norte, Ásia, Europa, Oriente Médio/África, América do Sul e Austrália, além de ter participado de várias operações de fusões e separações de empresas.

Dickson é formado em administração de negócios (Southern Methodist University), especializado pelo programa de gerenciamento avançado da London Business School e foi por 20 anos membro do conselho consultivo do Instituto de Estudos da Biosfera de Yale. Ele recebeu Química e Derivados no escritório da DTTL em São Paulo.

Química e Derivados – O shale gas mudou os prognósticos da indústria para o futuro?
Duane Dickson – Antes do aparecimento do shale gas, pensávamos que o balanço da cadeia de suprimentos se deslocaria para os países do Oriente Médio e para a China. O shale gas mudou essa visão. Com energia e matérias-primas mais baratas, os Estados Unidos recuperaram sua competitividade. Isso nos fez rever os estudos, embora os princípios do negócio petroquímico e químico sejam os mesmos.

QD – Como foi feito esse estudo?
Dickson – Analisamos a fundo 250 companhias químicas e petroquímicas ao redor do mundo com faturamento anual acima de US$ 1 bilhão. Com isso, pudemos ver pontos fortes e fracos e identificar tendências. Uma delas é que, até 2020, a consolidação empresarial vai continuar nesses segmentos. Em contrapartida, esperamos que surjam novas companhias em combustíveis automotivos e em materiais avançados, que contribuam para enfrentar os desafios do setor de transportes.

QD – Quem tende a sofrer mais nesse caso?

Química e Derivados, Dickson: indústria química é excelente para produzir, mas ruim para vender
Dickson: indústria química é excelente para produzir, mas ruim para vender

Dickson – A produção das commodities seguirá adiante com quem tenha matérias-primas baratas, mas poucas empresas permanecerão nisso.

As demais comprarão olefinas e intermediários para produzir especialidades e produtos mais sofisticados, como fármacos. Hoje, alguns pequenos crackers de nafta ainda sobrevivem para suprir clientes locais na Escandinávia, na Inglaterra e no Japão. Eles apenas sobrevivem.

Se o mercado de automóveis se desloca para outras regiões, porque manter esses crackers? Nenhum país quer perder empregos, mas isso vai acabar acontecendo. As companhias de porte intermediário não tiveram bons resultados nos últimos anos e poucas terão capacidade para manter crescimento orgânico ou por aquisições.

Quem está nesse pelotão precisa investir em catalisadores e em outras tecnologias, além de contar com as mais eficientes operações e intervenções de manutenção, para que possam produzir polímeros para segmentos específicos, como embalagens e têxteis.

QD – O corte desses pequenos crackers é inevitável?
Dickson – Isso acontece em todos os setores da economia: em papel e celulose, no aço e em outros. O mercado sempre busca a racionalização. Das 250 empresas que entrevistamos e analisamos, estimamos que entre 15% e 20% não existam mais em 2020. Ou elas fecharão ou serão compradas por outras até lá.

QD – Proteções a mercados regionais não podem evitar esse fechamento?
Dickson – Proteções tarifárias e não-tarifárias vão e vêm o tempo todo. Há uma quantidade enorme de exemplos na China e até nos Estados Unidos. O que realmente importa é se o mercado local é forte o suficiente para manter o negócio depois da proteção. E as companhias devem ingressar em todos os mercados nos quais possam competir.

QD – É possível atuar apenas em um mercado mais limitado?
Dickson – Existem milhares de empresas químicas ao redor do mundo. Nós estudamos as 250 maiores. Verificamos que existem empresas com atuação meramente regional, e algumas têm alcance apenas nacional. Isso não é suficiente. É preciso ter presença global para contar com uma demanda mais firme, estável, e com ela manter a capacidade produtiva ocupada o máximo possível. Os Estados Unidos e a Europa são economias maduras, elas crescem pouco, por isso precisam de outros mercados para impulsionar seu desenvolvimento.

QD – Como o shale gas vai afetar os produtores do Oriente Médio, que também contam com gás natural barato?
Dickson – Algumas companhias daquela região foram, no passado recente, muito agressivas nas aquisições, como a Sabic. Eles até perderam alguns mercados, por força da evolução natural dos negócios, como as caixas de CDs e DVDs, mas ficaram com um portfólio amplo. Melhor que isso, eles têm gás natural muito barato e estão geograficamente bem localizados, podem chegar facilmente à China, Europa e Américas. Eles planejam rodar as fábricas cheias e, assim, manter os empregos que foram criados.

QD – Há riscos nessa estratégia?
Dickson – Sempre há riscos. Mas a escala global dos crackers está cada vez maior. A China é um grande comprador, mas não está crescendo tanto quanto no passado. Além disso, os chineses estão construindo suas próprias capacidades, usando carvão. E eles também poderão ter shale gas. Ao mesmo tempo, Brasil e Argentina têm projetos para se tornarem autossuficientes em gás, petróleo e petroquímicos. Para quem o Oriente Médio vai vender suas commodities? A Europa é o destino óbvio, um grande mercado.

QD – O preço do shale gas ficará no patamar atual, entre US$ 3 e US$ 4 por milhão de BTUs?
Dickson – É difícil fazer essa previsão. Para a indústria química, quando o gás está acima de US$ 4/MM BTUs, outras matérias-primas entram no jogo. Abaixo de US$ 4, isso já aconteceu, mas não por muito tempo. Vai ser preciso acompanhar os movimentos dos dois principais usos do gás nos EUA, o uso energético, para gerar eletricidade e calor, e a alimentação dos crackers, para se entender o comportamento dos preços. Quanto às exportações de gás natural liquefeito (LGN), não acredito que elas sejam feitas. Não faria muito sentido para os Estados Unidos.

QD – O chamado renascimento da indústria química americana vai longe?
Dickson – De fato, o momento é de euforia nos Estados Unidos, alimentada pelo gás e pelo petróleo de fontes não convencionais. Acredito que o país desenvolverá novos processos e materiais avançados, não se restringirá às commodities. E química verde também deve ir adiante. Ao mesmo tempo, os Estados Unidos devem oferecer novas e boas respostas em termos de sustentabilidade, logística, transportes e no campo da energia, incluindo fontes alternativas. Uma das grandes preocupações por lá está ligada ao envelhecimento da população, ou seja, está começando a diminuir a proporção de jovens. Isso já aconteceu na Europa e pode resultar em perda de dinamismo.

QD – O shale gas significa o fim dos biocombustíveis?
Dickson – Não acho que o shale gas seja a resposta para tudo. O presidente Obama declarou que vai manter o programa de incentivo aos combustíveis de origem renovável, isso é muito bom. O gás natural só oferece metano e etano. E o resto das cadeias carbônicas? Precisamos ver quanto vai sobrar do parque atual de refinarias e quanto o mundo demandará de outras correntes. Atualmente, benzeno e tolueno são boas apostas, mas o estireno enfrenta volatilidade de preços. A Europa está mantendo seus crackers de nafta e maximizando a produção de aromáticos, que estão com bons preços. Os produtos de origem biológica podem ser uma alternativa para algumas cadeias carbônicas.

QD – O sr. apontou a tendência de concentração nas commodities. Há espaço para a migração de players para as especialidades?
Dickson – Não é uma saída para todos. O Oriente Médio, por exemplo, investe nas commodities, não vai muito além disso. Para eles, o melhor é ter escala e produção grandes. Um problema típico da indústria química é que ela é excelente para produzir, mas é ruim para vender os seus produtos. Está acostumada a olhar para poucos clientes, não para mercados pulverizados. Isso é importante quando se avança na cadeia de produção. É preciso observar mais as necessidades dos clientes do que as características dos produtos. Isso explica porque as companhias integradoras, que vendem soluções completas, como a GE, estão obtendo melhores resultados do que as empresas que focam só nos seus produtos. E isso explica o fluxo das concentrações de negócios.

QD – O desempenho nas bolsas de valores é o que determina as decisões empresariais?
Dickson – Em muitos casos. Algumas companhias não dependem do mercado financeiro, estão fora das bolsas, como a Sabic e as chinesas. As que têm ações nas bolsas precisam dar respostas de retorno aos acionistas, expansão de capacidades e perpetuação dos empreendimentos. Tudo isso se reflete no valor das ações. Muitas vezes, para atingir os números de crescimento anual prometidos, uma empresa precisa adquirir outros negócios. Essa é a lógica. Isso também acaba criando ciclos de investimento, provocando acúmulo de projetos ao mesmo tempo, elevando os custos por escassez de pessoal e de equipamentos. Quando há uma ruptura, a queda é muito forte. Foi o que aconteceu em 2009, uma tempestade perfeita.

QD – A China foi considerada o grande perigo para a indústria química mundial. Ela ainda é a maior ameaça?
Dickson – As coisas mudaram na China. Ela continuará a ser um mercado enorme, mas não vai incomodar por muito mais tempo. Os custos para produzir na China estão crescendo e seu consumo interno vai demandar cada vez mais produtos, reduzindo os excedentes exportáveis. Eles também têm problemas sociais e a disponibilidade de água é uma limitação grave. Nesse aspecto, vejo a Índia e o Brasil com melhores possibilidades de crescimento.

QD – Qual o papel do Brasil na sua visão para 2020?
Dickson – O Brasil tem grandes oportunidades para aproveitar, mas precisa ir além dos produtos de origem biológica, nos quais tem grande vantagem comparativa. É preciso mudar o jeito como se lida com o problema dos transportes, com a geração de energia e todos os entraves que dificultam a atividade empresarial. Os Estados Unidos e a Europa já olham para isso há mais de dez anos. O Brasil deveria estar mais avançado.

QD – Além da química orgânica, os negócios com os produtos inorgânicos têm bom futuro?
Dickson – Não se veem mudanças em mineração, que é a principal fonte dos inorgânicos. Mas deveriam acontecer. Existem grandes demandas por fertilizantes, mas também há segmentos de alta tecnologia, como o de eletrônicos, que precisam de alguns minerais, como o lítio, sem os quais nenhum telefone celular ou tablet funcionaria hoje. Peru e Chile possuem uma boa atuação em nichos. Em todos esses casos, é fundamental ser eficiente e rentável, embora nem sempre seja fácil conseguir isso.

QD – Aqui no Brasil, a DTTL é mais conhecida como empresa de auditoria. Como é o trabalho de consultoria no setor químico?
Dickson – No Brasil, ao contrário do resto do mundo, a DTTL obtém a maior parte de seu faturamento na área de contabilidade e auditoria. No mundo, o setor de consultoria é maior e está crescendo rápido, mesmo nos Estados Unidos. Felizmente, a demanda por consultoria está evoluindo bem também no Brasil. Nosso trabalho é ajudar as companhias a entender os mercados, lidar com assuntos corporativos, avaliar fusões e aquisições, oferecer informações vitais e outras tarefas. Eu, pessoalmente, procuro me concentrar nas decisões estratégicas e de gestão, orientando também as decisões de investimentos.

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