Engenheiros Químicos do Brasil, uni-vos! ABEQ

Olá, leitoras e leitores.

Entrei no curso de engenharia química da USP em São Paulo, na Poli, como orgulhosamente dizemos, em 1995.

Desde pequeno quis ser engenheiro.

Lembro-me de quando copiava as plantas baixas dos lançamentos imobiliários dos jornais de domingo, ou ficava horas brincando com bloquinhos e playmobil.

Quis ser engenheiro civil, engenheiro aeronáutico, terminei engenheiro químico.

E, por fim, professor de engenharia química.

O curso me encantou desde o início, as coisas que aprendíamos, dimensionar equipamentos como trocadores de calor, reatores, colunas de destilação, desenvolver um processo químico industrial.

Ser um engenheiro químico, com nosso jeito de pensar e entender o mundo, é muito do que me define.

Tenho a impressão de que nem sempre isso é muito legal, acho que a esposa pedagoga teria uma ou duas coisas a dizer, mas eu mais gosto que desgosto.

Acho que vários dos que me leem poderiam falar coisas parecidas sobre si mesmos.

Chegamos ao tema deste texto: os engenheiros químicos do Brasil, homenageados todos os anos, desde 2002, no dia 20 de setembro.

Sabemos muito pouco sobre nós mesmos.

Quantos engenheiros químicos existem no Brasil?

Esta pergunta é só aparentemente simples, pois dá para entendê-la de diferentes maneiras.

Quantas pessoas formadas em engenharia química?

Quantas dessas pessoas trabalham com cargos de engenheiros químicos ou engenheiros de processos?

Quantas pessoas formadas em engenharia química atuando na indústria química com outros cargos e quantas pessoas atuam em áreas completamente diversas da indústria química?

Talvez os conselhos, de engenharia e de química, tenham as bases de dados mais confiáveis sobre quantas pessoas formadas em engenharia química trabalham em áreas correlatas, dado que temos que ser registrados em algum deles para isso. Infelizmente, não obtive respostas às minhas tentativas de contato.

Quem sabe um dia.

Sem saber quantas pessoas estão registradas nos CREAs ou nos CRQs como engenheiros químicos, busquei outras bases de dados.

O RAIS, do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), é uma delas. Ainda os dados do IBGE sobre a indústria química e os dados do MEC sobre os cursos de engenharia química também ajudaram.

A Indústria Química e seus empregados

Selecionando alguns setores da indústria brasileira segundo a Classificação Nacional de Atividades Econômicas (CNAE 2.0), a saber:

• Extração de petróleo e gás natural

• Fabricação e refino de açúcar

• Fiação de fibras artificiais e sintéticas

• Fabricação de celulose, papel e produtos de papel

• Fabricação de coque, de produtos derivados do petróleo e de biocombustíveis

• Fabricação de produtos químicos

• Fabricação de produtos farmoquímicos e farmacêuticos

• Fabricação de produtos de borracha e de material plástico

• Fabricação de produtos de minerais não-metálicos

Teríamos, segundo o IBGE, ao final de 2020, 32.657 empresas (Unidades) com 30 ou mais pessoas ocupadas, com 5.930.520 empregados, sendo 4.399.930 ligados diretamente à produção.

O total de salários, retiradas e outras remunerações dessas pessoas foi R$ 269.914.488.000,00, ou R$ 166.143.778.000,00 daqueles ligados à produção.

Isso significa que a remuneração média dos empregados da Indústria Química foi em média em 2020 R$ 3.500,00, ou R$ 2.900,00 para aqueles ligados à produção.

Quando se estende a amostra para empresas (Unidades) com cinco ou mais pessoas, seriam 163.397 empresas, com 7.333.416 pessoas ocupadas (5.482.478 ligadas à produção).

Evidentemente que nesse universo há muitas outras pessoas que não engenheiros químicos, mas o tamanho total do nosso locus seria esse.

A Relação Anual de Informações Sociais – RAIS

Instituída pelo Decreto nº 76.900, de 23/12/75, a RAIS tem por objetivo: “o suprimento às necessidades de controle da atividade trabalhista no País, o provimento de dados para a elaboração de estatísticas do trabalho, a disponibilização de informações do mercado de trabalho às entidades governamentais”.

A RAIS é um registro administrativo de âmbito nacional, de preenchimento obrigatório para todos os estabelecimentos no país com cinco ou mais empregados. A RAIS está baseada na CBO, Classificação Brasileira de Ocupações, do MTE.

Segundo o MTE, “a CBO é o documento que reconhece, nomeia e codifica os títulos e descreve as características das ocupações do mercado de trabalho brasileiro.

Sua atualização e modernização se devem às profundas mudanças ocorridas no cenário cultural, econômico e social do País nos últimos anos, implicando alterações estruturais no mercado de trabalho”.

A CBO dos “Engenheiros Químicos e afins” é a 2145, e esse código é, em princípio, autoexplicativo:

– 2 -PROFISSIONAIS DAS CIÊNCIAS E DAS ARTES

– 21 -PROFISSIONAIS DAS CIÊNCIAS EXATAS, FÍSICAS E DA ENGENHARIA

– 214 -ENGENHEIROS, ARQUITETOS E AFINS

– 2145 -Engenheiros químicos e afins

– 2145-05 – Engenheiro químico

– 2145-10 – Engenheiro químico (indústria química)

– 2145-15 – Engenheiro químico (mineração, metalurgia, siderurgia, cimenteira e cerâmica)

– 2145-20 – Engenheiro químico (papel e celulose)

– 2145-25 – Engenheiro químico (petróleo e borracha)

– 2145-30 – Engenheiro químico (utilidades e meio ambiente)

– 2145-35 – Tecnólogo em produção sulcroalcooleira

– 2145-40 – Engenheiro Têxtil

A consulta aos dados do RAIS é aberta a qualquer um por meio do PDET, ou programa de disseminação das estatísticas do trabalho, do MTE. Os dados estão disponíveis online.

Qual é o problema então, perguntaria a leitora ou o leitor que ainda está comigo. Os problemas são, essencialmente, dois:

1. A declaração de RAIS é obrigatória apenas para empresas com cinco ou mais empregados, o que exclui os “pejotinhas”. Estes são pessoas que abrem empresas, pessoas jurídicas, ou PJ, para “prestar serviço” a outras empresas, e receberem remunerações maiores sem que a empresa arque com os encargos da CLT

2. A nova versão contém as ocupações do mercado brasileiro, organizadas e descritas por famílias. Cada família constitui um conjunto de ocupações similares correspondente a um domínio de trabalho mais amplo que aquele da ocupação.

Quando se consulta os dados da RAIS ocupação para engenheiros químicos, recebe-se como resposta que havia, no fim de 2020, 8523 engenheiros químicos em todo Brasil, 5891 homens e 2632 mulheres.

Os três estados com mais engenheiros químicos seriam Rio de Janeiro (2925), São Paulo (2402) e Bahia (602).

Do total, 1% teria menos de 24 anos, 8,45% teriam entre 25 e 29 anos, 42,38% teriam entre 30 e 39 anos, 29,20% entre 40 e 49 anos e 18,97% entre 50 e 64 anos.

Quanto ao rendimento, 35% ganhariam mais de 20 salários mínimos (SM), 17% entre 15 e 20 SM, 16% entre 10 e 15 SM, e os 30% restantes até 10 SM.

O problema é que esse número total de profissionais é muito baixo, 8522 pessoas. Somente em 2016, 4452 pessoas se formaram em Engenharia Química no Brasil.

Quando a consulta é feita para a família 2145 da CBO (Engenheiros químicos e afins), no entanto, o resultado é 328.420 pessoas, 94.228 mulheres e 234.192 homens. Do total, 116.407 estariam no Rio de Janeiro, 83.360 em São Paulo, e 30.614 na Bahia.

O que explicaria números tão diferentes? Meu palpite é que aqueles 8.522 seriam pessoas efetivamente registradas como engenheiros químicos (ou engenheiros de processos, ou similar), enquanto os 328.420 seriam pessoas formadas em engenharia química ocupando outras profissões, mas registradas no RAIS.

É só um palpite, porque meu outro palpite é que se 8500 é muito pouco 320 mil é gente demais.

Por que números tão diferentes?

Como professor, tenho observado há vários anos o advento dos “analistas de engenharia”, ou “analistas de processos”.

É como boa parte dos formandos tem sido contratada pela indústria.

A razão seria o piso salarial da “categoria engenheiro químico”. Segundo o site dissidio.com.br, o piso salarial para a categoria CBO 214505 de profissionais contratados e envolvidos em convenção coletiva, acordo coletivo ou dissídio de Engenheiro Químico seria, em 2022:

• R$ 10.529,58 para uma jornada de trabalho de 40 horas semanais no Rio de Janeiro;

• R$ 8.330,81 para uma jornada de trabalho de 42 horas semanais em São Paulo;

• R$ 8.682,29 para uma jornada de trabalho de 42 horas semanais na Bahia.

Em um país em que o salário médio com carteira assinada era de R$ 1.898,00 nos cinco primeiros meses do ano, 90% ganham menos de R$ 3.500,00 e os 5% mais ricos ganham mais de R$ 10.313,00, é pouco provável que recém-formados comecem suas carreiras ganhando o piso salarial da engenharia química.

Há também outra questão, nem todos trabalharão como engenheiro de processos.

Haverá aqueles supervisionando a produção, vendedores técnicos, analistas de laboratório, controladores de qualidade, projetistas etc.

Se sairmos da indústria química, há engenheiros químicos trabalhando em bancos, consultorias, “engenheiro que virou suco”, professores de línguas etc.

Pessoas formadas em Engenharia Química

Quantas pessoas formadas em Engenharia Química existem no Brasil? Um artigo de Marcelo Nitz e colaboradores para o ENBEQ de 2018, com base em micro dados do INEP, bem como outras informações disponíveis no INEP, ajudam a (tentar) responder essa pergunta.

Em 1999, eram 102 cursos de engenharia química com 15274 matriculados, em 2012 eram 121 cursos com 29500 alunos matriculados e 2736 concluintes, em 2016 eram 186 cursos com 42320 matriculados e 4452 concluintes, e em 2017 eram 136 cursos avaliados com 6921 concluintes.

A tabela 1 considera os dados da RAIS família Engenheiros Químicos (2145) por faixa etária e divide os números das faixas etárias por anos, admitindo uma idade mínima de 23 anos. Os resultados parecem subestimar o número de engenheiros com menos de 30 anos e superestimar o número de engenheiros mais velhos. Em 1999, havia 15274 pessoas matriculadas em Engenharia Química. Se 10200 dessas pessoas se formaram, seria uma taxa de conclusão de 67%, número muito maior do que os cerca de 10% dos anos para os quais eu obtive a informação completa.

Tabela 1 : RAIS família Engenheiros Químicos (2145) por faixa etária

Engenheiros Químicos do Brasil, uni-vos! ABEQ ©QD Foto: iStockPhoto

Meu palpite, e é chute mesmo, seria um número aproximado de 100 mil pessoas formadas em engenharia química no Brasil.

Fora do Brasil

O US Bureau of Labor Statistics (Escritório de Estatísticas de Emprego dos EUA, em uma tradução livre) registra 24.180 engenheiros químicos nos EUA em 2021. Considerando o conjunto das estatísticas, seriam pessoas atuando como engenheiros químicos ou engenheiros de processos.

No México, seriam 15.800 engenheiros químicos, com uma taxa de informalidade de 2,42%, em 2021. Na França, em 2010 eram 8.908 engenheiros químicos, que seriam 0,3 por 1000 pessoas na indústria.

O que deveria fazer um Engenheiro Químico

A descrição sumária da profissão CBO 2145 (Engenheiros químicos e afins)segundo o MTE é

Controlam processos químicos, físicos e biológicos definindo parâmetros de controle, padrões, métodos analíticos e sistemas de amostragem. Desenvolvem processos e sistemas por meio de pesquisas, testes, ensaios e simulações, bem como, prospectam e implantam novas tecnologias. Projetam sistemas e equipamentos técnicos. Implantam sistemas de gestão ambiental, analisando e quantificando aspectos e impactos ambientais. Elaboram documentação técnica de projetos, processos, sistemas e equipamentos do setor e implementam segurança de processos e procedimentos de trabalho, como também coordenam equipes e atividades de trabalho

Essa é, na minha opinião, uma visão antiquada da profissão, que considera apenas a Engenharia de Processos e não a Engenharia de Produto. Acredito que os cursos de graduação precisam formar profissionais que desenvolvam e melhorem produtos, além de processos, e que a Indústria Química precisa ser muito mais inovadora.

Palavras finais

Química e Derivados - André Bernardo é Engenheiro Químico formado na Escola Politécnica da USP ©QD
André Bernardo é Engenheiro Químico formado na Escola Politécnica da USP

O que deveria saber um Engenheiro Químico para ser um profissional muito requisitado em bem pago em 2022? Quais são os interesses de pessoas formadas em Engenharia Química? Quais são as necessidades?

Uma Associação Brasileira de Engenharia Química tem razão de existir? Tem valor para um profissional? Minha modesta opinião é que tal Associação deveria ser uma ágora para que pessoas formadas em Engenharia Química, mesmo que não trabalhem na área, possam desenvolver interesses comuns – formação inicial, cursos, demandas trabalhistas, congressos, publicações.

Um país que não abrisse mão de ter sua própria indústria tornaria nossas vidas profissionais mais tranquilas. Mas em um país que não valoriza indústria, qualificação ou educação formal, uma Associação Brasileira de Engenharia Química talvez seja ainda mais necessária. Se você concorda: abeq.org.br/associe-se/.

Química e Derivados -

ABEQ

A Associação Brasileira de Engenharia Química (ABEQ) é uma entidade sem fins lucrativos que congrega profissionais e empresas interessadas no desenvolvimento da Engenharia Química no Brasil. É filiada à Confederação Interamericana de Engenharia Química. Seu Conselho Superior, Diretoria e Diretoria das Seções Regionais são eleitos pelos associados a cada dois anos.

Mais informações: https://www.abeq.org.br/

O AUTOR

André Bernardo é Engenheiro Químico formado na Escola Politécnica da USP, com mestrado em Desenvolvimento de Processos Biotecnológicos pela Faculdade de Engenharia Química da Unicamp e Doutorado em Engenharia Química pela UFSCar. Trabalhou no Instituto de Pesquisas Tecnológicas do Estado de São Paulo (IPT) e em diferentes indústrias químicas. Atualmente é professor do departamento de Engenharia Química da UFSCar. contato: [email protected]

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