Empresas de todos os portes têm mais opções de financiamento para promover a inovação

Por meio de editais com recursos não-reembolsáveis e capital de fundos de investimento é possível concretizar ideias inovadoras na cadeia de valor química

Química e Derivados, Núcleo de pesquisa em químicos renováveis da Braskem ©QD Foto: Divulgação/Braskem
Núcleo de pesquisa em químicos renováveis da Braskem

O financiamento e a captação de recursos é uma das principais dificuldades para a promoção de inovações nas empresas, independente de seu tamanho e área de atuação. Apesar de muitas das inovações ainda serem geradas com financiamento próprio, o Brasil atualmente possui outras fontes de financiamento que podem ser usadas pelas empresas para o desenvolvimento de inovações.

Nas duas últimas décadas, vêm crescendo as opções de captação de recursos para que as empresas possam desenvolver projetos inovadores.

Além do Plano de Desenvolvimento e Inovação da Indústria Química (Padiq) – lançado pelo Banco Nacional do Desenvolvimento Social (BNDES) em parceira com a Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), em 2015, e atualmente em fase final de avaliação jurídica e contratação – as empresas podem recorrer a outras formas de financiamento, que além de recursos financeiros oferecem capital humano e tecnológico, caso da Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial (Embrapii) e dos Institutos Senai de Inovação (ISI).

A Embrapii antecipa recursos para suas unidades credenciadas, que contratam projetos diretamente com as empresas. Dessa maneira, os recursos já estão disponíveis para as empresas, que recebem investimentos assim que o contrato para o desenvolvimento do projeto é assinado. A parceria com uma unidade credenciada pela Embrapii gera menor risco e custo por dividi-lo entre a Embrapii, a unidade credenciada e a empresa.

O Edital de Inovação para a Indústria foi lançado em 2004 e é realizado pelo Sebrae (Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas), Senai (Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial) e pelo Sesi (Serviço Social da Indústria). Desde o seu lançamento, foram aprovados 770 projetos, incluindo 89 do setor químico, 39 para o de polímeros e 10 para o de petróleo e gás.

Segundo o gerente-executivo de Inovação e Tecnologia do Senai Nacional, Marcelo Prim, o Edital foi criado com o objetivo de financiar o desenvolvimento de novos produtos, processos e serviços inovadores para a indústria nacional de todos os portes. “Nos últimos anos, novas iniciativas foram criadas no Edital para estimular a inovação da cadeia industrial e incentivar oportunidades de desenvolvimento de projetos de inovação para empresas de menor porte”, afirma Prim.

Química e Derivados, Lopes: software ajuda a gerar produtos renováveis inovadores
Lopes: software ajuda a gerar produtos renováveis inovadores

O último Edital de Inovação para a Indústria foi lançado pelo Senai em 4 de abril deste ano e destina até R$ 50 milhões para projetos elaborados e executados em parceria com o Senai, e até R$ 3,6 milhões para projetos elaborados e executados em parceria com o Sesi. “O Edital tem submissão de projetos contínua e três ciclos de aprovação ao longo do ano”, explica Prim.

Os recursos aportados são de caráter não-reembolsável e devem ser destinados à fase de desenvolvimento dos projetos de inovação, que estão divididos em seis categorias: Inovação Tecnológica para Grandes e Médias Empresas; Inovação Tecnológica para Micro e Pequenas Empresas, MEI e Startups; Empreendedorismo Industrial – Inovação na Cadeia de Valor; Inovação em Segurança e Saúde no Trabalho e Promoção da Saúde; Inovação Setorial em Segurança e Saúde no trabalho e Promoção da Saúde; e Empreendedorismo Industrial em Segurança e Saúde no Trabalho e Promoção da Saúde.

A Braskem é uma das empresas com projetos já contemplados pelo Edital de Inovação para a Indústria. Segundo o gerente de Inovação em Tecnologias Renováveis da empresa, Mateus Garcez Lopes, o edital está ajudando a Braskem a desenvolver uma ferramenta computacional (software) capaz de coletar em vários bancos de dados informações genéticas e bioquímicas, com o objetivo de mapear novas rotas metabólicas para a produção de químicos renováveis a partir de açúcares, utilizando microrganismos geneticamente modificados. “Após o desenvolvimento do software, pretende-se realizar experimentos para a produção do químico de interesse no laboratório para demonstrar a capacidade de predição da ferramenta”, afirma Lopes.

O executivo explica que, além do investimento financeiro, o edital possibilita às empresas contar com o know-how do Senai. “No momento temos um bioinformata do Senai realizando as pesquisas com nosso time de biotecnologia em nosso Núcleo de Pesquisa em Químicos Renováveis, localizado em Campinas-SP”.

A primeira versão da ferramenta capaz de identificar novas rotas metabólicas já foi desenvolvida e é utilizada pela empresa para a prospecção de novas enzimas e vias metabólicas. “Esta inovação ajuda a ampliar o portfólio de projetos da Braskem visando oferecer novos produtos renováveis para os nossos clientes”, finaliza Lopes.

O apoio para o desenvolvimento de projetos também pode partir das grandes empresas. A Basf realiza o programa AgroStart, que permite às startups validarem e escalarem seu negócio no mercado agrícola. Segundo o gerente de Marketing Digital da Basf na América Latina, Almir Araújo, a empresa tem em seu DNA a inovação aberta e o programa permite às startups beneficiadas contar com apoio financeiro, com know-how em diversas áreas do agronegócio, incluindo a mentoria com executivos da Basf, de parceiros e mentores da aceleradora ACE. “Como o programa é voltado para toda a América Latina, as startups também têm acesso a esse mercado consumidor e eles têm a oportunidade de expandir seus negócios, profissionalizar e buscar aumento de escala”.

Química e Derivados, Laboratório da Braskem pesquisa rotas metabólicas para químicos
Laboratório da Braskem pesquisa rotas metabólicas para químicos

A última seleção do programa Agrostart, realizada entre novembro de 2016 e janeiro de 2017, selecionou startups que tivessem soluções para: agricultura de precisão, automação, reposição contínua, gestão da lavoura e rastreabilidade. “As empresas precisam ter soluções para problemas reais. No processo de seleção das startups, é analisado qual o estágio de desenvolvimento do produto, se ele já existe e é validado por um cliente. Também avaliamos o perfil da equipe, sendo importante que já tenham profissionais na área de marketing, vendas e tecnologia”, explica Araújo.

Os empreendedores também podem se capitalizar por meio dos fundos que investem recursos financeiros de fundos de pensão, investidores internacionais, agências de desenvolvimento e fomento, recursos próprios, entre outros. Esses fundos são administrados por gestores independentes e têm duração pré-definida em regulamento, sendo que o prazo de investimento pode chegar a dez anos. Todas as ações são regulamentadas e, no caso do Brasil são supervisionadas pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM). Ao final do prazo previsto nos regulamentos, os fundos devem vender suas participações nas empresas investidas e para retornar os valores aos seus investidores.

Os fundos têm perfis variados: fundos regionais, que investem em empresas de uma região específica; fundos setoriais, que investem em empresas de um determinado segmento econômico, como óleo é gás, energia, entre outros; multisetoriais, que buscam as melhores oportunidades de investimento independente do setor; fundos que investem em uma ou mais modalidades, private equity, venture capital e seed capital.

O seed capital é destinado às empresas em fase inicial dos negócios, por isso o nome “seed” (semente, em inglês), e o investimento visa estruturar e fazer as empresas crescerem. O venture capital é destinado às empresas que já tem faturamento, mas ainda estão em processo de crescimento e desenvolvimento. Já o private equity é destinado às empresas desenvolvidas, que estão em processo de consolidação de mercado.

Além de receberem recursos financeiros, as empresas também passam a ter um sócio, que colabora para acelerar o desenvolvimento do negócio, no relacionamento com outras empresas, fornecedores ou compradoras e na governança corporativa. Segundo o diretor da gestora Inseed Investimentos, Alexandre Alves, que gerencia três fundos de investimentos, as empresas que recebem recursos de um dos fundos também recebe a indicação para a incorporação de um profissional para completar a equipe. “Em geral temos em nossos acordos um mandato para indicar um novo profissional em complemento à equipe, pode ser um diretor executivo, um diretor industrial, comercial ou financeiro, esse perfil profissional varia conforme a necessidade da empresa”, explica Alves.

As condições e possibilidade de saída dos fundos de investimentos estão previstas no Acordo de Acionistas para evitar desavenças futuras, e nele estão incluídas cláusulas como drag along (obrigação de venda conjunta), tag along (direito de venda conjunta), recompra garantida e preferência em caso de liquidação.

A forma do fundo se desfazer de sua participação num negócio depende da situação de mercado. A saída pode ocorrer com um IPO (abertura de capital da empresa), com ou sem oferta pública, via mercado de capitais, ou acesso (BovespaMais). Pode ocorrer ainda uma venda secundária, fusão ou aquisição por outra empresa do setor ou, até mesmo, a recompra da participação pelo próprio empresário. Porém existem situações de write-off (procedimento contábil de dar baixa a um determinado ativo de uma empresa), em que a companhia é encerrada por se demonstrar inviável.

Para aportar capital em uma empresa, os gestores de fundos de investimento analisam se as empresas possuem necessidades e pretensões de crescimento ambiciosas. “Os investimentos feitos por meio dos fundos Inseed Fima ou pelo Criatec 3 são de no mínimo R$ 1 milhão, analisamos toda a relevância da oferta de valor baseado em inovação tecnológica que empresa desenvolverá, se ele oferecerá um produto inovador e o tamanho do mercado”, explica o diretor da Inseed Investimentos, Alexandre Alves.

Química e Derivados, Alves: além de dinheiro, fundo oferece apoio na gestão
Alves: além de dinheiro, fundo oferece apoio na gestão

O financiamento para o desenvolvimento de inovações na indústria química será um dos temas para debate durante o Seminário Abiquim de Tecnologia, marcado para os dias 12 e 13 de julho, no painel Venture Capital como Mecanismo de Fomento à Inovação. O evento ainda terá os painéis: O Setor Químico e a Indústria 4.0, Desafios da Biotecnologia Industrial no Brasil e Soluções Tecnológicas da Química para o Setor de Óleo & Gás. Essa edição do seminário acontecerá dentro do 46º Congresso Mundial de Química (IUPAC 2017), evento que será realizado pela primeira vez na América Latina, com presença confirmada de quatro vencedores do Prêmio Nobel.

O IUPAC 2017 será realizado no WTC Sheraton, na Avenida das Nações Unidas, nº 12.559 – Brooklin Novo, em São Paulo. Por acontecer dentro do IUPAC, os participantes do Seminário de Tecnologia também poderão participar dos painéis e simpósios realizados no Congresso Mundial de Química. Os associados da Abiquim terão o mesmo desconto que os associados da Sociedade Brasileira de Química (SBQ). Os interessados em se inscrever precisam encaminhar um e-mail para o endereço: [email protected].

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