Resposta Rápida às Emergências Químicas Reduz Dano Ambiental e Prejuízos aos Envolvidos

QD - Meio Ambiente

Há motivos de sobra para colocar o acidente com transporte químico no topo da lista dos riscos a serem evitados pela indústria. Além dos efeitos primários das ocorrências – que não devidamente atendidas, com vítimas ou não, afetam ar, solo e água das regiões impactadas –, seus desdobramentos podem ser ainda mais sérios para transportadores e donos das cargas, sejam eles produtores, distribuidores, importadores ou até destinatários, pois toda a cadeia envolvida no produto tem responsabilidade compartilhada pelos danos.

Os desdobramentos começam pelo risco de sanções administrativas, multas ambientais e de trânsito que podem chegar a valores muito altos, caso, por exemplo, interrompam o trânsito em regiões metropolitanas que preveem punições por hora de congestionamento, como em São Paulo.

E continuam ainda na hipótese de a contaminação ser negligenciada na hora do acidente, espalhando-se por corpos hídricos ou no solo, o que pode configurar crime ambiental, cuja legislação federal contempla multas de até R$ 50 milhões.

Outra consequência que segue em paralelo com o risco econômico das autuações é o de manchar a reputação das empresas.

Ter o nome envolvido em um acidente, ainda mais em época em que as boas práticas de governança e meio ambiente passaram a ser parte do negócio, não é nada recomendável.

Com um acidente em uma rodovia ou ferrovia, no oceano, em um depósito de armazenagem ou na indústria, a chance de a ocorrência ganhar força e destruir reputações é muito grande.

É por conta desse cenário de alto risco que os especialistas no atendimento a emergências químicas alertam para a necessidade de os envolvidos no transporte de cargas perigosas aumentarem a atenção não só na prevenção dos acidentes como na resposta às ocorrências.

Isso porque, mesmo sendo os responsáveis pelas cargas e obrigados pelo Ibama a terem planos de atendimento a emergências, o que inclui comprovar contar com serviço de resposta a ocorrências com equipe própria ou terceirizada, a maneira como esse compromisso na prática se dá é por vezes criticado por quem atua na fiscalização dos atendimentos.

 

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Tem essa percepção Mauro de Souza Teixeira, o gerente do setor de emergências químicas do órgão ambiental paulista, a Cetesb, que desde a formação da divisão, em 1978, já atendeu mais de 12 mil ocorrências no estado, das quais mais de 50% em rodovias.

A agência é acionada nos acidentes químicos pelos administradores de rodovias, que são licenciados pela Cetesb (quando precisam apresentar planos de atendimento a emergências), e por outras autoridades, como Corpo de Bombeiros, Defesa Civil e polícias rodoviárias.

Com a função de monitorar a operação de atendimento, para avaliar o risco químico e o comprometimento dos meios afetados pelo uso de equipamentos portáteis e pessoal técnico especializado, a Cetesb nesses momentos precisa se relacionar com os responsáveis pela carga e pelo transporte, além das empresas de resposta a emergências.

E é nessas horas que o gerente da Cetesb tem encontrado problemas.

Para Teixeira, tem faltado comprometimento de muitos donos das cargas, que delegam a resposta às empresas especializadas em atendimento a emergências e não se preocupam em estar presentes no local do acidente. Isso, segundo ele, traz morosidade ao processo de contenção da contaminação, já que toda a decisão por intervenções é intermediada pela empresa contratada.

Química e Derivados - Resposta rápida às emergências químicas reduz dano ambiental e prejuízos aos envolvidos ©QD Foto: iStockphoto
Mauro de Souza Teixeira, gerente do setor de emergências químicas da Cetesb

“É muito ruim para as autoridades negociar com um terceiro que não decide em nome do dono da carga”, diz.

“Eu não consigo ver uma hora mais importante para a integridade da empresa do que um acidente químico, que tem poder devastador para sua reputação”, completou.

“Responsabilidade não se transfere”, ressaltou.

 

Por esse motivo, Teixeira considera fundamental a presença de representante da empresa dona da carga no local se responsabilizando pelas ações que precisam ser tomadas.

Na avaliação do gerente, outro problema são os contratos assinados com as empresas de atendimento, que muitas vezes não incluem coberturas suficientes para a resposta.

Segundo ele, esses detalhes, que só ficam explícitos nos momentos em que acontecem os acidentes, causam embaraço e diminuem a velocidade do atendimento, o que pode aumentar os danos e complicar a situação para as empresas envolvidas.

Todas essas situações, segundo Teixeira, são vistas com muita frequência no dia a dia dos atendimentos da equipe da Cetesb e colocam em risco o meio ambiente. “O tempo de resposta é proporcional ao dano e ao prejuízo”, disse.

Pelo lado das empresas de atendimento, Teixeira identifica uma melhora na prestação de serviços nos últimos anos, mas ainda aponta a necessidade de aperfeiçoamento. “Ainda há um longo caminho pela frente para eles atingirem um nível de excelência”, disse.

Segundo ele, faltam ainda tempo de resposta mais ágil, recursos adequados ao risco do produto, equipes mais treinadas e melhorias nas cláusulas dos contratos, para dar mais celeridade nas decisões.

O Mercado: Transportadoras Químicas e Empresas Especializadas em Emergências Químicas

Embora algumas transportadoras químicas tenham equipes próprias para atendimento a emergências, o normal no mercado é a opção por fechar contratos com empresas especializadas, já que na maior parte das vezes não compensa internalizar o serviço, com todos os custos embutidos com pessoal, equipamentos, treinamento e estrutura de atendimento.

Nesse segmento, nos últimos anos, houve uma consolidação de oferta, com a Ambipar, com matriz em Nova Odessa-SP, tendo a maior penetração no território nacional depois de várias aquisições (Suatrans, SOS Cotec, Ecosorb, Atmo Hazmat, WGRA e outras no exterior) e de crescimento orgânico.

Além da Ambipar, há outras empresas com atuação regionalizada, algumas delas com a expectativa de crescimento, tendo em vista que esse tipo de serviço também começa a ser demandado no transporte de produtos com potencial poluidor, com origem em outros setores produtivos que não o químico.

Dennys Spencer, diretor da Ambipar Química e Derivados - Resposta rápida às emergências químicas reduz dano ambiental e prejuízos aos envolvidos ©QD Foto: iStockphoto
Dennys Spencer, diretor da Ambipar

A Ambipar tem hoje no Brasil mais de 70 bases operacionais espalhadas por todo o território nacional,

“estrategicamente posicionadas, com base em pesquisas por geoprocesamento e em banco de dados de acidentes, para atender as rotas de seus mais de 10 mil clientes”, segundo disse seu diretor, Dennys Spencer.

Já internacionalizada, com atuação na América Latina, Estados Unidos e Europa, a empresa eleva essa estrutura, com aquisições no Exterior, para mais de 150 bases. E a perspectiva é de mais crescimento.

Com uma oferta pública de ações (IPO) lançada no ano passado para abrir seu capital, na qual captou pouco mais de R$ 1 bilhão, a empresa ganhou fôlego para mais investimentos.

Segundo Spencer, no Brasil isso significa mais cerca de 20 bases operacionais no médio prazo, além da modernização das já existentes, que terão recursos para atendimento incrementados.

As bases remodeladas – até o momento por volta de 20 já foram – passarão a contar com caminhões hidrovácuo e para transporte de resíduos, além de retroescavadeira.

De acordo com o diretor da Ambipar, as remodelações serão o novo padrão e permitirão, com os novos equipamentos, que as equipes realizem hidrojateamento ou sucção de fluidos nas pistas e encaminhem os resíduos coletados para destinação adequada, ou seja, poderão fazer serviços que algumas vezes precisam ser terceirizados para empresas regionais.

“Há regiões em que os prestadores não têm um serviço de qualidade, por isso o melhor é ter os recursos próprios”, disse.

De acordo com Spencer, antes mesmo do IPO, os investimentos nas bases operacionais estavam ocorrendo. A abertura do capital, porém, acelerou o processo.

Os investimentos em bases no Brasil somaram R$ 43,3 milhões em 2020 e já consumiram R$ 8,6 milhões no primeiro trimestre de 2021.

O faturamento da área de resposta em emergências químicas da Ambipar, globalmente, foi de R$ 409 milhões em 2020, e de R$ 180,1 milhões no Brasil.

No primeiro trimestre deste ano, faturou R$ 161 milhões e R$ 59,5 milhões, respectivamente. Além do atendimento a acidentes rodoviários, a empresa também atua em ferrovias e no transporte marítimo, além de indústrias, terminais e centrais de armazenagem.

No exterior, o planejamento da empresa é de crescimento acelerado. Além de já atuar na América Latina, em países como Chile, Uruguai e Trinidad Tobago, em 2018, a Ambipar comprou a britânica Braemar, especializada em atendimento a derramamento de petróleo e, em 2021, adquiriu uma outra, no País de Gales.

Em 2020, foi a vez dos Estados Unidos, com a compra de empresa no Texas, seguida por mais três aquisições, no Colorado, Alabama e Flórida, além de outra no Canadá.

Segundo o diretor, o foco nos Estados Unidos é de criar rede de atendimento nacional, nos moldes da operação no Brasil. “O mercado americano não tem uma empresa com o nosso perfil. Lá o comum são prestadores de serviços regionais”, revelou.

Novo competidor: Além do crescimento da Ambipar, outra prova da demanda que existe no atendimento a emergências químicas é a recente entrada de um novo competidor, a Silcon, em 2020.

Atuante no mercado de gerenciamento de resíduos há 25 anos, a empresa criou uma divisão para atendimento no território nacional de ocorrências rodoviárias e na indústria.

Segundo o diretor corporativo da Silcon Emergências Químicas, André Pires, a empresa conta com mais de 30 núcleos de atendimento em todo o país e pretende expandir, por meio de parcerias, a atuação para países vizinhos, principalmente Chile, Uruguai, Argentina e Paraguai, até o segundo semestre deste ano. Isso porque há clientes da empresa, entre os 49 com os quais já conseguiu firmar contrato, que transportam cargas perigosas para além da fronteira brasileira.

A atuação na área de atendimento segue o expediente ofertado normalmente pelo mercado.

Os contratos são firmados mediante mensalidade e contemplam treinamentos dos clientes para a elaboração de um plano de atendimento de emergência (PAE), agregado ao serviço de resposta, que no caso das transportadoras permite o cadastramento para transporte de produtos perigosos no Ibama.

A empresa também oferece assessoria para o cliente saber quais licenças para transporte químico deve obter para operar em algumas cidades e quais normas deve atender.

Segundo Pires, nas ocorrências, a preferência é que os contratantes do PAE enviem um representante para o local e, caso isso não aconteça, a empresa assume a coordenação do atendimento.

Depois do contato do transportador, via central de atendimento 0800, uma equipe é enviada ao acidente para iniciar os procedimentos.

Atualmente, diz o diretor, a média é de quatro atendimentos por mês.

Outros serviços: O know-how no atendimento a emergências químicas permite também que as empresas desse segmento façam outros serviços para os clientes.

A Ambipar, segundo afirmou o seu diretor Dennys Spencer, passou ao longo dos anos, com a experiência acumulada e para atender demandas de clientes, a fazer serviços de transbordo de produtos em unidades industriais para evitar contaminações, que podem fazer com que as cargas sejam perdidas durante as transferências.

Outra operação habitual, já incluída nos contratos de prestação de serviços, é o de limpeza técnica dentro da planta industrial. Isso é comum, por exemplo, para limpar tanques que receberão um produto novo.

A experiência na manipulação de ativos químicos também fez com que a Ambipar passasse a realizar o descomissionamento de fábricas, em situações de mudança de localização de ativos ou mesmo em processos de vendas.

Outra frente de negócios desenvolvida a partir da atuação em emergências químicas foi junto a concessionárias de rodovias.

Na concessionária Arteris Fernão Dias, a empresa tem contrato para operar três unidades operacionais ao longo da rodovia (em locais de alto risco), que funciona a partir de um programa de gerenciamento de riscos e de um plano de atendimento a emergências montado para a concessão.

O plano orienta toda a operação em caso de acidente com carga perigosa, o que inclui não só a resposta da Ambipar, como a relação que a concessionária precisará ter com as autoridades e até mesmo com as companhias de água da faixa de domínio, na eventualidade de os produtos atingirem corpos d´água, ou com os prestadores de serviço de limpeza e conservação de vias.

Mas, além dessa operação para emergência ambiental na Fernão Dias, a Ambipar está participando de concorrências para entrar na área de atendimento convencional em concessionárias de rodovias, para prestar serviços de guincho pesado.

Embora no Brasil ainda não tenha um contrato, no Chile a empresa já conta com essa experiência em andamento.

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