Embalagem industrial – Setor investe no meio ambiente

Química e Derivados - Tambores usados aguardam recondicionamento nas instalações da Tambortec
Tambores usados aguardam recondicionamento nas instalações da Tambortec

Setor investe para oferecer alternativas seguras e mais amigáveis ao meio ambiente

Diretamente dependente da dinâmica de outros setores, a indústria brasileira de embalagens industriais moderou um pouco as metas e expectativas iniciais deste ano. Segue crendo em registrar em 2020 um desempenho superior ao do ano passado; mas seus investimentos parecem capacitá-la para demanda mais intensa, e ao mesmo tempo permitem o aproveitamento de novas oportunidades de geração de negócios (além de reduzir custos e elevar produtividade).

Química e Derivados - Bassi: operações novas no Sul e Nordeste para suprir clientes
Bassi: operações novas no Sul e Nordeste para suprir clientes

Um desses investimentos foi feito pela Rentank, que em fevereiro inaugurou em Guarulhos-SP uma unidade onde centralizou a prestação de serviços como limpeza e descontaminação de embalagens. “Analisamos agora a montagem de operações no Nordeste e no Sul, estamos muito focados em serviços e queremos ficar mais próximos dos nossos clientes”, adianta Laurício Bassi, gestor dessa fornecedora de IBCs metálicos e IBCs articulados (estes, integralmente feitos de metal ou com revestimento de polipropileno).

Química e Derivados - IBC rígido com modelo cúbico fabricado pela Rentank
IBC rígido com modelo cúbico fabricado pela Rentank

No início do ano passado, a mesma Rentank já havia se transferido para nova sede, em Jaguariúna-SP – com área 50% maior que a da sede anterior, ela inclui armazém das embalagens que a empresa tanto importa quanto produz no Brasil por meio de parceiros terceirizados.

Também a Mauser, no começo de 2019, iniciou a efetiva operação de uma planta, em Louveira-SP, onde produz tambores metálicos destinados principalmente ao setor químico (em Matão-SP, a empresa também produz tambores metálicos, consumidos em maior escala pela indústria de sucos naturais). “Com capacidade produtiva relevante, a nova planta é muito moderna e automatizada”, ressalta Edson Rossi, CEO da operação brasileira da Mauser, que fornece para os setores químico e petroquímico embalagens plásticas de 5 a 220 litros, tambores metálicos com tampa fixa ou removível, e IBCs de polietileno com palete de madeira ou de metal.

Química e Derivados - Cunha: refabricação de IBCs teve capacidade duplicada
Cunha: refabricação de IBCs teve capacidade duplicada

Por sua vez, a Schütz-Vasitex inaugurou duas novas unidades no ano passado, ambas dedicadas à refabricação de IBCs: uma em Camaçari-BA e outra em Guarulhos-SP (neste município estão instaladas as duas outras fábricas da empresa, uma para produção de IBCs novos e outra para IBCs recondicionados por lavagem química).

Os IBCs refabricados, explica Luiz Francisco Cunha, diretor-executivo da Schütz-Vasitex, são desmontados, têm seus recipientes plásticos contaminados reciclados, e as grades metálicas reutilizadas em um novo IBC. “A inauguração dos novos parques nos permitiu duplicar nossa capacidade produtiva”, observa o profissional da Schütz-Vasitex, empresa cujo portfólio inclui embalagens feitas de polietileno virgem ou reciclado, com capacidade entre cinco e mil litros.

Diversificação dos portfólios – Os investimentos dos fabricantes de embalagens industriais abrangem também o desenvolvimento de produtos que expandem seus mercados. Na Intertank, essa estratégia já rendeu o lançamento, este ano, do primeiro produto feito com plástico: o IBC Rena 1.250, para 1,25 mil litros, que insere a empresa no segmento dos produtos não perigosos, em indústrias como alimentos e cosméticos. “Mais em conta que o inox, o plástico é muito usado no transporte de produtos não perigosos. E nosso produto tem ainda tem a vantagem da maior capacidade”, observa Henri Gonçalves, gerente da divisão onshore da Intertank (IBCs geralmente têm capacidade para mil litros).

Química e Derivados - Quando vazio, IBC feito de plástico pode ser fechado para ocupar espaço menor
Quando vazio, IBC feito de plástico pode ser fechado para ocupar espaço menor

Segundo ele, essa nova embalagem é feita com um plástico de engenharia desenvolvido nos Estados Unidos. “E não tem nenhum ponto de retenção dos produtos que armazena”, ressalta o profissional da empresa que disponibiliza também embalagens metálicas para 500, 1.000, 1,5 mil, 3 mil e 5 mil litros, além de tanques maiores (estacionários), até 30 mil litros.

Química e Derivados - Gonçalves lançou IBC plástico para produtos não perigosos
Gonçalves lançou IBC plástico para produtos não perigosos

As empresas do setor realmente precisam manter portfólios mais diversificados, ressalta Gustavo Melo, diretor de marketing e excelência comercial para a América Latina da Greif (empresa que, no Brasil, fornece tambores de aço de 100 e 200 litros, e bombonas plásticas de 1 a 20 litros). “Nossos clientes precisam entregar seus produtos nas embalagens consideradas mais convenientes pelos seus clientes, e nós devemos oferecer opções que lhes permitam atender a essa demanda”, justifica Mello.

Na Schütz-Vasitex, as plantas de refabricação de IBCs inauguradas no ano passado colaboram com esse objetivo de diversificação. “Tendo tanto IBCs novos quanto recondicionados ou refabricados, atendemos às necessidades e disponibilidades financeiras dos mais diversos segmentos do mercado”, afirma Cunha.

A Schütz-Vasitex, ele ressalta, continuamente agrega inovações a seu portfolio; uma das mais recentes é um IBC que já vem com um misturador também feito de plástico, interessante para setores como a indústria de tintas, que exige a contínua mistura dos produtos. “Também estamos começando a comercializar no Brasil os IBCs assépticos, que vêm com um liner interno, e assim conferem dupla proteção a produtos que não podem ter nenhum tipo de contaminação, demandados por setores como as indústrias farmacêutica e alimentícia”, diz. “Temos também IBCs com a tecnologia EVOH, que cria uma barreira contra permeação, e pode prolongar em até 150 vezes o shelf life dos produtos”, acrescenta.

Aluguel e serviços – A locação, em detrimento da venda, ganha crescente espaço nas negociações comerciais das embalagens industriais de maior porte. Já predominante na comercialização das embalagens metálicas da Intertank, esse modelo foi adotado também para o produto com o qual essa empresa recentemente ingressou no segmento das embalagens feitas de plástico. “Quase ninguém mais compra tanques e IBCs. A locação pode ser lançada como despesa, e se torna mais vantajosa do ponto de vista econômico e fiscal”, observa Gonçalves.

Química e Derivados - Quando vazio, IBC feito de plástico pode ser fechado para ocupar espaço menor
Quando vazio, IBC feito de plástico pode ser fechado para ocupar espaço menor

E a oferta de serviços, ele ressalta, é diferencial hoje relevante no setor; na própria Intertank ela já inclui logística reversa, manutenção, sistemas de monitoramento da movimentação da frota, entre outros itens. “O cliente é especialista nos produtos dele, nós somos os especialistas nas embalagens”, justifica Gonçalves.

Na Rentank, o portfólio de serviços recentemente passou a incluir os sistemas de monitoramento de frotas via GPS e a possibilidade de realização dos serviços de limpeza e descontaminação das embalagens, não apenas em suas próprias instalações, mas também nas fábricas dos clientes. Essa segunda possibilidade, afirma Bassi, adequa-se a empresas usuárias de diferentes quantidades de embalagens, que não necessariamente precisarão contar com uma equipe fixa da Rentank: “Podemos elaborar uma agenda de prestação de serviços na planta do cliente”, observa Bassi. A empresa oferece também o serviço de lavagem e descontaminação dos caminhões que transportam as embalagens.

Com seis plantas no Brasil, a Mauser oferece serviços como logística reversa, limpeza e recondicionamento das embalagens. Os tambores metálicos, por exemplo, ela recondiciona na unidade de Matão-SP, enquanto as embalagens plásticas seguem para Taubaté-SP, onde são moídas e sua resina plástica reaproveitada em linha de embalagens PCR. “Temos clientes que, para produtos de maior capacidade, consomem não apenas embalagens com material virgem, mas também com polietileno reciclado”, enfatiza Rossi.

A Greif disponibiliza também uma assessoria que permite aos clientes mensurar em todo o ciclo das embalagens – da matéria-prima com a qual ela própria trabalha até o descarte –, em quesitos relacionados à sustentabilidade ambiental, como pegada de carbono e acidificação, entre outros. Denominada Greif Green Tool, essa ferramenta pode ajudar esses clientes a reduzirem seus impactos ambientais. “Ela começa a ser mais demandada, especialmente pelos clientes de grande e médio porte, e que têm relatórios de sustentabilidade”, relata Mello.

Possibilidades mercadológicas – Relativamente a 2019, este ano os negócios da operação brasileira da Mauser podem crescer pelo menos os 2% estimados para a expansão do PIB, prevê Rossi. E a busca pela redução de custos, observa o CEO da empresa, amplia o interesse pelas embalagens maiores: “Os IBCs vêm sendo crescentemente demandados e utilizados por diversos setores, sendo o setor químico um dos principais responsáveis pela expansão desse uso”, especifica.

Bassi, da Rentank, credita a maior demanda por IBCs não apenas a fatores financeiros e logísticos, mas também ao fato de eles substituírem, com vantagens ambientais, outras embalagens utilizadas para produtos não classificados como perigosos, como o conjunto composto por caixas de papelão e embalagens plásticas flexíveis que é descartável.

Na opinião de Bassi, o mercado das embalagens de maior porte tem potencial para se expandir, tanto na vertente dos produtos metálicos, quanto nos plásticos. “O metal, inquestionavelmente, proporciona maior segurança. E não necessariamente o plástico é vantajoso financeiramente, pois as embalagens metálicas, além de serem locadas, reduzem os processos logísticos”, pondera. “Registraremos este ano desempenho superior ao de 2019, apostamos em crescimento mais forte em cosméticos e alimentos”, acrescenta Bassi.

Também a operação brasileira da Greif, hoje composta por oito fábricas, registrará em 2020 um resultado de negócios melhor que o do ano passado. “Aposto em crescimento, não apenas pelo setor agro, que certamente crescerá, mas também nos negócios com a indústria química”, destaca.

Trabalhando quesitos como o design, a Greif, relata Mello, vem conseguindo reduzir o peso de suas embalagens, sem perda das características de resistência. “Reduzimos significativamente o peso de nossa embalagem anelada de um litro, utilizada para agroquímicos, e também o peso das bombonas de 20 litros”, salienta.

A Intertank, projeta Gonçalves, pode este ano incrementar seus negócios em índice “um pouco superior ao crescimento do PIB nacional”. Contribuirá para essa expansão o IBC plástico recém-lançado pela empresa: “Com ele, cresceremos bastante no mercado de produtos não perigosos”, projeta Gonçalves.

Como afirmou, as normas de instituições como ANP (Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis) e ANTT (Agência Nacional de Transportes Terrestres), ainda geram alguma confusão relacionada ao uso de IBCs metálicos ou plásticos no transporte de produtos classificados como perigosos. “Há quem use nesse transporte um IBC plástico que não poderia ter esse uso, mas cujas informações da certificação necessária para o transporte de produtos perigosos se perderam por terem passado por revendas e reformas”, relata. “Grandes empresas e multinacionais não usam tanques plásticos no transporte de produtos perigosos”, acrescenta Gonçalves.

Química e Derivados - Schütz-Vasitex produz IBCs e tambores de plástico
Schütz-Vasitex produz IBCs e tambores de plástico

Por sua vez, Cunha afirma que os IBCs plásticos da Schütz-Vasitex dotados de propriedades antiestática e condutivos, são “totalmente seguros” no transporte dos produtos classificados como perigosos. Aliás, não somente ao transporte, mas também no armazenamento. “No mundo inteiro se utilizam IBCs plásticos antiestáticos também no armazenamento de produtos inflamáveis”, ressalta. “A norma brasileira está em processo de atualização, pois quando foi elaborada essa tecnologia, mundialmente reconhecida e utilizada, não estava ainda disponível localmente, e suas propriedades e desempenho eram desconhecidos”, argumenta.

Discussões normativas – Faz parte do processo de revisão normativa, ao qual se refere Cunha, da Schütz-Vasitex, a publicação de uma norma técnica, já em discussão, com a qual a ABNT estabelecerá os requisitos para uso, armazenagem, manipulação, manuseio e transporte de IBCs que acondicionam líquidos inflamáveis, com ponto de fulgor igual ou inferior a 60ºC.

Química e Derivados - Glória: ABNT discute uso de IBC plástico para inflamáveis
Glória: ABNT discute uso de IBC plástico para inflamáveis

Inicialmente, previa-se a publicação dessa norma no final do ano passado. Mas a complexidade do tema, e os trâmites que ele envolve, levaram à prorrogação desse prazo. “Ela deve entrar em consulta pública em meados do ano e pode estar pronta no final de 2020”, prevê Glória Benazzi, coordenadora do Processo Distribuição Responsável – Prodir, da Associação Brasileira dos Distribuidores de Produtos Químicos e Petroquímicos (Associquim), entidade participante do grupo que elabora o documento.

Sem a nova norma, mantêm-se alguns focos de divergências. Uma delas: enquanto a ANP veda o uso de IBCs de plástico rígido ou compostos – nos quais uma estrutura externa reforça o recipiente plástico – para armazenagem de líquidos inflamáveis com ponto de fulgor igual ou inferior a 37,8°C, a ANTT permite seu uso no transporte de líquidos com ponto de fulgor até 60ºC, desde que eles tenham características antiestáticas certificadas. “Esse é um ponto importante, pois é a característica antiestática dos IBCs compostos que garante a possibilidade de armazenamento, manipulação e manuseio desses líquidos, e não só o transporte”, pondera Glória.

E já se discute uma norma para IBCs recondicionados, refabricados e reutilizados para o transporte de produtos perigosos, tema que ainda não tem norma própria. “Sem ela, há o risco de aparecer algo conhecido vulgarmente como ‘IBC Frankenstein’ – com uma grade oriunda de um, uma bolha de outro, e por aí vai –, e assim não estaremos usando um IBC certificado”, observa Glória.

Acontecem também discussões preliminares, visando sanar problemas referentes à validade das embalagens, bem como à ocorrência de vazamentos em embalagens de vários tipos, inclusive tambores, após o transporte por rodovias. Atualmente, relata Glória, há embalagens com validade de apenas um mês, independentemente de seu tipo e do material utilizado. E quem reclama de vazamentos após o transporte pode ouvir do fabricante que a embalagem não deveria ter viajado por tamanha distância. “Oras, a garantia é por tempo, não por quilometragem máxima. Ou os fabricantes passam a informar essa quilometragem, ou as embalagens deverão passar por testes de vibração, item hoje exigido apenas para IBCs”, pondera.

A especialista da Associquim cita ainda um impasse referente à informação da data da realização da inspeção nos IBCs que transportam produtos classificados como perigosos: o Inmetro emitiu um comunicado exigindo, a partir de 30 de março próximo, somente placas removíveis para informar essa data, tanto para IBCs plásticos quanto metálicos, embora os últimos tenham vida útil muito maior e deveriam, portanto, ter um sistema diferenciado de informação da data. “Devido a conflitos com a portaria do Inmetro, atualmente não há essa informação da data, e isso pode gerar problemas para transportadores e exportadores no momento de uma fiscalização”, aponta Glória

Ela vê problemas também em uma exigência da Marinha que, a partir de junho próximo, quer validar as embalagens homologadas em outros países, mesmo as que estejam conformes às normas internacionais, caso sejam transportados por via marítima pelo território após a internação. “Tudo bem exigir que as embalagens sejam homologadas em seus países de origem, ou que estejam dentro dos padrões internacionais as embalagens importadas para envasar produtos perigosos. Mas exigir a validação de uma embalagem, já homologada, com o produto já envasado, aqui no Brasil? Isso não existe, é apenas mais custo e mais burocracia”, finaliza Glória.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.