Meio Ambiente (água, ar e solo)

Efluentes: Saneamento procura o caminho da universalização

Marcelo Furtado
24 de fevereiro de 2003
    -(reset)+

    Química e Derivados: Efluentes: ETE Sarapuí, no Rio - uma das poucas obras de 2002.

    ETE Sarapuí, no Rio – uma das poucas obras de 2002.

    Uma outra questão levantada pelo sindicato dos fabricantes diz respeito ao papel dos associados na cadeia comercial do setor. As empreiteiras, escolhidas nas concorrências públicas de saneamento, praticam contratos pari passu com os fornecedores, nos quais só pagam quando recebem das companhias. Isso significa que os fabricantes são o elo mais fraco da cadeia. “Temos quase R$ 60 milhões para receber das empreiteiras”, afirmou o vice-presidente do Sindesam, Gilson Cassini.

    Compensação – A ansiedade dos fabricantes com a retomada dos negócios no saneamento também se funda no desejo de compensar o desempenho pífio do setor privado. “Os investimentos da indústria se estagnaram e só devem voltar com um pouco de força no segundo semestre, quando os parâmetros da macroeconomia estiverem mais estabilizados”, disse Cassini. Compartilha dessa opinião o diretor comercial do grupo de origem francesa Vivendi Water, Giangiacomo Gallizioli. Importante fornecedor de sistemas e estações completas para tratamento público ou privado, a Vivendi, segundo alega o seu diretor, em curto prazo confia mais em retomada das vendas para a indústria do que no saneamento. “O setor público é uma incógnita e muito inconstante”, diz.

    Química e Derivados: Efluentes: Cassini - R$ 60 milhões a receber das empreiteiras.

    Cassini – R$ 60 milhões a receber das empreiteiras.

    Segundo Gallizioli, há falta de continuidade nos projetos públicos, mas quando aparecem são de grande importância. Em certos anos, como em 2002, representam até 75% das vendas do grupo no Brasil, em outros, como em 2001, apenas 25%. No ano passado, o destaque na área pública ficou por conta da segunda fase do projeto de despoluição da Baía de Guanabara-RJ, realizada pela companhia estadual, a Cedae. Com recursos japoneses, deram-se início às obras das estações de tratamento secundário de esgoto Sarapuí e Pavuna, projeto encabeçado pela Vivendi junto com a construtora Queiroz Galvão.

    No setor privado, a previsão é o desengavetamento de alguns grandes projetos, como o da produtora de celulose Veracel, nova fábrica do grupo Aracruz, em sociedade com a finlandesa Stora Enso, a ser construída em Eunápolis-BA. A Vivendi Water entrará na concorrência com uma empresa do grupo, a Aquaflow, especializada em tratamento de água para celulose e papel. Quem ganhar o projeto se encarregará do EPC (engineering, procurement and construction) da obra, desde a captação da água até o descarte do efluente tratado.

    Além da Veracel, Gallizioli acredita em negócios em petróleo, química e petroquímica. Para esses setores, aliás, a Vivendi oferece novas tecnologias. Uma delas foi empregada recentemente na Rio Polímeros para tratamento de água ultra-suja. Chamada Wet Oxidation (algo como oxidação úmida), trata-se de sistema voltado a submeter o efluente à alta pressão e temperatura, com injeção de soda, para degradar moléculas complexas de contaminantes, inclusive de resíduos perigosos.

    Química e Derivados: Efluentes: Gallizioli - saneamento ainda é uma incógnita.

    Gallizioli – saneamento ainda é uma incógnita.

    Gallizioli também deve intensificar o uso do sistema de clarificação Actiflo, utilizado em águas com altos teores de algas. Esse tratamento terciário se baseia no uso de areias de fina granulometria, que misturadas vigorosamente no efluente aumentam a capacidade de floculação e coagulação. Além disso, um filtro misturador realiza um polimento final. A vantagem do sistema é permitir up-grades na capacidade de tratamento sem ampliações, podendo ser de cinco a 20 vezes menor se comparado a um clarificador convencional. Na mesma linha, a Vivendi oferece uma opção mais econômica, o Multiflo.

    Outra tecnologia em promoção pela Vivendi é o BioStyr, um tratamento biológico avançado, baseado na adição de grânulos de estireno expandido. Também compacta, a tecnologia utiliza os grânulos como material suporte para as bactérias, promovendo a remoção de matéria orgânica, a nitrificação e a denitrificação do efluente. O sistema, segundo o diretor da Vivendi, seria uma sofisticação do filtro biológico, com a vantagem de não demandar decantador secundário.

    Para o diretor Gallizioli, a perspectiva de vendas das novas tecnologias é grande, em virtude da mudança de mentalidade dos clientes, principalmente do setor privado, mas aos poucos também os públicos. Neste último caso, por exemplo, torna-se comum a substituição de reatores anaeróbicos em estações de tratamento de esgoto por tratamentos aeróbicos de lodos ativados. “Há uma boa fatia do mercado madura e receptiva a tecnologias avançadas”, diz.

    Monteiro Aranha troca público pelo privado

    Química e Derivados: Efluentes: Paes - experiência em concessão carioca.

    Paes – experiência em concessão carioca.

    No mercado nacional de tratamento de águas e efluentes, há um caso emblemático para explicar as diferenças entre o desempenho do setor público e do privado. Um dos primeiros grupos a participar de concessões privadas de saneamento no País, o Monteiro Aranha, participante do consórcio carioca Prolagos, responsável pelo saneamento na região dos Lagos, resolveu vender sua participação para a Águas de Portugal e abriu uma empresa voltada para tratamento de água e efluentes industriais, a AquaPlus.

    O motivo da desistência do grupo Monteiro Aranha na Prolagos, onde havia constituído uma holding com a estatal portuguesa dentro do consórcio ainda formado pelo Bozano Simonsen e a Pem Setal, é o previsível: a empresa se cansou de atuar em um mercado complicado, sem sistema regulatório e com difícil estrutura de financiamento. Tem essa opinião o ex-presidente da Prolagos e atual da AquaPlus, Vlamir de Castro Paes.

    “Preferimos vender nossa parte para os portugueses, cuja idéia é usar a concessão como um cartão de visitas para outras possíveis privatizações”, afirmou.



    Recomendamos também:








    0 Comentários


    Seja o primeiro a comentar!


    Deixe uma resposta

    O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *