Efluentes: Nova resolução e promessa de obras reanimam mercado de efluentes

Revisão torna lei federal de emissão de efluentes mais rigorosa e, junto com a possível retomada de obras, gera boa expectativa no setor

Química e Derivados: Efluentes: Aeradodores na Canatiba Têxtil em Santa Bárbara d Oeste - SP. ©QD Foto - Divulgação
Aeradodores na Canatiba Têxtil em Santa Bárbara d Oeste – SP.

O ano de 2005 tem grandes chances de tirar o setor de tratamento de efluentes do estado de depressão em que ele se afundou nos últimos tempos. O otimismo tem a ver, de início, com a provável retomada de obras públicas, que segundo especialistas devem começar a “pingar” em algumas companhias estaduais capazes de contrair financiamento disponível pela Caixa Econômica Federal. Mas também se baseia, pelo lado do mais confiável setor privado, na certeza de que grandes concorrências interrompidas entre 2003 e 2004 sejam reabertas neste ano.

E a boa expectativa, por fim, ainda tem relação com a promulgação da nova resolução Conama 357, em 17 de março de 2005, que disciplina a emissão de efluentes em corpos d´água e cuja promessa é tornar a legislação mais restritiva e portanto motivadora de novos investimentos.

Compartilha dessa expectativa do setor o diretor comercial da Degrémont, Mauro Gebrim. Em sua opinião de executivo da principal empresa de engenharia e sistemas para água e efluentes, Gebrim acredita que em 2005 e no primeiro semestre de 2006 os recursos do FGTS, disponibilizados pela CEF e que foram descontigenciados em 2003 e 2004 (um total de R$ 3,4 bilhões), finalmente devem começar a ser usados pelas companhias estaduais. “Algumas empresas ainda estavam arrumando suas finanças para poder contrair os empréstimos e outras, mesmo já saneadas, não utilizaram os recursos simplesmente porque não apresentaram projetos”, diz o diretor. Segundo ele, as companhias estaduais que devem movimentar o mercado usando recursos públicos até o primeiro semestre de 2006 (já que pela Lei de Responsabilidade Fiscal os governos estaduais só podem contrair novas dívidas até essa data-limite, ou seja, no término dos primeiros seis meses do último ano de mandato) devem ser principalmente a Sabesp, Sanepar, Copasa (Minas Gerais), Embasa (Bahia) e Caesb (Brasília).

Química e Derivados: Efluentes: Gebrim - projetos começam a ser desengavetados. ©QD Foto - Cuca Jorge
Gebrim – projetos começam a ser desengavetados.

No referente ao setor privado, a expectativa de Mauro Gebrim é melhor ainda e apenas reitera o papel preponderante da indústria nos negócios da Degrémont e de outras empresas da área. Segundo ele, neste ano serão desengavetados vários projetos de setores considerados pela companhia de origem francesa como core business, basicamente petroquímica, siderurgia, papel e celulose, todos eles grandes consumidores de água e geradores de efluentes. “No ano passado, a economia se moveu mais com o agronegócio e as exportações, já os setores de infra-estrutura protelaram os investimentos e a conseqüência foi o mercado interno ficar um pouco comprometido”, afirma.

Mas se em 2004 as vendas para sistemas de efluentes industriais deram para pelo menos minimizar a retração dos negócios provocada pela ausência de obras em saneamento, neste ano a previsão é bem melhor. Para começar, Gebrim cita a Petrobrás, que em 2004 não comprou nada, mas já no primeiro quadrimestre deste ano fará concorrências em refinarias, como Revap, de São José dos Campos-SP, e Reduc, de Duque de Caxias-RJ. Também o setor de papel e celulose deve promover licitações, como a fábrica de papel da Suzano, em Mucuri-BA, a Norske Skog Pisa, no Paraná, e a International Paper, cujos planos são o desgargalamento da unidade de Mogi Guaçu-SP e de construção de fábrica nova.

Juntando as promessas de retorno de obras em saneamento com mais serviços na indústria, como por exemplo os prometidos em siderurgia (Açominas, Usiminas e Usipar), a Degrémont espera retomar o nível normal de negócios. Isso significa pelo menos recuperar as perdas de 20% nas vendas de 2004 e voltar à média de faturamento anual por volta de US$ 20 milhões.

Bons projetos – Mesmo com o crescimento do PIB industrial de 2004, o número de novas estações de tratamento de efluentes no ano passado não foi significativo. Isso se explica, em primeiro lugar, em virtude de uma constatação: o crescimento foi sobre um período recessivo, demonstrando que na verdade a indústria nacional estava recuperando suas perdas e não criou nada de novo. O outro fator para as poucas obras de ETEs industriais é um pouco mais técnica. Quando a indústria sofre ampliação, o normal é que apenas depois de um tempo comecem os investimentos nos efluentes. E a primeira medida, nesses casos, é melhorar a eficiência da estação e não construir novos sistemas.

Também não seria o caso de dizer que não houve nada de projetos entre 2003 e 2004. A Degrémont, por exemplo, conseguiu manter sua estrutura de vendas em um nível razoável ganhando algumas contas, como na Oxiteno, na Ajinomoto e na Gerdau. Houve ainda casos mais emblemáticos de conquista de obras nesse período, em outras empresas de engenharia, como na Centroprojekt, de São Paulo, que teve a “sorte” de ganhar importante contrato na produtora de celulose do grupo Stora Enso/Aracruz, a Veracel, de Eunapólis, no sul da Bahia.

Conquista de agosto de 2003, cujas obras já estão prontas e com partida programada para setembro, a concorrência internacional para o tratamento de água e efluentes da Veracel foi vencida pelo consórcio liderado pela Centroprojekt e formado ainda pela Setal e a Paranasa. Trata-se de obra com valor total de US$ 55 milhões e que inclui desde a captação de água (6.400 m3/hora), o tratamento da utilidade para o processo industrial até o tratamento de efluentes e seu descarte.

De acordo com o gerente de pro–ces-sos da Centroprojekt, Paul Anthony Woodhead, o diferencial para a conquista da obra foi a empresa ter conseguido oferecer um sistema para tratamento de efluentes na medida do esperado pela controladora finlandesa da Veracel, a Stora Enso.

Química e Derivados: Efluentes: tratamento. ©QD“Conseguimos achar a tecnologia certa que o grupo gosta de trabalhar em suas unidades na Finlândia, com um consultor especializado daquele país”, explica Woodhead. Com o “achado”, a Centroprojekt foi convidada para a concorrência, fato que de início não havia ocorrido. A tecnologia no caso é um sistema de lodos ativados de baixa carga com seletor aeróbio e reator plug-flow, cujo principal mérito é criar um ambiente favorável às bactérias aeróbicas ao eliminar as bactérias filamentosas, prejudiciais à sedimentação do lodo. “Com tempo de retenção de um dia a um dia e meio, a tecnologia é uma alternativa mais ágil em comparação às tradicionais lagoas aeradas (7 dias de retenção) e mais robusta que as estações compactas”, diz Woodhead.

A obra na Veracel, segundo explica o gerente de negócios da Centroprojekt, Walter Greco Junior, é uma conseqüência do foco da empresa em sistemas para tratamento de água e efluentes para papel e celulose. Hoje cerca de 50% dos negócios estão voltados para essa área e devem crescer ainda mais. Para ele, a expansão pode ficar ainda mais fácil com a conquista da conta da Veracel e até com a entrada em novos mercados, como o chileno.

Química e Derivados: Efluentes: Woodhead buscou tecnologia para ganhar conta da Veracel. ©QD Foto - Cuca Jorge
Woodhead buscou tecnologia para ganhar conta da Veracel.

No Chile, Greco Junior enxerga uma alta perspectiva de negócios. Isso porque o país vizinho passa por acirramento nas leis ambientais, o que obrigará as empresas a se adequarem a padrões mais exigentes de emissão de efluentes. “O Chile possui leis ambientais atrasadas e a maior parte das empresas só precisa ter tratamento primário”, explica. Com as mudanças, que devem fazer o país restringir as concentrações de lançamento máximo de DBO, algumas empresas começam a investir e outras devem fazer o mesmo no futuro.

A Centroprojekt já vendeu, por exemplo, um novo sistema modular, da linha Bioflex, para a indústria de papel e celulose chilena Maule. Também comercializado no Brasil para a autarquia de saneamento de Macaé-RJ, trata-se de tecnologia que une em um sistema circular modular os tanques de tratamento primário (decantador), no centro do sistema, com o secundário (biológico), que fica na parte externa do círculo. O tanque biológico conta ainda com membranas de EPDM difusoras de aeração, na superfície do tanque. Como vantagem extra, o sistema permite remoção de nitrogênio amoniacal, que gera nitratos (nutrientes para algas e sufocantes para peixes), por processo de nitrificação e denitrificação.

Lei renovada – A obra da Centroprojekt em Macaé, que prevê a denitrificação, serve para entrar em um assunto que, junto com as perspectivas de obras públicas e privadas deste ano, deve ajudar a movimentar o mercado de tratamento de efluentes. A publicação no Diário Oficial da União, em 18 de março de 2005, da resolução Conama 357, que dispõe sobre a classificação de corpos de água e sobre as condições e padrões de lançamento de efluentes, substituindo a Conama 20 de 1986, exige entre outros aspectos novos o controle de nitrogênio amoniacal. De forma geral, a resolução promete tornar a vida das indústrias mais difícil.

Esta é a opinião, por exemplo, do gerente do setor de efluentes líquidos da Cetesb, Regis Nieto, um dos participantes da revisão da resolução, realizada em três anos de intensos debates. “É bom as empresas ficarem mais preocupadas, porque a Conama 357 vai exigir nacionalmente maior controle dos efluentes, inclusive levando em conta a ecotoxicologia dos lançamentos”, explica Nieto. Quando fala em ecotoxicologia, o gerente do órgão ambiental paulista se refere ao fato de a nova lei incluir a exigência de testes que confirmem que os efluentes, mesmo tratados, não afetem a vida aquática quando descartados. “Apesar de estar dentro dos padrões, nos corpos d’água os poluentes, misturados, podem gerar condições tóxicas diferentes”, completa.

Química e Derivados: Efluentes: Greco - Chile é um bom mercado a se explorar. ©QD Foto - Cuca Jorge
Greco – Chile é um bom mercado a se explorar.

Mesmo que em Estados mais avançados, como São Paulo, já existam exigências de análises ecotoxicológicas (em SP, há a resolução SMA 03, de 22/2/2000), a definição constante na resolução federal harmoniza nacionalmente e dá mais força a esse aspecto.

Mas há também várias outras novidades na resolução Conama não contempladas por legislações estaduais. Por exemplo, já na sua principal disposição, que rege a classificação de corpos d’água, houve mudanças importantes. Aumentaram o número de classificações de águas salinas, que passaram de apenas duas classes (5 e 6) para quatro (especial, 1, 2 e 3), e de águas salobras, que também passaram de duas (7 e 8) para quatro (especial, 1, 2 e 3).

Essas classificações, que definem o padrão de qualidade dos cursos d’água, são fundamentais para tornar sensatas as exigências de emissões de efluentes. Isso significa que os padrões de emissões são diferentes dependendo do tipo de rio, córrego ou braço de mar em que serão lançados. Se ele for especial, por exemplo, não admitirá nenhum tipo de emissão. Agora se for classe 1, terá uma exigência maior, que será reduzida progressivamente até chegar na última e mais poluída classificação: no caso de águas doces, classe 4, e de águas salinas e salobras, classe 3.

Para Regis Nieto, o maior número de classes para as águas salinas e salobras é bastante positivo, porque dá maior flexibilidade para exigências. “Antes só havia a classe boa ou má, o que era muito genérico e não levava em conta o uso daquelas águas”, diz.

Química e Derivados: Efluentes: Nieto - Nova Conama aperta o cerco contra as indústrias. ©QD Foto - Cuca Jorge
Nieto – Nova Conama aperta o cerco contra as indústrias.

O aparente relapso da Conama revogada talvez se explique pelo fato de essa águas não serem empregadas normalmente para abastecimento. Mas com a promulgação da nova lei automaticamente todos esses corpos d’água tornam-se classe 1.

Se um Estado considerar um determinado local como classe especial precisará solicitar o enquadramento junto às agências de bacias ou governos estaduais. Com o crescente uso de água salobra de poços para abastecimento no Nordeste, e o desenvolvimento da maricultura, talvez os pedidos sejam fartos.

Já a classificação de águas doces não sofreu alteração, continua com as mesmas cinco classes. Mas o que mudou muito, além das exigências de toxicidade (no caso do classe 1 e 2 os efluentes não podem afetar a sobrevivência e reprodução da vida aquática e, na classe 3, a sobrevivência), foi a quantidade de novos valores de concentrações máximas e de novas condições para emissão. Segundo levantamento do gerente da Cetesb, dos 598 parâmetros da resolução, há 39 novas condições e valores, 11 valores e condições mais restritivos e 11 removidos da antiga Conama 20.

Os novos parâmetros, distintos por classes de corpos d’água, modernizaram as exigências, removendo as ultrapassadas e incluindo novas. Por exemplo, o antigo parâmetro de amônia não-ionizável para classe 1 (5 mg/l) foi substituído por nitrogênio amoniacal total (20 mg/l). Também foi removido o parâmetro estanho e substituído pelo tributilestanho (TBT), melhor para análise de toxidade. Vários parâmetros tiveram valores mais restritivos, caso do benzeno para classe 1, que passou de concentração máxima de 0,01 mg/l para 0,005 mg/l ou do pentaclorofenol (classe 1), de 0,01 mg/l para 0,009 mg/l. No caso de novos parâmetros, vale destacar o hexaclorobenzeno (classe 1), que agora passa a ser permitido apenas em valores menores do que 0,0065 micrograma/l ou então o antimônio (0,005 mg/l).

Química e Derivados: Efluentes: tratamento1. ©QDMais também do que incluir novos parâmetros, a nova Conama possibilita outros artifícios de melhoria do controle para os órgãos ambientais. Estipula, por exemplo, padrões mais exigentes que os de classe 1 para cursos d’água utilizados em pesca ou cultivo de organismos de consumo intensivo industrial. Já uma outra ferramenta interessante consta no artigo 26. Trata-se da permissão de substituir o conceito de emissão por limite de concentração máxima pelo de fixação de carga poluidora máxima. Isso é importante porque permite levar em conta a capacidade do corpo d’ água de suportar diariamente a descarga do efluente, independente de ele estar tratado.

Química e Derivados: Efluentes: tratamento2. ©QDA lógica do artigo é clara: mesmo dentro da lei, em grandes volumes os efluentes criam novas concentrações depois de misturados no ambiente aquático, tornando-se novamente poluentes.

É seguindo essa lógica que a lei estadual paulista (artigo 18 da lei 997), aliás, define como controle de DBO de efluentes a remoção de carga orgânica. “Esse é o ideal, porque se analisa a vazão e concentração da entrada e saída do efluente, definindo-se o kg DBO por dia”, diz Nieto. Embora na nova lei federal existam os parâmetros de concentração máxima de DBO para águas doces (nas salgadas e salobras, o parâmetro para carga orgânica é por carbono orgânico total, TOC), o artigo 26 pode permitir manobra para adequar ao mesmo procedimento paulista. Em São Paulo especificamente, tanto no caso da DBO como de outros parâmetros, valerá a orientação jurídica de usar a determinação mais restritiva.

Química e Derivados: Efluentes: Alburque - MBR tem grande futuro. ©QD Foto - Cuca Jorge
Alburque – MBR tem grande futuro.

MBR – O aumento na restrição fiscalizatória provocado pela Conama 357/05 pode intensificar o uso de novas tecnologias para tratamento de efluentes, como prova a estação da Centroprojekt em Macaé, projetada para remover nitrogênio amoniacal. Embora a princípio, segundo Regis Nieto, da Cetesb, a conseqüência maior sobre as empresas será a de procurar operar melhor suas estações instaladas, nada impede que também outros tratamentos terciários mais avançados, ainda pouco usados no Brasil, comecem a ganhar mais espaço.

Um exemplo de tecnologia com perspectiva de ter o uso mais difundido é a de MBR (membrane bio-reactor), coincidentemente em lançamento por quase todas as empresas de sistemas para efluentes. Trata-se de um sistema com membranas de ultra ou microfiltração e que opera em conjunto com o tratamento biológico por injeção de ar (que também limpa as membranas), substituindo o decantador e fazendo separação sólido-líquido. A maioria dos sistemas utiliza o stack das membranas planas submerso no reator biológico, limitando o tratamento a um tanque e demandando apenas gradeamento anterior para remoção de sólidos grosseiros. A grande vantagem do sistema, além de ocupar bem menos área, é conseguir água de alta qualidade, sem vírus e bactérias, e dispensar o adensador de lodo, porque os sólidos saem muito mais concentrados.

Têm esse conceito compacto os sistemas comercializados pela Degrémont, em acordo com a canadense Zenon, e o da Centroprojekt, baseado em tecnologia da japonesa Kubota. No primeiro caso, a empresa já instalou para tratamento de água em duas refinarias da Petrobrás (Revap e Reman) e colocou uma planta piloto para tratar efluentes no terminal da estatal em São Sebastião-SP (Tebar). Já a Centroprojekt também mantém uma planta piloto no centro de pesquisa da Petrobrás (Cenpes), no Rio, e tem projeto para reuso na Regap, em Betim-MG.

Uma outra empresa de São Paulo, a Neotex Soluções Ambientais, do grupo White Martins, também está ofertando ao mercado o MBR, mas com um projeto um pouco diferente das duas citadas. O da empresa separa o tanque para os módulos de membranas do reator biológico. “Em vez do decantador, colocamos as membranas, melhorando sensivelmente a eficiência do tanque de aeração e dispensando o adensador de lodo”, afirma o gerente geral da Neotex, Marcelo Albuquerque. Segundo ele, a escolha aí foi para facilitar a limpeza dos módulos de membranas tubulares.

Química e Derivados: Efluentes: tanque. ©QDO sistema da Neotex, segundo Albuquerque, é desenvolvimento próprio e apenas as membranas são importadas. A intenção foi reduzir o custo do sistema, nacionalizando ao máximo os acessórios. Dessa forma, a competição com os outros MBRs do mercado, para ele, fica mais fácil, tendo em vista os demais serem fornecidos em unidades completas importadas e em regime turn-key. Por enquanto, a Neotex forneceu um sistema para os Refrigerantes Convenção, no Rio de Janeiro, para reuso de 30 metros cúbicos por hora, ou 70% do total, de seus efluentes.

Albuquerque acredita que o MBR tem demanda no mercado de torres de resfriamento, em unidades pequenas de shoppings e condomínios e em tratamento de chorume em aterros, pois sua capacidade de remoção de DBO chega a 99%.

Usos em unidades industriais grandes deverão ocorrer, para o gerente geral, primeiro em localidades onde a água seja cara e compense o investimento em tratamento terciário e, logicamente, onde as novas determinações da Conama 357 apertem o cerco no tratamento. A Neotex, especializada em operação de plantas de ETEs e ETAs e projetos de consultoria, já sente os efeitos do acirramento fiscalizatório em estados como Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo. Não por menos, há 20 propostas em negociação para uso do MBR e várias outras para projetos de reuso.

Está aí um efeito indireto da modernização das leis ambientais com chance de ser aproveitado pelo setor nos próximos anos.

Formuladores nacionais ganham competitividade

A proximadamente 230 em-presas disputam o mercado brasileiro de formuladores químicos para tratamento de águas e efluentes. Trata-se de uma concorrência bastante diluída entre pequenas e médias empresas nacionais, que suprem as demandas não aproveitadas pelas grandes competidoras do setor – Nalco, Kurita e GE Water Technologies -, seja por conta do menor preço, do atendimento mais informal ou simplesmente pelo fato de que, ao crescer a preocupação com o insumo água, o mercado torna-se cada vez maior no Brasil.

Com a evolução do setor, um fenômeno visível entre essas empresas de menor porte é a profissionalização. Muitas delas formadas ou reforçadas com técnicos oriundos dos competidores multinacionais, elas se aproveitam do conhecimento estratégico e tecnológico desses profissionais para ampliar seus negócios. Há vários exemplos, em diversas empresas do setor.

Química e Derivados: Efluentes: Belleza - meta é conseguir 5 % do mercado até 2007. ©QD Foto - Paulo Igarashi
Belleza – meta é conseguir 5 % do mercado até 2007.

Um caso bastante ilustrativo é o da Argal, de São Caetano do Sul-SP. Empresa fundada em 1960 por duas famílias de origem estoniana para tratar caldeiras e torres de resfriamento na então emergente região industrial do ABC paulista, a Argal criou em 2003 um plano de marketing para tentar recuperar um pouco da força que tinha no mercado da água até a década de 70. Para isso, contratou um ex-funcionário da Nalco, Sérgio Belleza, que durante seis anos foi responsável pelo marketing da divisão Watergy (de sistemas para o mercado institucional) da multinacional norte-americana e hoje é o gerente nacional de vendas da Argal.

“A nossa meta é conseguir 5% do mercado até 2007, competindo principalmente no industrial médio e no institucional”, afirma Belleza. Para perseguir esse objetivo ousado, o gerente começou a agir imediatamente, ampliando o quadro de vendedores e representantes pelo Brasil, que passaram a ser treinados e deixaram de ser autônomos. “Contratamos os colaboradores para criar mais compromisso na venda”, completa.

A outra ação foi atualizar a linha de produtos da empresa, já bastante defasada ao longo dos anos. Belleza optou então por fazer uma parceria com a americana Biolab, por meio de sua representante exlclusiva do Brasil, a Dermet Agekem, de São Paulo. O acordo fez a Argal passar a usar em seus clientes a linha de terpolímeros maléicos e de dispersantes poliméricos HPA da empresa.

Química e Derivados: Efluentes: Nunes cria soluçoes para manter produção de polímeros. ©QD Foto - Paulo Igarashi
Nunes cria soluçoes para manter produção de polímeros.

Ainda como parte da estratégia de profissionalização, que segundo o gerente já fez a Argal elevar em 26% o faturamento do grupo em 2004 e em 35% no primeiro trimestre de 2005 sobre o mesmo período do ano anterior, houve a intensificação das vendas de produtos biotecnológicos. Aí foi aproveitado um antigo acordo com uma empresa européia (que Belleza prefere não revelar), produtora de bactérias saprofíticas liofilizadas com largo uso em depuração de caixas de gordura e em aditivação em tratamento biológico de efluentes.

“Importamos apenas as bactérias e completamos o blend no Brasil, com enzimas e nutrientes”, diz. Essa nacionalização, segundo ele, dá maior competitividade em comparação com outras empresas da área, como a própria Nalco e outros especializados em bactérias, normalmente importadoras do blend completo. O produto da Argal se chama Protargal Bio 45 e, de acordo com Belleza, tem sido um sucesso em uso em caixas de gordura de restaurantes industriais e muito testado em ETEs industriais, com boa promessa de novos negócios.

Com linha completa de polímeros, a Argal prefere atualmente apenas fazer as misturas ou a revenda de produtos de terceiros. Segundo Sérgio Belleza, isso porque o foco da empresa, mais do que fabricar, é oferecer serviço de tratamento personalizado para seus clientes, que hoje estão na casa dos 500. Mas nada impede, porém, que a Argal resolva no futuro ter um reator próprio, experiência para isso a empresa possui: há mais de dez anos descontinuou um equipamento desse tipo.

Desabastecimento – Se a Argal por enquanto prefere se especializar em ofertar tratamento, sem produção própria, outra empresa nacional de médio porte, a IQA, se fortaleceu como produtora. Em comum com a Argal o fato de ter em seu comando um ex-executivo da Nalco, Carlos Alberto Nunes, que fundou a empresa depois de dirigido o grupo americano no Brasil, a IQA possui cinco reatores de polimerização em sua unidade fabril em Arujá-SP.

Mas para ter esse foco como produtora, o perfil da IQA é mais de fornecedora de insumos para os tratadores do que de fornecedora de soluções para água e efluentes. A venda direta, para clientes finais, é apenas para ETAs e ETEs grandes, normalmente públicas, onde as quantidades são maiores e as margens de lucro menores. “Nessas vendas não dá para ter atravessador”, afirma Nunes. O cuidado, nesses casos, é avisar os clientes para evitar disputas com eles.

Os cuidados da IQA, como fornecedora de insumos, não são apenas com os clientes, mas também com os fornecedores. Em Arujá, onde produz cerca de 1.200 t/mês do coagulante policloreto de alumínio (PAC), a empresa precisou interromper uma duplicação da unidade, já em estágio avançado, por falta de garantia de fornecimento do ácido clorídrico. Ocorre que a Solvay, que fornecia o ácido para a IQA, concentrará sua produção de cloro (o ácido clorídrico é obtido da combustão do hidrogênio com o halógeno) para o projeto de expansão de sua cadeia de PVC em Santo André-SP. “Estamos negociando com outros fornecedores”, diz Nunes. No caso, a opção seria a Carbocloro, de Cubatão-SP, cuja unidade de cloro-soda passará por expansão a partir deste ano.

No lado dos polímeros acrílicos, cujas vendas, embora em volumes menores são mais lucrativas, a IQA também enfrenta problemas. Produzindo 30 t/mês de polímeros acrílicos, 45 t/mês de poliaminas e 20 t/mês de co-polímeros, a empresa sofreu com a alta de preço do ácido acrílico. Mas nesse caso a IQA vem substituindo o ácido para obter acrilatos com preço mais acessível (normalmente a substituição é feita por acrilamida). Uma prova de que a indústria brasileira aprendeu a “driblar” as crises.

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