Efluentes: Estações de tratamento compactas ganham adeptos

Fundada em 1970 com finalidade de construir bombas submersas e de superfície para a captação de água, a empresa gaúcha Hidrosul está no mercado de estações compactas para tratamento de efluentes há dez anos. A idéia surgiu em 1994 quando o enge-nheiro mecânico e administrador de empresas gaúcho Remo Disconzi, pro-prie-tário da firma, passou a enfrentar a concorrência acirrada de equipamentos estrangeiros. Naquela época, começava o processo de abertura às importações de bens de consumo e de capital no país, a partir da diminuição das barreiras alfandegárias, em cenário de moeda brasileira supervalorizada em relação ao dólar, artifício pelo qual o ingresso de produtos no país passou a ocorrer em larga escala. Repentinamente, Disconzi viu entrar no Brasil equipamentos similares aos seus, no caso bombas industriais, a preços mais competitivos.

Em visitas à Itália, o empresário aproveitou o ensejo para conhecer o segredo do principal concorrente o qual havia atraído a clientela da Hidrosul com equipamentos tão bons quanto os seus, mas com preços muito mais convi-dativos. Ele ficou abismado ao tomar conhecimento que a empresa visitada contava com 50 funcionários, assim como a Hidrosul. No entanto, a empresa italiana fabricava uma razão de 35 unidades para cada uma fabricada pela empresa de Disconzi. De quebra, ex-portava seus produtos a 80 países. “Perguntei ao dono do negócio como ele fazia para vencer a burocracia e a papelada necessária há exportação de bens e serviços com base na experiência brasileira, onde exportador é obrigado a cumprir uma verdadeira via crucis. Ele respondeu: senhor Remo, a Itália explora o mercado exterior há três mil anos.”

Química e Derivados: Efluentes: Disconzi mostra parte do agitador submerso. ©QD Foto - Fernando de Castro
Disconzi mostra parte do agitador submerso.

Ao perceber que vendendo bombas seu negócio quebraria, Disconzi deu uma guinada de 180 graus no foco do negócio ao decidir experimentar o mercado de estações para tratamento de efluentes compactas aos moldes dos sistemas com os quais teve contato na Europa e Ásia. “Visitei uma estação no Japão construída em 1910”, recorda o empresário. O primeiro desafio seria projetar os equipamentos com a mesma capacidade operacional dos similares estrangeiros, mas adequados ao bolso do empresariado brasileiro. “Eu precisava reduzir cus-tos na proporção dos cem mil euros para cem mil reais”, exemplifica Disconzi.

A primeira decisão foi descartar a montagem dos tanques em aço inox, demasiadamente caros como ocorre no primeiro mundo, ou em aço tratado, material com barreiras físico-químicas de baixa resistência à acidez e com alto poder de oxidação. A decisão final apontou para a construção das estações em polietileno com reforço de fibra de vidro. O empresário decidiu assim aproveitar os moldes de piscinas e caixas d´água já disponíveis no mercado entre 2 mil e 150 mil litros.

Disconzi colocou no mercado as primeiras unidades de estações compactas de efluentes projetadas a partir de equipamentos com base naqueles com os quais havia tomado conhecimento em feiras industriais na França, Estados Unidos e Alemanha, adaptadas a realidade do País.

O diferencial atribuído por Remo Disconzi à Hidrosul, com relação às demais estações construídas no Brasil, ocorre pelo fato de a empresa fabricar todas as peças e componentes de uma estação compacta. Trata-se de uma sistemática de atendimento global como ele mesmo define. “O cliente apresenta o problema e nós entramos com a solução completa desde o projeto, produção dos equipamentos e instalação. Posteriormente operamos a partida da estação e treinamos a mão-de-obra local”, explica Disconzi. Antes disso, esclarece, as estações compactas eram concebidas de maneira fragmentada. O empresário diante da necessidade de construir um sistema contratava um engenheiro químico para a etapa do projeto. De-pois passava para uma construtora realizar a obra dos tanques em concreto, muito mais caros e demorados. Posteriormente chamava o engenheiro novamente para preparar o sistema e treinar o pessoal. No entanto, todas as fases ocorriam sem a existência de troca de informações entre os protagonistas.

Para atender clientes em todo o território nacional o dono da Hidrosul criou também uma sistemática de instalação por terceiros. “Em muitos casos, nós fornecemos os equipamentos e os clientes instalam porque a estação compacta não é nada mais, nada menos do que um kit. A idéia é faça você mesmo, mas com suporte eficiente e sério”, resume. “Quando o dono de um frigorífico sente necessidade de construir uma estação, ele normalmente chama um engenheiro químico para calcular a vazão. Aí ele me manda os números. Eu faço um anteprojeto e envio ao enge-nheiro junto com uma memória de cálculo para justificar as escolhas. A partir daí ele irá concluir o projeto dentro dos padrões do órgão ambiental local e me retorna o projeto final para eu orçar”, esclarece Disconzi.

Após a instalação, os técnicos da Hidrosul entram em cena. Deslocam-se até a estação para os ajustes finais, colocação do equipamento em funcionamento e treinamento dos operadores do sistema. Conforme Disconzi, a tecnologia de tratamento de efluentes desenvolvida na Hidrosul é a mesma empregada em submarinos e navios. “O nosso sistema se assemelha mais aos das embarcações de luxo”, reforça.

Princípio – Basicamente, os equipamentos estão divididos em dois sistemas. No biológico, o efluente sai do processo industrial ou residencial por gravidade ou bombeamento, sendo encaminhado ao decantador primário, onde sofre precipitação de sólidos. Depois segue ao reator, onde é tratado sob a ação do aerador e das bactérias. Na etapa final vai ao decantador secundário onde as partículas sólidas mais finas são precipitadas. Posteriormente, o efluente é liberado para reutiliza-ção ou lançado nos corpos receptores. No sistema físico-químico a retirada de sólidos é promovida mediante a adição de produtos químicos, sendo de larga aplicação em indústrias têxteis, lavanderias, indústrias químicas, alimentícias e galvanoplastia.

Química e Derivados: Efluentes: Estação compacta montada no interior de Minas Gerais. ©QD Foto - Divulgação
Estação compacta montada no interior de Minas Gerais.

A Hidrosul oferece também um sistema de precipitação de sólidos por argila modificada. O equipamento é usado no lodo decantado on-de este sofre um adensamento, que aumenta a concentração de sólidos e diminui o volume final a ser descartado. Os sistemas estão disponíveis de forma modulada. Há ainda as estações mono-bloco, onde decantadores e reator estão acomodados na mesma estrutura, a qual pode ser 100% enterrada, com significativa economia de espaço.

A linha de equipamentos atende a toda a demanda exigida no mercado de tratamento de efluentes. Há o decantador com função básica de precipitação dos sólidos por gravidade, sendo utilizado no tratamento de efluentes industriais ou sanitários. O digestor de lodo é usado no final do tratamento, onde o rejeito é depositado para que seja estabilizado e tenha o seu volume reduzido para tratamento de efluentes industriais e sanitários do tipo biológico. A empresa oferece ainda uma unidade de aeração submersível destinada à homo-genei-zação do efluente, normalmente no início do processo de tratamento como filtro russo para limpar o efluente industrial ou sanitário, deixando-o em condições para a reutilização ou o lançamento nos corpos receptores. O flocodecantador é empregado para a separação de sólidos do efluente a tratar.

A grade de produtos da Hidrosul inclui ainda equipamentos para adensamento de lodo, tanques de mistura rápida, distribuidor de vazão, calha parshall para medição de vazão de 3 a 60 metros cúbicos, bombas elevatórias, de recirculação de lodo e bombas dosa-doras. O painel elétrico completo de comando centraliza a operação de todos os componentes elétricos com sistemas de alarmes acionados por CLPs, forne-cidos de acordo com os padrões especificados. Além disso, fabrica aeradores submersíveis acionados por venturi diferentemente dos sistemas tradicionais movimentados por compressores ou sopradores.

Ao todo, Remo Disconzi calcula ter colocado no mercado nesses dez anos 60 estações completas, outras 40 ven-didas em peças e montadas por tercei-ros. Tem equipamentos na ampliação da Refinaria Alberto Pasquallini, em Canoas-RS. São sete estações adquiridas pelas empreiteiras em atividade dentro da Refap, onde tratam todo o esgoto industrial e doméstico provenientes dos canteiros de obras. Adquiriram os equipamentos justamente porque quando a obra for finalizada eles irão desmontar as estações, colocar num caminhão para aproveitamento em projetos futuros. Há sistemas da Hidrosul também no município de Bombinhas, litoral norte de Santa Catarina para tratamento do esgoto doméstico, em lixões, frigoríficos e processadores de agroquímicos. O grande filão atualmente, revela Disconzi, são os loteamentos do interior de São Paulo. Segundo ele, por meio de construtoras da região de Americana. A Hidrosul está em negociação com a Petrobrás para instalar estações nas plataformas de prospecção e bombeamento de petróleo off shore.

Para Remo Disconzi, as estações compactas deveriam ser adotadas pela esfera oficial como forma de implantar o saneamento urbano no país. Nos cálculos do empresário, uma cidade de 350 mil habitantes produz dejetos em quantidade suficiente para lotar uma fileira de caminhões com 30 metros cúbicos de dejetos na caçamba, desde Porto Alegre até Moscou. Como justificativa, explica, uma compacta fica na faixa de US$ 1,8 milhão para cada 25 mil habitantes, enquanto uma convencional de grande porte ficaria em US$ 5 milhões. A alternativa seria espalhar pelas cidades brasileiras pequenas e médias estações em raio para cada 30 mil a 200 mil habitantes.

No caso do efluente industrial a economia de espaço e com manutenção são fatores a ser considerados. Uma estação compacta de 1000 metros quadrados limpa a mesma sujeira de uma lagoa de decantação de 150 mil metros quadrados e não produz assoreamento, sem falar nos possíveis vazamentos quando ocorrem rasgos nas geomembranas colocadas sobre o terreno argiloso. Os equipamentos podem ser comprados via Finame, mas a Hidrosul tem um esquema de financiamento próprio com 30% de adiantamento na aprovação do projeto, 40% na entrega da obra e os 30% em prazos negociáveis. A planta industrial em Canoas fabrica aeradores e bombas. Os tanques são moldados em uma empresa terceirizada de Chapecó, região oeste de Santa Catarina. A Hidrosul conta ainda com escritório regional em Americana, interior de São Paulo. Abriu representações em Belo Horizonte, Rio de Janeiro, Curitiba e Florianópolis.

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