EBDQUIM – Encontro Brasileiro dos Distribuidores Químicos e Petroquímicos

Química e Derivados, Painel contou com (esq. para dir.) Martin Pugh (Univar), Frank Schneider (IMCD), Edgard Nordmann (NRC) e Guenther Eberhard (Districonsult), sob o comando de Isabel Figueiredo (Braskem)
Painel contou com (esq. para dir.) Martin Pugh (Univar), Frank Schneider (IMCD), Edgard Nordmann (NRC) e Guenther Eberhard (Districonsult), sob o comando de Isabel Figueiredo (Braskem)

Fórum reúne líderes globais da distribuição química

Encarapitado no alto de uma falésia, tendo aos pés o magnífico litoral baiano de Trancoso, o resort Club Med encantou os participantes do 8º Encontro Brasileiro dos Distribuidores Químicos e Petroquímicos (EBDQuim), realizado de 9 a 11 de março.

Sob clima perfeito, com sol escaldante e céu de brigadeiro, o ambiente dos debates, porém, foi maculado pela crise política e econômica que assola o país. Apesar da funesta circunstância – que deverá culminar com a saída de cena da titular da Presidência da República, ou por impeachment, ou por crime eleitoral –, este encontro ficará marcado como o de mais elevado nível de apresentações e debates até agora. Com especial destaque para o painel sobre a Distribuição Global de Químicos, apresentado na manhã do dia 10 de março, com a participação dos executivos Frank Schneider (IMCD Group), Edgard Nordmann (da Normann, Rassmann e também da ICTA), Martin Pugh (Univar) e do consultor especializado Guenther Eberhard (Districonsult), sob a moderação exercida por Isabel Figueiredo (Braskem).

Química e Derivados, Medrano destacou a importância de debater tendências globais
Medrano destacou a importância de debater tendências globais

Presidente da Associação Brasileira dos Distribuidores Químicos e Petroquímicos (Associquim), organizadora do encontro, Rubens Medrano abriu os trabalhos atribuindo ao péssimo desempenho da economia nacional – cujo PIB encolheu 3,8% e a inflação subiu 11%, pelo INPC – uma provável queda acima de 10% no faturamento do setor comercial químico em 2015. Os dados finais desse ano ainda estão sendo coletados e tabulados pela entidade setorial. “A componente política é crucial para esse cenário difícil no qual estamos vivendo”, salientou.

Medrano salientou não estar a crise circunscrita ao território nacional, pois vários países apresentam dificuldades em maior ou menor grau. “A Itália, por exemplo, precisa acomodar um enorme contingente de imigrantes, gerando um aumento nas despesas nacionais, porém seu PIB tem crescido perto de 0,5% ao ano, ou seja, é estável, mas muito baixo para suportar tanta despesa”, avaliou.

Olhando especificamente para o setor, o dirigente entende que a crise é o momento para os distribuidores buscarem novos métodos de trabalho, aproveitando oportunidades existentes dentro das próprias empresas. “Quem conseguir mudar para melhor ficará mais preparado para o futuro”, afirmou. O papel da Associquim nesse momento é de apoiar e defender seus associados, buscando aprimorar o ambiente de negócios. Nesse sentido, o EBDQuim permite refletir e discutir os rumos e as dificuldades encontradas na atividade.

Química e Derivados, Holland, da Brenntag, defende negócios baseados em qualidade
Holland, da Brenntag, defende negócios baseados em qualidade

Visão ampliada – Coube a Steve Holland, CEO da gigante Brenntag desde o ano passado, proferir a palestra solene do encontro deste ano. Ao apresentar a companhia que faturou US$ 13 bilhões em 2014 (o balanço de 2015 ainda não havia sido publicado) com a venda de 13 milhões de t de produtos, ele mostrou as 470 unidades operacionais espalhadas pelo mundo. “Parece um mapa-múndi com catapora”, brincou, enfatizando a presença mundial da distribuidora. “Somos uma distribuidora global, com atuação regionalizada”, sintetizou.

Com base em estudo da Boston Consulting elaborado em 2013, ele avaliou em € 165 bilhões o mercado mundial atendido pela distribuição química. A Ásia responderia por € 63 bilhões, maior fatia do bolo, mas Holland entende que esse número incluiu vendas industriais indevidamente, ou seja, está superestimado. Apesar disso, o continente asiático é um consumidor gigante. A Europa (com Oriente Médio e África) representa € 43 bilhões, seguida pela América do Norte, com € 30 bilhões. Nesse estudo, a América Latina toda apresenta demanda de € 17 bilhões para a distribuição. “A globalização econômica está afetando o setor e provocando mudanças”, afirmou.
Na sua avaliação, a América do Norte está entrando em uma fase de declínio da produção industrial, com destaque para o setor de óleo e gás. “As perfurações para produzir o shale gas estão sendo reduzidas ou cortadas, refletindo a queda das cotações internacionais dos hidrocarbonetos”, comentou. Além disso, o fortalecimento da moeda americana está prejudicando as exportações desse país. “Continua sendo um mercado enorme, com uma distribuição muito fragmentada, ou seja, ainda há espaço para mudanças”, considerou.

Isso se verifica pela aceleração dos movimentos de fusões e aquisições (M&A), tanto na distribuição (IMCD, Azelis e Brenntag foram às compras em 2015 nos EUA), quanto no setor industrial. É o caso da fusão entre Dow e DuPont, da negociação entre Dow e Olin, entre outras.

Ao mesmo tempo, o mercado europeu (complementado com Oriente Médio e África) não apresenta crescimento, mas também não cai. A região conta com moeda forte, o euro, e energia atualmente barata, embora seu suprimento seja um problema de longo prazo. “A Europa tem baixa competitividade, a África é irrelevante, apenas a África do Sul tem um mercado interessante, mas a queda do valor da sua moeda, o rand, preocupa”, avaliou.

Quanto ao Oriente Médio, é evidente o interesse dos países da área em desenvolver seus downstreams petroquímicos, com o intuito de valorizar sua produção abundante de óleo e gás. “As petroleiras locais, no entanto, estão com o caixa enfraquecido, resultado das cotações baixas dos últimos anos, isso exigirá reestruturações”, considerou.

Holland avalia a região Ásia/Pacífico como a mais competitiva do planeta, capaz de derrubar os preços mundiais dos produtos químicos. Porém, o sudeste asiático tem sofrido com inundações frequentes e algumas revoltas locais. “O Vietnã está em fase de crescimento, enquanto a Índia segue com excelentes oportunidades, mas é um país complexo e a infraestrutura fora das grandes cidades é precária, quando existente”, comentou. O crescimento da China é alvo de controvérsias. Segundo o executivo, o governo divulga índices de crescimento de 6% ao ano, mas há quem defenda que não passe de 3%.

A América Latina sofre os efeitos da baixa dos preços das commodities que deve prosseguir até 2017. “A região deve crescer na média de 3% ao ano durante os próximos cinco anos”, estimou. O México está se firmando como polo de desenvolvimento regional, ocupando um lugar que já foi ocupado pelo Brasil durante muitos anos. No caso da Brenntag, a América Latina tem uma posição de destaque. “É a nossa região com os melhores indicadores de desempenho ambiental e de segurança”, salientou.

Modelo de negócios – Com base na experiência internacional do grupo, Holland defende o atual modelo de negócios da distribuição química. “Não há substitutos para um serviço de qualidade, por isso temos mais de 470 operações mundiais, nas quais competimos com grandes e também com pequenos distribuidores muito focados em seu negócio”, afirmou.

Na sua avaliação, os clientes valorizam mais os serviços prestados do que os preços praticados. Ele atesta que a demanda por apoio técnico aumentou nos últimos cinco anos. Por isso, a distribuição química precisa aprimorar sua qualificação técnica, sofisticar suas ferramentas de atendimento, em especial as eletrônicas. “Os sistemas de TI e ferramentas informatizadas de gestão criam vantagens e abrem novas oportunidades de negócios”, comentou.

Segundo Holland, as equipes comerciais realizam 20 mil visitas a clientes por semana. “Não é para tomar chá, elas precisam aproveitar essas visitas para vender produtos e também levantar informações sobre possíveis necessidades e oportunidades”, salientou. A qualidade das informações capturadas permite rever estratégias e aperfeiçoar a atuação dos distribuidores. Isso precisa ser ajustado em bases locais.

Além disso, muitos distribuidores buscam aumentar sua oferta de especialidades, acreditando na possibilidade de lidar com itens mais rentáveis e menos sujeitos às variações das commodities. No entanto, as especialidades exigem um grau de qualificação ainda maior, ocupando mais gente e incorrendo em custos adicionais. “É um ramo muito diferente dos outros”, afirmou. Ele conhece bem esse mercado, pois trabalhava na Albion, distribuidora especializada nesses produtos, que foi comprada pela Brenntag em 2006. Como enfatizou, as bandeiras das distribuídas são importantes nas commodities, mas são essenciais nas especialidades.

A atividade comercial química, em todo o mundo, apresenta barreiras de entrada cada vez maiores, não apenas burocráticas, mas de segurança ambiental, principalmente. “A construção de novas bases e sítios de produção é cada vez mais difícil e complicada, pois todos seguem a linha do not in my backyard [não no meu quintal]”, enfatizou.

Essa atitude leva os fabricantes e transferir cada vez mais os riscos para os seus distribuidores, envolvendo operações de mistura, fracionamento e embalagem, por exemplo. Para Holland, isso representa simultaneamente uma oportunidade e uma ameaça. “É bom assumir riscos, mas com cautela”, recomenda. Ele salienta que sustentabilidade é a regra do mercado, não uma opção do distribuidor. “Ninguém precisa ser global para atuar com qualidade global”, resumiu.
Preparando o futuro – O CEO da Brenntag entende que a informação qualificada é fator preponderante de mudança de mercado. E sua importância tende a crescer. “Estamos num ponto de inflexão no gerenciamento de dados e comunicação para abrir novos mercados”, considerou. Isso não implica, porém, adotar modelos de atuação parecidos com o desenvolvido pela Amazon, a gigante do comércio eletrônico. “Nós não vendemos balas e doces, operamos um negócio muito especial, mesmo que alguns clientes queiram colocar pedidos on line, é preciso observar as regulamentações e restrições locais”, disse.

Equipados com o competente arsenal tecnológico, os distribuidores poderão tornar mais racional seu relacionamento com o mercado. “Cada cliente deve decidir qual o serviço deseja receber e com qual nível de qualidade”, argumentou. É o resultado da aplicação da metodologia de Total Cost of Ownership (TCO), capaz de determinar o custo real incorrido para suprir cada pedido, considerado todas as etapas: negociação, transporte, armazenagem, manuseio etc. Isso permite oferecer soluções customizadas que apresentem menores custos.

Holland vê nessa metodologia um caminho para lidar com as modificações futuras no mercado químico. “Ninguém estará protegido da influência dos movimentos globais, nem mesmo os distribuidores puramente locais”, afirmou. Ele demonstra alguma preocupação com a contenção do desenvolvimento mundial, abrindo espaço para movimentações de capital. “Para onde vai o dinheiro, se o crescimento mundial está contido?”, indaga. Essa questão aponta para a continuidade de processos de concentração de negócios (fusões e aquisições).

Posição na cadeia – A distribuição química tem o papel de provedora de soluções para a atividade química, envolvendo vendas, suprimentos, busca de novos fornecedores e suporte tecnológico. Essa visão foi apresentada por Frank Schneider, diretor-executivo do IMCD Group na Alemanha. Nem sempre foi assim. Ele relatou que, há pouco mais de 13 anos, enquanto ainda trabalhava para a Basf, a indústria química via com outros olhos o braço comercial. “A indústria era grande, a distribuição era pequena, então esta ficava apenas com as migalhas”, recordou-se.

Em uma década, essa percepção mudou, em grande parte impulsionada pela globalização econômica, muito bem aproveitada pelas empresas comerciais. “O fortalecimento das grandes companhias de distribuição e sua profissionalização contribuíram para reforçar a credibilidade e a imagem da distribuição química”, salientou. Com isso, todos os portes de companhias acabaram sendo beneficiados.

Ao mesmo tempo, as distribuidoras convenceram seus clientes sobre as vantagens de contar com serviços associados aos produtos comercializados, conquistando-os. “O setor fez isso em todos os países do mundo, com sucesso”, apontou. Dessa forma, o distribuidor deixou de ser um simples intermediário e um entregador de produtos, relacionando-se em pé de igualdade com as indústrias e apoiando decisivamente os seus clientes.

Martin Pugh, diretor da Univar na Europa, atua desde 1987 no setor de distribuição. “Desde então, os fundamentos do negócio não mudaram, e a escala operacional continua sendo essencial”, considerou. “E ainda é um negócio local, mesmo quando efetuado entre empresas globais”. Ao mesmo tempo, salientou que os aspectos relacionados com segurança são uma obsessão da companhia, exigindo rever constantemente os procedimentos.

Como informou, o uso do canal de distribuição no mundo cresce à taxa média de 5,6% ao ano. “As marcas globais querem ter distribuidores globais que sejam parceiros”, disse. Com isso, a tendência é de cada produtor se relacionar com número cada vez menor de distribuidores, porém com profundidade crescente.

Fundada em 1924, a Univar faturou US$ 9 bilhões em 2015, atuando em mais de 150 países, operando mais de 800 instalações. Há dois anos, segundo Pugh, a companhia decidiu redefinir seus negócios, concentrando seus interesses em tintas/adesivos, alimentos, farmacêuticos, óleo/gás/mineração, cuidados pessoais, household e limpeza industrial. “Adequamos nosso mix de especialidades e commodities a esses mercados, com sucesso”, disse. Além dos ramos citados, a Univar também atua em outros, em escala regional. O executivo resumiu as atividades como sendo uma plataforma global de negócios, com presença local em múltiplos mercados. “E queremos fidelizar nossos clientes, favorecendo relacionamentos estáveis em detrimento das vendas ocasionais.”

Local x global – A discussão entre adeptos das megadistribuidoras globais e empresas de atuação local prossegue, sem vencedores, nem vencidos. O consultor e proprietário da Districonsult Gunther Eberhard conduziu uma pesquisa com as 30 maiores companhias mundiais e concluiu: “a presença global é exceção”.

Com base no estudo, 40% das consultadas só atuam no seu continente de origem. Outra fatia de 27% mantém negócios em dois continentes, 7% estão em quatro continentes, enquanto apenas 13% operam nos cinco continentes. “Isso comprova que distribuição é essencialmente um negócio local, os fabricantes querem distribuidores para abrir mercados para seus produtos”.

Um dos problemas identificados para a expansão dos negócios da distribuição está na contratação de pessoal qualificado para o setor, segundo Eberhard. Essa visão é compartilhada por Edgard Nordmann, acionista e diretor-executivo do grupo Nordmann, Rassmann e membro do recém-fundado ICTA (Conselho Internacional do Comércio Químico). “A distribuição requer profissionais cada vez mais qualificados não apenas para fazer negócios e oferecer serviços, mas também para atender as regulamentações oficiais cada vez mais rígidas”, comentou. Apesar de ter sede na Alemanha, país de elevado grau de instrução, Nordmann aponta a escassez de pessoal adequado para contratação.

Ele também considera problemático o recrudescimento dos sentimentos nacionalistas em países europeus, prejudicando o processo de integração continental. “Existe a possibilidade de crescimento para nós em outros mercados, como o japonês”, considerou.Fusões e aquisições – Os participantes do EBDQuim mostraram grande interesse pelos movimentos globais de fusões e aquisições (M&A). O especialista Eberhard apontou um paralelo com a situação econômica mundial. “Quando a economia vai bem, as M&A avançam muito, quando a economia esfria, o medo de negociar participações aumenta nos dois lados do balcão”, comentou.

Schneider, do IMCD Group, observou que os movimentos de M&A seguem firmes no exterior, mas perderam a força no Brasil nos últimos anos. O grupo adquiriu a Makeni Chemicals em 2013, iniciando suas operações diretas no país.

Pugh, da Univar, salientou que a distribuidora comprou duas companhias brasileiras nos últimos cinco anos (Arinos e D’Altomare), mas o momento atual é de buscar crescimento orgânico. “Com a queda dos preços dos produtos químicos, tornou-se mais importante direcionar o foco das atenções para os negócios, buscando aumentar a eficiência”, explicou.

Embora os palestrantes não tenham dito isso claramente, a situação econômica cambaleante do Brasil introduziu um elevado grau de incerteza quanto aos resultados de eventuais investimentos locais, desestimulando-os, ao menos por enquanto.

As empresas de grande porte já recorreram ao auxílio financeiro de fundos de investimento (private equities) para fazer deslanchar projetos de longo curso, a exemplo da expansão geográfica de atuação. “Pudemos contar com o apoio financeiro desses fundos durante dez anos e eles sempre contribuíram para o nosso crescimento”, afirmou Pugh. A abertura do capital da distribuidora foi a porta de saída desses investidores.

Ebrhard considera saudável contar com apoio desses fundos, não apenas pelo reforço de capital, mas pelo fato de serem muito capacitados, conseguindo facilitar processos de transição, realinhamento de negócios e aumento de disciplina financeira, além de contribuir criticamente para elaborar estratégias empresariais. “É preciso observar, porém, que esses fundos são sócios temporários, em algum momento eles deverão sair e isso significa algum risco”, afirmou.

Nordmann, por sua vez, entende que a distribuição química é um negócio interessante para investidores financeiros convencionais. “É um setor que não flutua nos ciclos econômicos, é estável, ou seja, é bom para guardar no portfólio durante um bom tempo”, avaliou. Isso permite bons resultados com a abertura do capital social ao mercado. Grandes companhias já se capitalizaram mediante ofertas públicas (IPO, em inglês), mas isso exige mudanças de mentalidade, por em vez de prestar contas a apenas um limitado grupo de investidores, a companhia passa a ter de se explicar para milhares de interessados, além de se submeter aos controles dos órgãos oficiais.

Comércio eletrônico – A evolução dos sistemas de informática e da rede mundial de computadores (internet) trouxe evidente ajuda para todas as atividades empresariais. Mas não é uma panaceia. “Sem dúvida, a tecnologia da informação nos permitiu avançar muito na prática das operações, mas não dá para fazer tudo pela rede”, considerou Frank Schnider.

Há alguns anos, houve tentativas de trazer para o comércio químico modelos de negócio parecidos com os usados no varejo de bens de consumo, mas tiveram resultados pífios. “Não sabemos como fazer isso, é um desafio aberto para o setor, talvez a resposta venha daqui a dez ou vinte anos, por enquanto pensamos em aprimorar nossas atividades”, afirmou. Ele também salientou que os meios eletrônicos não garantem a entrega dos produtos aos compradores. Atualmente, os distribuidores informam em tempo real onde a mercadoria adquirida está e quando vai chegar ao destino. “E os prazos são respeitados”, disse.

Martin Pugh aponta a evolução da internet como estímulo aos movimentos de desintermediação que estão sendo promovidos em todo o mundo. A geração atualmente no comando das companhias tem entre 30 e 40 anos de idade e já possui a mentalidade compatível com o sistema eletrônico. “Porém, os negócios químicos são muito regulamentados, não é fácil montar um sistema adequado para isso; então, olhamos de longe, esperando alguma resposta melhor no futuro”, afirmou.

Nordmann é mais incisivo. “O modelo Amazon não consegue agregar serviços, está mais voltado para baixar preços”, criticou. Para ele, o distribuidor precisa ser inovador, esse é o único caminho para ser competitivo.

Competentes sobrevivem – A consolidação de negócios no setor químico preocupa todos os participantes da cadeia produtiva, mas a distribuição se adaptará facilmente a isso, como avaliou Schneider, da IMCD. “Quando indústrias se fundem, sempre liberam alguns negócios menores e isso abre novas oportunidades pra os distribuidores”, comentou.

A batida questão da sobrevivência dos distribuidores médios – muito já se disse que eles deveriam crescer para ser gigantes ou encolher para atuar em nichos – é considerada superada pelo executivo. “Não interessa o tamanho do distribuidor, interessa saber se ele é bom naquilo que ele faz, no relacionamento com sua clientela, nos serviços oferecidos”, comentou.

Schneider salienta que os pequenos clientes ainda tem receio de negociar com distribuidores de grande porte. “Há um desconforto, pois o pequeno cliente não se sente no mesmo patamar desse fornecedor, o relacionamento não evolui”, disse.

A diversificação de atividades, na direção de promover mix de produtos com mais itens de alto valor, como insumos farmacêuticos, não é uma saída para todos. “Mercados como farma, cosméticos e alimentos são muito regulados, exigem uma estrutura grande que é mais adequada para empresas maiores”, afirmou.

O mercado de produtos químicos industriais é mais aberto, permite mais opções de trabalho para a distribuição. Schneider recomenda que o distribuidor defina precisamente seus objetivos. “No caso das especialidades, elas podem acabar se commoditizando com o passar do tempo, é preciso saber lidar com isso”, comentou.

Em resumo, para ter sucesso, um distribuidor precisa ter produtos, bons preços e serviços, todos esses fatores adequados às necessidades dos seus clientes.

Amargando a crise – As palestras do dia 11 foram menos agradáveis, embora de conteúdo elevado. O economista e diretor da MB Associados José Roberto Mendonça de Barros traçou um panorama nacional e internacional do ambiente de negócios. “O modelo de crescimento adotado pelo governo federal está esgotado, a China brecou, os juros baixos no exterior acabaram, a demanda interna esfriou, estamos em uma crise fiscal violenta e as tais campeãs nacionais acabaram”, apontou.

Ele recomenda às empresas adotar posturas cautelosas, com ênfase em práticas que elevem sua eficiência. Para isso é fundamental fortalecer a área de inteligência de mercado, conter os gastos, preparar-se para atender a demanda cada vez mais fragmentada, e adotar estratégias regionalizadas. “Os profissionais devem ser treinados para aumentar a produtividade constantemente”, salientou.

Na sua avaliação, o mercado global está em fase de esfriamento, aumentando o temor quanto a uma recessão mundial. “O crescimento dos EUA está desacelerando e não há espaço por lá para aumentar os juros primários”, avaliou Mendonça de Barros. A Europa segue com problemas gigantes, o Japão ainda está em estagnação e a China, antes considerado o segundo motor da economia mundial, apresenta dúvidas quanto ao seu potencial efetivo de crescimento.

O especialista comentou a situação americana, na qual houve uma queda vertiginosa no desemprego, porém o salário real dos trabalhadores despencou. “O impacto tecnológico só beneficiou a 10% da população, e não a 30%, como se divulgou, os demais perderam renda. Aliás, a concentração de renda nos EUA é um dos problemas atuais mais importantes que se refletirá na campanha eleitoral deste ano”, comentou. Donald Trump e Bernie Sanders têm discursos voltados para os 90% (ou 70%) prejudicados, segundo informou.

Nesse quadro, a população americana está descontente. A maioria acredita que as gerações futuras terão uma vida pior do que a atual. “Isso é péssimo, indica falta de perspectivas”, disse.

A China fala em crescimento anual do PIB de 6%, mas poucos analistas ainda acreditam nas estatísticas oficiais. O país pretende mudar seu modelo de negócios, priorizando o mercado interno, reduzindo suas exportações. “Essa é uma transição traumática, com efeitos globais”, considerou. O crescimento do setor de serviços chinês é acompanhado da redução da atividade da indústria pesada, por exemplo, a siderurgia apresenta uma ociosidade gigantesca. Em 2015, a China perdeu US$ 1 trilhão em reservas (ainda tem US$ 3 trilhões), parte disso reflete a saída de empresas do país.

A América Latina apresenta diferentes desempenhos. Em geral, os países com saída para o Pacífico estão crescendo. Do lado Atlântico, a Argentina aparece como boa novidade, aproveitando a popularidade de seu novo presidente Maurício Macri, que está atraindo investimentos estrangeiros. “Esperamos que exista o tal efeito Orloff e, assim, nós seremos amanhã o que eles são hoje”, brincou o economista.

Nesse quadro, o Brasil vai muito mal, superando apenas a trágica situação da Venezuela. Esta perdeu totalmente o rumo com a queda do preço do petróleo. “Existe uma expectativa de recuperação das cotações internacionais de petróleo daqui a um ou dois anos, mas elas nunca mais voltarão a ficar acima de US$ 100 por barril”, afirmou. A explicação está no lado da demanda, pois a oferta é abundante. O consumo mundial de derivados de petróleo está caindo, como explicou. No Brasil, a Petrobras sofre com os efeitos da má gestão e ainda precisará de uns cinco anos para melhorar seus resultados. “Nunca mais vai ser a mesma”, vaticinou, com tristeza.

O lado bom da economia brasileira está no agronegócio. “O cenário para esse setor é excelente, mesmo com preços internacionais mais baixos”, afirmou Mendonça de Barros. Ele explicou: o setor agrícola está habituado a competir internacionalmente desde há muito tempo, e ainda carrega nas costas o peso das deficiências da infraestrutura brasileira. A elevação continuada da produtividade permite produzir com baixíssimo custo, conseguindo atender com vantagens o aumento da demanda chinesa por comida. “O preço do milho na China é três vezes maior que o da Bolsa de Chicago”, comparou.

A maior produtividade agropecuária também resultou no barateamento da comida para os brasileiros e isso permitiu o crescimento da demanda por bens de consumo como motocicletas e celulares. Essa foi a gênese do boom de consumo nos anos de governo petista.No cômputo geral, apesar dos esforços do campo, o resultado da economia brasileira é desanimador. O PIB afundou em 2015, deixando um rastro de 1,6 milhão de desempregados. As empresas aumentaram seu passivo financeiro e os bancos cortaram o crédito para elas, piorando a situação. “No começo de 2015, os empresários ainda acreditavam que o governo, em seu segundo mandato, poderia implementar as reformas necessárias, mas essa ilusão acabou; em 2016 ninguém mais acredita nessa administração e o ano já está perdido”, criticou. Metade dos estados do país está quebrada, não consegue sequer pagar a folha salarial. “A renda per capita já caiu 4,6% em 2015, caso isso se repita em 2016, teremos 10% em dois anos, isso vai gerar uma revolução”, alertou.

Mendonça de Barros chamou a atenção para o fato de, pela primeira vez, o país estar em crise, mas com sobra de dólares no mercado. “Isso garante que não há risco de calote para os investidores institucionais”, disse.

Ele prevê que 2016 será um ano muito difícil para as empresas nacionais. Por isso, recomenda reduzir a alavancagem e preparar suas estruturas para a próxima rodada de crescimento econômico, que certamente virá. Ele citou o caso da hiperinflação de 1989 e a tentativa de controle pelo governo Collor de Mello mediante o choque de liquidez. “Ninguém tinha dinheiro na mão para comprar e os ativos ficaram muito baratos, quem tinha acesso a recursos de fora nadou de braçada”, comentou. Isso pode acontecer novamente, pois quem opera no Brasil tem mais chance de aproveitar as oportunidades, usando recursos de investidores estrangeiros.

José Augusto de Castro, presidente da Associação dos Exportadores Brasileiros (AEB) ressaltou que a crise atual não tem raízes no exterior. “Estamos vivendo uma crise totalmente interna, temos reservas mais do que suficientes, mas sofremos uma forte desindustrialização”, criticou.

Ele salientou que a péssima governança pública permite o aumento da corrupção, cuja superação exigirá esforços gigantes de compliance por parte das empresas que atuam no país. “O estado não pode ser gigantesco, precisa ser pequeno e eficiente, vamos demorar uns dez anos para nos recuperarmos dessa crise”, salientou. “Precisamos ter objetivos de longo prazo, com mais liberdade para empreendimentos e para as pessoas.”

Sucessão – Um tema que mereceu atenção dos participantes foi a questão da sucessão em empresas familiares. Os grandes grupos comerciais não tem esse problema, mas isso pode significar uma ruptura profunda nas distribuidoras cujo capital está em poder do fundador ou de sua família.

Edgard Normann dirige o grupo Normann, Rassman (NRC), com sede em Hamburgo. Ele pertence à terceira geração da família à testa do grupo, cujas operações abrangem também o grupo Rowa (com várias linhas de produtos químicos e atuação global), a Enorica (ligada a diagnósticos e farmacêuticos) e atividades imobiliárias. Ao todo, o faturamento chega a € 480 milhões por ano, contando com 700 empregados.

Nordmann comentou que, quando jovem, ao declarar ao pai o desejo de continuar seus estudos na universidade, recebeu a resposta de que a companhia não precisava de doutores. Então, ele assumiu responsabilidades crescentes no grupo. Segundo informou, a cada geração surgem alguns herdeiros com vocação para o negócio. São poucos.

A forma encontrada para evitar conflitos foi a celebração de um acordo entre todos os familiares, definindo quanto será pago a título de dividendos a cada um e qual o percentual dos lucros a ser reinvestido anualmente na companhia. Apenas os herdeiros interessados e capacitados assumem funções executivas. “Temos cinco potenciais candidatos para posições de liderança na quarta geração, mas nenhum deles quer tocar os negócios”, comentou. A solução é aguardar que surjam talentos na geração seguinte, ou profissionalizar totalmente a gestão. “Esse sistema já está sendo revisto há cinco anos, pensando nessa possibilidade”, afirmou.

Conclusão – A ICTA, criada em fevereiro, aproveitou o EBDQuim para fazer sua estreia em encontros internacionais. A nova organização foi apresentada por Neville Prior, presidente da FECC – Associação Europeia de Distribuidores Químicos. A formação da ICTA pretende unificar os esforços mundiais do setor, somando as 1.585 companhias associadas da Europa com as 661 originárias das Américas, formando uma entidade representativa de 2.246 empresas vinculadas à entidade, das quais 1.308 são distribuidoras. Isso abrange mais de 90 mil funcionários e um faturamento consolidado de € 62,5 bilhões.

A formação da ICTA pretende apoiar a harmonização dos regulamentos regionais, de modo a prevenir conflitos e elevação desnecessária de custos para toda a cadeia produtiva. Além disso, poderá conjugar esforços nos programas de qualidade e segurança, como Responsible Care e Distribuição Responsável. A experiência acumulada pela FECC tanto na unificação continental e sua burocracia, quanto no estabelecimento do sistema Reach podem ser de grande valia para outras regiões. Ele também convidou a todos a participar do Congresso Anual da FECC, marcado para 6 a 8 de junho, em Istambul (Turquia).

Ao final dos trabalhos, o presidente da Associquim, Rubens Medrano, enfatizou a importância de contar com fóruns para a discussão de problemas comuns e avaliar tendências de mercado, como é o caso do EBDQuim.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.