Drones atacam Aramco e atingem petroquímica global

Ataque de drones contra a Saudi Aramco interromperá severamente o suprimento de GNL e petroquímicos, mais que o de petróleo, com forte impacto sobre a economia global e a dinâmica geopolítica.

O ataque de drones contra instalações da Saudi Aramco e sua infraestrutura básica terá amplos efeitos nos mercados globais de energia e petroquímica, bem como na economia mundial, com a elevação dos preços do petróleo e a interrupção da oferta de gás natural.

Os ataques de 14 de setembro atingiram o campo de Khurais e o site de Abqaiq, a maior unidade de processamento de petróleo e gás natural do mundo.

A Aramco suspendeu inicialmente metade de sua produção de petróleo, ou seja 5,7 milhões de barris diários.

Em 17 de setembro, anunciou oficialmente que a instalação retomou o processamento de 2 milhões de bpd de óleo e que a companhia prevê voltar ao ritmo normal de operação até o fim do mesmo mês.

A mensagem oficial não fez menção alguma ao estado atual da produção de etano ou de gás natural liquefeito (GNL). No entanto, o problema com o gás natural deve ser o maior.

“Enquanto a Aramco deve retomar a produção total de óleo em poucos dias ou em uma semana, ela continuará a queimar nos flares o gás associado no campo de Gawar, produzindo apenas o tanto que as unidades ainda intactas em Abqaiq consigam processar”, afirmou Dan Lippe, gerente associado da Petral Consulting, em 16 de setembro.

“Sem informações definitivas, podemos dizer com alguma certeza que o suprimento de GNL permanecerá reduzido por alguns ou mesmo vários meses.”

Os preços dos crus subiram no dia 16, com os contratos futuros de Brent atingindo pico de US$ 69,02, alta de 15%, e o WTI dos EUA também registrou 15% de alta, indo a US$ 62,90.

As cotações do Brent recuaram 7% e o WTI 6% no dia seguinte, após a divulgação do rápido reestabelecimento da oferta.

“O valor do cru tem uma correlação positiva de 80% ao Icis Petrochemical Index (Ipex). Um aumento de US$ 10/bbl no Brent geralmente provoca elevação de 5,5% nos preços de mercado dos petroquímicos do Ipex”, disse James Ray, consultor sênior da Icis.

“Quanto mais adiante na cadeia de valor petroquímica está um produto, menor será o impacto do preço do óleo, porém quase todos os produtos sofrerão pressão de alta em algum grau.”

Uma oscilação de US$ 10/bbl no preço do petróleo repercutirá em 5,5 centavos de dólar por libra de etileno/polietileno (ou US$ 121/t) e em US$ 67/t no preço do metanol, estimou Hassan Ahmed, analista da Alembic Global Advisors.

Danos às instalações de Abqaiq
Foto divulgada pelo governo dos EUA mostra os pontos atacados na unidade de processamento

Impacto direto – Há um impacto direto nas operações químicas da Saudi Aramco.

Em 14 de setembro, o novo ministro da energia saudita Abdulaziz bin Salman apontou o corte de 50% na produção de etano e GNL.

Os ataques ameaçaram 10% do suprimento global de etileno, conforme análises do banco de dados da Icis Supply&Demand.

A Sabic ressaltou interrupção de 49%, em média, no fornecimento de matéria-prima para seus sites de produção espalhados pelo reino.

Possuem operações em Jubail a Sabic e suas afiliadas, Tasnee, Sipchem e Advanced Petrochemical, bem como as joint ventures da Saudi Aramco com Chevron (S-Chem) e Dow (Sadara), apontou Ahmed, da Alembic.

A Arábia Saudita é o maior exportador de petroquímicos e polímeros para a Ásia e Europa, também exporta óleo cru para refinarias e unidades petroquímicas asiáticas, para as quais a interrupção de suprimento pode inibir a produção local.

O aumento do preço do petróleo atingirá a indústria petroquímica europeia e asiática, ambas dependentes de cargas de nafta derivadas de petróleo.

Competitividade dos EUA aumenta – O aumento de preço do petróleo eleva a competitividade e as margens dos produtores americanos de produtos petroquímicos, os quais geralmente consomem etano de gás natural, além de propano e butano.

Quando o petróleo fica mais caro, ele puxa para cima os preços das resinas e dos derivados petroquímicos. As margens americanas de petroquímicos, apoiadas pelo abundante etano obtido do shale gas, ficarão mais dilatadas.

O preço das ações das indústrias químicas de commodities disparou em 16 de setembro, com notáveis avanços nos ganhos da LyondellBasell (+4%), Westlake Chemical (+5%) e Methanex (+8,9%). Dow subiu 1,6%.

“Podemos ver três impactos principais: os produtores americanos aumentarão sua vantagem nos custos; eles também aumentarão sua participação nas exportações, bem como sua margem de lucro pelo aumento global dos preços dos petroquímicos”, avaliou Ahmed, da Alembic.

Caso a produção de GNL saudita fique severamente limitada por meses, isso terá profundo impacto nas importações de propano e petroquímicos da China, ao ponto de poder provocar mudanças na sua política comercial, como avalia Lippe, da Petral.

“O corte nas exportações de propano de Ras Tanura (Arábia Saudita) é suficiente para desequilibrar o balanço de oferta e demanda na Ásia. Muito provavelmente, a China deverá suspender as tarifas sobre importações de propano dos Estados Unidos”, disse o especialista.

“Uma vez que está curto o suprimento de etano para a produção de etileno da Sabic, as suas exportações de polietileno serão reduzidas e a China deverá suspender também as tarifas de importação de resinas com origem nos EUA”, aduziu.

Mesmo que a China não suspenda as tarifas sobre propano e polietileno americanos, o país ficará mais propenso a buscar um acordo comercial com os EUA.

Impacto global – A alta marcante do preço do petróleo representa mais um grande risco para a economia global. Está em curso uma redução sincronizada da atividade econômica mundial, mais pronunciada no setor de manufatura, exacerbada pela guerra comercial entre EUA e China.

Para o pressionado setor automobilístico, preços mais altos do petróleo apenas elevarão o custo de operação de veículos, em uma época de crescente incerteza, na qual os consumidores estão fugindo de produtos de alto valor de aquisição.

O resultado dependerá muito do patamar em que se acomodem os preços do óleo. Poderá a economia global em retração absorver o Brent a US$ 70/bbl?

E se chegar a US$ 80/bbl ou mais? Todas as recessões americanas desde os anos 1970 foram precedidas por uma alta nos preços do óleo cru.

A economia chinesa, já afetada pelas tarifas impostas pelos EUA, poderá enfrentar outro forte vento contrário por ser o maior importador mundial de petróleo. Outros países dependentes de importação, como a Índia, Japão e Coreia do Sul sofrerão da mesma forma.

Os bancos centrais ao redor do planeta já estão em fase de afrouxamento. Os ataques dos drones e o crescente aumento das cotações do petróleo representam um tipo de enigma.

Eles entenderão tudo isso como uma ameaça adicional ao crescimento econômico e tenderão a cortar as taxas de juros adiante? Ou eles veriam os efeitos como inflacionários? Aparentemente será a primeira opção.

Enquanto isso, o impacto do forte aumento de preço do petróleo na economia americana, embora ainda negativo, seria mitigado pela produção crescente a partir das bacias prolíficas de shale.

A US Information Agency (EIA) projeta que a produção americana de petróleo atingirá a média de 12,2 milhões de bpd em 2019, com alta de 11% sobre o ano passado, antes de crescer mais 8%, chegando a 13,2 milhões de bbl. Os EUA já são o maior produtor mundial de óleo cru e caminha para ser um exportador líquido nos próximos anos.

Porém, produtores americanos de gás e óleo de shale lutam acirradamente desde que o preço do óleo colapsou no começo de 2018, deixando as pequenas e médias companhias, em especial, carregando pesadas dívidas.

“O volume de dívidas dos produtores de shale gas dos EUA é de US$ 250 bilhões e grande parte delas vencerá nos próximos cinco anos”, comentou Stephen Bowers, gerente de suprimentos e tecnologia petroquímica da Evonik, durante a 8ª Conferência Europeia de Butadieno e Derivados, em Viena, Áustria, em 12 de setembro.

Essas companhias endividadas hoje em dia estão reduzindo poços em produção e furando menos, tentando custear operações com a geração livre de caixa, salientou. Bowers avalia que isso ameaça as projeções otimistas de um grande salto na produção americana de óleo e gás, bem como o cenário de abastecimento abundante e barato para a indústria petroquímica.

Entretanto, se houver um aumento sustentável no preço do petróleo, isso poderá funcionar como uma saída para o endividado setor de exploração shale nos EUA, afastando as pequenas e médias companhias da falência.

Novo posicionamento – Uma vez que depende cada vez menos de petróleo importado, os EUA tende a ter menos interesse em participar de uma guerra por hidrocarbonetos no Oriente Médio – mudança significativa em relação há dez anos. Naquele tempo, seria possível imaginar uma resposta militar imediata americana a um ataque a suprimentos críticos.

A longo prazo, na medida em que os EUA adquirem independência energética, eles não mais serão a principal presença policial no Oriente Médio. Essa responsabilidade deve ser transferida para outras nações, dependentes de petróleo.

Essa visão foi manifestada por Peter Huntsman, CEO da Huntsman, antes dos ataques, em março, durante a Conferência Petroquímica Internacional (IPC), organizada pela American Fuel & Petrochemical Manufacturers (AFPM).

“Com o balanço energético neutro dos EUA e grande parte do petróleo e gás sendo enviado para a Ásia e Europa, quem vai proteger esse fluxo?”, perguntou. “Pode-se ver que a China está se tornando mais agressiva para construir uma força naval.”

O que se pode dizer quanto ao maior risco no tabuleiro regional: um grande ataque militar contra o Irã e uma potencial guerra total, envolvendo sauditas, iranianos, os EUA e outros?

Nesse caso, haveria uma verdadeira disparada no preço do petróleo, com ameaça a todo o abastecimento global. Além disso, adicionaria enorme incerteza à geopolítica mundial.

O risco para futuras exportações de óleo e petroquímicos do Oriente Médio depende de quanto será ampliado o conflito atual.

“Quase 20% de todas as exportações petroquímicas se movem pelo estreito de Hormuz ou pelo Iêmen. Bloqueando esses estreitos, ou derrubando ainda mais a produção saudita, terá um impacto muito importante no suprimento global da maioria das cadeias químicas”, disse Jonas Oxgaard, analista da Bernstein.

“Por exemplo, cerca de 15 milhões de t de PE (22% da produção mundial) são produzidas anualmente na Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Irã, Kuwait, Qatar e Iraque, e praticamente todo esse volume é exportado. Embora parte das exportações sauditas seja obtida na costa ocidental, isso não elimina os riscos. Para o metanol, a situação é pior, porque embora apenas 10% da oferta mundial seja produzida no Oriente Médio, a região gera 43% das exportações mundiais”, completou.

Investimentos – Em última análise, o aumento da turbulência no Oriente Médio e a evidente ameaça contra os grandes sites de petróleo e petroquímica podem levar à redução de investimentos na região.

“Olhando além, o impacto de longo prazo vai encorajar a transferência de mais investimentos do Oriente Médio no setor químico para a América do Norte, o único porto seguro – do ponto de vista geopolítico, econômico e militar – de todo o mundo”, finalizou Lippe, da Petral.

por Joseph Chang*

*Joseph Chang, editor global da Icis Chemical Business, com informações adicionais obtidas por Will Beacham, Pearl Bantillo e Al Greenwood. 

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