Domissanitários – Abipla volta a pesquisar mercado informal

Abipla lança anuário e volta a pesquisar mercado informal - Domissanitários ©QD Foto: iStockphotos

Abipla lança anuário e volta a pesquisar mercado informal

O desempenho da indústria de produtos de limpeza destoa do quadro sombrio da atividade econômica brasileira em 2020. Ao contrário de outros setores, esse mercado cresceu forte com o aparecimento do novo coronavírus, pois seus produtos são a primeira proteção das pessoas contra o patógeno e passaram a ser usados mais intensamente. Acredita-se que os hábitos de higiene adquiridos não serão abandonados quando a doença for controlada, sendo motivo para a evolução tecnológica da cadeia produtiva.

“Produtos de limpeza são a primeira vacina contra doenças, principalmente no caso da Covid-19”, ressaltou Paulo Engler, diretor executivo da Associação Brasileira das Indústrias de Produtos de Higiene, Limpeza e Saneantes de Uso Doméstico e Uso Profissional (Abipla). A entidade setorial lançou em setembro seu anuário com as estatísticas referentes à 2019 e apresentou os primeiros dados sobre a forte evolução dos negócios em 2020 (a publicação está disponível em www.abipla.org.br/anuario).

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Trata-se de um setor em permanente crescimento desde 2017, que atualmente envolve mais de 8 mil fabricantes no país. Destes, 2.611 possuem registro na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) – os demais lidam com produtos dispensados desse registro – e sobre eles a Abipla faz seus estudos, abordando os códigos nacionais de atividade empresarial (CNAE) principal de sabões e detergentes sintéticos; produtos de limpeza e polimento; e desinfestantes domissanitários (inseticidas).

Em 2019, embora o PIB tenha crescido apenas 1,1%, o setor de limpeza registrou elevação de 5,7% em vendas, superando os índices obtidos nos anos anteriores. Isso representou um mercado de US$ 6,6 bilhões, em valores de varejo. Puxaram a fila os produtos concentrados de limpeza (cresceram 2,7%), os amaciantes de roupas (2%) e desinfetantes e detergentes para lavar louça (ambos com 1,1%). Ao mesmo tempo, perderam vendas, tanto em volume quanto em faturamento, os detergentes para lavar roupa (pó e líquido) e sabão em barra. Os demais grupos cresceram ligeiramente.

“Os volumes vendidos de detergentes para lavar roupas vêm caindo desde 2015”, afirmou Engler, para quem isso reflete uma tendência de mercado. Em contrapartida, a venda de amaciantes cresce desde 2017. “Moradores dos novos tipos de residências, com áreas menores, abaixo de 40 metros quadrados, compram mais amaciantes”, comentou.

O tradicional sabão em barra continua com vendas em queda, seguindo a trajetória de mercado de substituição pelos detergentes em pó e, num segundo momento, de ambos pelos detergentes líquidos. Apesar disso, 2020 deverá registrar aumento no consumo de sabão em barra, como adiantou Engler. Detergentes de lavar louça vinham em ritmo estável e também devem crescer neste ano. “É um efeito da pandemia, pois são também higienizantes”, disse.

Abipla lança anuário e volta a pesquisar mercado informal - Domissanitários ©QD Foto: iStockphotos
Engler: consumidor ganhará cartilha sobre itens do setor

Impacto da pandemia – Embora tenha turbinado as vendas do setor, a Covid-19 trouxe novos desafios. “O setor estava seguindo uma trajetória de sofisticação de produtos, era a tendência de seguir as inovações da Europa e dos Estados Unidos, mas a pandemia provocou uma estabilização e até um recuo, pois os compradores buscaram itens consagrados, como álcool em gel para limpeza”, comentou. A venda de produtos feitos de plásticos, a exemplo de escovas, luvas e esponjas, também avançou.

Mesmo assim, houve pelo menos duas frentes de inovação geradas pelo combate ao coronavírus. “Começaram a aparecer novos produtos para desinfetar frutas e legumes, e surgiu um mercado para a desinfecção interna de carros, para táxis e veículos de aplicativos”, apontou.

Para 2021, a Abipla prevê muitos lançamentos de produtos para atender aos novos hábitos de higiene advindos da pandemia.

Engler comentou que não houve dificuldades relatadas pelas empresas associadas na obtenção de matérias-primas, mesmo as importadas – aliás o setor é grande importador de insumos químicos, como barrilha e óleos vegetais –, nem de embalagens. “Houve aumento de custos que refletiram a valorização do dólar, mas isso está sob controle”, afirmou. Para o consumidor final, a elevação do preço da cesta de produtos de limpeza pelo IPCA chegou a 0,88% no primeiro semestre deste ano, e de 0,92% pelo INPC, que utiliza metodologia diferente.

Os resultados setoriais são tão bons que 2.800 novos profissionais foram contratados neste ano, até julho.

Também resultou da pandemia o incremento das vendas de produtos de limpeza por meios digitais, substituindo as vendas presenciais. “Isso é fato novo para nós, praticamente não existia antes de 2020; estamos avaliando esse comportamento e seus impactos”, considerou Engler.

Em paralelo, o setor reportou um aumento significativo de consultas aos sites dos fabricantes sobre as características dos produtos. “Isso nos motivou a preparar uma cartilha sobre todos os saneantes, incluindo composição química, aplicação e cuidados”, informou o diretor executivo. “A cartilha deve ficar pronta até dezembro deste ano”.

Abipla lança anuário e volta a pesquisar mercado informal - Domissanitários ©QD Foto: iStockphotos

Informalidade – A produção e comercialização de produtos de limpeza e saneantes sempre conviveram com agentes não registrados e não fiscalizados pelo poder público. A participação dos chamados informais tende a crescer em momentos de crise econômica, mas representa um severo risco para a saúde pública, uma vez que nada se sabe a respeito da qualidade e segurança das formulações apresentadas.

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A Abipla acompanhou durante algum tempo, mediante pesquisas de mercado, a participação dos informais em seus negócios. O último levantamento realizado pela associação é de 2015. “A Abipla está contratando uma nova pesquisa nacional de porta em porta para verificar a presença efetiva dos produtos informais nos lares brasileiros”, informou Engler. “O levantamento dos dados deve ficar pronto até o fim deste ano, com divulgação dos resultados em fevereiro de 2021.”

Na percepção do setor, a atuação dos informais está crescendo como efeito da pandemia e afeta os negócios das empresas regulamentadas. De um ponto de vista pragmático, essa participação informal representa uma oportunidade de crescimento futuro para o setor formal, que poderá ocupar esse espaço. “Precisamos conscientizar o consumidor sobre a eficácia e os riscos de comprar produtos sem controle de qualidade e inseguros”, salientou.

A economista Tereza Fernandez, da MB Associados, aponta um grande potencial de crescimento para o setor de limpeza e saneantes no Brasil. “O consumo per capita desses itens ainda é muito baixo em relação a países mais desenvolvidos e há regiões que apresentam consumo importante de produtos informais”, apontou.

Na avaliação da especialista, o PIB nacional deve encolher perto de 5% neste ano, um resultado bem melhor que a previsão inicial de queda de 7,1%. Para ela, o bom desempenho do setor agropecuário, com vendas em alta de 20%, e a entrada do auxílio emergencial no valor de R$ 50 bilhões por mês, evitaram uma catástrofe. O terceiro trimestre de 2020 foi o melhor de todo o ano e o último período deve ser vigoroso, na sua avaliação.

Porém, como observou, a redução do auxílio emergencial e o aumento do déficit das contas públicas representam desafios importantes para a economia. “Pode haver uma retração de consumo de produtos de higiene e limpeza, por exemplo”. Em 2021, será preciso lidar com questões complexas como desemprego, preços dos alimentos, déficit fiscal e conviver com taxa de câmbio desfavorável. Mesmo assim, a previsão é de avanço de 2% a 2,1% no PIB. “Já vínhamos em recessão desde o governo Dilma, ficar muitos anos em baixa é ruim para o país”, salientou.

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